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25/04/2022

El precio de un hombre (1966 / Realizador: Eugenio Martín)



Aquando do lançamento de “Os Oito Odiados”, o aclamado western nevado de Quentin Tarantino muito se escreveu sobre as obras que lhe serviram como influência. O titulo “O Grande Silêncio” surgiu naturalmente em todos esses artigos mas existem outros westerns-spaghetti que poderiam facilmente ser conectados com esse filme. Este “El precio de un hombre” seria um desses filmes. Tal como na fita de Tarantino uma diligência transporta uma pessoa algemada. Em ambos, a diligência faz uma paragem numa estalagem onde nem toda a gente é o que aparenta ser.

"I got an idea of something we can do with a gun"

É estranho que o filme não tenha ganho nova notoriedade ao sabor do sucesso de Tarantino, mais sabendo-se que até o próprio reconheceu ao Spaghetti Western Database que “El precio de un hombre” é um dos seus spaghettis favoritos. Então para o bem e para o mal, lembramos-vos nós que este filme existe e que se já dissecaram a filmografia western dos três Sergios, está mais do que na hora de adicionar este filmaço à vossa watchlist! Na modesta opinião do vosso escriba estamos mesmo aqui a falar do melhor western espanhol, a léguas das produções simplórias dos Balcazar.

A realização é de Eugenio Martín, que se estreava no género, e conta com a participação do nosso favorito: Tomas Milian. Um individuo ambíguo, perseguido pelas autoridades, mas que goza de grande simpatia no pequeno povoado em que cresceu. Em sentido inverso temos Luke Chilson (Richard Wyler), um caçador de recompensas que todos odeiam. Esse universo dos caçadores de recompensas popularizado pelas películas de Sergio Leone é justamente aquilo que move a trama desta fita e curiosamente a ligação entre o signore Leone e este “El precio de un hombre” pode ser mais do que uma coincidência.  

O nosso herói é torturado. Um lugar comum no western à europeia.

Ao que parece o produtor José Gutiérrez Maesso terá abordado Duccio Tessari para escrever o guião do filme, mas não chegaram a acordo uma vez que Tessari estava ocupado. Na época Tessari ainda fazia parelha com Leone e julga-se que lhe terá comentado essa ideia de um caçador de recompensas como protagonista. Leone não trabalharia em “El precio de un hombre” mas adaptaria a personagem de Clint Eastwood no segundo tomo da saga do “Homem sem nome”. Residirá aqui alguma verdade ou será apenas mais um dos muitos mitos que fazem deste género a delícia que é? Nunca saberemos! 

Milian interpreta José Gomez, um fora-da-lei que as autoridades se apressam a entregar nos calabouços de Fort Yuma. Um dos seus capangas passa a informação do roteiro da diligência a Eden (Halina Zalewska), amiga colorida de José que ainda o vê como uma espécie de herói local. A rapariga num acto de grande frieza faz chegar um colt a José que acaba por dar-lhe um uso mortífero. No entanto, o caçador de recompensas Luke Chilson (Wyler) está em seu encalço e chega ao lugarejo antes do fugitivo, para a ira dos habitantes da cidade, acérrimos defensores de José, que consideram ser um produto das duras circunstâncias que a vida lhe trouxe. Mas quando Gomez chega com o seu bando de desperados, os moradores começam a perceber que ele já não é o rapaz que conheciam. 

Neste filme quem rouba a cena é o vilão.

A fotografia de Enzo Barboni é um dos grandes destaques do filme. O italiano não desperdiça os magníficos exteriores da região de Almeria e nem se deixa atrapalhar nas cenas de interiores, que normalmente são aquilo que os cineastas do género mais mal trabalham. Barboni, vale a pena lembrar, notabilizar-se-ia anos mais tarde como realizador ao atingir o sucesso com os filmes da saga Trinitá. Mas antes disso assinou a fotografia de alguns dos melhores filmes do western-spaghetti. Trabalhou com mestres como Sergio Corbucci, com quem fez “Django”, “Os Cruéis”, etc. Outra parceria de grande efeito foi a que fez com Ferdinado Baldi, entregando-nos os não menos recomendáveis “Texas Adeus” e “Viva Django”. 

Em Portugal o filme apareceu com o título “Vingança ao Amanhecer” e salvo edição em VHS não existe formato físico para encontrá-lo. O meu contacto inicial com ele foi num DVD espanhol da Filmax, isto há uns quinze-vinte anos. Mas actualmente existem até blurays do dito. Na Europa tema a edição francesa da Artus e nas Américas foi lançado pela recém-finada Wild East. Também pode ser repescado no catálogo do Amazon Prime mas não sem usarem uma malandrice para camuflar a vossa origem. Infelizmente o catálogo desta plataforma parece não ser para os dentes do tuga.

