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10/04/2021

O' Cangaceiro (1969 / Realizador: Giovanni Fago)


Nosso querido spaghetti westerns sempre soube experimentar novos horizontes. Seja na ‘politização’ dos chamados zapata westerns, que também transferia o tempo espaço, da região fronteiriça entre Texas e México, em meados da segunda metade do século XIX, para o coração da revolução Mexicana na virada para o século XX, vide filmes como “Quién Sabe?” ou “Tepepa”. Seja no humor cartunesco da dupla Terence Hill e Bud Spencer. O fato é que o faroeste italiano sempre procurou renovar, e “O’ Cangaceiro”, se não criou escola, pelo menos é um dos exemplares mais curiosos. Filmado no Brasil, trocando o western norte-americano pelo nordeste brasileiro, pistoleiros por cangaceiros. 

Cangaço, para quem não está familiarizado, foi um fenômeno social que ocorreu nas regiões áridas do nordeste brasileiro, entre o século XVIII e meados do século XX. Os cangaceiros eram bandos de bandidos nômades, que atravessam a região, saqueando cidades e enfrentando autoridades. Há quem veja nos cangaceiros uma espécie de resposta da miséria dos camponeses ao descaso do Estado. O cangaceiro mais famoso de todos foi Virgulino Ferreira, o Lampião.



Filmado na região da Bahia e Pernambuco, “O’ Cangaceiro” (essa apóstrofe no “O” colocado pelos italianos, é algo completamente alienígena a língua portuguesa, mas deixamos assim não pode ser confundido como “O Cangaceiro” (desta vez com grafia correta), clássico do cinema brasileiro de 1953, dirigido por Lima Barreto, uma obra grandiosa, com influências dos westerns de Ford e Hawks, até o cinema de Serguei Eisenstein, e que inaugurou um filão de filmes de cangaço, que no Brasil ficou conhecido como ‘nordestern’, filmes que são inseridos também nos chamados “feijoadas western”, faroestes filmados no Brasil. Mas voltamos ao spaghetti de 1969. 

Esta co-produção entre Itália e Espanha abre com a música “Mulher Rendeira”, clássica do cancioneiro nordestino, cuja autoria da letra é atribuída a Lampião. O filme começa com soldados indo matar cangaceiros, infringindo um massacre indiscriminado na região, incluindo homens inocentes, mulheres e a vaca do pobre camponês Espedito (nosso querido careteiro Tomas Milian), que sobrevive a matança e cai nas mãos de um velho eremita, com ares de Antônio Conselheiro (o mais famoso lunático religioso do sertão), reparem na jovem moça que anda com o velho, pequena participação da Baby Consuelo, que mais tarde se tornaria uma famosa cantora no Brasil. 


Depois Espedito passa também a sair por aí pregando, como um místico louco pelo deserto brasileiro, aliás, uma figura marcante no imaginário latino-americano, que nos remete ao São Sebastião de “Deus e o Diabo na terra do Sol” de Glauber Rocha (personagem que inspirou o de Klaus Kinski no supracitado “Quién Sabe?”), seja no “Simão do deserto” de Buñuel, ou nas figuras errantes de Jodorowski em “El Topo” e “Holy Mountain”O fato que a fase de ‘pregador’ de Espedito não dura muito, o pobre coitado é preso durante um festejo do exército a uma figura do clero. Na cadeia libera uma rebelião e assim acaba se tornando ele próprio um cangaceiro. 

Entra em cena o holandês Vincenzo Helfen (Ugo Pagliai), que trava conhecimento de expedito numa cena bem curiosa. Na verdade o holandês trabalha para uma companhia de petróleo, e junto com o Governador do Estado (o meu vilão favorito dos spaghetti westerns, Eduardo Fajardo), monta um plano mirabolante para limpar a fictícia região de Águas Brancas, que é tão infestada de petróleo quanto de cangaceiros, eles aliciam Espedito a acabar com grupos rivais, em troca lhe dão anistia pelos crimes e uma bela fazenda. Para selar o acordo segue uma interessante cena de um jantar na casa do governador, onde se contrasta a ‘civilidade’ dos brancos ricos presentes, com a selvageria dos brutos cangaceiros. 


Segue com Espedito matando impiedosamente seus rivais, mas no fim acaba sendo atraiçoado pelo Governador (esperado, afinal, não se pode confiar em Eduardo Fajardo!), que manda gangstêrs ítalo-americanos, munidos com suas machine guns, para darem cabo nos cangaceiros (o surrealismo aqui não tem limites). Porém, o embate final será entre Espedito e o Governador. 

