05/12/2021

SpagvemberFest 2021: Diário de bordo



Tal como aconteceu no ano passado, voltei a dedicar o meu mês de Novembro à grande maratona do western europeu, o Spagvemberfest! Foram trinta dias a conferir um filme deste género ao dia, percorrendo algumas das suas variantes e fases. Como habitualmente tive como objectivo maior reduzir a minha watchlist, mas este ano ficou desde logo estabelecido à partida que se iriam rever alguns spaghettis clássicos para não danar o bem-estar matrimonial! Para a jornada deste ano antecipei-me um pouco e fui desde logo separando aquilo que tencionava ver. 

Tal como em 2020, quis dar chance a alguns DVD/BR que há muito comprara e que nunca tinham tido uso. Preparei também uma pen drive artilhada com tesourinhos que foram aparecendo na pirataria ao longo do ano (TVrips, VHSrips, etc). Outra forma que tencionei desde logo usar foram os serviços de streaming nacionais e neste campo tive a maior das desilusões, não podendo em boa consciência deixar de os criticar. 

No HBO não há absolutamente nada disponível, aliás o serviço parece não lidar muito bem com material mais antigo. Já no Amazon Prime existe um maior catálogo old school e mesmo alguns westerns-spaghetti, mas poucos comparativamente à oferta que o serviço tem noutras regiões do globo. Netflix não tenho, mas suponho que o panorama seja idêntico. Uma tristeza e por isso, sem surpresas tenho de concluir que o fã destes géneros menos populares vai continuar a ser o grande apoiante dos formatos físicos.

No fórum do SWDB o número de aderentes pareceu-me francamente superior ao do ano anterior e como esperado as escolhas individuais e o debate que dessas decorre, acaba sempre por condicionar o resto do bando, algo que muito apreço. Fiquei também agradado por ver surgir no Letterboxd algumas listas feitas por outros confrades que abraçaram o desafio. Desses, lanço um shout-out para o único tuga que lá detectei, o grande Pedro Nora, que também encarou a tarefa não evitando sequer alguns dos títulos do género mais difíceis de digerir! 

E então vamos lá ao meu diário de bordo, avisando desde já o freguês que o post é longo. Se não lhe abona o tempo e a vontade, recomendo a versão simplificada via minha listinha do dito Letterboxd, disponível aqui



1. Così Sia (1972 / Alfio Caltabiano)


Dia de feriado, mas com relativa agitação cá por casa e muita azia provocada por mais uma derrota forasteira d'Os Belenenses a meio da tarde. Opto então por iniciar as hostes com um filme que consiga ver às mijinhas e que não necessite de prestar demasiada atenção. O YouTube está cheio deles e acabo por optar por este Amen. Uma comédia muito ao estilo dos filmes da saga Trinitá mas que infelizmente tem pouquíssima piada. O que tem muito, é patada nas trombas, um oferecimento do grande Luc Merenda, estrela do cinema policial italiano. A acção do filme desenrola-se sob um assalto a um banco por parte de um grupo inusitado, formado por um pistoleiro, um padre, um miúdo carteirista e um velho xexé. Eu até simpatizo com alguns dos filmes do Alfio Caltabiano, mas este é mau demais!


2. Gli eroi di Fort Worth (1964 / Alberto de Martino)


Segundo dia e opto novamente por um filme de quem ninguém fala, logo potencialmente mau, premonição que se confirmaria cena após cena. Curiosamente até tenho o DVD espanhol da Divisa na prateleira há bem mais de 10 anos, mas nunca me deu real gana em vê-lo. Tirado o pó do dito e lida a sinopse até julguei que me ia deparar com alguma originalidade. Senão vejamos: Durante os dias finais da Guerra da Independência, um grupo de soldados confederados formam uma aliança com os índios apaches com o objetivo de confrontar os soldados do Norte estacionados no Fort Worth e assim escapar para o México. Pensei que a fita pudesse ter algum paralelo com o belíssimo “Os Cruéis” de Sergio Corbucci mas estava redondamente enganado. A qualidade do filme é miserável e ainda ele ia a meio e eu só queria que ele acabasse para deixar de ouvir aquela maldita trompete da cavalaria. Em suma, um filme banal, com actuações sofríveis coadjuvada com os piores figurantes que o género conheceu. 


3. El juez de la soga (1972 / Alberto Mariscal)


No fórum do SWDB alguém questionava se os westerns mexicanos estavam em "jogo" nesta maratona. Estando listados na base de dados não poderá haver outra resposta que não fosse afirmativa. Este filão é algo que desconheço, decidi por isso seguir-lhe as pisadas e repesco também eu no YouTube o mesmo filme de que falava: "El juez de la soga". Estéticamente não há como negar os paralelos com os westerns europeus, consigo por isso entender o comentário do sapiente Tom Betts, que frequentemente defende que a chama do género deveria ter seguido com os nossos amigos comedores de tortilhas. Este filme em articular recicla o filme do pistoleiro fantasma, um tipo que aparece e desaparece em momentos chave, eliminando a patifaria com recurso à forca. Achei a montagem do filme péssima, mas valeu pela experiência. Hei-de voltar ao sub-género.


