2009/10/13

Quien sabe? (1966 / Realizador: Damiano Damiani)


Motivado pela interessante interacção que se desenvolveu com a publicação da resenha de Vamos a matar, compañeros (1970) no blogue irmão Dementia 13, decidi abordar agora o filme Quien sabe?, mais conhecido por aí como A bullet for the general. Quien Sabe? é um excelente filme de contornos políticos realizado em 1966 pelo reconhecido intelectual de esquerda italiano, Damiano Damiani. A acção do filme desenrola-se no epicentro da revolução mexicana, condição que haveria de servir como elemento diferenciador dentro do género, carregando este tipo de filmes o rótulo de Zapata westerns. Pois bem, neste campo este título merece especial destaque já que terá sido o pioneiro!

Numa tentativa de rentabilização do sucesso que Quien Sabe? alcançaria, muitos outros Zapata westerns seriam lançados pelas produtoras cinematográficas ítalo-espanholas, mas só Damiani conseguiu fazer á primeira tentativa o que muitos outros cineastas jamais lograram nas suas carreiras - conceber um filme de fortes convicções políticas e ao mesmo tempo uma poderosa obra de entretenimento. O realizador sempre refutou a ideia de que Quien Sabe? é um western-spaghetti, mas sim uma critica ás incursões americanas na América do Sul, nomeadamente através dos conhecidos esquemas ilegais da CIA. O facto de a acção decorrer num ambiente western seria portanto uma mera casualidade. Teimas à parte, para a maioria dos mortais, Quien Sabe? contém todos os elementos do género, sendo por isso logicamente metido no grande saco do western-spaghetti. E se nos restringirmos ao subgénero Zapata, arrisco-me mesmo a considerá-lo o melhor de todos!


O elenco aqui compilado é todo ele de grande qualidade, o papel principal (El Chuncho) foi muito bem entregue ao magnífico actor italiano Gian Maria Volontè, certamente o único actor italiano que nunca deixou créditos por mãos alheias no cinema spaghetti, participando apenas em filmes dirigidos por realizadores comprometidos com as suas ideologias de esquerda. Terá porventura por isso ter perdido a hipótese de enriquecer rapidamente, mas por outro lado conseguiu um registo imaculado, com presença em filmes que se poderão todos eles considerar de topo (Per un pugno di dollari, Per qualche dollaro in più, Faccia a faccia). A Lou Castel, que também teve uma curta mas interessante passagem pelo western-spaghetti (em que se destaca Requiescant), coube o papel de Bill “Niño” Tate, um gringo algo misterioso que transporta consigo uma bala de ouro e cujo único interesse parece ser o de enriquecer muito rapidamente. O terceiro nome do cartaz foi entregue ao arrepiante Klaus Kinski (Il grande silenzio, E Dio disse a Caino, Prega il morto e ammazza il vivo), um dos actores europeus que mais presenças teve neste tipo de cinema, e que pelas características físicas e tipo de interpretação demencial, tem um lugar especial nas minhas preferências. Kinsky desempenha aqui a personagem de Santo (meio-rmão de El Chuncho) um indivíduo cujas motivações religiosas não impediram o empunhar das armas em nome da libertação do povo mexicano.


Damiani precisou de quase duas horas para contar esta excelente história, que não terá sido por acaso co-escrita com outro conhecido esquerdista italiano, Franco Solinas (que chegou a ser nomeado para um Óscar). O inicio das hostilidades não poderia ser mais violento, com um brutal fuzilamento de um grupo de peones pelo exército do governo mexicano. É aqui que nos cruzamos pela primeira vez com Tate, o gringo americano de intenções pouco claras. Fazendo-se passar por prisioneiro, o americano junta-se aos supostos revolucionários após o assalto feito por estes ao comboio militar em que seguia. Comboio esse que o próprio Tate faz deter - sem que isso o impeça de limpar o sebo quer a um soldado quer a um bandido. A dualidade e falta de escrúpulos do personagem demarca-se em cada uma das suas acções, não obstante consegue cair nas graças de El Chuncho, o alegre homem do tambor e também líder do grupo de saqueadores revolucionários. Estes parecem no entanto importar-se muito pouco com os ideais revolucionários, estando mais interessados em roubar o máximo de armas aos soldados do exército para de seguida as vender à Revolução, encabeçada pelo General Elias. Este esquema interessa a Tate, cujo objectivo cedo se perceberá consistir em chegar suficientemente perto do General Elias, para assim lhe tirar a vida. Tate engendra assim uma série de assaltos a guarnições militares, que permitirá aos pseudo-revolucionários engrossar o seu stock e assim levá-lo ao quartel-general secreto do General Elias quanto antes…

