01/06/2024

Django spara per primo (1966 / Realizador: Alberto De Martino)


A desértica cidade de Silver Creek tem um novo visitante, um misterioso cavaleiro solitário cujas únicas posses parecem ser o seu cavalo, a sua arma e um cadáver que carrega. O nome do forasteiro é Glenn Garwin e o cadáver é do seu pai, um suposto fora-da-lei procurado na implacável cidade de Silver Creek.

Todavia, ao chegar à cidade descobre que o seu pai afinal não era criminoso nenhum, mas sim um empresário aldrabado pelo seu antigo sócio. Esta descoberta leva-o a ficar na cidade, vingar-lhe a morte e tentar reclamar a sua legítima herança.

Acasos da vida: Um caçador de prémios cruza-se com o filho do homem que acabara de mandar para os anjinhos.


E assim estava dado o mote para a primeira apropriação não oficial da personagem Django, uma temática que daria azo nos anos seguintes a dezenas de sequelas sem qualquer ligação ao filme originalmente lançado por Sergio Corbucci. 

Sem surpresas, o personagem interpretado por Glenn Saxon (nome artístico do holandês Roel Bos) tem muito pouco em comum com o lendário homem do caixão. A própria explicação dada para que lhe chamem Django é simplória: «É assim que sou conhecido no México».

Duelo estiloso com as paisagens de Almeria em pano de fundo. 


Glenn Saxon, actor holandês de sorriso maroto, aqui mais se compara aos habituais papeis de Giuliano Gemma do que o taciturno Django, popularizado por Franco Nero. E curiosamente há mesmo uma ligação entre este filme e o pistolero nazionale

Ao que parece a produtora Fida Cinematografica tinha entregue o então projecto de “Per pochi dollari ancora” (em Portugal: “Gringo Não Perdoa”) ao realizador Alberto de Martino, a estrela do filme seria o bello Giuliano. Mas este, desconhecendo ou desmerecendo as qualidades de Martino, forçou a entrega da cadeira de realização a alguém da sua confiança: Giorgio Ferroni! Com quem já trabalhara no fundamental “Um Dólar Furado”.

Não faltam beldades nesta pelicula. 


A produtora para não deixar o pobre Alberto na mão, e visto que ele até se tinha safado na colaboração anterior entre as duas partes, “100.000 Dólares por Ringo”, entregou-lhe então este “Django Atira Primeiro”.  Ficando a segunda unidade desses dois filmes da Fida ao comando do emergente Enzo G. Castellari. Ele que teria de remendar outro pseudo Django nesse mesmo ano, o frenético: “Poucos Dólares para Django”.

29/03/2024

Là dove non batte il sole (1974 / Realizador: Antonio Margheriti)


Em 1974 já o western-spaghetti estava nas ruas da amargura. A produção excessiva fatigara as audiências, a qualidade caíra a pique e as estrelas abandonavam a Itália ou migravam para outros géneros emergentes. As produtoras que insistiam em continuar a financiar westerns, optavam maioritariamente por aproveitar a boleia de Enzo Barboni, que entretanto havia atingido finalmente o sucesso comercial com os seus filmes da saga «Trinitá». 

Outras preferiram apostar em novas fórmulas, misturando histórias no velho oeste com outros géneros. Daí surgiriam filmes de crossover Oriente/Ocidente, que incluíam aspectos da cultura oriental nas suas tramas, apresentando personagens como samurais, lutadores de kung-fu ou de karaté.

Uma dupla improvável.

Antonio Margheriti, reconhecido pelos conhecedores do cinema de género italiano sobretudo pelos seus primeiros trabalhos no horror gótico (“Danza macabra”, “I lunghi capelli della morte”), foi um dos realizadores que apostou fichas neste novo filão. O seu crossover entre o cinema de acção de Hong Kong versus oeste selvagem, resultou com algum efeito, ainda que furos abaixo dos seus dois westerns anteriores (“E Dio disse a Caino” e “Joko invoca Dio... e muori”). 

Para a frente das câmaras Margheriti recuperou um dos actores mais reconhecidos do western europeu, Lee Van Cleef, por esta altura já bastante envelhecido e que aqui interpreta o assaltante azarado, Dakota. A ele junta-se uma das maiores estrelas do cinema de kung-fu, Lo Lieh, actor que na altura já era uma super-estrela na Ásia e que começava a ganhar tracção internacional com as ondas de choque provocadas pelo super-clássico da Shaw Bros: “Five Fingers of Death”

Lee Van Cleef tenta saber o segredo do punho de ferro.

Dakota mete-se num plano arriscado para apoderar-se da fortuna de um chinês chamado Wang. A sua tentativa de roubar o cofre de um banco com dinamite, fracassa quando Wang aparece inesperadamente e morre com o impacto da explosão. Para surpresa de Dakota, o cofre não contém dinheiro, mas sim quatro fotos das amantes de Wang. Dakota é então condenado à morte pelo assassinato, mas o seu destino sofre uma reviravolta inesperada quando o sobrinho do falecido Wang, que é enviado da China por ordem do imperador para recuperar a fortuna da família, intervém para o salvar da forca. 

Juntos, embarcam numa busca desvairada pelas quatro mulheres, cada uma com uma mensagem oculta no seu traseiro! Os dois, enfrentarão a perseguição de um sádico reverendo que se faz apresentar com uma igreja móvel puxada a cavalos, um lutador indígena e um gangue de bandidos mexicanos. 

Longe de ser a última Coca Cola do deserto, este “Onde o Sol Nunca Brilha” ainda consegue entreter com o seu bom humor e com as muitas boas cenas de acção. Mas Antonio Margheriti, não voltaria a tentar esta fórmula e no ano seguinte voltaria com uma nova ideia de um crossover, desta vez misturando o western-spaghetti com o blaxploitation: “Take a Hard Ride”. Aí o resultado roçou o medíocre e esse seria mesmo o último western que assinaria. 

O realizador prosseguiria depois a sua carreira com maior foco no cinema de acção de baixo orçamento, assinando alguns filmes que são ainda hoje clássicos dos tempos dos videoclubes: “Indio”, “The Last Hunter” ou “Tiger Joe”. No terror, aventurou-se num rip-off manhoso do clássico “Piranha”, que transformou no infame “Killer Fish”, mas mais aconselhável será a sua incursão no género zombie, com o filmaço “Cannibal Apocalypse”. Um autor com rendimento inconstante, mas que merece a pena descobrir. 