4. Land Raiders (1969 / Nathan Juran)


Ao quarto dia uma opção mais segura, o escolhido foi "O vilão do Arizona" que já andava na minha watchlist há muito tempo. O filme nada deve ao estilo do western-spaghetti mas foi rodado em solo europeu (Espanha e Hungria) e por isso cabe no saco dos euro-westerns. O vilão do título nacional é obviamente o filho da puta do Telly Savalas e a história centra-se nas desavenças entre dois irmãos de ascendência mexicana. Um deles tornou-se num verdadeiro gringo e a sede de poder só lhe é superada pela vontade de aniquilar a raça Apache da região. É um filme produzido por americanos, para público americano. Não diria que é mau mas tem demasiado paleio para o meu gosto.


5. Deadlock (1970 / Roland Klick)


Quinto dia de maratona. A escolha anterior estava insonsa, portanto pedia-se algo mais extravagante para animar a festa. "Deadlock" é uma produção alemã, rodada nos desertos de Israel e conta com o magnífico Mario Adorf no papel principal. Esclareço já que não se trata de um verdadeiro western-spaghetti, na verdade trata-se antes de uma história de gangsters ambientada numa localidade desolada em pleno deserto. Em comum com a ementa spaghetti, o típico trio de trapaceiros e uma soma avultada de dinheiro em jogo. Não é um filme para todos, mas pareceu-me uma boa reinvenção do estilo e uma bonita homenagem aos grandes mestres.


6. Il mio corpo per un poker (1968 / Lina Wertmüller)


Robert Woods não guarda grande espaço no coração para este "A pistoleira de Virginia". O papel dele é anormalmente pequeno e relegado a cenas de flashbacks, que segundo consta terão sido reduzidas por desavenças durante a produção do filme. O filme segue a história de Belle Starr, uma fora-da-lei muito hábil no manejo do Colt e do baralho de cartas. O filme perde-se no vai e vem de flashbacks e está longe de ser espectacular mas tem a particularidade de ser protagonizado por uma mulher (Elsa Martinelli) e realizado também por uma (Lina Wertmüller), creio ter sido a única realizadora a operar no género. O filme vi-o através do serviço tuga da Amazon Prime, que infelizmente tem pouquíssimos westerns disponíveis. Não posso falar pelos outros filmes do catálogo, mas este tem uma legendagem hedionda que talvez passe despercebida com um espectador menos habituado ao italiano. A mim condicionou-me a apreciação.


7. Une corde, un colt (1969 / Robert Hossein)


Depois de ver o marido ser enforcado à porta de casa, Maria pede auxílio a Manuel para vingá-lo seu nome. Este foi a primeira revisão que fiz na maratona deste ano, uma imposição da minha cara-metade, quisesse eu tê-la como companhia na jornada. Algo que fiz com muito agrado! O filme é soberbo e felizmente é também sobejamente conhecido pelos fãs do género. Uma homenagem de francês Robert Hossein ao seu amigo Sergio Leone, que até filma uma cena. É uma homenagem, mas não cai na esparrela da cópia fácil. Pelo contrário, é um dos filmes mais distintos e indispensáveis do género. Já há muito que tenho o blu-ray da Arrow na colecção mas só desta lhe dei uso. Um belo resgate em alta-definição que só melhora a experiência! 


8. Ocaso de un pistolero (1965 / Rafael Romero Marchent)


Primeiro de dois westerns do Rafael Romero Marchent que pretendia ver durante a maratona 2021. Este é precisamente o seu primeiro filme e já várias vezes o tinha tentado ver, mas a cena inicial em que um bebé é fatalmente alvejado fez-me sempre clicar no stop e desistir da investida. Sem surpresas, confirmo ao oitavo dia do meu SpagvemberFest que o filme está pejado de cenas de grande carga dramática, algo que dispensava perfeitamente para um filme visto em início de semana, mas enfim. Quem também se estreia por aqui é Craig Hill, que aqui veste as peles de um pistoleiro aposentado que se vê forçado a pegar de novo nas armas para combater uma injustiça. Um lugar-comum, é certo, mas se não vos faz brotoeja assistir a um spaghetti com pistoleiros impecavelmente barbeados e com escolhas de chapéus duvidosas, então é filme a considerar. Pessoalmente continuo a ter "Garringo" como o melhor dos filmes do amigo Rafael.

9. Fuera de la ley (1964 / León Klimovsky)

Por estes dias já estava claro nas conversas dos usuários do fórum SWDb que estava em curso um movimento não organizado de homenagem ao recém finado George Martin. Alinhei também eu na ideia de colocar um filme dele no cardápio. Como já não tenho muita coisa pendente deste astro espanhol e sendo o objectivo primordial diminuir a watchlist, a escolha recaiu neste "Fuera de la ley". Tal qual a escolha da noite passada temos aqui um western pré-febre leónica e como tal, com um estilo absolutamente clássico. A trama segue a habitual quezília entre gentes honradas e um oligarca abusador, algo que Billy (Martin) terá de resolver. Aqui não temos esquema de co-producão e por isso não é de estranhar que quer elenco, quer equipe técnica seja totalmente espanhola. Mas até para o menos rotinado dos consumidores do género, reconhecerá a maioria do cast. Destaco a fronha do Aldo Sambrell, aqui no invulgar papel de xerife da cidade. Realização rotineira do argentino León Klimovsky.