“O’ Cangaceiro”, que no Brasil foi rebatizado como “Rebelião dos brutos’, e nos EUA como “Viva Cangaceiro”, é um filme curioso, não só pelo fator geográfico, único no cinema feito no país da bota, mas por certos elementos, como a relação ambígua entre Espedito e o Holandês, que me remeteu a fórmula dos Zapata western, onde um nativo, ingênuo e bruto, cai nas lorotas do europeu educado (vide “Quien Sabe?”, “Il Mercenario”, “Vamos a Matar, Compañeros”, “Giu là Testa”, e por aí vai).


Giovanni Fago, em seu terceiro filme como diretor, e primeiro como roteirista, conduz o filme com segurança, a trilha de Riz Ortolani é carregada de influências da música brasileira, isto quando não desbanca para um samba puro ou resgata canções locais, como o caso de “Mulher Rendeira”, a fotografia de Alejandro Ulloa explora bem os cenários desolados da caatinga brasileira.

Embora eu more no outro lado do país, fiquei sabendo, há pouco tempo, que o falecido pai de um conhecido meu, que andou pelo nordeste no final dos anos 60, chegou a fazer figuração neste filme. Pena que descobri isto tarde demais. No fim das contas, “O’ Cangaceiro” transcende o mero fator de curiosidade e é um bom spaghetti western, ainda que atípico. 

Resenha pela pena do Paulo Blob, só um brasileiro poderia escrever com propriedade sobre o tema do cangaço. O Paulo é um companheiro de longa data, é adepto do mais variado cardápio cinéfilo, incluindo o nosso western-spaghetti. 

23/08/2020

Campa carogna... la taglia cresce (1973 / Realizador: Giuseppe Rosati)

Temos um bando de salteadores mexicanos do mais velhaco que há. O comandante militar da zona anda à rasca com esses “comedores de tortillas”. O comandante pede reforços mas só aparecem três militares: o capitão Chadwell, o tenente Younger e o sargento Smith. Mas a missão não é exclusivamente militar. Um gajo chamado Corão (autointitula-se “seguidor de Alá”) quer os 1000 dólares de recompensa. O revólver, o arcabuz e a sombrinha empaneleirada de Corão são as suas ferramentas de trabalho.


Corão não precisa de ir à mesquita para rezar.

O cabecilha dos mexicanos é o general Lopez, um cara de parvo cheio de medalhas, que no seu quartel-general tem um quadro de Napoleão Bonaparte. Sempre que olha para o quadro ouve-se os primeiros acordes da “Marselhesa” (“Allons enfants de la Patrie / Le jour de gloire est arrivé!”). Além das medalhas, ainda tem um brinco na orelha esquerda que mais parece uma amostra da pesca! Os três militares e o pistoleiro Corão unem forças em prol de um objetivo comum. Mas o lema é “Confiar é bom. Mas não confiar é melhor!”.


Eis os três militares!

Este filme já tem alguns momentos cómicos (poucos, felizmente) e o chamado “body count” supera as palhaçadas. E quando digo “body count” não me refiro ao “Smoked Pork”, ao “Body Count’s in the House”, ao “Cop Killer” e nem sequer ao Ice-T. “Body Count”, neste contexto, é pura e simplesmente “contagem de cadáveres”.


Um parvalhão de uniforme.

Os dois protagonistas são os atores Gianni Garko e Stephen Boyd. À época, Garko era um veterano dos westerns-spaghetti (o imortal Sartana). Boyd triunfou no cinema épico. Foi o vilão Messala em “Ben-Hur” (1959), foi o general romano Gaio Metelo Lívio em “A Queda do Império Romano” (1964) e interpretou o rei Nimrod em “A Bíblia” (1966).


Bonita gravata!

Mas a maior curiosidade deste filme é o facto de ter um pistoleiro que não tem um nome católico! Aleluia, Sacramento, Camposanto, Spirito Santo, Requiescant… já foram! Desta vez temos um pistoleiro chamado Corão, que lê o Corão (ou é Alcorão?), tem o taqiyah na cabeça, tem as contas e é muçulmano. E porquê esta mudança de religião nos westerns-spaghetti? Porquê trocar a igreja pela mesquita? A minha cabeça maluca sugere-me duas razões:

1.ª – Para tentar ser diferente.
2.ª – Porque o público já estava farto de “cheira a padres”, “ratas da sacristia” e “papa-missas”, apesar de esses personagens terem mandado centenas de almas para junto do Criador. 