09/05/2021

El más fabuloso golpe del Far-West (1971 / Realizador: José Antonio de la Loma)



O banco de Sun Valley, enterrado entre as montanhas do Nevada, tem a reputação de ser inexpugnável. Tal fama levou a que o cofre merecesse a especial confiança da indústria mineira que lhe deposita elevadas somas de ouro, mas um bando de trafulhas liderados por um fulano apelidado de Michigan engendra um plano para dar sumiço ao lote. O plano é tremendamente intricado e como exalta várias vezes o cabecilha aos seus acólitos: deve ser executado ao segundo. E de facto, mesmo com alguns percalços, realizam o golpe com sucesso. O pior vai ser movimentar a carga pesadíssima por entre as montanhas nevadas.


Frank Braña trata de escavar o túnel.

Depois do golpe, os membros do bando seguem diferentes trilhos, o ponto de encontro entre todos está acertado, mas o relógio suíço do aprumadíssimo Michigan começa a atrasar quando os comparsas que ficaram com o encargo de levar a carroça com o ouro roubado tardam a aparecer no esconderijo da vilanagem. Os dois homens serão mais tarde encontrados cadáveres, a carroça feita num oito e o ouro, nem vê-lo. Os sinais parecem claros, os dois foram assassinados por alguém com conhecimento do plano, ou seja, alguém do grupo ficou ganancioso. Estão lançadas as bases para a desconfiança e paranoia entre o grupo. 


Spaghetti nevado, filme abençoado!

José Antonio de la Loma, um dos argumentistas mais activos do western europeu (Pistoleros de Arizona, Tierra de fuego, Clint el solitário, Professionisti per un massacro, etc), desta vez assume também a realização, outorgando um filme inesperadamente vistoso e com um tom bastante distinto da generalidade das produções do género desta fase pós-Trinitá. A produção é compartida entre espanhóis, franceses e italianos, mas nota-se uma preponderância castelhana no elenco e estilo do filme. Esse elenco, diga-se, é de austeridade, não tendo havido provavelmente verba para um nome sonante para a liderança. Sobe então à tona o talento do omnipresente Fernando Sancho.


Não vales um chavo meu javardo!

Apesar de não ombrear com outros westerns-spaghettis-nevados de maior reputação (Il grande silenzio, Condenados a vivir), é seguramente um filme que mereceria maior culto. Desgraçadamente, o filme andava meio perdido e até bem recentemente só se conseguia assistir através de transferências manhosas de velhinhas cassetes VHS. Para sorte dos garimpeiros do género, circula agora por aí uma versão ripada da televisão espanhola com qualidade de imagem irrepreensível. Então, quem sabe não seja esta a hora da sua redenção! Essa dita versão encontra-se em sítios mal frequentados e à falta de edições físicas nas lojas desse mundo fora, ninguém vos poderá chamar de piratas se lá o forem buscar. Arg, arg, arg!

25/04/2021

Vamos a matar Sartana (1971 / Realizador: Mario Pinzauti, George Martin)


Greg: «Eu sou filho do Demónio! Ele não se esquece do seu filho predileto!»
Nebraska: «Mas vais ser enforcado. E nem sequer o teu pai, o Demónio, te salvará!»

“Fiat lux. Et facta est lux.”

O western-spaghetti mais misterioso, mais escondido e mais difícil de encontrar viu, finalmente, a luz do dia! Não se sabe em que caixão, sarcófago ou tumba este filme esteve conservado mas ele aí está! Não queremos saber do cheirete a mofo e a naftalina; ei-lo perante nós! As dúvidas eram tantas que, durante alguns anos, até havia boatos na Internet que diziam que o filme nem sequer tinha sido concluído e, consequentemente, não existia. Mas, se não existia, então porque é que o trailer do filme sempre esteve (e continua a estar) disponível no YouTube? O trailer de um filme que não existe? Mas isso faz algum sentido? Olhe que não! Olhe que não!


A inconfundível focinheira de Gordon Mitchell.

