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13/02/2021

Quindici forche per un assassino (1967 / Realizador: Nunzio Malasomma)

Os anos de ouro do western-spaghetti permitiram a alguns realizadores assinar uma quantidade considerável de filmes do género. Mas também não faltaram casos de paraquedistas que pousaram e nunca mais lá voltaram. Alguns deles tiveram bons resultados, ainda recentemente por aqui se escreveu sobre “Quanto costa morire”, um excelente registo único de Sergio Merolle e hoje propomos um caso similar. O aludido chama-se "A um passo da forca" e é o único western assinado por Nunzio Malasomma. Um filme que tinha tudo para ser um clássico, mas faltou-lhe o tal «danoninho»! 


George Martin (esquerda) e Craig Hill (direita), nomes inseparáveis do western-spaghetti.

Segundo consta, Malasomma rodou o filme já depois da sua 73ª volta ao sol e para trás não tinha qualquer coisa vagamente relacionado com cinema de acção. Mas honra lhe seja feita, já que o velho se safou bem para cacete. As razões, acho que podem resumir-se ao bom naipe de actores (Craig Hill, George Martin, Aldo Sambrell, Andrea Bosic), bons cenários (os mesmíssimos que vimos por exemplo em “Por Mais Alguns Dólares”), boa música (batuta de Stelvio Massi) e sobretudo um enredo que se destaca no género por primar pelo enfoco no suspense. Parafraseando o grande Adolfo Luxúria Canibal: “Quem matou?” 

Tudo bons rapazes.

Não querendo entrar em demasiados detalhes para não entregar o desfecho do filme de mão beijada, resumo apenas o início da trama. O bando de Sandy Cassell (George Martin), profissionais na arte de roubar gado, está de passagem pelas terras da mulher de armas, a viúva Madeline Cook (Margarita Lozano), à qual pedem abrigo para passarem a noite. Alguns dos elementos do bando estão de pau afiado pela presença dos três elementos femininos do rancho, mas o cabecilha refreia-lhes os ânimos e nada se passa. E que tragédia seria, visto que a filha mais velha da viúva está de casamento marcado. Para ajudar à festa, outro bando de rufias, este encabeçado por Bill Mack (Craig Hill), aparece no encalço dos primeiros. Mas rapidamente mostram ser farinha do mesmo saco e até selam uma sociedade entre ambos. 


Craig Hill ganhou uma gravata nova.

Ao raiar o sol o noivo aparece no rancho e descobre as três mulheres sem vida. Apercebendo-se da presença de tantos cavalos no curral galopa para a cidade à procura de reforços. E é assim que os dois bandos passam a ser perseguidos por um crime que aparentemente nem cometeram. Muita violência se segue, filmada talvez com menos espectacularidade do que se esperaria para um filme com estes alicerces, mas ainda assim muito apreciável. Peca especialmente pela falta de tomates na resolução da trama, optando-se por um final feliz que destoa do rumo que o filme tomava até aí. Uma pena, mas que não vos impeça de vê-lo!

09/01/2021

Rebeldes en Canadá (1965 / Realizador: Amando de Ossorio)

O comerciante James Sullivan, alto funcionário da Hudson Bay Company acusa três indivíduos pela usurpação de um carregamento de peles. As testemunhas apresentadas pela acusação são justamente os seus empregados e ao capitão da Polícia Montada tudo isto lhe cheira a esturro, mas pouco faz para provar a inocência dos três desgraçados, que acabam por ser apresentados ao pelotão de fuzilamento.


Chapéus à Davy Crockett, não faltam neste filme.

Victor DeFrois, irmão de um deles, assiste ao acontecimento sem nada poder fazer para evita-lo, contudo jura fazer justiça e rapidamente se junta ao bando de rebeldes Franco-Canadenses, para fazer frente aos Ingleses. Depois de testado, é aceite no grupo e o seu líder aproveita a oportunidade para por em marcha um plano para limpar o sarampo ao avarento Sullivan. O executor do mesmo será nada mais nada menos que o nosso amigo Victor. No entanto para azar da trupe de assalto, o sacana do velho não está em casa e acabam por ter de improvisar, optando pelo rapto da sua filha.


Não lhe bastava o peso na testa e ainda isto!