01/11/2023

Chegou aquela altura do ano: SpagvemberFest 2023!


Começa hoje mais uma edição do #spagvemberfest um evento anual que propõe maratonar westerns-spaghetti durante os trinta dias do mês de Novembro. Saibam mais em The Spaghetti Western Database - SWDb. Participem e divirtam-se!

01/09/2023

Projectos jamais finalizados: Jorge Rivero como Sartana! As conclusões possíveis!


E passado algum tempo, eis que Mike Malloy tira as conclusões possíveis sobre o imbróglio destas produções perdidas. 

26/03/2023

Projectos jamais finalizados: Jorge Rivero como Sartana!


Da série projectos jamais finalizados. Este teria Jorge Rivero como protagonista. Rivero interpretaria a famosa personagem, Sartana. A realização seria de Mario Siciliano (I Vigliacchi Non Pregano), que teria contributo na produção de Venezuelanos e Mexicanos. Mas o projecto nunca viu a luz do dia.

Segundo o relato de Rivero, seriam três filmes, filmados de rajada. Se assim foi, ou não, provavelmente nunca saberemos. O que podemos suportar ao vídeo abaixo, é a informação do investigador do género, Marco Giusti, que no seu Dizionario del western all'italiana refere a existência de dois desses filmes: "Arriva Sartana" e "Adiós Sartana".Para um deles terão chegado a fazer-se locandinas. Investigue-se!

01/11/2022

Começa mais um SpagvemberFest!


O 1° de Novembro assinala o arranque de mais uma maratona SpagvemberFest. A iniciativa da casa mãe The Spaghetti Western Database - SWDb propõe que durante a totalidade do mês de Novembro se mude o chip dos filmes da moda em favor do resgate dos velhinhos westerns-spaghetti. Aproveitem que o frio chegou e deixem as paisagens de Almeria tomar conta dos vossos televisores. Bons filmes!

22/09/2022

Teaser para a série reboot de Django!

 

Vagamente inspirado no filme cult de Sergio Corbucci, "Django" conta a história de um homem que busca vingança e que acaba lutando por algo maior. O primeiro teaser trailer já aí está e regalem-se por ver a excelente Noomi Rapace num papel de peso. Os mais sortudos poderão assistir à estreia em Outubro, no Festival de Cinema de Roma. Não consta que exista previsão de data de distribuição em Portugal. 

16/08/2022

Quei disperati che puzzano di sudore e di morte (1969 / Realizador: Julio Buchs)


Noticias do eminente parto de Rosa, fazem com que o soldado confederado John Warner deserte da sua unidade. Uma fuga que rapidamente termina, por azar ele bate de caras com outra unidade confederada em patrulha no deserto. Devolvido à procedência, decidem as patentes de serviço que em vez de o submeterem a tribunal militar, seja designado à desmoralizante tarefa do enterro de soldados inimigos em valas comuns.

As coisas não correm de feição ao soldado Warner e só tendem a piorar. Na vala encontra um soldado nordista moribundo, o pedido de auxílio que lança é rejeitado e recebe antes ordem para apertar o fagote ao desgraçado. Dá-se uma disputa com oficial ordenante e Warner acaba por matá-lo acidentalmente. Está tudo f*dido! Em pânico, ele e os companheiros designados às valas comuns chegam à conclusão de que não têm outra alternativa senão meter-se ao fresco, certos de que a hierarquia militar não lhes daria o benefício da dúvida.

Warner recusa matar um soldado moribundo.

Ao chegarem a Los Sadros a tragédia adensa-se. A cidade está assolada pela cólera e Rosa morreu no parto. O irrascível Don Pedro Sandoval, pai de Rosa, não está com mais nem boas e mete o recém-nascido nas mãos de Warner, dando-lhe guia de marcha. Mesmo sabendo que este não terá a menor condição para criar a criança. Barra pesada, estimado leitor. Isto não é filme para rapaziada sensível a dramas familiares e muito menos para espectadores dos filmes com final feliz da Fox Life. Pois então, Warner e companheiros partem de Los Sadros com a criança em braços. O estigma da cólera faz com que sejam escorraçados de qualquer sítio onde passem e sem surpresas o recém-nascido sucumbe. Um acto que destruiria qualquer pai. Warner fica destroçado e promete vingança a todos os que lhe negaram a ajuda num momento tão crucial.  

Ora como se percebe, este é um filme de estilo e motivações diferente do típico western-spaghetti. Inegavelmente é também o oposto daquilo que se conhece do restante reportório western de Julio Buchs. Recordando, em “O Homem que Matou Billy the Kid” Buchs enredou pelo uso de um personagem estabelecido no imaginário do típico consumidor de cinema western. E em “Mestizo” abordou típicas escaramuças entre índios e a Polícia Montada Canadiana. Tudo muito clássico e não particularmente interessante. 

Nenhum pai deveria ter que enterrar seu filho

Na verdade, a produção do filme nem sequer era para ser um western e isso pode ajudar a perceber o que fez parir um filme tão fatídico. Aponta Marco Giusti no seu “Dizionario del western all'italiana” que originalmente o filme deveria ser sobre “Los Siete Niños de Écija” 1, um grupo de bandoleros espanhois que nas invasões napoleónicas imprimiram actos de guerrilha sobre o invasor. Os distribuidores gringos não terão ficado entusiasmados e foi preciso repensar o filme como um western-spaghetti.

Apesar do título internacional – A Bullet for Sandoval – dar destaque à personagem de Ernest Borgnine, um actor oscarizado que interpretava qualquer papel com as pernas às costas, parece-me que é justo destacar aqui o trabalho do uruguaio George Hilton. Ele interpreta Warner, o soldado confederado que pelas trágicas circunstâncias da vida se vê transformado num bandolero sem escrúpulos. Um papel que fica a léguas dos habituais pistoleiros sorridentes que somou na sua carreira western e que não se limitaram aos filmes das franquias Aleluia e Tresette. 


Os cabeças de cartaz desta corrida de touros.

Que não hajam dúvidas, este é um espécime que o entusiasta do western-spaghetti não pode perder. Mas não é um filme isento de problemas, o maior será porventura a ténue ponte que é feita entre a primeira parte do filme, carregada de melodrama e a ponta final, uma vendetta tresloucada em que nenhum dos protagonistas parece ter razão que lhes justifique os actos. Mas tudo culmina com grande efeito, num embate numa praça de touros mexicana. Possivelmente uma ideia que Buchs terá sacado do “Pistoleiro Profissional”, filme de Sergio Corbucci lançara no ano anterior. E não, não é um plágio.