Essas teorias eram, à partida, muito duvidosas. As fontes mais credíveis nunca mencionaram essas supostas teorias da conspiração que sustentavam que este filme não passava de um “filme-fantasma”. Nada disso! Aliás, Marco Giusti escreveu no seu “tijolo” (atenção: o plural de “tijolo” não é “tijóis”), sempre fundamentado em depoimentos e entrevistas de algumas pessoas que participaram no filme, que “Vamos a Matar Sartana” não era uma produção tão minúscula como à partida se pensava. Era uma produção bem organizada, profissional e, aparentemente, com folga orçamental. Mas a porra disto tudo foi quando o produtor Marco Claudio deixou de pagar os salários e o resto do pessoal ficou com as calças na mão! Consta que foi o ator George Martin, o protagonista do filme, que pagou o resto da empreitada do seu próprio bolso. O filme foi concluído e… misteriosamente desapareceu!

Meio século depois (sim, foram exatamente 50 anos!), o filme reergueu-se do mundo dos mortos! No dia 11 de abril de 2021, uma alma caridosa publicou no YouTube o filme completo (versão espanhola intitulada “Demasiados Muertos para Tex”). Trata-se de uma cópia com qualidade de imagem sofrível mas, após tantos anos sem nada, que ninguém se atreva a chiar! É para ver, rever e não bufar! Nebraska Tex (Nebraska Clay, na versão original) é um tipo com tendência para se meter em sarilhos. Na primeira vez, o juiz foi indulgente e mandou-o embora. Na segunda vez, Tex já não teve tanta sorte e foi parar ao xadrez porque matou uns rufiões (em legítima defesa). O xerife, apesar de ser o seu futuro cunhado, não o grama nem com molho de tomate.


Louco e Nebraska no hotel da barra cinzenta.

No cárcere, Nebraska Tex conhece um alucinado chamado Greg, o Louco (Gordon Mitchell). Dois cúmplices de Greg, Chet (Isarco Ravaioli) e a lindíssima Lena (Virginia Rodin) mandam uma mocada na pinha do xerife e libertam os prisioneiros. Um terceiro cúmplice, Pancho, o Gordo (Chris Huerta), aguarda por eles. Agora, o objetivo deste quinteto (Tex, Louco, Lena, Chet e Gordo) é muito simples: encontrar o tesouro escondido nas ruínas da igreja de Santa Virgínia. Perante tamanha humilhação, o xerife (Frank Braña) não se fica e vai-se a eles como gato a bofe!

O grupo tem uma longa viagem pela frente mas Tex conhece bem o caminho. A caça ao tesouro leva-os a atravessar montanhas, vales, florestas, rios, riachos e cascatas. Mas isto não é uma alegre excursão! Gordo leva um balázio nas banhas e morre. Louco cai (ou é empurrado?) de um penhasco, parte os cornos e morre. Chet e Tex andam à bordoada a ver qual deles é que aguenta levar mais papos-secos no focinho. Tex e Lena levam o caminho todo a “fazer olhinhos” um ao outro (ou como diriam umas pessoas que eu cá sei, “fazer pisquinhos” um ao outro). Terá o casal de pombinhos algum truque na manga?


Mas que grande cagaço que apanhei!

O desfecho desta aventura dar-se-á nos subterrâneos da igreja abandonada e nas mortais areias movediças de um pântano. Eu diverti-me imenso a ver este filme. É série B da cabeça aos pés e está claramente na linha dos míticos Tanio Boccia e Demofilo Fidani. “Vamos a Matar Sartana” representava o expoente máximo de western-spaghetti desaparecido, que ninguém sabia por onde andava, que estava praticamente esquecido, que nunca ia ver a luz do dia e que estava condenado a apodrecer num buraco qualquer. Ou seja, estava morto e enterrado.

Mas não! Afinal não estava morto. Ainda veio a tempo de estrebuchar, espernear, dar coices e gritar ao universo spaghetti a sua presença! Tudo isto faz lembrar a história do coveiro e do (suposto) morto. Após as cerimónias fúnebres, o coveiro começa a lançar umas pazadas de terra para a cova e eis que acontece isto:

Morto: «Alto lá, amigo! Então não vê que eu ainda estou vivo?»
Coveiro: «Vivo?! Tu estás é mal enterrado, homem!»


09/08/2020

Un hombre vino a matar (1967 / Realizador: León Klimovsky)


Pela calada da noite um bando infiltra-se na fortificação militar, Fort Jackson, aliviando-lhes o peso do cofre. O Sargento Tony Garnett (Richard Wyler, a sair na rifa pelo segundo mês consecutivo, em Julho estava neste) é surpreendido no meio da ocorrência levando uma traulitada na mona. Contudo os seus problemas só estão a começar. Já reposto vê-se acusado pelo assalto e pelo assassinato do capitão do quartel. O tribunal militar não tem dúvidas e sentencia-o à pena de morte, mas o bom coração do padre que lhe daria o seu conforto final oferece-lhe o seu traje para que se evada do forte e prove a sua inocência. 