Quien sabe?, que em Portugal foi lançado como "O mercenário” – por favor não confundir com Il Mercenario (1968) de Sergio Corbucci – teve honras de edição em formato DVD pela Prisvideo, fazendo parte da “Colecção western” da editora. Esta colecção foi lançada em caixas (mais ou menos) temáticas de duas unidades e peca apenas pela sua curta amplitude. Quien sabe? aparece incluído na designada “caixa spaghetti”, lado a lado com Il bianco, il giallo, il nero (1975), com o qual não vislumbro qualquer ponto de contacto. O conjunto vale sobretudo por este de que agora vos falo. O filme é apresentado em formato 16:9 com excelente qualidade de imagem e idioma original em italiano (curiosamente a informação do booklet indica o inglês). Vale a compra!


Trailer

19 comentários:

  1. Tenho este filme aqui para ver, mas ainda não assisti. Depois de ler este belo texto seu, devo dizer que sou obrigado a ver ainda nesta semana!

    E valeu pela citação do meu humilde blog.

    Abraço!

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  2. Olá Perrone!

    Obrigado por passares por aqui e pelas palavras amigas que deixas.

    Fica aí o alerta para aqueles que ainda não conhecem o blogue do Ronald Perrone. Passem por:

    http://demmentia13.blogspot.com/

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  3. Quero aqui deixar uma nota de destaque: a banda sonora deste filme, da autoria de Luis Enriquez Bacalov, é praticamente igual à de "Django", também do mesmo compositor.
    Para mim, este filme está longe de ser um óptimo filme. Os Zapata westerns são algo que me interessam pouco... Além disso, naqueles anos, a fórmula da revolução mexicana foi explorada até à exaustão!

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  4. Olá sócio!

    Não gostas mesmo de filmes político-revolucionários!! Na minha opinião apesar da estagnação que o sub-género atingiu, existem muitas coisas que merecem destaque. Os meus favoritos são: Tepepa (Petroni); Vamos a matar, compañeros (Corbucci); Giù la testa (Leone); Il Mercenario (Corbucci). As adaptações mais devedoras da comédia não me agradam tanto, mas também gostei de algumas, especialmente os do Giuliano Carmineo!

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  5. Una maravilla de película, de lo mejor del spaghetti/zapata.

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  6. Holla Julio Alberto!

    Gracias por pasarte por aquí una vez más!!

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  7. Top 3 western spaghetti. Mesmo que meu conhecimento referente ao gênero não seja tão vasto, digo com propriedade que se trata de um dos melhores filmes italianos já existentes!

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  8. Pedro, es una delicia leer siempre cosas tan buenas sobre el spaghetti, aunque a veces tenga que usar el traductor, que le vamos a hacer, pero leerte siempre te leo.

    Un gran saludo.

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  9. Bom filme que nos apresenta uma simbiose perfeita entre um bom elenco, boa acção e uma pitada muito forte de crença política.
    Excelente resenha, Pedro!
    Um abraço

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  10. Muito obrigado pelos gentis comentários, Julio e Alberto. As vossas apreciações positivas - enquanto profundos conhecedores do género - sobre as coisas que aqui se publicam deixam-me muito orgulhoso!

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  11. Apesar de não ser fã de Zapata Westerns, prefiro filmes como Compañeros ou Il Mercenario, de Sergio Corbucci. Para mim, Aguenta-te Canalha é de longe o filme mais fraco de Leone.

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  12. Sim. Concordo que esse é o ponto mais fraco da carreira do Sergio Leone, já lá vão uns aninhos valentes desde que o vi pela última vez, mas se bem me recordo existem algumas cenas memoráveis (por exemplo a cena da execução). O que menos gostei foi da relação dos outros três irlandeses - que é demasiado confusa. O desempenho do Rod Steiger é na minha opinião bastante louvável, muito superior ao que normalmente assistimos nestes filmes.

