
Nosso querido spaghetti westerns sempre soube experimentar novos horizontes. Seja na ‘politização’ dos chamados zapata westerns, que também transferia o tempo espaço, da região fronteiriça entre Texas e México, em meados da segunda metade do século XIX, para o coração da revolução Mexicana na virada para o século XX, vide filmes como “Quién Sabe?” ou “Tepepa”. Seja no humor cartunesco da dupla Terence Hill e Bud Spencer. O fato é que o faroeste italiano sempre procurou renovar, e “O’ Cangaceiro”, se não criou escola, pelo menos é um dos exemplares mais curiosos. Filmado no Brasil, trocando o western norte-americano pelo nordeste brasileiro, pistoleiros por cangaceiros.
Cangaço, para quem não está familiarizado, foi um fenômeno social que ocorreu nas regiões áridas do nordeste brasileiro, entre o século XVIII e meados do século XX. Os cangaceiros eram bandos de bandidos nômades, que atravessam a região, saqueando cidades e enfrentando autoridades. Há quem veja nos cangaceiros uma espécie de resposta da miséria dos camponeses ao descaso do Estado. O cangaceiro mais famoso de todos foi Virgulino Ferreira, o Lampião.

Filmado na região da Bahia e Pernambuco, “O’ Cangaceiro” (essa apóstrofe no “O” colocado pelos italianos, é algo completamente alienígena a língua portuguesa, mas deixamos assim não pode ser confundido como “O Cangaceiro” (desta vez com grafia correta), clássico do cinema brasileiro de 1953, dirigido por Lima Barreto, uma obra grandiosa, com influências dos westerns de Ford e Hawks, até o cinema de Serguei Eisenstein, e que inaugurou um filão de filmes de cangaço, que no Brasil ficou conhecido como ‘nordestern’, filmes que são inseridos também nos chamados “feijoadas western”, faroestes filmados no Brasil. Mas voltamos ao spaghetti de 1969.
Esta co-produção entre Itália e Espanha abre com a música “Mulher Rendeira”, clássica do cancioneiro nordestino, cuja autoria da letra é atribuída a Lampião. O filme começa com soldados indo matar cangaceiros, infringindo um massacre indiscriminado na região, incluindo homens inocentes, mulheres e a vaca do pobre camponês Espedito (nosso querido careteiro Tomas Milian), que sobrevive a matança e cai nas mãos de um velho eremita, com ares de Antônio Conselheiro (o mais famoso lunático religioso do sertão), reparem na jovem moça que anda com o velho, pequena participação da Baby Consuelo, que mais tarde se tornaria uma famosa cantora no Brasil.

Depois Espedito passa também a sair por aí pregando, como um místico louco pelo deserto brasileiro, aliás, uma figura marcante no imaginário latino-americano, que nos remete ao São Sebastião de “Deus e o Diabo na terra do Sol” de Glauber Rocha (personagem que inspirou o de Klaus Kinski no supracitado “Quién Sabe?”), seja no “Simão do deserto” de Buñuel, ou nas figuras errantes de Jodorowski em “El Topo” e “Holy Mountain”. O fato que a fase de ‘pregador’ de Espedito não dura muito, o pobre coitado é preso durante um festejo do exército a uma figura do clero. Na cadeia libera uma rebelião e assim acaba se tornando ele próprio um cangaceiro.
Entra em cena o holandês Vincenzo Helfen (Ugo Pagliai), que trava conhecimento de expedito numa cena bem curiosa. Na verdade o holandês trabalha para uma companhia de petróleo, e junto com o Governador do Estado (o meu vilão favorito dos spaghetti westerns, Eduardo Fajardo), monta um plano mirabolante para limpar a fictícia região de Águas Brancas, que é tão infestada de petróleo quanto de cangaceiros, eles aliciam Espedito a acabar com grupos rivais, em troca lhe dão anistia pelos crimes e uma bela fazenda. Para selar o acordo segue uma interessante cena de um jantar na casa do governador, onde se contrasta a ‘civilidade’ dos brancos ricos presentes, com a selvageria dos brutos cangaceiros.

Segue com Espedito matando impiedosamente seus rivais, mas no fim acaba sendo atraiçoado pelo Governador (esperado, afinal, não se pode confiar em Eduardo Fajardo!), que manda gangstêrs ítalo-americanos, munidos com suas machine guns, para darem cabo nos cangaceiros (o surrealismo aqui não tem limites). Porém, o embate final será entre Espedito e o Governador.
“O’ Cangaceiro”, que no Brasil foi rebatizado como “Rebelião dos brutos’, e nos EUA como “Viva Cangaceiro”, é um filme curioso, não só pelo fator geográfico, único no cinema feito no país da bota, mas por certos elementos, como a relação ambígua entre Espedito e o Holandês, que me remeteu a fórmula dos Zapata western, onde um nativo, ingênuo e bruto, cai nas lorotas do europeu educado (vide “Quien Sabe?”, “Il Mercenario”, “Vamos a Matar, Compañeros”, “Giu là Testa”, e por aí vai).

Giovanni Fago, em seu terceiro filme como diretor, e primeiro como roteirista, conduz o filme com segurança, a trilha de Riz Ortolani é carregada de influências da música brasileira, isto quando não desbanca para um samba puro ou resgata canções locais, como o caso de “Mulher Rendeira”, a fotografia de Alejandro Ulloa explora bem os cenários desolados da caatinga brasileira.
Embora eu more no outro lado do país, fiquei sabendo, há pouco tempo, que o falecido pai de um conhecido meu, que andou pelo nordeste no final dos anos 60, chegou a fazer figuração neste filme. Pena que descobri isto tarde demais. No fim das contas, “O’ Cangaceiro” transcende o mero fator de curiosidade e é um bom spaghetti western, ainda que atípico.
Resenha pela pena do Paulo Blob, só um brasileiro poderia escrever com propriedade sobre o tema do cangaço. O Paulo é um companheiro de longa data, é adepto do mais variado cardápio cinéfilo, incluindo o nosso western-spaghetti.