"I'm looking at you through the glass. Don't know how much time has passed."

Cá fora torna-se ele próprio assaltante de bancos e por consequência ganha estatuto de bandido procurado pela lei civil, mas não deixa nunca de perseguir os verdadeiros responsáveis pela sua desgraça. O primeiro que encontra é o índio Lobo Negro, que sob tortura denuncia o nome dos outros cúmplices, de todos excepto o cabecilha que jura não conhecer a identidade. Muito conveniente para o adensamento do suspense. Certo?

Ou desbobinas, ou definhas!

O filme não goza de grande fama entre a comunidade apreciadora de westerns-spaghetti. De uma forma geral as impressões sobre ele são tudo menos abonatórias, quase sempre considerado aborrecido e desinteressante. Pessoalmente não me fez brotoeja, a acção começa muito bem e por momentos pareceu-me até demasiado rápida (os primeiros pulhas são abatidos um a um sem qualquer conversa), mas o passo acerta lá para a meia-hora de filme quando os dramas do personagem principal se começam a revelar.

Quem tinha figuras geométricas como estas na sala de aulas da escola primária?

Achei particularmente curioso que essa dramatização seja feita pela inclusão do mote professor/aluno. Mas ao contrário dos seus pares (Gigantes em Duelo, Django - O Último Killer, etc.), o professor aqui não é uma pessoa associada ao ensino do manejo do colt. Na verdade, aqui o professor é de facto o antigo mestre de Tony, uma pessoa que lhe guarda verdadeiro carinho e que anseia saber sobre a concretização dos seus sonhos de criança (tornar-se general). Em comum com os outros filmes supramencionados teremos o conflito entre os dois, que servirá neste caso como abre olhos definitivo para Tony. Curioso é todos estes filmes foram lançados em 1967, o que poderia levantar algumas questões de plagiarismo, se isso fosse questão na época.

Brad Harris prepara uma emboscada aos gatunos.

O elenco é bastante aceitável (Richard Wyler, Brad Harris, Guglielmo Spoletini, Jesús Puente, Femi Benussi, Luis Induni, Frank Braña, etc.), mas pareceu-me desaproveitado. Brad Harris por exemplo além de mostrar a musculatura numa cena não enceta qualquer sequência de punhada e acaba por desferir três míseros tiros durante o filme todo. Já o duo Richard Wyler e Guglielmo Spoletini apesar de até terem uma “dança” interessante em que em vez de usarem punhais usam as folhas de cacto, não deslumbram. É a melhor cena de acção do filme mas em algumas versões foi inexplicavelmente cortada. Ainda sobre o elenco, uma menção honrosa para Luis Induni, que fez carreira no western-spaghetti a desempenhar o papel de Xerife (contei 16), mas que aqui mostra qualidades como personagem do outro lado da barricada. Foi o único do bando que me convenceu enquanto vilão, mas para variar o seu papel não ganha desenvolvimento, uma pena.

Guglielmo Spoletini desta vez sem espaço para brilhar.

O filme foi lançado em 1967 e surge como ponto de inflexão na carreira do señor Klimovsky. Apenas um ano antes tinha assinado o péssimo western “Dos mil dólares por Coyote” e já em 1967 assina “A Ghentar si muore facile”, um filme de acção com intenções cómicas fracassadas. O salto qualitativo nos filmes dele dar-se-ia logo em 1969 ano em que nos entregou dois westerns de bom efeito, “Pagó cara su muerte” em que repesca Guglielmo Spoletini (desta vez para o papel principal) e “Quinto: non ammazzare”. Já debitamos umas linhas sobre ambos, aqui e aqui.

11/06/2018

In nome del padre, del figlio e della Colt (1971 / Realizador: Mario Bianchi)


Uma diligência é assaltada por um grupo de mulheres! Ou pelo menos assim parece. Mas não… não é verdade. Os assaltantes são homens vestidos com roupas femininas. O seu líder é um tipo vestido de preto que se chama Wace Cassidy. Enquanto o assalto decorre, a jovem Antoinette “Tony” Pickford, que viaja na diligência com o seu pai, é violada pelo sinistro Cassidy. Quando é hora de dividir o montante roubado, o lúgubre Cassidy mata os seus capangas e fica com tudo. 