10. Comin' At Ya! (1981 / Ferdinando Baldi)


Detesto cinema 3D. Razão exclusiva pela qual há muito evito encarar este último western do Tony Anthony. Fi-lo desta vez, mas no formato standard, claro está. O filme começa à “Kill Bill”, um casal está prestes a contrair matrimónio quando dois meliantes rompem portas adentro da igreja. O cavalheiro é baleado e a dama raptada. O que daí advém é o cliché do pistoleiro ao resgate. O filme está claramente montado para empolar a experiência tridimensional e perde real interesse na maior parte do tempo, como já esperava. Mas em defesa do Tony, admitir que o homem não teve nunca medo de arriscar na sua curta carreira. Foi bom voltar a ver a praia de Mónsul, em que me tive a sorte de me banhar há anos atrás e que a generalidade do cinéfilo reconhecerá do clássico “Indiana Jones e a Grande Cruzada”.


11. Uccidete Johnny Ringo (1966 / Gianfranco Baldanello)


Reza a história que nas filmagens deste filme, um actor menos experiente deu tal traulitada na mona do Brett Halsey que o deixou tão maltratado, que o desgraçado não teve outra hipótese que passar o resto das filmagens de chapéu bem assente. Halsey é aqu um ranger do Texas em missão numa pequena cidade onde há diversos indícios de existência de um esquema de notas falsas. No decorrer da sua investigação não faltarão meliantes zarolhos a tentar matá-lo. É um dos primeiros registos de Gianfranco Baldanello, realizador que nos deu o notável "Black Jack". A qualidade de um e outro é incomparável. 


12. Il figlio di Zorro (1973 / Gianfranco Baldanello)


Segunda noite seguida com um filme de Gianfranco Baldanello. Agora num registo bastante diferente, um Zorro-spaghetti, uma das ramificações que o westerns-spaghetti viu crescer e que a maioria dos usuários do SWDB adora odiar! Não faltam filmes destes na minha watchlist e no ano passado até tinha sido surpreendido com um bem decente, a saber: "El Zorro". O justiceiro mascarado é aqui vivido pelo cara de bebé, Alberto Dell'Acqua, um actor fraquíssimo que em nada honra o famoso personagem. A contrabalançar temos uma série de nomes mais sonantes nos papéis secundários: Fernando Sancho, William Berger, George Wang. Sinceramente acho que teria encontrado mais acção na troca de galhardetes entre o Rui Rio e o Paulo Rangel.


13. Faccia a faccia (1967 / Sergio Sollima)


Segunda revisão e novamente de um filmaço! Já lá vão uns aninhos valentes desde que o vi pela última vez. Desde então surgiram versões DVD e até blu-ray, todas incrivelmente superiores ao meu velhinho DVD espanhol. Há anos atrás fiz o upgrade para a edição da Explosive Media, e a revisão foi feita com esse mesmo. A versão que vi desta volta foi a inglesa, que permite perceber a quantidade enorme de cortes que a versão internacional levou, não diferente da tal versão espanhola, também ela super-retalhada. Não diria que a existência destes minutos extra mudam drasticamente o filme, mas que lhe dá um novo ímpeto, dá. O filme é incrível, a evolução dos dois personagens principais é extraordinária. É um filme que merecia mais amor, muito mais amor.


14. Hannie Caulder (1971 / Burt Kennedy)



Primeiro e único western inglês a entrar na minha maratona deste ano. Além da beldade Raquel Welch, temos aqui um elenco clássico, com Jack Elam, Ernest Borgnine e Christopher Lee. A história segue obviamente as aventuras de Hannie Caulder, uma mulher abusada num certo dia por um bando de maltrapilhos com pouco jeito para a vida do crime. Ajudada por um caçador de recompensas, Hannie aprende a manejar o colt e dá caça aos violadores. Meu Deus! Como é possível que o poster internacional do filme seja tão enganador. Não senhor, o filme não é uma comédia, na verdade até é bastante gráfico nas muitas cenas de tiroteio. Tem sim algumas diferenças de tom que são totalmente despropositadas e prejudicam o resultado final. Seja como for, saiu melhor que a encomenda!