16/07/2022

Xeque ao Mestre!


Alô, alô pessoal da pesada! Como devem ter vindo a notar o capim e a poeira estão lentamente a tomar conta do blogue mas ainda aqui se respira. Respira-se, mas mal, que o calor deste Verão está especialmente abrasador! E por isso mesmo deixo aqui o streaming deste disco fresquinho: "Scacco al Maestro - Volume 1". O primeiro que a famosa banda italiana, Calibro 35, edita com um alinhamento inteiramente dedicado ao homem que tornou o nosso género favorito, reconhecível em qualquer parte do planeta: Ennio Morricone. Nos dez temas não faltam alguns clássicos do western-spaghetti e num desses temos mesmo a participação de Matt Bellamy, vocalista dos Muse, aqui a dar provas do quão bem sabe assobiar. Se conseguirem, mantenham-se frescos! 


22/05/2022

12ª Edição do Almería Western Film Festival

 


O ator italiano Carlo Pedersoli aka Bud Spencer (1929-2016) protagoniza o cartaz da 12ª edição do Almería Western Film Festival. Trabalho do reputado ilustrador italiano Tony Stella, uma homenagem aos cartazes italianos dos anos 60 e 70. 

A edição deste ano vai decorrer entre 28 de Setembro e 2 de Outubro e já podem obter informações sobre a programação no sitio do evento, aqui

De recordar que o festival atribuiu o prémio 'Leone in Memoriam' em edições anteriores a profissionais como Fernando Sancho (2016), Tomás Milian (2017), Carlos Simi (2018), George Hilton (2019), Sergio Sollima (2020) e Ennio Morricone (2021). 

25/04/2022

El precio de un hombre (1966 / Realizador: Eugenio Martín)



Aquando do lançamento de “Os Oito Odiados”, o aclamado western nevado de Quentin Tarantino muito se escreveu sobre as obras que lhe serviram como influência. O titulo “O Grande Silêncio” surgiu naturalmente em todos esses artigos mas existem outros westerns-spaghetti que poderiam facilmente ser conectados com esse filme. Este “El precio de un hombre” seria um desses filmes. Tal como na fita de Tarantino uma diligência transporta uma pessoa algemada. Em ambos, a diligência faz uma paragem numa estalagem onde nem toda a gente é o que aparenta ser.

"I got an idea of something we can do with a gun"

É estranho que o filme não tenha ganho nova notoriedade ao sabor do sucesso de Tarantino, mais sabendo-se que até o próprio reconheceu ao Spaghetti Western Database que “El precio de un hombre” é um dos seus spaghettis favoritos. Então para o bem e para o mal, lembramos-vos nós que este filme existe e que se já dissecaram a filmografia western dos três Sergios, está mais do que na hora de adicionar este filmaço à vossa watchlist! Na modesta opinião do vosso escriba estamos mesmo aqui a falar do melhor western espanhol, a léguas das produções simplórias dos Balcazar.

A realização é de Eugenio Martín, que se estreava no género, e conta com a participação do nosso favorito: Tomas Milian. Um individuo ambíguo, perseguido pelas autoridades, mas que goza de grande simpatia no pequeno povoado em que cresceu. Em sentido inverso temos Luke Chilson (Richard Wyler), um caçador de recompensas que todos odeiam. Esse universo dos caçadores de recompensas popularizado pelas películas de Sergio Leone é justamente aquilo que move a trama desta fita e curiosamente a ligação entre o signore Leone e este “El precio de un hombre” pode ser mais do que uma coincidência.  

O nosso herói é torturado. Um lugar comum no western à europeia.

Ao que parece o produtor José Gutiérrez Maesso terá abordado Duccio Tessari para escrever o guião do filme, mas não chegaram a acordo uma vez que Tessari estava ocupado. Na época Tessari ainda fazia parelha com Leone e julga-se que lhe terá comentado essa ideia de um caçador de recompensas como protagonista. Leone não trabalharia em “El precio de un hombre” mas adaptaria a personagem de Clint Eastwood no segundo tomo da saga do “Homem sem nome”. Residirá aqui alguma verdade ou será apenas mais um dos muitos mitos que fazem deste género a delícia que é? Nunca saberemos! 

Milian interpreta José Gomez, um fora-da-lei que as autoridades se apressam a entregar nos calabouços de Fort Yuma. Um dos seus capangas passa a informação do roteiro da diligência a Eden (Halina Zalewska), amiga colorida de José que ainda o vê como uma espécie de herói local. A rapariga num acto de grande frieza faz chegar um colt a José que acaba por dar-lhe um uso mortífero. No entanto, o caçador de recompensas Luke Chilson (Wyler) está em seu encalço e chega ao lugarejo antes do fugitivo, para a ira dos habitantes da cidade, acérrimos defensores de José, que consideram ser um produto das duras circunstâncias que a vida lhe trouxe. Mas quando Gomez chega com o seu bando de desperados, os moradores começam a perceber que ele já não é o rapaz que conheciam. 

Neste filme quem rouba a cena é o vilão.

A fotografia de Enzo Barboni é um dos grandes destaques do filme. O italiano não desperdiça os magníficos exteriores da região de Almeria e nem se deixa atrapalhar nas cenas de interiores, que normalmente são aquilo que os cineastas do género mais mal trabalham. Barboni, vale a pena lembrar, notabilizar-se-ia anos mais tarde como realizador ao atingir o sucesso com os filmes da saga Trinitá. Mas antes disso assinou a fotografia de alguns dos melhores filmes do western-spaghetti. Trabalhou com mestres como Sergio Corbucci, com quem fez “Django”, “Os Cruéis”, etc. Outra parceria de grande efeito foi a que fez com Ferdinado Baldi, entregando-nos os não menos recomendáveis “Texas Adeus” e “Viva Django”

Em Portugal o filme apareceu com o título “Vingança ao Amanhecer” e salvo edição em VHS não existe formato físico para encontrá-lo. O meu contacto inicial com ele foi num DVD espanhol da Filmax, isto há uns quinze-vinte anos. Mas actualmente existem até blurays do dito. Na Europa tema a edição francesa da Artus e nas Américas foi lançado pela recém-finada Wild East. Também pode ser repescado no catálogo do Amazon Prime mas não sem usarem uma malandrice para camuflar a vossa origem. Infelizmente o catálogo desta plataforma parece não ser para os dentes do tuga.