O filme produzido em parceria entre Espanhóis e Italianos, sofre de algumas falhas de argumento, desde logo pelas motivações que levam Sullivan a incriminar três tipos aparentemente inocentes. Mas o pior é a falta de originalidade da trama, coisa típica dos filmes da primeira fase do western europeu. Como tal não será surpresa para ninguém que o rapto rapidamente se desenlace em romance entre a nobre inglesa e o rebelde.


Os opostos atraem-se. Aqui vai haver namorico.

Este é o segundo western do galego Amando de Ossorio. O anterior, “La tumba del pistolero”, filmado a preto e branco e também protagonizado pelo espanhol George Martin, difere em muito no estilo. Enquanto esse seguia um enquadramento em tudo igual ao dos filmes de suspense, com pouquíssimas cenas de acção e muito mistério, este segundo segue caminho diametralmente oposto. A história é altamente previsível e cenas de acção não faltam, sejam elas tiroteios, pancadaria ou acrobacias.


Paisagens nevadas não faltam neste filme.

O realizador notabilizar-se-ia anos depois pela sua ofensiva no cinema de terror espanhol, sobretudo pela famosa quadrologia dos cavaleiros templários cegos, seres mortos-vivos que montavam cavalos fantasmas em perseguição das suas vítimas, que conseguiam seguir pelo som do batimento cardíaco. Frequentemente envolto em produções de baixíssimo orçamento, acabou por abandonar o ofício em meados de oitentas, desiludido por os seus projectos nunca se terem materializado naquilo que imaginara. Westerns só realizou os dois supramencionados, mas provavelmente terá escrito muitos que jamais foram realizados. Desses, o único de que se conhece com vida é o incrivelmente bacoco “A Paciência tem um limite... Nós não!”, que tem um titulo absolutamente profético!


Poster Australiano para "A Noite do Terror Cego" (1972), o primeiro filme da saga.

30/12/2020

Per qualche dollaro in meno (1966 / Realizador: Mario Mattoli)


Bill, vice-caixa do banco de Silver City descobre um déficit de 100 dólares ao contabilizar os movimentos do dia. Aterrorizado pela fama do chefe do banco, enceta uma tramóia para recuperar a diferença. Para consegui-lo terá a ajuda do primo Frank, que se propõe a torná-lo num fora-da-lei e consequentemente ser ele a capturá-lo e colectar a recompensa. Mas a falta de astucia de ambos, trará resultados desastrosos. O título é esclarecedor. Estamos na presença de uma paródia ao segundo filme da trilogia dos dólares, “Por mais alguns dólares”


Este bandido de meia-tijela está em apuros.

O elenco é composto pelo trio, Lando Buzzanca (o vice-caixa / Clint Eastwood), Raimondo Vianello (o primo / Lee Van Cleef), e Elio Pandolfi (o mexicano / Gian Maria Volonté). A realização é de Mario Mattoli, senhor de uma larga carreira por altura da feitura deste “Per qualche dollaro in meno” e um velho especialista no mundo da comédia italiana. Com um currículo que inclui entre outros, várias incursões na bem conhecida franquia «Totò». 

Por esta altura Buzzanca também vestiu as peles do James Tont, paródias 007 realizadas pelo mano Bruno Corbucci.

O roteiro é da mão dos irmãos Corbucci (em parceria com Mario Guerra e Vittoriano Vighi), o que adiciona um interesse extra ao filme. Recorde-se que só nesse ano, Sergio Corbucci assinou três westerns: “Ringo e a sua pistola de oiro” (1), “Navajo Joe” e o sublime “Django”. Onde raio encontrou ele tempo para escrever ainda outro western? E porque se haveria ele de meter num negócio destes? Nunca saberemos.


Personagens exageradas, marca do cinema cómico italiano.

Numa breve conversa com um velho conhecido dos fóruns do Spaghetti Western Database, Simon Gelten, dizia-me ele que tentou ver o filme uma certa vez, mas rapidamente abandonou a tarefa. É compreensível. Como é característico na comédia italiana, as personagens são extremamente teatrais, barulhentas e genericamente difíceis de suportar. Do trio, o vice-caixa é de longe o que mais se enquadra neste estereotipo. O culpado é esse tal de Lando Buzzanca, um tipo de Pallermo que ascendeu ao estrelato justamente por fazer papéis de palerma!


Poster italiano de "James Tont operazione U.N.O.", obviamente uma paródia aos filmes do 007.

--
1. “Ringo e a sua pistola de oiro” terá sido rodado em 1965 mas apenas finalizado e lançado no ano seguinte. 