15. Di Tresette ce n'è uno, tutti gli altri son nessuno (1974 / Giuliano Carnimeo)


Metade da jornada feita e sinto-me novamente com fôlego para enfrentar uma paródia à italiana. Comprei o DVD deste filme em Itália há uma vida atrás, mas não tive coragem de o ver durante este tempo todo. Et voila. A maratona serve também para enfrentarmos os nossos maiores medos e que puta loucura temos nós aqui! Contra todas as minhas melhores expectativas, cedo em diversas situações aos gags fáceis e nem precisei de ajuda de um calicezinho de moscatel. É um filme de malucos, sobre maluquices, mas foi realizado por um não-maluco e isso nota-se no bom trabalho de câmara e montagem. Colocando-se facilmente a milhas das muitas cópias rascas fagiolli-western's à moda de Trinità, que na verdade até imita sem rodeios. Filme com melhor uso de um penico num westerns-spaghetti!


16. Take A Hard Ride (1975 / Antonio Margheriti)


Mais uma volta e mais um DVD a sair da prateleira para o leitor pela primeira vez. O escolhido foi o "Cavalgada Fantástica". Pois é, depois de um crossover entre western e artes marciais, Margheriti aventurou-se numa nova mescla, desta com o blaxploitation. As estrelas da companhia são naturalmente as negras, com três grandes nomes do género: Jim Brown, Fred Williamson e Jim Kelly. A estes junta-se outro grande nome, Lee Van Cleef, este já no seu derradeiro declínio enquanto actor e num papel penoso para quem nos habituámos a ver interpretar os pistoleiros implacáveis. O filme foi rodado maioritariamente nas Canárias, o que lhe dá um panorama bastante diferente do westerns-spaghetti mais habitual. De especial nota, as cenas de acção a cavalo mais arriscadas que vi no género. Algo a um nível não inferior ao “Cavalgada dos Destemidos” de Kirk Douglas e que hoje em dia seriam certamente feitas por CGI. É de facto um filme cheio de acção mas que no fim de contas parece tudo menos um spaghetti. Fosse eu o Antonio Margheriti, teria dado mais cenas de pancadaria ao Jim Kelly!


17. Dos pistolas gemelas (1966 / Rafael Romero Marchent)


Segunda entrada para o senhor Rafael Romero Marchent no meu Spagvemberfest. E se a minha primeira escolha - Ocaso de un pistolero - pautava pela carga dramática, este prometia estar nos antípodas. Num estilo não muito diferente do infame “Rita no Oeste”, temos aqui as irmãs gémeas Pili e Mili a tomar as rédeas da acção. Elas cantam, dançam e claro, manejam o colt com incrível astúcia. mais uma produção rodada nos estúdios Mini Hollywood (Almeria), cenário que se tem repetido nos filmes que fui assistindo nesta maratona. Maior repetição que essa só mesmo a presença do actor Luis Induni! Consigo suportar westerns mais tradicionais, mas custa-me lidar com estas trapalhadas, sem dúvida um dos mais difíceis de suportar da jornada.


18. Johnny Yuma (1966 / Romolo Girolami)


Com mais de 350 filmes do género já logados, não acreditava que viesse a encontrar ouro esta fase do campeonato. Sorte a minha ainda ter esbarrado com alguns filmes decentes e ao décimo oitavo dia da maratona acertei mesmo com um bastante bom: “Johnny Yuma, o Vingador”. O título nacional entrega o motif de bandeja: Vingança! O lugar é comum no género mas uns fazem-no melhor que outros e este Romolo Guerrieri fê-lo muito bem, entregando um filme bem balanceado entre a boa disposição e o drama, não poupando sequer o assassinato de uma criança. Curiosamente este era mais um que tinha na prateleira há alguns anos mas como não vou muito à bola com o Mark Damon, ficou a apanhar pó juntamente com os outros patinhos feios. Continuo a achar que Damon teria sido um péssimo Django, mas neste papel de vingador bem-humorado está muito bem!


19. Django il bastardo (1969 / Sergio Garrone)


Temi não ver nenhum filme neste décimo-nono dia, desde cedo que me incomodava uma grande uma grande carraspana, que só piorou ao longo do dia. Felizmente o filme programado para a sessão noturna era bom. E este foi uma escolha pessoal da minha companheira que adora esta representação mais fantasmagórica do pistoleiro vingador soturno. Tenho de admitir que frequentemente temo ao revisitar estes filmes que guardo naquele cantinho especial do coração, folguei por isso em constatar que este envelheceu muitíssimo bem e a existência de novas versões HD só melhoram a experiência. Um filme obrigatório para os fregueses que já viram a filmografia western dos três Sergios de cabo a rabo e procuram agora algo mais refrescante. Melhor filme do Anthony Steffen!


20. Cabalgando hacia la muerte (El Zorro) (1962 / Joaquín Luis Romero Marchent)


Com os níveis repostos nas noites anteriores, sentia-me já capaz de regressar a terrenos mais pantanosos. E porque não arriscar mais um Zorro? Este é bem antigo, data de 1962 e é realizado pelo veterano Joaquín Luis Romero Marchent, que dedicou uma boa parte da carreira a adaptar este personagem (ou outras fotocopiadas) para o cinema. Qualitativamente, e para minha sorte este filme está a léguas do outro Zorro que assisti no início da jornada. Marchent era claramente um homem sabedor das suas artes e mesmo para um filme tão madrugador, safou-se razoavelmente. Como manda a lei neste sub-género, o filme entrega muita acrobacia e muito truque a cavalo. Tendo provavelmente uma dose deficitária de cenas de espadachim, algo que a mim não me beliscou. Sem surpresas para um filme de 1962, o elenco é praticamente todo ele castelhano, apesar de ter um gringo no papel do justiceiro mascarado. A versão que assisti é uma manta de retalhos montada por um fã mais habilidoso. Visualmente a versão é manhosa mas as cenas extra dão mais qualidade ao produto. O meu agradecimento ao artista.