Quatro anos depois, Antoinette e o seu pai chegam à cidade de Oakland na qualidade de vendedores ambulantes (vendem roupa e adereços de senhora). O xerife de Oakland chama-se Billy Nolan, um homem com muito boa reputação e, segundo dizem, é de uma honestidade à prova de bomba. Mas a jovem fica em estado de choque quando vê o xerife porque ele é exatamente igual ao homem que a violou! Mas será que é a mesma pessoa? Para confundir ainda mais as coisas, anda pela cidade um assassino mascarado que veste uma capa e um capuz.

Não te atrevas a piar!


O dia 31 de outubro chegou. A cidade festeja o Halloween. Há um baile de máscaras no saloon. Mas a tão famosa “noite de bruxas” vai-se tornar numa noite de medo e de terror com cadáveres a sério! Será que todos os cidadãos vão tirar a sua máscara? 

Este western emana uma aura interessante de suspense, terror, intriga e violência. Segundo várias fontes, Mario Bianchi rodou o filme em 1971 mas só estreou nas salas de cinema em 1975. Escusado será dizer que não teve sucesso. Mas em 1975 Mario Bianchi já estava noutra onda: navegava a seu bel-prazer no cinema erótico e pornográfico.

Craig Hill num duplo papel.


Para terminar, duas notas:

1) A versão italiana diz que a música é de Piero Piccioni. A versão espanhola refere Gianni Ferrio como compositor.
2) As versões disponíveis por essa Internet fora (não existe nenhuma edição em DVD) têm somente 73 minutos de duração! São versões demasiado curtas e, obviamente, incompletas. Mas é o que há. Por isso, vejam e não bufem!

27/05/2018

Mi chiamavano Requiescat... ma avevano sbagliato (1973 / Realizador: Mario Bianchi)


Era uma vez um rapazinho italiano chamado Sergio Ciani. Tal como muitos outros, começou a bombar forte e feio nos ginásios. Estava claro que o seu destino era o culturismo. No final dos anos 1950 e início dos anos 1960, a Itália estava a abarrotar de tipos cheios de cabedal que, além do culturismo, também apostavam numa carreira na Sétima Arte. 

Gordon Scott: impecável! Reg Park: imponente! Ed Fury: perfeito! Gordon Mitchell: aquela máquina! Dan Vadis: incrível! Steve Reeves: o melhor de todos! E Sergio Ciani?! Também fez carreira no “peplum” mas agora sob o pseudónimo de Alan Steel. O tempo foi passando, o “peplum” foi substituído pelo western e, já na fase decadente do género, Alan Steel esconde os seus músculos sob um manto negro ao encarnar o papel de vingador justiceiro.

Alan Steel está em apuros!


O capitão ianque Jeff Madison e os seus soldados caem numa emboscada. O inimigo é um grupo de militares rebeldes sob as ordens de Machedo. Os homens do capitão Madison são fuzilados. O oficial é barbaramente torturado com murros, pontapés, dois tiros na mão direita e uma chuva de escarretas! Os bandidos abandonam o prisioneiro amarrado ao chão e em muito mau estado. 

Praticamente à beira da morte, Madison é salvo por uma bela jovem índia. O sentimento de raiva é cada vez mais ardente. Mas como pode Madison vingar-se se a sua mão direita ficou inutilizada para sempre?

Frank Braña com cara de maluco!


Filho do cineasta Roberto Bianchi Montero, Mario Bianchi deixou a sua função de assistente de realização para ele próprio se tornar realizador. Os seus westerns não gozam de grande reputação nem de grande culto. 

Da sua curta filmografia western, aconselho vivamente três registos seus: o inquietante “Hai Sbagliato… Dovevi Uccidermi Subito!”, com Robert Woods, o misterioso “In Nome Del Padre, Del Figlio e Della Colt”, com Craig Hill, e este muito violento “Fast Hand is Still My Name” (título internacional), com Alan Steel, o tal rapazinho italiano que fez carreira graças a muito trabalho físico e mental. Um verdadeiro “self-made man”, diria eu!

02/04/2018

I due violenti (1964 / Realizador: Primo Zeglio)

    


Um indivíduo acusado de homicídio evade-se da cadeia. Ao ranger do Texas, Logan, que por acaso até é amigo de longa data do evadido, cabe a ingrata tarefa de captura-lo e devolvê-lo ao xilindró. O que acontece com relativa facilidade, mas faz o destino com que se cruzem com um bando de ladrões de gado e o presumível assassino escapa novamente. 

A missão de Logan fica portanto acrescida, recapturar o amigo e acabar com o pio da vilanagem local. Ora aqui está mais um filme decente do italiano Primo Zeglio (Winchester, uno entre mil; Los cuatro implacables), apoiado essencialmente nos traços clássicos do western americano, que é perfeitamente natural para um filme de 1964, portanto anterior ao boom do western-spaghetti. 