08/12/2020

Quelle sporche anime dannate (1971 / Realizador: Luigi Batzella)



I.
As armas e os bandidos assassinados
Numa península de capital romana,
Muitos e muitos animais foram cavalgados,
Os melhores eram de terra castelhana.
Entre mortos, feridos e estropiados,
Mais do que era aceitável na regra americana.
E entre países latinos edificaram
Novos filmes que ao mundo mostraram.

II.
Cessem do sábio Leone e de Corbucci
Os feitos universalmente conhecidos;
Cale-se de Tessari e de Questi
Assim como pseudo-westerns fingidos;
Eu canto Fidani, Boccia, Garrone e Vari
E outros mais cineastas erigidos.
Porque Batzella, que é Luigi, canta
Na série B trabalha e levanta.

III.
“As almas malditas de Rio Chico”,
Título ficou em terras gaulesas;
Ver westerns de Batzella é um perigo
Porque são plenos de falhas e impurezas;
Lá na bela Itália montou o circo
Com os seus duplos cheios de destrezas.
Há filmes maus que dão cabo da saúde,
Valha-nos o homem que arrasta o ataúde!

IV.
Tal como em épocas de opulência se fazia,
Assim o homem também tentou;
Mas o que ele de facto não sabia
É que dinheiro e talento faltou;
Lá em terras do Lácio acontecia
Que o filão outrora explorado acabou.
O entusiasmo por tudo isto foi-se esfumando,
Voltámos ao tempo do “eu quero, posso e mando.”

V.
Eis Jeff Cameron, Esmeralda Barros e Krista Nell
Mais Donald O’Brien a franzir a sua careta.
O primeiro, duro no seu papel,
Assim falou; e partiu a muitos a corneta!
Lá vai ele montado no seu corcel
Prestes a mandar tudo para o maneta.
Pois quem se mete nisto aguarda sarilhos,
Os gitanos não gostam de ver bons princípios nos filhos.

VI.
Os americanos comem feijões, bifes e toucinho;
Os italianos bebem uísque, tequila e café;
Krista Nell leva umas passas no focinho
De Jeff Cameron a soco, sopapo e pontapé.
Um abutre voa e esvoaça do seu ninho,
Algo que o vilão O’Brien, excelente em auxílio, é.
Tal como um ébrio, que anda para a frente e para trás,
Assim antigamente diziam em Roma: “In uino ueritas!”

VII.
Pistoleiros, gatunos e dissidentes,
Filmes esses há muito do nosso agrado;
Salas de cinema, película e cassetes
Já fazem parte do nosso passado;
Digital e qualidade estão hoje presentes,
O paraíso de todo e qualquer tarado.
E tal como o funeral e o fim da festa,
A aragem que daqui emana é deveras funesta.

VIII.
Levanta-te, ó italiano western ou spaghetti!
Todas estas coisas disseste na medida certa.
Parvos como nós gostamos de ti
Embora a obra fique sempre aberta.
Assim dizendo, estas coisas que escrevi
Numa blogosfera praticamente deserta.
E não desobedeceu; nós sonhamos com o selvagem Velho Oeste.
Com palavras apetrechadas de asas: “Ah, fartura! Tão tarde vieste!”

“Spaghettis per omnia saecula saeculorum! Sed… tacendi tempus est.”

Anno Domini uiginti et duo milia,
Veneris dies, ante diem tertium Kalendas Nouembres.

15/11/2020

Degueyo (1965 / Realizador: Giuseppe Vari)

“El Deguello” (significado):

1. “Ato de degolar ou decapitar”.
2. “Canção tocada com corneta ou trompete pelas tropas mexicanas na batalha de Álamo (1836). Ao tocá-la, os soldados mexicanos queriam dizer aos seus inimigos que a batalha iria ser até ao fim, sem qualquer piedade ou misericórdia para quem perdesse”.
3. Vulgo, “cortar o fagote a um cabrão qualquer!”.

O protagonista está pronto a disparar.

Esta canção ficou célebre no cinema graças ao filme de 1959 “Rio Bravo”. Aí, o xerife John T. Chance e os seus adjuntos estão confinados a um espaço restrito (não podem sair da cidade). Os agressores tocam “El Deguello” dia e noite, para enervar ainda mais os agentes da lei.

O mexicano Ramon é velhaco!