    Quanto aos Zapatas do Sergio Corbucci prefiro o "Compañeros", que me parece de longe o mais consistente e aquele que conta com melhor leque de actores. Falta-me ainda ver a terceira incursão do italiano no subgéneo ("Che c'entriamo noi con la rivoluzione?"), mas pelo que li por aí não me deverá encher as medidas...

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  13. Concordo que AGUENTA-TE CANALHA! é o filme menos inspirado de Leone mas mesmo assim é um excelente filme, não nos esqueçamos que Leone não ia dirgir este filme, era Giancarlo Santi, o realizador de O GRANDE DUELO, quem o ia dirgir e não o acho inferior ao MERCENÁRIO ou aos dois filmes de Corbucci, adoro os dois também, é um filme com excelentes momentos cinematográficos, a cena em que Juan Miranda (Rod Steiger) entra na gruta e depara com os filhos todos mortos é uma das representações mais sentidas do sofrimento paternal no cinema, poucas palavras, Leone achava que uma imagem valia mil palavras no cinema, com o auxílio da banda sonora, mais uma, excepcional de Morricone.
    Rod Steiger consegue ser brilhante neste filme, apesar do sotaque desajustado, e James Coburn está muito bem como atormentado terrorista do IRA, na versão alargada a situação dos irlandeses está mais detalhada e explica a presença da personagem de Coburn no México.
    Recomendo aos meus amigos que vejam a nova versão que foi lançada em Portugal pela MGM e verão que terão uma outra perspectiva deste excelente filme e na minha opinião é superior ao filme de Damiani, é a minha opinião que vale o que vale...
    Um abraço.

    P.S. "Che c'entriamo noi con la rivoluzione?" não é um grande filme, no entanto merece um visiomento da parte dos amantes do género, é uma comédia com alguns bons momentos, mas sente-se a flata de um FRANCO NERO...

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  14. António,
    a opinião do meu amigo vale bastante aqui no "Por um punhado de euros". É muito importante para nós saber que somos lidos por tão grandes entusiastas destes filmes que adoramos. Obviamente não podemos é concordar sempre uns com os outros, mas é isso que dá pluralidade à coisa!

    A versão que tenho do "Aguenta-te canalha" é a que falas, com versão alargada (ahhh... o que não pagava para ver também a versão completa do "Aconteceu no Oeste"), mas ainda assim não fiquei muito esclarecido quanto à relação amorosa daqueles três. É claro que como a última vez que o meti no leitor de DVD foi à uns três anos, não posso recordar-me com clareza.

    Quanto ao "Che c'entriamo noi con la rivoluzione?" se calhar vou mesmo ter de lhe dar uma oportunidade...

    Grande abraço!

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  15. bem, esse filme é demais, muito bom e mostrando a verdadeira realidade de uma ditadura, não sei até que ponto o filme tem força política, mas o filme retrata isso muito, a atuação de Gian Maria Volonte e a do Klaus Kinski são demais, Giu la Testa foi muito bom também e acho que não deve em nada ao Quien Sabe? do Damiani.

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  16. Viva Artur!
    Se dúvidas há sobre a vertente política do filme, veja-se a cena em que "Niño" passa à frente dos mexicanos na bilheteira... genial!

    Ps. Amigo António! Resolvi encomendar o "Che c'entriamo noi con la rivoluzione?". Optei pela versão da Filmax, sobretudo porque tenho quase todos os DVD da colecção spaghetti, mas já me disseram que está cortada em alguns minutos. Bolas!

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  17. Finalmente vi o filme!!...

    Está muito bem conseguido! Prendeu-me em particular a misteriosa e antagónica personagem americana que nos leva a procurar os seus pressupostos, que mesmo no fim não ficam claros...o que intriga.
    A personagem do "Niño" é obscura e indefinida, e talvez a intenção seja precisamente a de contrastar com Chuncho, tão definido nos seus princípios e convicções, mesmo que não os saiba expressar (como se vê na última cena), segue-os da melhor forma que sabe. "Chuncho" acaba por ter uma espécie de honestidade e um código de conduta firme, algo muito nublado em "Niño", que não se sabe para que lado pende...
    (Análise da personagens...hummm...defeito de profissão?! Talvez!)
    Adorei!!

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  18. download:


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  19. muito interessante esse filme: "vou morrer por que sou rico? Não porque somos pobres" Bem marxista

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