George Martin a preparar-se para a emboscada.

Dependendo do estado de espírito do espectador é filme para garantir um tempo bem passado, pelo menos eu posso dizer que me encaixei nesse grupo. Não consta que existam versões DVD do filme à venda, mas se vasculharem pela Internet encontrarão por aí versões Tvrip ripadas da televisão espanhola, são versões despidas de brilho, mas é melhor do que nada. Boa caçada! 

14/11/2017

Hai sbagliato... dovevi uccidermi subito! (1972 / Realizador: Mario Bianchi)


O banco foi assaltado. Várias pessoas foram assassinadas. O trio responsável por tudo isto foge incólume. Pouco tempo depois, as autoridades encontram os cadáveres de dois dos três assaltantes (mortos pela mordedura de cobra venenosa). O dinheiro do banco continua desaparecido. O terceiro fora-da-lei anda a monte. 

Na cidade, num ambiente discreto (ou quiçá clandestino), sentam-se à mesa de jogo o xerife Lewis Burton, o homem de negócios / dono do saloon Karl, o alucinado doutor Torres e o poderoso rei do gado Clinton. Muito dinheiro circula nessas noitadas de jogos de cartas. A bela Kate, a “femme fatale” que trabalha no saloon, é de uma fidelidade canina para quem lhe paga os honorários e as suas qualidades de espia são extremamente úteis. 


Robert Woods tem de se proteger.

O duro golpe na banca da cidade fez acionar o alarme na companhia de seguros Lloyds Of London, que rapidamente envia alguém para apurar o sucedido. Esse alguém chama-se Jonathan Pinkerton, um homem alto, elegante, intrépido e malditamente perspicaz. Pinkerton recolhe diversos testemunhos dos cidadãos para chegar à verdade. 

O doutor Torres, um médico / cientista que faz experiências no seu laboratório com serpentes venenosas, dá algumas dicas ao agente de seguros. Torres, apesar de ter cara de maluco, rejeita que lhe ponham o rótulo de charlatão e insiste que o seu trabalho é para ser levado a sério. Pinkerton não duvida. Pinkerton sofre vários atentados, resiste a provocações, às quais responde ao murro e ao pontapé (e de vez em quando também usa o revólver) e constata que nem na cadeira do barbeiro se pode estar descansado!


Vou-te dar um beijinho venenoso!

O xerife Burton, o ricaço Karl, o ganadeiro Clinton, o doutor Torres e a atraente Kate estão no topo da lista de suspeitos de Pinkerton mas, inexplicavelmente, os principais suspeitos também são assassinados! Por quem?! Mas afinal o que é que se está a passar?! 

É fundamental que Pinkerton tenha muito cuidado porque a cidade está apinhada de serpentes venenosas (das que rastejam e das que têm duas pernas) e a qualquer momento uma picada poderá ser fatal! No mercado ibérico (Portugal e Espanha) este filme ficou sob o título de “A Morte Chega a Assobiar” e “La Muerte Llega Arrastrándose”, respetivamente.


Dói-me o pescoço!

É um western de baixíssimo orçamento cheio de intrigas, conspirações, voltas, reviravoltas e muito veneno através de um complô bem urdido. O conceito “fazer muito com pouco” assenta-lhe como uma luva.

07/03/2017

El proscrito del río Colorado (1965 / Realizador: Maury Dexter)


Algures no norte do México coabitam duas poderosas famílias, de um lado temos o general Miguel Camargo e do outro o magnata Cristóbal Riaño. Camargo está comprometido com Francisca, filha de Riaño, mas o irmãozinho desta não está nada convencido com o casório e promete armar confusão à primeira oportunidade. 

Quem vai amenizando as coisas é O'Brien (George Montgomery), pistoleiro americano proscrito no seu país por um crime que não cometeu e que agora vai ganhado a vida do outro lado da fronteira como braço direito do tal general Camargo. A ameaçar o enfadonho clima de romance surge um tal de Espada e o seu bando de pistoleiros, que a páginas tantas, coage O'Brien - de forma não muito fofinha - a juntar-se ao bando e rebelar-se contra Camargo, que se tornará em breve governador do território apesar do seu passado criminoso.

George Montgomery numa das poucas cenas de acção do filme.

Estranhamente em Itália, na França e mais alguns países, a personagem de O'Brien seria alterada para Django (em Itália: Django killer per onore), mesmo sem existir a mais leve parecença física ou outra, com homem do caixão. Quando muito compararia a trama deste “O Foragido do Rio Colorado” com o primeiro western de Sergio Leone (Por Um Punhado de Dólares) e ainda assim sinto que com esta estrambólica comparação ofendo a memória deste último, tal a disparidade de qualidade entre ambos.