Nas suas duas primeiras colaborações com Leone, em 1964 e 1965, Morricone compôs algumas canções semelhantes ao “Deguello”, tocadas sempre nos duelos decisivos, como se de uma marcha fúnebre se tratasse. O certo é que, a partir daí, a inclusão do som de trompetes nas bandas sonoras de westerns-spaghetti tornou-se uma moda que pegou e nunca mais descolou (deve ter sido colada com cola quente ou com prego líquido!).

Riccardo Garrone estreia-se em westerns.

Em 1966, o realizador Giuseppe Vari iniciou a sua aventura cinematográfica western com um filme cujo título diz tudo: “Degueyo” ou “Deguejo” (consoante as fontes). É um western muito modesto, diga-se, mas merece estar neste blogue.

Vou rebentar com isto tudo!

Norman, Frank, Logan e Foran são quatro pistoleiros que chegam a uma cidade aparentemente abandonada. Contudo, Danger City é, de facto, habitada mas apenas por mulheres e crianças. Os homens que não morreram foram levados e escravizados pelos bandoleiros do mexicano Ramon.

As mulheres também sabem manejar uma arma!

Os quatro aventureiros decidem proteger a cidade, há dinheiro envolvido nesta história (há sempre, não é?), as mulheres não viram a cara à luta e vão demonstrar ao seboso Ramon que elas também têm porras para a batatada! Este foi o primeiro de sete westerns do curriculum vitae de Giuseppe Vari. Assinou todos eles sob o pseudónimo de Joseph Warren.

01/11/2020

Un dólar de fuego (1966 / Realizador: Nick Nostro)

Este é o primeiro western-spaghetti do italiano Nick Nostro, realizador que embora relativamente activo na década de sessenta, só assinou mais outro filme no género: “Uno Dopo L'Altro”. Que se diz por aí ter sido na verdade realizado pelo espanhol Ignacio F. Iquino. Para adensar ainda mais a confusão, deixem que vos diga: existem também boatos de que Nostro possa ter sido responsável pelo bonzinho “El hombre que mató a Billy el Niño” (por cá traduzido à letra: “O Homem que matou Billy The Kid”). Mas sucede que esse haveria de ser assinado exclusivamente pelo madrileno Julio Buchs. Já Nostro jurou a pés juntos que o filme era um projecto de Lucio Fulci e que acabou nas suas mãos por indicação do mestre do terror. Meus amigos, é uma puta confusão! E como nenhum dos envolvidos se entendeu em vida fica para a história mais um «diz que disse»! Mas adiante, que hoje nem estamos aqui para falar desses filmes dos quais não se sabe a paternidade.

Acabou-se a batota, patife!

Foquemo-nos neste “Un dólar de fuego”, que nos apresenta a típica situação de um povo obliterado por um vilão acima da lei, neste caso duo de vilões com múltiplas conexões, conspirações e o escambau! O regabofe na cidade é tal, que o jornaleiro numa das suas manchetes até a ousa compara-la à cidade bíblica de Sodoma. Como os paus mandados falham continuamente na subjugação total dos cidadãos, contratam um pistoleiro profissional para comandar as operações, e em paralelo tratar da saúde ao teimoso do xerife que se recusa a ficar quietinho no seu canto. Infelizmente para as nossas contas, o tal pistoleiro é um tipo tão exageradamente «badass» que se torna na personagem cómica involuntária do filme, que supostamente se reservaria ao beberrão do saloon. 

Técnicas de persuasão à moda do oeste.

É uma produção pobre, não de cenários e belas paisagens desérticas, mas de boas ideias e de actores com competência para levarem o barco a bom porto. Achei particularmente curioso que a produção viesse selada como ítalo-espanhola, porque o aroma do filme é totalmente paella-western. Na versão que vi aparece inclusivamente o estranhíssimo crédito de supervisor para o madrileno José Luis Madrid. O que poderá indicar essa preponderância da IFISA de Ignacio F. Iquino sobre o parceiro italiano.  

Lá vai alho!!

Admito que já vi spaghettis muito mais mal enjorcados (a maioria dos de Demofilo Fidani, os de Gianni Crea, etc.), mas invariavelmente esses tornaram-se comédias com o passar dos anos, como tal tem a sua piada quando vista por esse prisma. Agora, quando a coisa se torna enfadonha de morte seja qual for o ângulo, não dá como apreciar. Definitivamente este é filme para passar ao lado. Já os tais dois do imbróglio de paternalidade são ambos bem decentes. Vão por aí!

18/10/2020

Shalako (1968 / Realizador: Edward Dmytryk)

Portalegre, Portugal. Segunda metade dos anos 1990. 
Naquele tempo, um jovem adolescente entrou na Loja dos 300. Viu um expositor com vários livros de bolso da editora Europa-América: ficção científica, policial, guerra e… western! O jovem pegou em três livros. Um dizia: “Louis L’Amour, A Marca dos Sackett”. O outro dizia: “Louis L’Amour, Confronto no Deserto”. O terceiro dizia: “Louis L’Amour, Três Homens Para Matar”. O rapaz foi à caixa, pagou em Escudos e foi para casa.

O protagonista e a beleza de serviço.

Nas semanas / meses seguintes, dedicou-se à leitura desses livros e foi aí o primeiro contacto com a obra de Louis L’Amour, famoso autor de romances western. Também este filme anglo-germânico, filmado em Almería, é baseado num conto de Louis L’Amour.

Chato e os seus Apaches.

Uma caravana de turistas europeus viaja pelo Oeste americano. Essas terras estão cheias de Apaches sedentos de sangue! O guia da caravana é um mânfio e está-se a borrifar para questões de segurança. Os nobres europeus pensam que os Apaches não passam de maltrapilhos estúpidos.

Shalako ajuda os turistas.

Moses Zebulon Carlin “Shalako”, um homem branco que conhece muito bem os índios, tenta incutir aos turistas algum bom senso e pede-lhes para desistirem da viagem. Eles recusam categoricamente porque a arrogância fala mais alto! Mas rapidamente percebem que os Apaches são a coisa mais velhaca que há e que são mestres em táticas de guerrilha e na arte da tortura!

Gasganete demasiado apertado!

Os leitores veteranos da banda desenhada italiana ZAGOR, ao verem este filme, associam imediatamente o enredo a uma das mais célebres e carismáticas aventuras do “Espírito Com a Machadinha”. Falo, pois claro, de “La Marcia della Disperazione” / “A Marcha do Desespero”. É uma aventura épica de 400 páginas, escrita por Guido Nolitta (pseudónimo de Sergio Bonelli) e magnificamente desenhada por Gallieno Ferri. Para verem quão semelhantes são o filme e os “fumetti”, eis alguns exemplos: 

Filme BD
Shalako Zagor 
Condessa Irina Lazaar Frida Lang 
Barão Frederick Von Hallstatt Barão Max Von Swieten 
Bosky Fulton Memphis Joe 
Chato (chefe dos Apaches) Winter Snake (chefe dos Kiowa) 

Fumetti tutto ZAGOR, N. 114, Bonelli Editore

Por fim, há, obviamente, que destacar o protagonista: Sean Connery, ator cuja carreira começou a ser um caso sério a partir de 1962. Nesse mesmo ano, o escocês desembarcou na Normandia em “O Dia Mais Longo” e, quando passou a chamar-se Bond, James Bond, a sua primeira missão foi limpar o sarampo ao agente SPECTRE, Dr. No, e papar uma tal de Ursula Andress. Ah, valente!! 

04/10/2020

Sei bounty killers per una strage (1973 / Realizador: Franco Lattanzi)

Sábado de manhã em Portalegre. A esposa está a trabalhar, o miúdo foi para os avós, lá fora não bastasse o bicho mau do Covid-19, ainda parece que alguém deixou o forno ligado e tanto tempo para matar sem nenhum DVD ou “pen drive” à vista. Um zapping rápido na TV cabo só resulta em filmes da tanga. É então que brota a brilhante ideia de ir escarafunchar o YouTube, agora pejado com propostas de episódios do Pocoyo, Patrulha Pata e que tais. Magano do puto, não bastava ter confiscado a televisão e agora já me condiciona o feed online! 


O bando de Frank.

Uma cavadela ou duas e dá para perceber que a presença de westerns-spaghetti nessa plataforma tem crescido a olhos vistos, o difícil foi parar o scroll e decidir qual filme começar a ver. Excluídas revisões, acabo eventualmente por clicar num tal de “Sei bounty killers per una strage”, que até já tinha intenções de ver desde que me cruzei com o paupérrimo “Il giustiziere di Dio” numa dessas noites de confinamento forçado. Tinha-o na calha por mero completismo, entenda-se, não há lógica que explique o que leve um comum mortal a enfrentar dois filmes do Franco Lattanzi num curto espaço de tempo!