06/02/2022

Django & Django: Sergio Corbucci Unchained [documentário] (2021 / Realizador: Luca Rea)

 

Quem é o segundo melhor realizador do western-spaghetti? Quentin Tarantino não têm dúvidas e se as houvessem para o resto do mundo que em 2009 viu "Era uma Vez em... Hollywood" e terá ficado aos papeis com os acontecimentos que levaram a (fictícia) antiga estrela de cinema Rick Dalton a transferir-se de armas e bagagens para Itália, eis que chega o relato definitivo: "Django & Django - Sergio Corbucci Unchained".

Cena de bastidores de "Pistoleiro Profissional". 

O documentário realizado pelo italiano Luca Rea chegou agora à Netflix e será porventura uma porta de entrada para um público menos conhecedor do cinema de género e que possivelmente nem nunca ouviu falar desse tal de Sergio Corbucci. Já os connaisseurs vão ficar enjoados de ouvir o fanboy Tarantino a falar pelos cotovelos durante a hora e picos de duração da pelicula ofuscando os outros - poucos -  testemunhos usados na feitura do filme (Franco Nero e Ruggero Deodato). 

Trailer:  

05/12/2021

SpagvemberFest 2021: Diário de bordo



Tal como aconteceu no ano passado, voltei a dedicar o meu mês de Novembro à grande maratona do western europeu, o Spagvemberfest! Foram trinta dias a conferir um filme deste género ao dia, percorrendo algumas das suas variantes e fases. Como habitualmente tive como objectivo maior reduzir a minha watchlist, mas este ano ficou desde logo estabelecido à partida que se iriam rever alguns spaghettis clássicos para não danar o bem-estar matrimonial! Para a jornada deste ano antecipei-me um pouco e fui desde logo separando aquilo que tencionava ver. 

Tal como em 2020, quis dar chance a alguns DVD/BR que há muito comprara e que nunca tinham tido uso. Preparei também uma pen drive artilhada com tesourinhos que foram aparecendo na pirataria ao longo do ano (TVrips, VHSrips, etc). Outra forma que tencionei desde logo usar foram os serviços de streaming nacionais e neste campo tive a maior das desilusões, não podendo em boa consciência deixar de os criticar. 

No HBO não há absolutamente nada disponível, aliás o serviço parece não lidar muito bem com material mais antigo. Já no Amazon Prime existe um maior catálogo old school e mesmo alguns westerns-spaghetti, mas poucos comparativamente à oferta que o serviço tem noutras regiões do globo. Netflix não tenho, mas suponho que o panorama seja idêntico. Uma tristeza e por isso, sem surpresas tenho de concluir que o fã destes géneros menos populares vai continuar a ser o grande apoiante dos formatos físicos.

No fórum do SWDB o número de aderentes pareceu-me francamente superior ao do ano anterior e como esperado as escolhas individuais e o debate que dessas decorre, acaba sempre por condicionar o resto do bando, algo que muito apreço. Fiquei também agradado por ver surgir no Letterboxd algumas listas feitas por outros confrades que abraçaram o desafio. Desses, lanço um shout-out para o único tuga que lá detectei, o grande Pedro Nora, que também encarou a tarefa não evitando sequer alguns dos títulos do género mais difíceis de digerir! 

E então vamos lá ao meu diário de bordo, avisando desde já o freguês que o post é longo. Se não lhe abona o tempo e a vontade, recomendo a versão simplificada via minha listinha do dito Letterboxd, disponível aqui



1. Così Sia (1972 / Alfio Caltabiano)


Dia de feriado, mas com relativa agitação cá por casa e muita azia provocada por mais uma derrota forasteira d'Os Belenenses a meio da tarde. Opto então por iniciar as hostes com um filme que consiga ver às mijinhas e que não necessite de prestar demasiada atenção. O YouTube está cheio deles e acabo por optar por este Amen. Uma comédia muito ao estilo dos filmes da saga Trinitá mas que infelizmente tem pouquíssima piada. O que tem muito, é patada nas trombas, um oferecimento do grande Luc Merenda, estrela do cinema policial italiano. A acção do filme desenrola-se sob um assalto a um banco por parte de um grupo inusitado, formado por um pistoleiro, um padre, um miúdo carteirista e um velho xexé. Eu até simpatizo com alguns dos filmes do Alfio Caltabiano, mas este é mau demais!


2. Gli eroi di Fort Worth (1964 / Alberto de Martino)


Segundo dia e opto novamente por um filme de quem ninguém fala, logo potencialmente mau, premonição que se confirmaria cena após cena. Curiosamente até tenho o DVD espanhol da Divisa na prateleira há bem mais de 10 anos, mas nunca me deu real gana em vê-lo. Tirado o pó do dito e lida a sinopse até julguei que me ia deparar com alguma originalidade. Senão vejamos: Durante os dias finais da Guerra da Independência, um grupo de soldados confederados formam uma aliança com os índios apaches com o objetivo de confrontar os soldados do Norte estacionados no Fort Worth e assim escapar para o México. Pensei que a fita pudesse ter algum paralelo com o belíssimo “Os Cruéis” de Sergio Corbucci mas estava redondamente enganado. A qualidade do filme é miserável e ainda ele ia a meio e eu só queria que ele acabasse para deixar de ouvir aquela maldita trompete da cavalaria. Em suma, um filme banal, com actuações sofríveis coadjuvada com os piores figurantes que o género conheceu. 


3. El juez de la soga (1972 / Alberto Mariscal)


No fórum do SWDB alguém questionava se os westerns mexicanos estavam em "jogo" nesta maratona. Estando listados na base de dados não poderá haver outra resposta que não fosse afirmativa. Este filão é algo que desconheço, decidi por isso seguir-lhe as pisadas e repesco também eu no YouTube o mesmo filme de que falava: "El juez de la soga". Estéticamente não há como negar os paralelos com os westerns europeus, consigo por isso entender o comentário do sapiente Tom Betts, que frequentemente defende que a chama do género deveria ter seguido com os nossos amigos comedores de tortilhas. Este filme em articular recicla o filme do pistoleiro fantasma, um tipo que aparece e desaparece em momentos chave, eliminando a patifaria com recurso à forca. Achei a montagem do filme péssima, mas valeu pela experiência. Hei-de voltar ao sub-género.


4. Land Raiders (1969 / Nathan Juran)


Ao quarto dia uma opção mais segura, o escolhido foi "O vilão do Arizona" que já andava na minha watchlist há muito tempo. O filme nada deve ao estilo do western-spaghetti mas foi rodado em solo europeu (Espanha e Hungria) e por isso cabe no saco dos euro-westerns. O vilão do título nacional é obviamente o filho da puta do Telly Savalas e a história centra-se nas desavenças entre dois irmãos de ascendência mexicana. Um deles tornou-se num verdadeiro gringo e a sede de poder só lhe é superada pela vontade de aniquilar a raça Apache da região. É um filme produzido por americanos, para público americano. Não diria que é mau mas tem demasiado paleio para o meu gosto.


5. Deadlock (1970 / Roland Klick)


Quinto dia de maratona. A escolha anterior estava insonsa, portanto pedia-se algo mais extravagante para animar a festa. "Deadlock" é uma produção alemã, rodada nos desertos de Israel e conta com o magnífico Mario Adorf no papel principal. Esclareço já que não se trata de um verdadeiro western-spaghetti, na verdade trata-se antes de uma história de gangsters ambientada numa localidade desolada em pleno deserto. Em comum com a ementa spaghetti, o típico trio de trapaceiros e uma soma avultada de dinheiro em jogo. Não é um filme para todos, mas pareceu-me uma boa reinvenção do estilo e uma bonita homenagem aos grandes mestres.


6. Il mio corpo per un poker (1968 / Lina Wertmüller)


Robert Woods não guarda grande espaço no coração para este "A pistoleira de Virginia". O papel dele é anormalmente pequeno e relegado a cenas de flashbacks, que segundo consta terão sido reduzidas por desavenças durante a produção do filme. O filme segue a história de Belle Starr, uma fora-da-lei muito hábil no manejo do Colt e do baralho de cartas. O filme perde-se no vai e vem de flashbacks e está longe de ser espectacular mas tem a particularidade de ser protagonizado por uma mulher (Elsa Martinelli) e realizado também por uma (Lina Wertmüller), creio ter sido a única realizadora a operar no género. O filme vi-o através do serviço tuga da Amazon Prime, que infelizmente tem pouquíssimos westerns disponíveis. Não posso falar pelos outros filmes do catálogo, mas este tem uma legendagem hedionda que talvez passe despercebida com um espectador menos habituado ao italiano. A mim condicionou-me a apreciação.


7. Une corde, un colt (1969 / Robert Hossein)


Depois de ver o marido ser enforcado à porta de casa, Maria pede auxílio a Manuel para vingá-lo seu nome. Este foi a primeira revisão que fiz na maratona deste ano, uma imposição da minha cara-metade, quisesse eu tê-la como companhia na jornada. Algo que fiz com muito agrado! O filme é soberbo e felizmente é também sobejamente conhecido pelos fãs do género. Uma homenagem de francês Robert Hossein ao seu amigo Sergio Leone, que até filma uma cena. É uma homenagem, mas não cai na esparrela da cópia fácil. Pelo contrário, é um dos filmes mais distintos e indispensáveis do género. Já há muito que tenho o blu-ray da Arrow na colecção mas só desta lhe dei uso. Um belo resgate em alta-definição que só melhora a experiência! 


8. Ocaso de un pistolero (1965 / Rafael Romero Marchent)


Primeiro de dois westerns do Rafael Romero Marchent que pretendia ver durante a maratona 2021. Este é precisamente o seu primeiro filme e já várias vezes o tinha tentado ver, mas a cena inicial em que um bebé é fatalmente alvejado fez-me sempre clicar no stop e desistir da investida. Sem surpresas, confirmo ao oitavo dia do meu SpagvemberFest que o filme está pejado de cenas de grande carga dramática, algo que dispensava perfeitamente para um filme visto em início de semana, mas enfim. Quem também se estreia por aqui é Craig Hill, que aqui veste as peles de um pistoleiro aposentado que se vê forçado a pegar de novo nas armas para combater uma injustiça. Um lugar-comum, é certo, mas se não vos faz brotoeja assistir a um spaghetti com pistoleiros impecavelmente barbeados e com escolhas de chapéus duvidosas, então é filme a considerar. Pessoalmente continuo a ter "Garringo" como o melhor dos filmes do amigo Rafael.

9. Fuera de la ley (1964 / León Klimovsky)

Por estes dias já estava claro nas conversas dos usuários do fórum SWDb que estava em curso um movimento não organizado de homenagem ao recém finado George Martin. Alinhei também eu na ideia de colocar um filme dele no cardápio. Como já não tenho muita coisa pendente deste astro espanhol e sendo o objectivo primordial diminuir a watchlist, a escolha recaiu neste "Fuera de la ley". Tal qual a escolha da noite passada temos aqui um western pré-febre leónica e como tal, com um estilo absolutamente clássico. A trama segue a habitual quezília entre gentes honradas e um oligarca abusador, algo que Billy (Martin) terá de resolver. Aqui não temos esquema de co-producão e por isso não é de estranhar que quer elenco, quer equipe técnica seja totalmente espanhola. Mas até para o menos rotinado dos consumidores do género, reconhecerá a maioria do cast. Destaco a fronha do Aldo Sambrell, aqui no invulgar papel de xerife da cidade. Realização rotineira do argentino León Klimovsky.


10. Comin' At Ya! (1981 / Ferdinando Baldi)


Detesto cinema 3D. Razão exclusiva pela qual há muito evito encarar este último western do Tony Anthony. Fi-lo desta vez, mas no formato standard, claro está. O filme começa à “Kill Bill”, um casal está prestes a contrair matrimónio quando dois meliantes rompem portas adentro da igreja. O cavalheiro é baleado e a dama raptada. O que daí advém é o cliché do pistoleiro ao resgate. O filme está claramente montado para empolar a experiência tridimensional e perde real interesse na maior parte do tempo, como já esperava. Mas em defesa do Tony, admitir que o homem não teve nunca medo de arriscar na sua curta carreira. Foi bom voltar a ver a praia de Mónsul, em que me tive a sorte de me banhar há anos atrás e que a generalidade do cinéfilo reconhecerá do clássico “Indiana Jones e a Grande Cruzada”.


11. Uccidete Johnny Ringo (1966 / Gianfranco Baldanello)


Reza a história que nas filmagens deste filme, um actor menos experiente deu tal traulitada na mona do Brett Halsey que o deixou tão maltratado, que o desgraçado não teve outra hipótese que passar o resto das filmagens de chapéu bem assente. Halsey é aqu um ranger do Texas em missão numa pequena cidade onde há diversos indícios de existência de um esquema de notas falsas. No decorrer da sua investigação não faltarão meliantes zarolhos a tentar matá-lo. É um dos primeiros registos de Gianfranco Baldanello, realizador que nos deu o notável "Black Jack". A qualidade de um e outro é incomparável. 


12. Il figlio di Zorro (1973 / Gianfranco Baldanello)


Segunda noite seguida com um filme de Gianfranco Baldanello. Agora num registo bastante diferente, um Zorro-spaghetti, uma das ramificações que o westerns-spaghetti viu crescer e que a maioria dos usuários do SWDB adora odiar! Não faltam filmes destes na minha watchlist e no ano passado até tinha sido surpreendido com um bem decente, a saber: "El Zorro". O justiceiro mascarado é aqui vivido pelo cara de bebé, Alberto Dell'Acqua, um actor fraquíssimo que em nada honra o famoso personagem. A contrabalançar temos uma série de nomes mais sonantes nos papéis secundários: Fernando Sancho, William Berger, George Wang. Sinceramente acho que teria encontrado mais acção na troca de galhardetes entre o Rui Rio e o Paulo Rangel.


13. Faccia a faccia (1967 / Sergio Sollima)


Segunda revisão e novamente de um filmaço! Já lá vão uns aninhos valentes desde que o vi pela última vez. Desde então surgiram versões DVD e até blu-ray, todas incrivelmente superiores ao meu velhinho DVD espanhol. Há anos atrás fiz o upgrade para a edição da Explosive Media, e a revisão foi feita com esse mesmo. A versão que vi desta volta foi a inglesa, que permite perceber a quantidade enorme de cortes que a versão internacional levou, não diferente da tal versão espanhola, também ela super-retalhada. Não diria que a existência destes minutos extra mudam drasticamente o filme, mas que lhe dá um novo ímpeto, dá. O filme é incrível, a evolução dos dois personagens principais é extraordinária. É um filme que merecia mais amor, muito mais amor.


14. Hannie Caulder (1971 / Burt Kennedy)



Primeiro e único western inglês a entrar na minha maratona deste ano. Além da beldade Raquel Welch, temos aqui um elenco clássico, com Jack Elam, Ernest Borgnine e Christopher Lee. A história segue obviamente as aventuras de Hannie Caulder, uma mulher abusada num certo dia por um bando de maltrapilhos com pouco jeito para a vida do crime. Ajudada por um caçador de recompensas, Hannie aprende a manejar o colt e dá caça aos violadores. Meu Deus! Como é possível que o poster internacional do filme seja tão enganador. Não senhor, o filme não é uma comédia, na verdade até é bastante gráfico nas muitas cenas de tiroteio. Tem sim algumas diferenças de tom que são totalmente despropositadas e prejudicam o resultado final. Seja como for, saiu melhor que a encomenda!


15. Di Tresette ce n'è uno, tutti gli altri son nessuno (1974 / Giuliano Carnimeo)


Metade da jornada feita e sinto-me novamente com fôlego para enfrentar uma paródia à italiana. Comprei o DVD deste filme em Itália há uma vida atrás, mas não tive coragem de o ver durante este tempo todo. Et voila. A maratona serve também para enfrentarmos os nossos maiores medos e que puta loucura temos nós aqui! Contra todas as minhas melhores expectativas, cedo em diversas situações aos gags fáceis e nem precisei de ajuda de um calicezinho de moscatel. É um filme de malucos, sobre maluquices, mas foi realizado por um não-maluco e isso nota-se no bom trabalho de câmara e montagem. Colocando-se facilmente a milhas das muitas cópias rascas fagiolli-western's à moda de Trinità, que na verdade até imita sem rodeios. Filme com melhor uso de um penico num westerns-spaghetti!


16. Take A Hard Ride (1975 / Antonio Margheriti)


Mais uma volta e mais um DVD a sair da prateleira para o leitor pela primeira vez. O escolhido foi o "Cavalgada Fantástica". Pois é, depois de um crossover entre western e artes marciais, Margheriti aventurou-se numa nova mescla, desta com o blaxploitation. As estrelas da companhia são naturalmente as negras, com três grandes nomes do género: Jim Brown, Fred Williamson e Jim Kelly. A estes junta-se outro grande nome, Lee Van Cleef, este já no seu derradeiro declínio enquanto actor e num papel penoso para quem nos habituámos a ver interpretar os pistoleiros implacáveis. O filme foi rodado maioritariamente nas Canárias, o que lhe dá um panorama bastante diferente do westerns-spaghetti mais habitual. De especial nota, as cenas de acção a cavalo mais arriscadas que vi no género. Algo a um nível não inferior ao “Cavalgada dos Destemidos” de Kirk Douglas e que hoje em dia seriam certamente feitas por CGI. É de facto um filme cheio de acção mas que no fim de contas parece tudo menos um spaghetti. Fosse eu o Antonio Margheriti, teria dado mais cenas de pancadaria ao Jim Kelly!


17. Dos pistolas gemelas (1966 / Rafael Romero Marchent)


Segunda entrada para o senhor Rafael Romero Marchent no meu Spagvemberfest. E se a minha primeira escolha - Ocaso de un pistolero - pautava pela carga dramática, este prometia estar nos antípodas. Num estilo não muito diferente do infame “Rita no Oeste”, temos aqui as irmãs gémeas Pili e Mili a tomar as rédeas da acção. Elas cantam, dançam e claro, manejam o colt com incrível astúcia. mais uma produção rodada nos estúdios Mini Hollywood (Almeria), cenário que se tem repetido nos filmes que fui assistindo nesta maratona. Maior repetição que essa só mesmo a presença do actor Luis Induni! Consigo suportar westerns mais tradicionais, mas custa-me lidar com estas trapalhadas, sem dúvida um dos mais difíceis de suportar da jornada.


18. Johnny Yuma (1966 / Romolo Girolami)


Com mais de 350 filmes do género já logados, não acreditava que viesse a encontrar ouro esta fase do campeonato. Sorte a minha ainda ter esbarrado com alguns filmes decentes e ao décimo oitavo dia da maratona acertei mesmo com um bastante bom: “Johnny Yuma, o Vingador”. O título nacional entrega o motif de bandeja: Vingança! O lugar é comum no género mas uns fazem-no melhor que outros e este Romolo Guerrieri fê-lo muito bem, entregando um filme bem balanceado entre a boa disposição e o drama, não poupando sequer o assassinato de uma criança. Curiosamente este era mais um que tinha na prateleira há alguns anos mas como não vou muito à bola com o Mark Damon, ficou a apanhar pó juntamente com os outros patinhos feios. Continuo a achar que Damon teria sido um péssimo Django, mas neste papel de vingador bem-humorado está muito bem!


19. Django il bastardo (1969 / Sergio Garrone)


Temi não ver nenhum filme neste décimo-nono dia, desde cedo que me incomodava uma grande uma grande carraspana, que só piorou ao longo do dia. Felizmente o filme programado para a sessão noturna era bom. E este foi uma escolha pessoal da minha companheira que adora esta representação mais fantasmagórica do pistoleiro vingador soturno. Tenho de admitir que frequentemente temo ao revisitar estes filmes que guardo naquele cantinho especial do coração, folguei por isso em constatar que este envelheceu muitíssimo bem e a existência de novas versões HD só melhoram a experiência. Um filme obrigatório para os fregueses que já viram a filmografia western dos três Sergios de cabo a rabo e procuram agora algo mais refrescante. Melhor filme do Anthony Steffen!


20. Cabalgando hacia la muerte (El Zorro) (1962 / Joaquín Luis Romero Marchent)


Com os níveis repostos nas noites anteriores, sentia-me já capaz de regressar a terrenos mais pantanosos. E porque não arriscar mais um Zorro? Este é bem antigo, data de 1962 e é realizado pelo veterano Joaquín Luis Romero Marchent, que dedicou uma boa parte da carreira a adaptar este personagem (ou outras fotocopiadas) para o cinema. Qualitativamente, e para minha sorte este filme está a léguas do outro Zorro que assisti no início da jornada. Marchent era claramente um homem sabedor das suas artes e mesmo para um filme tão madrugador, safou-se razoavelmente. Como manda a lei neste sub-género, o filme entrega muita acrobacia e muito truque a cavalo. Tendo provavelmente uma dose deficitária de cenas de espadachim, algo que a mim não me beliscou. Sem surpresas para um filme de 1962, o elenco é praticamente todo ele castelhano, apesar de ter um gringo no papel do justiceiro mascarado. A versão que assisti é uma manta de retalhos montada por um fã mais habilidoso. Visualmente a versão é manhosa mas as cenas extra dão mais qualidade ao produto. O meu agradecimento ao artista.


21. Bianco Apache (1986 / Claudio Fragasso & Bruno Mattei)


A dupla Fragasso/Mattei é responsável por um sem número de clássicos do cinema exploitation. Vi muitos desses e alguns admito que alguns são divertidos (Rats - Notte di terrore), mas a maioria são apenas cópias mal feitas de sucessos de bilheteira americanos. Como o filme data de 1986, uma época em que já não se rodavam westerns em Almeria, estava temeroso de que fosse mais uma extravagância da dupla, mas para meu espanto o filme é bastante conservador. A história é a de um miúdo branco que se vê criado entre apaches depois de a sua família ser massacrada por um bando de patifes cartonescos. Anos depois, no seguimento de um caso amoroso, há um desentendimento com irmão apache e o rapaz lá terá que abandonar a tribo e encarar a sociedade do homem branco que nunca conheceu. Não gostei dos filtros usados no filme mas gostei da generalidade da proposta. A abordagem racial é bastante aceitável e até ver este é o filme mais mainstream de tudo o que vi destas duas alminhas. Seria até um western normal não existissem tantas cenas de ultra brutalidade. 


22. Scalps, venganza india (1986 / Bruno Mattei & Claudio Fragasso)


A rapaziada do Facebook influenciou largamente a decisão de ter continuado a maratona com mais um filme com marca Mattei/Fragasso. O filme tem muitos paralelos com o da noite anterior e por isso não estranho que sejam considerados filmes gémeos. Ora se no primeiro filme tínhamos um índio como protagonista ostracizado, neste temos uma mudança de sexo na personagem principal. O clã Harrison continuou envolvido no projecto, desta vez com a participação do papá Richard no roteiro. Pelo que li por aí, era suposto que ele tivesse uma responsabilidade maior no projecto, mas os problemas financeiros definiram os limites da participação. Mais uma vez fiquei agradado com a proposta, adorei a dose extra de violência e até fiquei aqui a pensar que esta dupla poderia muito bem ter feito mais alguns filmes do género. É que apesar de o filme ter uma ou outra cena deliberadamente roubada (neste temos a cena da tortura de Vassili Karis, sacada do “O Homem a Quem Chamaram Cavalo”) até conseguem ser mais originais que as maluquices que eles fariam anos depois. Esses clássicos ripoff que toda a gente conhece: “O Regresso do Exterminador” “Robowar - A Máquina da Morte”.


23. Degueyo (1965 / Giuseppe Vari)

Danger City é atacada pelos bandidos do seboso Ramon que procuram uma soma avultada. Incapazes de encontrar o dinheiro, os bandidos matam ou tomam como reféns todos os homens, deixando apenas mulheres e crianças na cidade. Um grupo de forasteiros vai ajudar a restabelecer a ordem. Giuseppe Vari é na minha opinião um dos bons realizadores do grupo dos autores menos consagrados do western italiano, os filmes dele são invariavelmente produções modestas, mas destacam-se no meio das centenas de filmes dessa safra. Este “Degueyo” é um dos dois dele que não conhecia e até ver o único que me desapontou, a mim pareceu-me uma espécie de novela mexicana. A versão que assisti foi um TVrip da Rai em que algum bom samaritano colocou um áudio espanhol das américas. Talvez essa dobragem me tenha adormecido ou então foi mesmo o cansaço natural de quem anda há 23 dias praticamente só a ver westerns-spaghetti. Vou dar-lhe uma revisada lá mais para a frente se, entretanto, surgir alguma versão com áudio diferente.


24. Captain Apache (1971 / Alexander Singer)

Não tinha planeado mas acabei por voltar a ver um filme com o Lee Van Cleef ao vigésimo-quarto dia de maratona. Este “Capitão Apache” já o tinha começado a ver algures no passado, mas não consegui lidar com o péssimo genérico inicial, que conta com uma cantoria do nosso estimado LVC. Desta vez enfrentei o monstro com a ajuda de meia garrafa de moscatel. Não estava muito enganado nas expectativas, o filme ainda que tenha a presença de uma série de actores europeus habitués do género e de ser rodado em Almeria, não deve absolutamente nada ao estilo que todos reconhecem ao western-spaghetti. Música errada, bla-bla-bla sem fim e enredo demasiado intrincado para o seu próprio bem. Resumindo, focado num mistério que demora demasiado tempo a ser explicado. Para a história fica apenas a magnifica peruca de Lee Van Cleef!


25. Anche nel west c'era una volta Dio (1968 / Marino Girolami)


Ao vigésimo quinto-dia apetecia-me tudo menos ver um western-spaghetti. Chatices no trabalho, duas escolhas menos felizes nas noites anteriores e a fadiga naturalmente provocada pela overdose de consumo de um só género cinematográfico. Qual macumba, os primeiros dois filmes da pen drive que piquei, deram ambos erro de leitura. Ao terceiro lá funcionou e o filme foi este “Anche nel west c'era una volta Dio”, que é curiosamente uma adaptação para o velho oeste do clássico da literatura “A Ilha do Tesouro”. Os italianos tinham estas ideias malucas e a coisa correu moderadamente bem mesmo sem barcos, ilhas ou piratas pernas de pau! A realização foi do veterano Marino Girolami, papá do favorito dos amantes de cinema de acção europeu, Enzo Castellari. Bom elenco com destaque para o impecável Gilbert Roland e Roberto Camardiel no seu typecast. Nódoa no pano do Richard Harrison, completamente inexpressivo.


26. Valdez, il mezzosangue (1973 / John Sturges)

Chino Valdez, um criador de cavalos mestiço, contrata um rapazola que fugiu de casa para ser seu ajudante. Quase simultaneamente, ele concorda em vender um cavalo e ensinar a montar a esbelta irmã do maior rancheiro da região (Jill Ireland, companheira de longa data de Bronson). Daqui nasce um enredo amoroso que terá consequências dramáticas para todos os envolvidos. Apesar de rodado em Espanha e ter alguma gente europeia envolvida no elenco e equipa técnica não encontrei aqui qualquer relação de estilo com o típico western-spaghetti. Fiquei sobretudo desapontado com a ponta final do filme, que não resolve a situação de forma satisfatória. Não é o filme que esperava do John Sturges (Os Sete Magníficos).


27. La Resa dei conti (1966 / Sergio Sollima)


Ao vigésimo sétimo dia de Novembro chegou o momento de rever este filmaço de Sergio Sollima, um dos spaghettis que facilmente se bate com a trilogia de Leone. E eu já não o via há mais de uma década, se não estou enganado terá sido lá nos primórdios de vida deste blogue. Na época não era um filme fácil de encontrar e a edição cristalina ainda estava por ser descoberta. Felizmente, em 2021 existem diversas versões HD no mercado e por alinhamento dos astros até passou por estes dias uma versão bonitona na grelha do FOX Movies Portugal. A trama envolve John Corbett (Lee Van Cleef), um caçador de recompensas que é levado a caçar Cuchillo Sanchez, um camponês mexicano acusado de violar e matar uma menina de 12 anos. Um enredo simples, mas clássico, dirigido de forma magistral por Sergio Sollima. Um dos melhores duelos que alguma vez assistirão, está aqui mesmo!


28. La ciudad maldita (1978 / Juan Bosch)


Chegou a ser um dos westerns-spaghetti perdidos para o mundo. A páginas tantas lá apareceu uma versão que apenas poucos tiveram acesso. E em 2021, sem qualquer explicação, está à distância de um click num desses sítios mal-afamados. Sobre o filme dizer-vos que segue a linha de um qualquer filme da saga Sartana mas sem o magnetismo do estupendo Gianni Garko, que boatos dizem até ter sido a primeira escolha para o papel. Mas faltou graveto e quem protagonizou foi um tal de Chet Bakon, um actor que depois deste filme (o seu primeiro) desapareceu sem deixar rasto! 


29. Lucky Luke (1991 / Terence Hill)


Há muito que andava para rever este filme realizado e protagonizado por Terence Hill, numa época em que o western-spaghetti já era apenas uma memória distante. O filme é obviamente uma adaptação para cinema da personagem da banda desenhada, Lucky Luke, mais especificamente uma adaptação do livro “Daisy Town”. E a ideia era servir de piloto a uma série de televisão direcionada para um publico mais infantil. Eu recordo-me de a ter visto quer na TV nacional quer na espanhola em meados de noventas, mas além do genérico pouco ou nada recordo. Casualmente acabei por sacar o dito “Daisy Town” da prateleira e lê-lo antes de começar a ver o filme. Talvez por isso fiquei bem desagradado com a adaptação, que nem é fiel á trama apresentada no livro nem ao seu humor. Se bem me recordo, o filme de 2009 com Jean Dujardin no papel do cowboy solitário dá quinze a zero a este. Mais valia ter revisto esse. 


30. Winnetou I (1963 / Harald Reinl)



Último dia de overdose spagvemberfest! Para fim de maratona, tal como no ano passado, resolvi alinhar mais um capítulo da saga Winnetou. Não estou bem informado sobre estes filmes, mas desde logo estranhei que as personagens do filme que vi no ano passado (O Tesouro do Lago da Prata) se tratem aqui como desconhecidos. Não apreciei essa falta de continuidade, mas porventura haverá uma explicação. O elenco é recheado de nomes sonantes, além de Pierre Brice (Winnetou), Lex Barker (Old Shatterhand), ainda temos Mario Adorf e Walter Barnes. A acção envolve obviamente brigas entre índios e cowboys, desta vez motivadas pela construção de uma linha férrea, há ainda um sub-plot relacionado com brigas inter-tribos. Achei-o muito inferior ao capitulo que tinha visto no ano passado mas novamente de realçar os cenários espectaculares, muito bem captados na fotografia. E foi isto meus amigos, para o ano há mais!