Na verdade, ainda que realizado em Espanha e com um elenco quase totalmente local (a excepção é apenas a presença de George Montgomery), nota-se que o filme  alinha claramente pela veia clássica, bem evidente quer pela trama entediada, quer pelo ritmo lento de morte, em completo desalinho com os motes do western-spaghetti então em voga por estes lados.

Quem matou, quem matou?

Para tal terá pesado a mão de Maury Dexter, realizador americano que fez esta ofensiva única no filão e que anos mais tarde labutaria em diversas produções da AIP e até na não menos fastidiosa série “Uma Casa na Pradaria”. Não vos quero enganar, este é sem dúvida um dos filmes mais «tanto faz» que vi deste que me propus dissecar o western europeu. Se procuram uns tortilha-westerns para desenjoar, vão a outra cantina que nesta a comida não leva sal!

24/02/2015

Tierra de fuego (1965 / Realizador: Jaime Jesús Balcázar, Mark Stevens)


Quatro arruaceiros rumam em direcção à mui pacata cidade de Fraserville. Depois de instalados rapidamente iniciam todo o tipo de desacato por forma a atazanar a paciência do xerife local, que imagine-se, está tão confiante na pasmaceira das pessoas da cidade que nem usa coldre no seu dia-a-dia. Com o tempo entenderemos que a passagem do bando pelo local não é de forma alguma um acaso, e afinal o xerife Jessy tem um passado menos digno. Mas mais não posso contar sob pena de arruinar o já fraco suspense que o filme tem. 

"Tierra de fuego" é o segundo euro-western assinado por Jaime Jesus Balcázar (o mais novo do clã Balcázar), mas o próprio garantiria anos mais tarde que não fez mais do que ceder o seu nome, tendo essas funções sido na verdade assumidas pelo americano Mark Stevens, que também interpreta o papel do xerife Jessy. Mais bizarro então é o facto de em Itália o crédito do filme ter sido erroneamente atribuído a outro Balcázar, Alfonso. 

A vilanagem a caminho da pacata cidade de Frasersville.

As filmagens para não variar foram quase todas rodadas nos interiores dos estúdios Esplugas City, nos arredores de Barcelona, ou não fosse a produção assumida pela infame produtora da família, a Producciones Cinematográficas Balcázar, aqui em parceria com a alemã Creole Filmproduktion. 

Mas a participação dos «comedores de salsichas» é manifestamente diminuta quando comparada com o input castelhano que preenche a maioria do cast e equipa técnica. Aos alemães coube a entrada de graveto e a inclusão de dois actores nacionais no topo do cartaz.

O sempre relevante Mario Adorf no papel de Abel, o líder do bando de rufias e Marianne Koch, a admiradora secreta do nosso xerife, mais um papel em piloto automático para a actriz alemã que provavelmente só foi incluída no cardápio por ser por aqueles dias um nome bastante reconhecido do público (via megasucesso "Per un pugno di dollari").

Mario Adorf (esquerda) põe os pontos nos ís. Mark Stevens (direita) acobarda-se e perde o apoio da cidade

A acção, em muito influenciada pelo clássico "High Noon", é lenta e órfã de cenas de pancadaria ou tiroteio. E quiçás por isso mesmo mais adequada ao adepto do western clássico americano do que propriamente ao adepto do frenesim garantido nas co-producões mediterrâneas. 

Incrivelmente em Itália tentaram camuflar isso mesmo, atribuindo-lhe um titulo mais áspero - "Jessy non perdona... uccide" - ridículo para um filme com tão pouco balázio. Enfim, o filme é curto (a versão que assisti é a espanhola que não tem mais de 80 minutos) e também por isso não achei que chegasse a ser terrivelmente aborrecido.  Arrisquem e julguem vocês mesmos!


10/03/2014

Posters | Il buono, il brutto, il cattivo (1966)

O bom, o mau e o Vilão (Portugal) | Três Homens em Conflito (Brasil)

03/12/2013

Adios Gringo (1965 / Realizador: Giorgio Stegani)


Brent (interpretado pelo Pistolero Nazionale, Giuliano Gemma) cavalga pela pradaria quando encontra um velho conhecido, Gill (Nello Pazzafini). Os dois homens trocam umas palavras e um negócio surge: Brent compra a manada de gado de Gill. Brent segue então para Johnston City, onde rapidamente descobre que o gado que acabara de comprar fora roubado a um poderoso homem dessa cidade. O confronto torna-se inevitável e Brent mata o fazendeiro em legitima defesa, mas é forçado a fugir da cidade. Decidido a limpar o seu nome, parte em busca do trapaceiro e seus cúmplices.