Este comparsa viu os filmes todos do Lattanzi, nunca mais foi o mesmo.

A acção desenrola-se em Abilene, uma cidade fortificada que está sob domínio de um tal de Frank (mais uma interpretação patética de Donald O'Brien). Ora qual juiz Rob Bean, Frank decide interpretar a lei conforme lhe convém,  e se dois caçadores de recompensas capturarem e entregarem um qualquer bandido na sua cidade, são eles que correm sério risco de vida! E muito bem, libertem-se os pulhas e condenem-se os captores. E se não concordarem com a sentença, combine-se um duelo, mas não contem que as vossas armas estejam carregadas, portanto rezem mas é as vossas orações!


Adeus meus cabrõezitos.

A produção é evidentemente pobre, suportando-se na reciclagem do tal “Il giustiziere di Dio”, de onde repesca grande parte do elenco, cenários e porventura até algumas cenas (não estive assim tão atento para confirmá-lo). Tal como nesse filme, o maior destaque é a dose mastodôntica de bad acting, que julgo ter sido ainda mais acentuada pela dobragem anglo-saxónica. Franco Lattanzi só começa a carreira nos anos 70, uma época de acentuado crepúsculo do género e onde a fasquia tinha sido relegada para mínimos históricos, talvez por isso não tenha sentido o peso da responsabilidade e tenha realizado os seus filmes às três pancadas. Mas também podia ter sido um pouco mais autocrítico, poupando-se à humilhação publica. 


Donald O'Brien entrega um dos seus piores papéis no género.

Voltando à trama. O dito Frank, enceta uma emboscada a uma diligência escoltada pelo exército e os soldados vão todos desta para melhor. Já as viajantes, esposa e filha do governador, são feitas reféns. Um pedido de resgate é endereçado, mas o governador é demovido do pagamento. Em vez disso é-lhe proposto que premei um grupo selecto de caçadores de recompensas para que eles executem o resgate e aniquilem o bando. A sinopse não é ruim, obviamente uma variação do que vimos por exemplo em “Uma Razão para Viver, Outra para Morrer” (lançado um ano antes), mas com a diferença significativa na falta de qualidade de execução. Não adiantou para o assunto ter tido Robert Woods e George Wang no elenco, uma dupla que teve uma boa interacção em “Una colt in mano al diavolo” de Gianfranco Baldanello, lançado também em 1973. 


O que é que eu estou aqui a fazer?

Mas que se lixe, precisava de matar tempo e tempo matei! E com este riscado da lista só me resta ver o terceiro e último western do senhor Franco Lattanzi, o tal que parece emular o clássico de David Lean, “A Ponte do Rio Kwai”. Mas afinal é um crossover entre western e artes-marciais, esse sabe-se lá como até teve lançamento em Portugal como “O Tigre do Rio Kwai” e até tenho uma versão francófona arquivada algures, mas não creio que tenha estômago para o ver tão  depressa.

17/09/2020

Mandinga (1976 / Realizador: Mario Pinzauti)

O primeiro projeto cinematográfico de Mario Pinzauti chamava-se “Interpol Morte ao Molo 18”. Já alguém ouviu falar? Não? Também não faz mal porque o filme nunca foi terminado. Na segunda metade dos anos 1970, o cinema europeu estava repleto de pessoal descascado. O erotismo era o novo filão a explorar. O western-spaghetti já quase não existia e a sua certidão de óbito, muito brevemente, ia ser assinada. Entre estes dois géneros cinematográficos (erótico e western) surge Mario Pinzauti que, no Ano da Graça de 1976, dirige “Mandinga”.


Ponham-se mansos ou corro tudo à chicotada!

O enredo do filme situa-se no século XIX no estado americano da Louisiana. Um poderoso proprietário de terras mantém o seu património graças ao trabalho de muitos escravos negros. Rhonda, a prima da defunta esposa do “big boss”, chega à fazenda para ajudar a gerir o negócio de família. Rhonda é esperta que nem um alho, anda constantemente com a pachacha aos pulos e tudo lhe serve para acalmar o tesão! Seja branco, seja preto, seja “cor-de-burro-a-fugir”, seja homem, seja mulher, vai tudo de empreitada porque ela é uma autêntica máquina de enfardar carne e de debulhar maçarocas.


Esta mulher está louca de tesão!