21. Bianco Apache (1986 / Claudio Fragasso & Bruno Mattei)


A dupla Fragasso/Mattei é responsável por um sem número de clássicos do cinema exploitation. Vi muitos desses e alguns admito que alguns são divertidos (Rats - Notte di terrore), mas a maioria são apenas cópias mal feitas de sucessos de bilheteira americanos. Como o filme data de 1986, uma época em que já não se rodavam westerns em Almeria, estava temeroso de que fosse mais uma extravagância da dupla, mas para meu espanto o filme é bastante conservador. A história é a de um miúdo branco que se vê criado entre apaches depois de a sua família ser massacrada por um bando de patifes cartonescos. Anos depois, no seguimento de um caso amoroso, há um desentendimento com irmão apache e o rapaz lá terá que abandonar a tribo e encarar a sociedade do homem branco que nunca conheceu. Não gostei dos filtros usados no filme mas gostei da generalidade da proposta. A abordagem racial é bastante aceitável e até ver este é o filme mais mainstream de tudo o que vi destas duas alminhas. Seria até um western normal não existissem tantas cenas de ultra brutalidade. 


22. Scalps, venganza india (1986 / Bruno Mattei & Claudio Fragasso)


A rapaziada do Facebook influenciou largamente a decisão de ter continuado a maratona com mais um filme com marca Mattei/Fragasso. O filme tem muitos paralelos com o da noite anterior e por isso não estranho que sejam considerados filmes gémeos. Ora se no primeiro filme tínhamos um índio como protagonista ostracizado, neste temos uma mudança de sexo na personagem principal. O clã Harrison continuou envolvido no projecto, desta vez com a participação do papá Richard no roteiro. Pelo que li por aí, era suposto que ele tivesse uma responsabilidade maior no projecto, mas os problemas financeiros definiram os limites da participação. Mais uma vez fiquei agradado com a proposta, adorei a dose extra de violência e até fiquei aqui a pensar que esta dupla poderia muito bem ter feito mais alguns filmes do género. É que apesar de o filme ter uma ou outra cena deliberadamente roubada (neste temos a cena da tortura de Vassili Karis, sacada do “O Homem a Quem Chamaram Cavalo”) até conseguem ser mais originais que as maluquices que eles fariam anos depois. Esses clássicos ripoff que toda a gente conhece: “O Regresso do Exterminador” “Robowar - A Máquina da Morte”.


23. Degueyo (1965 / Giuseppe Vari)

Danger City é atacada pelos bandidos do seboso Ramon que procuram uma soma avultada. Incapazes de encontrar o dinheiro, os bandidos matam ou tomam como reféns todos os homens, deixando apenas mulheres e crianças na cidade. Um grupo de forasteiros vai ajudar a restabelecer a ordem. Giuseppe Vari é na minha opinião um dos bons realizadores do grupo dos autores menos consagrados do western italiano, os filmes dele são invariavelmente produções modestas, mas destacam-se no meio das centenas de filmes dessa safra. Este “Degueyo” é um dos dois dele que não conhecia e até ver o único que me desapontou, a mim pareceu-me uma espécie de novela mexicana. A versão que assisti foi um TVrip da Rai em que algum bom samaritano colocou um áudio espanhol das américas. Talvez essa dobragem me tenha adormecido ou então foi mesmo o cansaço natural de quem anda há 23 dias praticamente só a ver westerns-spaghetti. Vou dar-lhe uma revisada lá mais para a frente se, entretanto, surgir alguma versão com áudio diferente.


24. Captain Apache (1971 / Alexander Singer)

Não tinha planeado mas acabei por voltar a ver um filme com o Lee Van Cleef ao vigésimo-quarto dia de maratona. Este “Capitão Apache” já o tinha começado a ver algures no passado, mas não consegui lidar com o péssimo genérico inicial, que conta com uma cantoria do nosso estimado LVC. Desta vez enfrentei o monstro com a ajuda de meia garrafa de moscatel. Não estava muito enganado nas expectativas, o filme ainda que tenha a presença de uma série de actores europeus habitués do género e de ser rodado em Almeria, não deve absolutamente nada ao estilo que todos reconhecem ao western-spaghetti. Música errada, bla-bla-bla sem fim e enredo demasiado intrincado para o seu próprio bem. Resumindo, focado num mistério que demora demasiado tempo a ser explicado. Para a história fica apenas a magnifica peruca de Lee Van Cleef!