“Adeus Gringo” foi o primeiro de uma série de três westerns-spaghetti realizados pelo italiano Giorgio Stegani, mas não foi rigorosamente uma estreia no género para o realizador, que já havia colaborado com o bem-amado Giorgio Ferroni no seminal “Um Dólar Furado”, onde contribuíra activamente no argumento. E talvez devido a essas colaborações anteriores, “Adeus Gringo” sofre de algum efeito de clonagem em relação ao modus operandi que reconhecemos dos westerns de Ferroni. Não será pois de estranhar que até o elenco de ambos os filmes seja largamente comum. 


No outro dia enquanto passeava pelo blogue do Nuno Vieira cruzei-me com as fotografias da cassete portuguesa deste filme, que me lembro de ter alugado também eu em princípios dos noventa. A Filmitalus vendia-o como “um western excepcional”, um sensacionalismo barato que obviamente devo reconhecer ser exagerado. Ainda assim creio tratar-se de um filme bastante aceitável, arriscando num enredo mais complexo e dramático do que a maioria dos westerns lançados nesta fase do género. 


Algo que também se reflectiu no encaixe do filme nas salas de cinema italianas, superando até os dois filmes da saga Ringo, também protagonizados pelo recentemente finado Gemma. O ano de 1965 foi de facto um ano de viragem na carreira do actor romano, com quatro filmes no top de assistências italianas. Ainda que seja na minha opinião o mais fraco dos quatro.

VHS portuguesa. Foto da colecção privada do Nuno Vieira (fonte).

26/11/2013

Il prezzo del potere (1969 / Realizador: Tonino Valerii)

Estamos em Dallas, Texas, pouco depois do final da Guerra Civil. As feridas entre Norte e Sul ainda não sararam. O presidente dos Estados Unidos da América está de visita oficial à cidade. O ambiente que se vive é tenso. Os sentimentos dos cidadãos em relação ao homem mais importante do país são ambíguos. Os serviços responsáveis pela segurança do presidente suspeitam de um atentado mas não encontram indícios suficientes. Nos bastidores, entidades poderosas alinham estratégias para eliminar o presidente. O jovem Bill Willer salva o comboio da comitiva presidencial de um atentado bombista numa ponte próxima de Dallas. Apesar dos conselhos de Willer, o presidente insiste na sua campanha pela cidade mesmo sabendo que a sua vida corre perigo. Pouco depois, a comitiva desfila pelas ruas de Dallas em grande estilo. O presidente vai na carroça ao lado da sua esposa, ambos acompanhados por seguranças.


Ninguém se apercebe que há uma arma apontada ao presidente pronta a disparar. O atirador puxa o gatilho e acerta em cheio no alvo. O pânico e a confusão instalam-se. O corpo de segurança e os agentes de autoridade procuram o culpado e depressa detêm um homem, que se diz inocente. O pandemónio é geral. O presidente é levado para o hospital. A nação está em suspenso. Pouco depois, é oficial: o Presidente dos Estado Unidos morreu. Seguem-se as diligências necessárias para descobrir como foi possível o atentado, quem foram os responsáveis e porquê? Alguma semelhança com o célebre assassinato de John Fitzgerald Kennedy não é pura coincidência!


Com este filme, o realizador Tonino Valerii (I giorni dell'ira, Una ragione per vivere e una per morire, etc.) faz uma viagem no tempo e transporta para o Velho Oeste o drama que foi o assassinato do chefe da nação americana em 1963. A mesma cidade, o mesmo estado, os mesmos interesses obscuros de alguns notáveis, a cumplicidade das autoridades e dos serviços secretos, a detenção de um bode expiatório e a sua inexplicável morte, o mesmo desfecho trágico. Este western navega nas águas turbulentas da alta esfera da política americana. É uma narração sólida dos acontecimentos de Dallas em 1963 durante a administração Kennedy. Foi também um dos momentos mais chocantes da segunda metade do século XX e que Valerii captou e registou de forma inteligente.


Para ajudar, o projeto ainda contou com nomes de respeito como Giuliano Gemma, Antonio Casas, Van Johnson, Benito Stefanelli e Fernando Rey. Hoje, passados 50 anos, ainda não há certezas sobre o atentado mas uma coisa é certa: há uma linha muito ténue entre ser o homem mais poderoso do mundo e ser só mais um cadáver na morgue.


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