O pessoal masculino aproveita para esvaziar o garrafão (ou despejar a bisnaga, se preferirem), a moça fica consolada e o ambiente na plantação parece mais desanuviado. Só que no meio desta história há invejas, traições, alguns cornudos e, naturalmente, racismo. O desfecho será trágico porque esta mania de foder à força toda sem pensar nas consequências não é tão aconselhável como parece. As cenas de sexo deste filme não estão na linha do porno nem do tão-famoso “hardcore 1.º escalão”. Trata-se de cenas eróticas, com muito roça-roça e muito esfreganço (as comichões dão nisto!). O ambiente western é claramente uma desculpa porque já se percebeu que o filme tem mais elementos eróticos do que elementos western.


Tortura!

Fica ao critério e à responsabilidade de cada um ver este registo “underground”. Mas posso assegurar que ninguém corre o risco de ficar com um rego do cu colado à cara ou de levar com uma picha na cabeça!


Esta mulher é fogo!

“Post Scriptum”: Mario Pinzauti realizou um western que (ainda hoje) ninguém sabe onde anda! Se, algum dia, alguém souber onde está, é favor informar este blogue porque nós queremo-lo! A saber:
VAMOS A MATAR SARTANA (1971), também conhecido por DEMASIADOS MUERTOS PARA TEX.

04/09/2020

Quanto costa morire (1968 / Realizador: Sergio Merolle)

O western spaghetti é frequentemente achincalhado por ser o género dos “Sergios”. Sergio Leone, Sergio Corbucci e Sergio Sollima, na linha da frente por razões óbvias. Já outros profetas do maldizer apontavam um quarto nome: Sergio Garrone. O tal que diziam que fazia um western por mês. Pimenta na língua desses abutres se ainda por cá andarem, a filmografia do homem tem altos e baixos mas merece ser descoberta. Mas hoje queremos falar-vos de outro Sergio de quem não reza a história, Sergio Merolle. Nunca ouviram falar? Não se admirem, ele só realizou este filme. 

Qualquer semelhança com o Trigero (O Grande Silêncio), não será mera coincidência.

Em vez das habituais vistas áridas de Almeria a acção do filme é ambientada nas montanhas nevadas do Colorado (na verdade a rodagem foi feita nos arredores de Roma). Um cenário anormal no género, usado apenas esporadicamente, mas curiosamente quase sempre com resultados acima da média. Senão lembrem-nos do excelente “O Grande Silêncio” ou do violentíssimo “Condenados a vivir”. E este aqui também não é nada mau, mas já lá vamos. 

John Ireland (esquerda) e Andrea Giordana (direita) em séria reflexão.

Um bando de ladrões de gado toma refúgio numa aldeia encostada às montanhas nevadas. A passagem para o lado de lá está intransponível e o único remédio é aguardar que a tempestade passe. O xerife não gosta da ideia de ter estes malandros nas redondezas, mas dá-lhes algum tempo para que se abriguem e recomponham. No entanto os vaqueiros rapidamente armam confusão e o xerife não está com falinhas mansas e dá-lhes guia de marcha. Um dos meliantes é um velho conhecido do xerife e tenta demovê-lo de um confronto, mas em vez disso o teimoso do xerife convoca a população com intuito de convencê-los a tomar conta da situação. Só que a tomada de posição dá para o torto e o desgraçado é abatido pelo vil Scafie, que faz questão em executá-lo na presença de toda a população. 

O opressor aplica tácticas de terror sobre a população.

Scafie, interpretado pelo badass Bruno Corazzari, é aquilo a que podemos chamar um verdadeiro filho da puta, não muito diferente da personagem de Klaus Kinski em “O Grande Silêncio”. Um dos vários pontos comuns entre ambas as obras. Mas o filme sobrevive enquanto obra distinta, como veremos de seguida. Após esta situação trágica, a aldeia é escravizada pelo bando. Terão de construir currais para o gado roubado pela vilanagem e até satisfazer os seus desejos mais primitivos, se é que me faço entender. É então que o jovem Tony (Andrea Giordana) resolve escapulir-se para as montanhas. Atacando estrategicamente diversos elementos do bando. A ele junta-se o velho Dan El (John Ireland), que deixou de ter paciência para aturar as merdas do Scafie. 

Lamentavelmente não é possível disfrutar da fotografia do filme no seu formato original.

A partir desse momento o filme começa a tomar contornos mais interessantes, únicos se quiserem. Os dois vão iniciar uma espécie de movimento de resistência civil, expulsando eventualmente o opressor. Se isto vos soa mais a sinopse de filme de guerra que a western, então estão a entender a metáfora do filme. Vejamos, como é sabido a Itália foi durante a segunda guerra mundial incluída no Eixo Nazi. Os alemães tomaram conta do pedaço com a conivência de Mussolini e não faltaram episódios de italianos contra italianos. Sergio Merolle parece ter arranjado forma de mostrar esses movimentos partisans no seu western. Chapeau! 

Uma vida por um misero pedaço de pão.

Em suma um filme ambicioso com ambiente pesado, frequentemente negrume e com um enquadramento dramático bastante aceitável. Não é totalmente original, acredito piamente que Merolle se tenha influenciado em “Homens de Gelo” (clássico de André de Toth, lançado em 1959), mas a mescla com este enquadramento histórico é de mestre. Então, mas porque não vingou? É difícil responder a essa questão passados mais de 40 anos, pior não existindo muito sururu à volta dele. O elenco está muito bem, a música de Massi é soberba e perfeitamente enquadrada na acção do filme, na verdade só a fotografia das cenas interiores me pareceu demasiado amadora. O filme é um “must see” do género, mas como dizia lá atrás o senhor Sergio Merolle, não voltou a tentar a sorte na realização. Uma pena!

23/08/2020

Campa carogna... la taglia cresce (1973 / Realizador: Giuseppe Rosati)

Temos um bando de salteadores mexicanos do mais velhaco que há. O comandante militar da zona anda à rasca com esses “comedores de tortillas”. O comandante pede reforços mas só aparecem três militares: o capitão Chadwell, o tenente Younger e o sargento Smith. Mas a missão não é exclusivamente militar. Um gajo chamado Corão (autointitula-se “seguidor de Alá”) quer os 1000 dólares de recompensa. O revólver, o arcabuz e a sombrinha empaneleirada de Corão são as suas ferramentas de trabalho.


Corão não precisa de ir à mesquita para rezar.

O cabecilha dos mexicanos é o general Lopez, um cara de parvo cheio de medalhas, que no seu quartel-general tem um quadro de Napoleão Bonaparte. Sempre que olha para o quadro ouve-se os primeiros acordes da “Marselhesa” (“Allons enfants de la Patrie / Le jour de gloire est arrivé!”). Além das medalhas, ainda tem um brinco na orelha esquerda que mais parece uma amostra da pesca! Os três militares e o pistoleiro Corão unem forças em prol de um objetivo comum. Mas o lema é “Confiar é bom. Mas não confiar é melhor!”.


Eis os três militares!

Este filme já tem alguns momentos cómicos (poucos, felizmente) e o chamado “body count” supera as palhaçadas. E quando digo “body count” não me refiro ao “Smoked Pork”, ao “Body Count’s in the House”, ao “Cop Killer” e nem sequer ao Ice-T. “Body Count”, neste contexto, é pura e simplesmente “contagem de cadáveres”.


Um parvalhão de uniforme.

Os dois protagonistas são os atores Gianni Garko e Stephen Boyd. À época, Garko era um veterano dos westerns-spaghetti (o imortal Sartana). Boyd triunfou no cinema épico. Foi o vilão Messala em “Ben-Hur” (1959), foi o general romano Gaio Metelo Lívio em “A Queda do Império Romano” (1964) e interpretou o rei Nimrod em “A Bíblia” (1966).


Bonita gravata!

Mas a maior curiosidade deste filme é o facto de ter um pistoleiro que não tem um nome católico! Aleluia, Sacramento, Camposanto, Spirito Santo, Requiescant… já foram! Desta vez temos um pistoleiro chamado Corão, que lê o Corão (ou é Alcorão?), tem o taqiyah na cabeça, tem as contas e é muçulmano. E porquê esta mudança de religião nos westerns-spaghetti? Porquê trocar a igreja pela mesquita? A minha cabeça maluca sugere-me duas razões:

1.ª – Para tentar ser diferente.
2.ª – Porque o público já estava farto de “cheira a padres”, “ratas da sacristia” e “papa-missas”, apesar de esses personagens terem mandado centenas de almas para junto do Criador. 

Amém!
Perdão. Inshallah!

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"Awwwwwwwwww shit. Body Count's in the house, Body Count!"