25. Anche nel west c'era una volta Dio (1968 / Marino Girolami)


Ao vigésimo quinto-dia apetecia-me tudo menos ver um western-spaghetti. Chatices no trabalho, duas escolhas menos felizes nas noites anteriores e a fadiga naturalmente provocada pela overdose de consumo de um só género cinematográfico. Qual macumba, os primeiros dois filmes da pen drive que piquei, deram ambos erro de leitura. Ao terceiro lá funcionou e o filme foi este “Anche nel west c'era una volta Dio”, que é curiosamente uma adaptação para o velho oeste do clássico da literatura “A Ilha do Tesouro”. Os italianos tinham estas ideias malucas e a coisa correu moderadamente bem mesmo sem barcos, ilhas ou piratas pernas de pau! A realização foi do veterano Marino Girolami, papá do favorito dos amantes de cinema de acção europeu, Enzo Castellari. Bom elenco com destaque para o impecável Gilbert Roland e Roberto Camardiel no seu typecast. Nódoa no pano do Richard Harrison, completamente inexpressivo.


26. Valdez, il mezzosangue (1973 / John Sturges)

Chino Valdez, um criador de cavalos mestiço, contrata um rapazola que fugiu de casa para ser seu ajudante. Quase simultaneamente, ele concorda em vender um cavalo e ensinar a montar a esbelta irmã do maior rancheiro da região (Jill Ireland, companheira de longa data de Bronson). Daqui nasce um enredo amoroso que terá consequências dramáticas para todos os envolvidos. Apesar de rodado em Espanha e ter alguma gente europeia envolvida no elenco e equipa técnica não encontrei aqui qualquer relação de estilo com o típico western-spaghetti. Fiquei sobretudo desapontado com a ponta final do filme, que não resolve a situação de forma satisfatória. Não é o filme que esperava do John Sturges (Os Sete Magníficos).


27. La Resa dei conti (1966 / Sergio Sollima)


Ao vigésimo sétimo dia de Novembro chegou o momento de rever este filmaço de Sergio Sollima, um dos spaghettis que facilmente se bate com a trilogia de Leone. E eu já não o via há mais de uma década, se não estou enganado terá sido lá nos primórdios de vida deste blogue. Na época não era um filme fácil de encontrar e a edição cristalina ainda estava por ser descoberta. Felizmente, em 2021 existem diversas versões HD no mercado e por alinhamento dos astros até passou por estes dias uma versão bonitona na grelha do FOX Movies Portugal. A trama envolve John Corbett (Lee Van Cleef), um caçador de recompensas que é levado a caçar Cuchillo Sanchez, um camponês mexicano acusado de violar e matar uma menina de 12 anos. Um enredo simples, mas clássico, dirigido de forma magistral por Sergio Sollima. Um dos melhores duelos que alguma vez assistirão, está aqui mesmo!


28. La ciudad maldita (1978 / Juan Bosch)


Chegou a ser um dos westerns-spaghetti perdidos para o mundo. A páginas tantas lá apareceu uma versão que apenas poucos tiveram acesso. E em 2021, sem qualquer explicação, está à distância de um click num desses sítios mal-afamados. Sobre o filme dizer-vos que segue a linha de um qualquer filme da saga Sartana mas sem o magnetismo do estupendo Gianni Garko, que boatos dizem até ter sido a primeira escolha para o papel. Mas faltou graveto e quem protagonizou foi um tal de Chet Bakon, um actor que depois deste filme (o seu primeiro) desapareceu sem deixar rasto! 


29. Lucky Luke (1991 / Terence Hill)


Há muito que andava para rever este filme realizado e protagonizado por Terence Hill, numa época em que o western-spaghetti já era apenas uma memória distante. O filme é obviamente uma adaptação para cinema da personagem da banda desenhada, Lucky Luke, mais especificamente uma adaptação do livro “Daisy Town”. E a ideia era servir de piloto a uma série de televisão direcionada para um publico mais infantil. Eu recordo-me de a ter visto quer na TV nacional quer na espanhola em meados de noventas, mas além do genérico pouco ou nada recordo. Casualmente acabei por sacar o dito “Daisy Town” da prateleira e lê-lo antes de começar a ver o filme. Talvez por isso fiquei bem desagradado com a adaptação, que nem é fiel á trama apresentada no livro nem ao seu humor. Se bem me recordo, o filme de 2009 com Jean Dujardin no papel do cowboy solitário dá quinze a zero a este. Mais valia ter revisto esse. 


30. Winnetou I (1963 / Harald Reinl)



Último dia de overdose spagvemberfest! Para fim de maratona, tal como no ano passado, resolvi alinhar mais um capítulo da saga Winnetou. Não estou bem informado sobre estes filmes, mas desde logo estranhei que as personagens do filme que vi no ano passado (O Tesouro do Lago da Prata) se tratem aqui como desconhecidos. Não apreciei essa falta de continuidade, mas porventura haverá uma explicação. O elenco é recheado de nomes sonantes, além de Pierre Brice (Winnetou), Lex Barker (Old Shatterhand), ainda temos Mario Adorf e Walter Barnes. A acção envolve obviamente brigas entre índios e cowboys, desta vez motivadas pela construção de uma linha férrea, há ainda um sub-plot relacionado com brigas inter-tribos. Achei-o muito inferior ao capitulo que tinha visto no ano passado mas novamente de realçar os cenários espectaculares, muito bem captados na fotografia. E foi isto meus amigos, para o ano há mais!

07/11/2021

À conversa com António Araújo no Podcast Segundo Take: Episódio 304 / Remake à moda do western spaghetti

Estivemos recentemente à conversa com o ilustre António Araújo, no seu Podcast Segundo Take. O pretexto foi falarmos um pouco de nós, do livro Por um Punhado de Euros - O Génio de Leone, o caixão de Django e a loucura de Fidani e claro do western-spaghetti com foco no clássico "E Dio disse a Caino" e o filme que o precedeu "Un straniero a Paso Bravo". O episódio está agora online e podem ouvi-lo directamente no sítio www.segundotake.com ou nas plataformas habituais. Abaixo o player para uma dessas!

31/10/2021

Está a chegar mais um SpagvemberFest! Vais ficar de fora?


O mês de Novembro está a chegar e como é habitual a página The Spaghetti Western Database - SWDb abre o seu SpagvemberFest. A proposta é simples, durante um mês vamos todos meter os blockbusters da moda de lado e entregar as programações caseiras aos westerns-spaghetti. Revejam clássicos, descubram filmes fantásticos que não imaginavam existir! E encham as timelines das vossas redes sociais de coboiada europeia. E claro, usem a hastag para ampliar a mensagem! #spagvemberfest 

Onde saber mais sobre o SpagvemberFest:
Não sabes que filmes escolher? Temos algumas sugestões:


17/10/2021

Oeste Nevada Joe (1964 / Realizador: Ignacio F. Iquino)



O renomeado pistoleiro Joe Dexter, chega à cidade mineira de Golden Hill. Procura alojamento e algo para afagar o pó do deserto, mas não tarda a envolver-se num duelo em curso no saloon da cidade. A sua destreza no manejo do colt garante-lhe sucesso imediato e o pulha que acabara de matar um homem à traição, recebe a paga em chumbo quente. A dona do saloon, Mary Blue, fica extremamente impressionada com o feito e rapidamente tenta convencê-lo a trabalhar para ela. No entanto o pistoleiro não demonstra qualquer interesse em trabalhar para uma mulher, ignorando até a asinha que a bela Mary Blue lhe lança. 

George Martin e a guapíssima Katia Loritz.

Não tardará o momento em que outra mulher lhe oferece proposta idêntica. Desta vez será Julia Brooks, a dona de uma das maiores minas da região. Julia tem entre mão um problemão: os seus carregamentos de minério são frequentemente usurpados e precisa urgentemente de alguém que lidere os seus homens! Nitidamente acostumada a lidar com grandes imbróglios, não está com meias palavras e manda os capangas encurralar Joe e levá-lo até ela. Ora, Joe não aprecia a coação e declina a oferta de trabalho, mas não sem antes dar uma valente lambada aos capangas. Alguns dias depois, um novo envio de minério ocorre e mais uma vez é atacado. Desta até Julia acaba ferida, acontecimento que vai fazer com que Joe mude de ideias abraçando a tarefa. 

Joe é encurralado, ou será que se deixou encurralar?

Ignacio F. Iquino, um dos valentes do cinema espanhol de género, assume a escrita, a produção e a realização deste “Oeste Nevada Joe”. As influências do western clássico americano são incontestáveis, com bastantes paralelos com o “Johnny Guitar” de Nicholas Ray. O que estou certo fará muitos decliná-lo entre outra qualquer escolha do filão western-spaghetti. Não serei eu a dizer-vos a fazerem o contrário, acreditem. Trata-se evidentemente de um filme desprovido da violência, a que nos habituámos no pós-Leone. Mas se não vieram aqui parar por engano, acredito que nalgum momento já terão visto algum filme com a participação do espanhol, George Martin. Um verdadeiro ginasta, mestre na arte de bem socar, rebolar e saltar. Portanto se apreciam um western com maior dose de luta mano-a-mano que tiroteios, provavelmente não ficarão desiludidos. Novos fãs, devem esquecê-lo por ora.

Para reflectires sobre a quem apontas o rifle.

George Martin é na verdade o alias de Francisco Martínez Celeiro. Ele foi um dos primeiros astros do western europeu. Extremamente activo desde os primeiros anos do filão, assumindo quase sempre a personagem principal dos seus westerns chegando mesmo a assumir em situações pontuais a função de realizador, como aconteceu no «filme fantasma», “Vamos a matar Sartana” (saibam mais sobre esse episódio rocambolesco aqui).

Estes mineiros não são de fiar.

Mas nem sempre tivemos um Martin de bom coração, na verdade muitos lembrar-se-ão dele sobretudo pelas suas entregas enquanto vilão nos imperdíveis: “O Regresso de Ringo” de Duccio Tessari e “O Prazer de Matar” de Tonino Valerii. Também fez filmes de aventuras, espionagem, terror e giallo, abandonando a arte em meados de setentas com o aproximar do declínio deste tipo de cinema. 

George Martin faleceu em Miami no passado mês de Setembro, vitima de ataque cardíaco causado por insuficiência renal derivada de uma obstipação grave. A sua saúde ficara fragilizada nos seus últimos meses de vida desde que fora infectado com COVID-19…
RIP

05/09/2021

L'uomo della valle maledetta (1964 / Realizador: Siro Marcellini)


Muitas vezes por cá temos falado de westerns-spaghetti com sabor a western clássico. De todos os que assisti este foi provavelmente aquele que, não soubesse eu da sua origem, facilmente tomaria por uma produção gringa. Tal o ambiente! Há muitos factores que para isso contribuem, mas a razão principal atribuo-a à banda sonora, tirada a papel químico de um qualquer western B americano. Genuinamente americano é o protagonista da fita, o bonitão Ty Hardin. Actor que tal como Clint Eastwood, também voou para Itália depois de se dar a conhecer em terras do Tio Sam numa série de televisão de temática western. No caso de Hardin, a sua personagem Bronco Layne foi curiosamente transitando entre shows, primeiro em “Maverick”, “Cheyenne” e “Sugarfoot”, até firmar-se em solo no seu próprio título, em “Bronco”. 

Ty Hardin, o bom samaritano.

E por Itália ficaria durante muitos anos onde trabalhou sobretudo em, claro está, westerns. Infelizmente para ele nenhum deles de real nota, e por isso votados na esmagadora ao esquecimento.  A estreia deu-se precisamente com este “O Pistoleiro do Vale Maldito”. A trama do filme é tão simplória que dói. Consigo até imaginá-la numa versão encurtada como um episódio de uma série de TV, mas não funciona numa longa. Sobretudo com a erosão dos anos. 

Tudo começa numa tenda índia. Uma mulher branca está prestes a ser abusada por um trio de apaches (alguns mais branquelas que eu, é esse o nível da produção), nesse mesmo momento o marido irrompe por adentro do tipi e a porrada começa. A mulher dá à soleta durante a confusão, visivelmente abalada acaba por deslizar por uma ravina abaixo. Por sorte Johnny (Ty Hardin) está por perto e resgata-a. Mas no encalce seguirão ainda assim os apaches, esses desgraçados que a TV e cinema americano se encarregou de demonizar em anos e anos de produções westerns. Esta não é uma ameaça que o western-spaghetti nos habituou a incluir no menu, e quando o fizeram, os resultados foram quase sempre modestos.   

Os vilões mais insípidos que poderíamos ter. 

O desenvolvimento da acção lá segue com briguinhas entre índios e cowboys, num ritmo francamente sonolento, tendo ainda assim o mérito de abordar temas raciais num estilo muito “Romeu e Julieta”. De recordar que Gianni Puccini, deu também ele uma abordagem em modo western a esse clássico de Willian Shakespeare no espectacular “A fúria de Johnny Kidd”. Esse sim, um filmaço que aguentou bem ao longo dos anos. Já este aqui, remanesce como uma curiosidade para fãs mais completistas do género. 

Ty Hardin ficaria mais 8 anos por Itália, participando igualmente em 8 filmes do género. Em nenhum desses trabalhou com nenhum dos grandes realizadores que por lá gravitavam, e talvez por isso nunca tenha firmado um grande sucesso. Tendo estado porém ás ordens de Sergio Corbucci numa ocasião, mas aí numa produção euro-spy chamada “Bersaglio mobile” que em Portugal veio catalogado como “Homens Desesperados”.

Silêncio que se vai cantar o fado.

Uma curiosidade sobre essa fita, antes de vos deixar ir embora. Se viram o mais recente filme de Quentin Tarantino, “Era Uma Vez em... Hollywood”, provavelmente saberão que ele aborda a vida destes astros da TV americana que nos sessentas tiveram que fazer as malas e partir para Itália. Nesse filme, a personagem Rick Dalton - estrela da série de TV “Bounty Law”- recebe uma proposta de um tal de Sergio Corbucci, «o segundo melhor realizador italiano». 

Tarantino reconta-nos obviamente a história de Burt Reynolds que foi fazer “Navajo Joe” com Corbucci, mas poderia facilmente aplicar-se o mesmo a Clint Eastwood ou a este Ty Hardin. Tal é, que nas cenas seguintes foram inclusive inseridas frames do já citado, “Bersaglio mobile”, numa sequência de perseguição automóvel habilmente cortada e colada entre as novas filmagens com o Leonardo DiCaprio. 

Podem falar mal do tio Tarantino à vontade, mas uma coisa é certa, se não fosse ele, muitos destes filmes de género e pessoal que neles gravitou, estariam votados ao mais profundo esquecimento. Portanto, honra a quem as merece e esquece lá a aposentadoria.


Poster original italiano de “Bersaglio mobile”.



Poster falso para o filme fictício “Operazione Dyno-O-Mite!”.