Amém!
Perdão. Inshallah!

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"Awwwwwwwwww shit. Body Count's in the house, Body Count!"

22/03/2013

Fora de tópico | Lançamento "Die Koch Media Italowestern-Enzyklopädie No. 2"


A edição do primeiro volume desta nova colecção da Koch Media foi adiada uma porrada de vezes, e agora que finalmente executo a minha encomenda online reparo que já anunciam mais um volume. Desta vez agruparam o clássico "California" com outros três títulos menos badalados: "Dio li crea... Io li ammazzo!", "Dio non paga il sabato" e "Campa carogna... la taglia cresce". A edição está prevista para meados de Maio. Mais despesas...

18/06/2012

L'ira di Dio (1968 / Realizador: Alberto Cardone)

Depois de ter assistido a alguns bons filmes do italiano Alberto Garrone - lote de onde destaco “Sette dollari sul rosso” ou “Mille dollari sul nero” - decidi tentar por a mão na restante filmografia western do prolífico realizador. Felizmente a maioria das coisas que viria a descobrir são bastante consoladoras mas como diz o povo não há bela sem senão, também esbarrei em grandes desilusões. Assim pelas piores razões destaco este “L’ira di Dio”

O meu desapontamento com o filme começou infelizmente muito cedo, logo nas cenas iniciais o realizador arrisca fazer uma série de brutas transições entre cenários verdejantes e outros completamente áridos e rochosos. A coisa é feita de uma forma tão brusca que os olhos do espectador não conseguem ficar indiferentes. É sabido que estas despreocupações cénicas eram fruto da época, em que muitas produções de baixo orçamento tiveram de improvisar para conseguir completar as suas películas mas há pormenores como este que poderiam ser resolvidos de forma menos estrambólica. 

Para além deste pormenor, infelizmente também o rumo do filme se entende demasiado cedo. Sem surpresas Cardone entrega-nos mais uma singela história de vingança pessoal, o lugar mais comum destas produções europeias. E nem sequer a tentativa de twist final é conseguida, tal a previsibilidade que foi conferida à narrativa do filme. E é pena porque o elenco do filme é bastante razoável, surgem por aqui uma série de caras bem conhecidas do western-spaghetti de onde se destacam os vilões Fernando Sancho e Wayde Preston.


O papel principal do filme é de Brett Halsey (que aqui ainda assinou com o seu alias Montgomery Ford), ele encarna nesta ocasião um personagem não muito diferente do que interpretou no clássico de Tonino Cervi, “Oggi a me… domani a te”. Tal como a personagem Bill Kiowa também este Mike Barnett carrega um rosto pesaroso e melancólico, acentuado ainda pelas vestes negras, reminiscentes de outro sombrio herói do western-spaghetti, “Django”

Mike Barnett (Brett Halsey) tenciona assentar arraiais com a sua amada Jane. O negócio de compra das terras a David (Angel Del Pozo) está forjado mas ao chegar a casa é surpreendido por um grupo de sete malandros, que lhe matam a mulher e roubam os 10000 dólares destinados ao negócio. Barnett ainda consegue dar troco aos prevaricadores mas acaba sovado e baleado. Os sete homens abandonam então o local do crime, deixando sarcasticamente sete moedas de dólar no sítio onde antes moravam os 10000 dólares.


Sem surpresas começa então a vendetta de Mike Barnett, que parte em busca dos assassinos da sua mulher. Por estranho que se pareça estes haverão de lhe aparecer pelo caminho sem que o nosso vingador de ocasião necessite despender tempo em grandes indagações. Mas ainda mais difícil de explicar é a razão pelo qual os velhacos não reconhecem imediatamente Barnett, dado o seu encontro anterior. Na verdade a quantidade de grosseiras falhas que o filme apresenta é desconcertante.  

Uma das cenas mais estapafúrdias do filme acontece logo após o genérico inicial. Nesta cena um grande zoom é feito sobre a arma de Mike Barnett, enquanto este carrega o seu colt. Este aumento na focagem permite ao espectador observar uma interessante inscrição na arma: Made in Italy. Evitável por um lado, mas divertidíssima por outro. 



A febre do western-spaghetti pariu algum cinema vibrante e inovador, mas também muito filme apatetado e desinteressante, é neste pote que temos de meter “L’ira di Dio”. Mantenho a minha admiração pelo trabalho de Alberto Cardone, a quem reconheço o mérito de ter realizado uma série de westerns decentes sem grandes orçamentos mas este filme foi um tiro no pé!


Mais algumas cenas deste escusável capitulo: