13/02/2021

Quindici forche per un assassino (1967 / Realizador: Nunzio Malasomma)

Os anos de ouro do western-spaghetti permitiram a alguns realizadores assinar uma quantidade considerável de filmes do género. Mas também não faltaram casos de paraquedistas que pousaram e nunca mais lá voltaram. Alguns deles tiveram bons resultados, ainda recentemente por aqui se escreveu sobre “Quanto costa morire”, um excelente registo único de Sergio Merolle e hoje propomos um caso similar. O aludido chama-se "A um passo da forca" e é o único western assinado por Nunzio Malasomma. Um filme que tinha tudo para ser um clássico, mas faltou-lhe o tal «danoninho»! 


George Martin (esquerda) e Craig Hill (direita), nomes inseparáveis do western-spaghetti.

Segundo consta, Malasomma rodou o filme já depois da sua 73ª volta ao sol e para trás não tinha qualquer coisa vagamente relacionado com cinema de acção. Mas honra lhe seja feita, já que o velho se safou bem para cacete. As razões, acho que podem resumir-se ao bom naipe de actores (Craig Hill, George Martin, Aldo Sambrell, Andrea Bosic), bons cenários (os mesmíssimos que vimos por exemplo em “Por Mais Alguns Dólares”), boa música (batuta de Stelvio Massi) e sobretudo um enredo que se destaca no género por primar pelo enfoco no suspense. Parafraseando o grande Adolfo Luxúria Canibal: “Quem matou?” 

Tudo bons rapazes.

Não querendo entrar em demasiados detalhes para não entregar o desfecho do filme de mão beijada, resumo apenas o início da trama. O bando de Sandy Cassell (George Martin), profissionais na arte de roubar gado, está de passagem pelas terras da mulher de armas, a viúva Madeline Cook (Margarita Lozano), à qual pedem abrigo para passarem a noite. Alguns dos elementos do bando estão de pau afiado pela presença dos três elementos femininos do rancho, mas o cabecilha refreia-lhes os ânimos e nada se passa. E que tragédia seria, visto que a filha mais velha da viúva está de casamento marcado. Para ajudar à festa, outro bando de rufias, este encabeçado por Bill Mack (Craig Hill), aparece no encalço dos primeiros. Mas rapidamente mostram ser farinha do mesmo saco e até selam uma sociedade entre ambos. 


Craig Hill ganhou uma gravata nova.

Ao raiar o sol o noivo aparece no rancho e descobre as três mulheres sem vida. Apercebendo-se da presença de tantos cavalos no curral galopa para a cidade à procura de reforços. E é assim que os dois bandos passam a ser perseguidos por um crime que aparentemente nem cometeram. Muita violência se segue, filmada talvez com menos espectacularidade do que se esperaria para um filme com estes alicerces, mas ainda assim muito apreciável. Peca especialmente pela falta de tomates na resolução da trama, optando-se por um final feliz que destoa do rumo que o filme tomava até aí. Uma pena, mas que não vos impeça de vê-lo!

09/01/2021

Rebeldes en Canadá (1965 / Realizador: Amando de Ossorio)

O comerciante James Sullivan, alto funcionário da Hudson Bay Company acusa três indivíduos pela usurpação de um carregamento de peles. As testemunhas apresentadas pela acusação são justamente os seus empregados e ao capitão da Polícia Montada tudo isto lhe cheira a esturro, mas pouco faz para provar a inocência dos três desgraçados, que acabam por ser apresentados ao pelotão de fuzilamento.


Chapéus à Davy Crockett, não faltam neste filme.

Victor DeFrois, irmão de um deles, assiste ao acontecimento sem nada poder fazer para evita-lo, contudo jura fazer justiça e rapidamente se junta ao bando de rebeldes Franco-Canadenses, para fazer frente aos Ingleses. Depois de testado, é aceite no grupo e o seu líder aproveita a oportunidade para por em marcha um plano para limpar o sarampo ao avarento Sullivan. O executor do mesmo será nada mais nada menos que o nosso amigo Victor. No entanto para azar da trupe de assalto, o sacana do velho não está em casa e acabam por ter de improvisar, optando pelo rapto da sua filha.


Não lhe bastava o peso na testa e ainda isto!

O filme produzido em parceria entre Espanhóis e Italianos, sofre de algumas falhas de argumento, desde logo pelas motivações que levam Sullivan a incriminar três tipos aparentemente inocentes. Mas o pior é a falta de originalidade da trama, coisa típica dos filmes da primeira fase do western europeu. Como tal não será surpresa para ninguém que o rapto rapidamente se desenlace em romance entre a nobre inglesa e o rebelde.


Os opostos atraem-se. Aqui vai haver namorico.

Este é o segundo western do galego Amando de Ossorio. O anterior, “La tumba del pistolero”, filmado a preto e branco e também protagonizado pelo espanhol George Martin, difere em muito no estilo. Enquanto esse seguia um enquadramento em tudo igual ao dos filmes de suspense, com pouquíssimas cenas de acção e muito mistério, este segundo segue caminho diametralmente oposto. A história é altamente previsível e cenas de acção não faltam, sejam elas tiroteios, pancadaria ou acrobacias.


Paisagens nevadas não faltam neste filme.

O realizador notabilizar-se-ia anos depois pela sua ofensiva no cinema de terror espanhol, sobretudo pela famosa quadrologia dos cavaleiros templários cegos, seres mortos-vivos que montavam cavalos fantasmas em perseguição das suas vítimas, que conseguiam seguir pelo som do batimento cardíaco. Frequentemente envolto em produções de baixíssimo orçamento, acabou por abandonar o ofício em meados de oitentas, desiludido por os seus projectos nunca se terem materializado naquilo que imaginara. Westerns só realizou os dois supramencionados, mas provavelmente terá escrito muitos que jamais foram realizados. Desses, o único de que se conhece com vida é o incrivelmente bacoco “A Paciência tem um limite... Nós não!”, que tem um titulo absolutamente profético!


Poster Australiano para "A Noite do Terror Cego" (1972), o primeiro filme da saga.

30/12/2020

Per qualche dollaro in meno (1966 / Realizador: Mario Mattoli)


Bill, vice-caixa do banco de Silver City descobre um déficit de 100 dólares ao contabilizar os movimentos do dia. Aterrorizado pela fama do chefe do banco, enceta uma tramóia para recuperar a diferença. Para consegui-lo terá a ajuda do primo Frank, que se propõe a torná-lo num fora-da-lei e consequentemente ser ele a capturá-lo e colectar a recompensa. Mas a falta de astucia de ambos, trará resultados desastrosos. O título é esclarecedor. Estamos na presença de uma paródia ao segundo filme da trilogia dos dólares, “Por mais alguns dólares”


Este bandido de meia-tijela está em apuros.

O elenco é composto pelo trio, Lando Buzzanca (o vice-caixa / Clint Eastwood), Raimondo Vianello (o primo / Lee Van Cleef), e Elio Pandolfi (o mexicano / Gian Maria Volonté). A realização é de Mario Mattoli, senhor de uma larga carreira por altura da feitura deste “Per qualche dollaro in meno” e um velho especialista no mundo da comédia italiana. Com um currículo que inclui entre outros, várias incursões na bem conhecida franquia «Totò». 

Por esta altura Buzzanca também vestiu as peles do James Tont, paródias 007 realizadas pelo mano Bruno Corbucci.

O roteiro é da mão dos irmãos Corbucci (em parceria com Mario Guerra e Vittoriano Vighi), o que adiciona um interesse extra ao filme. Recorde-se que só nesse ano, Sergio Corbucci assinou três westerns: “Ringo e a sua pistola de oiro” (1), “Navajo Joe” e o sublime “Django”. Onde raio encontrou ele tempo para escrever ainda outro western? E porque se haveria ele de meter num negócio destes? Nunca saberemos.


Personagens exageradas, marca do cinema cómico italiano.

Numa breve conversa com um velho conhecido dos fóruns do Spaghetti Western Database, Simon Gelten, dizia-me ele que tentou ver o filme uma certa vez, mas rapidamente abandonou a tarefa. É compreensível. Como é característico na comédia italiana, as personagens são extremamente teatrais, barulhentas e genericamente difíceis de suportar. Do trio, o vice-caixa é de longe o que mais se enquadra neste estereotipo. O culpado é esse tal de Lando Buzzanca, um tipo de Pallermo que ascendeu ao estrelato justamente por fazer papéis de palerma!


Poster italiano de "James Tont operazione U.N.O.", obviamente uma paródia aos filmes do 007.

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1. “Ringo e a sua pistola de oiro” terá sido rodado em 1965 mas apenas finalizado e lançado no ano seguinte. 

08/12/2020

Quelle sporche anime dannate (1971 / Realizador: Luigi Batzella)



I.
As armas e os bandidos assassinados
Numa península de capital romana,
Muitos e muitos animais foram cavalgados,
Os melhores eram de terra castelhana.
Entre mortos, feridos e estropiados,
Mais do que era aceitável na regra americana.
E entre países latinos edificaram
Novos filmes que ao mundo mostraram.

II.
Cessem do sábio Leone e de Corbucci
Os feitos universalmente conhecidos;
Cale-se de Tessari e de Questi
Assim como pseudo-westerns fingidos;
Eu canto Fidani, Boccia, Garrone e Vari
E outros mais cineastas erigidos.
Porque Batzella, que é Luigi, canta
Na série B trabalha e levanta.

III.
“As almas malditas de Rio Chico”,
Título ficou em terras gaulesas;
Ver westerns de Batzella é um perigo
Porque são plenos de falhas e impurezas;
Lá na bela Itália montou o circo
Com os seus duplos cheios de destrezas.
Há filmes maus que dão cabo da saúde,
Valha-nos o homem que arrasta o ataúde!

IV.
Tal como em épocas de opulência se fazia,
Assim o homem também tentou;
Mas o que ele de facto não sabia
É que dinheiro e talento faltou;
Lá em terras do Lácio acontecia
Que o filão outrora explorado acabou.
O entusiasmo por tudo isto foi-se esfumando,
Voltámos ao tempo do “eu quero, posso e mando.”

V.
Eis Jeff Cameron, Esmeralda Barros e Krista Nell
Mais Donald O’Brien a franzir a sua careta.
O primeiro, duro no seu papel,
Assim falou; e partiu a muitos a corneta!
Lá vai ele montado no seu corcel
Prestes a mandar tudo para o maneta.
Pois quem se mete nisto aguarda sarilhos,
Os gitanos não gostam de ver bons princípios nos filhos.

VI.
Os americanos comem feijões, bifes e toucinho;
Os italianos bebem uísque, tequila e café;
Krista Nell leva umas passas no focinho
De Jeff Cameron a soco, sopapo e pontapé.
Um abutre voa e esvoaça do seu ninho,
Algo que o vilão O’Brien, excelente em auxílio, é.
Tal como um ébrio, que anda para a frente e para trás,
Assim antigamente diziam em Roma: “In uino ueritas!”

VII.
Pistoleiros, gatunos e dissidentes,
Filmes esses há muito do nosso agrado;
Salas de cinema, película e cassetes
Já fazem parte do nosso passado;
Digital e qualidade estão hoje presentes,
O paraíso de todo e qualquer tarado.
E tal como o funeral e o fim da festa,
A aragem que daqui emana é deveras funesta.

VIII.
Levanta-te, ó italiano western ou spaghetti!
Todas estas coisas disseste na medida certa.
Parvos como nós gostamos de ti
Embora a obra fique sempre aberta.
Assim dizendo, estas coisas que escrevi
Numa blogosfera praticamente deserta.
E não desobedeceu; nós sonhamos com o selvagem Velho Oeste.
Com palavras apetrechadas de asas: “Ah, fartura! Tão tarde vieste!”

“Spaghettis per omnia saecula saeculorum! Sed… tacendi tempus est.”

Anno Domini uiginti et duo milia,
Veneris dies, ante diem tertium Kalendas Nouembres.

01/12/2020

Spagvemberfest 2020: Trinta dias com dieta spaghetti!

O mês de Novembro é de alguns anos para cá o mês de festividade no fórum do Spaghetti Western Database, a página que há muito carrega a bandeira do western europeu. Durante este período alguns utilizadores mais destemidos iniciam verdadeiras maratonas em que a única regra é embrenhar-se em western-spaghetti durante a totalidade do mês. Motivado pelo estado pandémico decidi participar na edição 2020, o pior ano de sempre da minha existência.

Como é apanágio, cada utilizador define o seu cardápio, sendo comum que existam regras muito variadas entre a trupe. Os mais fortes atiram-se, qual prova de resistência, aos filmes de Franco Lattanzi ou Demofilo Fidani. Outros encetam o desafio de assistir a filmografias de este ou aquele astro e outros deixam-se simplesmente ir ao sabor do vento ou deixar-se influenciar pelas escolhas que os confrades vão partilhando no fórum. 

Também defini para mim algumas regras. Como Novembro é simultaneamente o mês em que mais chatices tenho no trabalho, alvitrei logo que apenas conseguiria estar em jogo se os filmes estivessem à mão de semear e que os pudesse ver em qualquer dispositivo que não apenas a televisão com leitor de DVD/BR. Assim, o mais lógico que me ocorreu foi suportar-me também de canais de YouTube que tivessem bons arquivos do género. Longe vão os tempos de escassez, em pleno ano de 2020 parece que despejaram centos de westerns-spaghettis na plataforma e há um canal que já esmagou a concorrência: Grjngo 

Já lá tinha andado a esgravatar e pela análise estava convicto que entre esse e mais um ou outro canal, encontraria facilmente material que ainda não tinha visto antes. Outra ideia que me ocorreu, é que facilmente perderia o ânimo se me focasse nos mesmos protagonistas, por isso impus-me que a cada dia procurasse um filme que fosse protagonizado por um actor diferente (repetições no elenco secundário e antagonistas descartei, que seria uma tarefa impossível). Em adição aos comentários breves que fui deixando no fórum, achei que não era má ideia partilhar o cardápio com os forasteiros que passam pelo blogue. Aos que dispensem leituras também posso partilhar a listinha via Letterboxd, aqui. Então aqui vai alho!

Dia 1: I senza Dio (1972 / Roberto Bianchi Montero)



A primeira escolha recaiu sobre “Os Sem Deus”, uma realização de Roberto Bianchi Montero, o homem responsável por um dos meus westerns-spaghettis low-budget favoritos: “Le due facce del dollaro”. Este ainda que não esteja ao mesmo nível também não é nada mau, nada mau mesmo. Um caçador de recompensas e um bandido perigoso unem-se para caçar um bandido mexicano. Nada de novo, mas a realização competente de Montero garante-nos hora e meia de acção non-stop.

Dia 2: Il magnifico texano (1967 / Luigi Capuano)


Para o segundo dia da festividade, repesquei esta espécie de filme Zorro. Uma aventura típica de um vingador mascarado, aqui protagonizada por Glenn Saxon (mais conhecido pelo sotto-Django: Django Atira Primeiro). A realização é de Luigi Capuano, homem que tinha claramente um apreço por este tipo de cinema de aventura, tendo realizado uma série de Zorros e Sandokans. Diversão assegurada, apesar dos tiques mais clássicos. 

Dia 3: Testa o croce (1969 / Piero Pierotti)


Este já andava na calha há bastante tempo, mas por alguma razão acabava sempre preterido em relação à concorrência. Sem surpresas, os comentários favoráveis que fui lendo no fórum do SWDB revelaram-se acertados. Shanda é acusada do assassinato de um banqueiro e numa cidade cheia de beatas histéricas e tem como mais certo ser linchada, para evitá-lo o xerife a manda-a para outra cidade. Mas os dois deputados a quem ela é confiada estão feitos com a vilanagem, violam-na e largam-na no deserto. Por sorte o fora-da-lei Black Talisman cuida dela e decide vingá-la e limpar seu nome.

Dia 4: Ramon il Messicano (1966 / Maurizio Pradeaux)


No quarto dia calhou este na rifa. Outro que também já queria ver há muito, mas que só nesta investida risquei da watchlist. Não bastasse o vilão chamar-se Ramon, também há uma família de Baxters, um paralelo para com o supremo “Por Um Punhado de Dólares”, que dificilmente terá sido inocente. O enleio é feito em volta destas famílias, mas aqui com o factor vingança parte a parte adicionado à equação. Curiosamente esta fita acabou por ser uma das mais vistos pelos utilizadores do fórum. Tendo sido genericamente apreciado, diga-se.

Dia 5: Buckaroo (Il winchester che non perdona) (1967 / Adelchi Bianchi)

O primeiro tiro ao lado chegou no quinto dia. Os culpados: Adelchi Bianchi e Dean Reed! A história começa quando o patife Lash mata o sócio com a ajuda de um bando de mexicanos, com os lucros do feito funda uma cidade em que se torna rei e senhor. Um punhado de anos depois um pistoleiro chega à cidade com objectivo de repor a ordem. Filme do mais básico que o género tem para dar e sem chama que mantenha o espectador minimamente focado no rectângulo da tela. E para ajudar à festa ainda há tempo para uma musiquinha cantada pelo «Red Elvis». Uma seca!

Dia 6: Tres dólares de plomo (1964 / Pino Mercanti)


Este apareceu-me no feed do YouTube e acabei por vê-lo de fio a pavio, mas mais valia não ter feito. Após alguns anos fora, Rudy Wallace regressa ao rancho do pai, que encontra devastado. Descobre então que toda a região está sob a ameaça de um homem chamado Morrison, e que ele matou o seu pai. Não é um bom western, mas também não é horrivelmente mau. É antes, aquele tipo de filme que poderia encabeçar uma lista de de filmes que esquecerás no dia depois de o veres. 

Dia 7: La Lunga cavalcata della vendetta (1972 / Tanio Boccia)


A escolha seguinte recaiu sobre “O Cavaleiro da Vingança”, um dos dois westerns do Tanio Boccia que ainda me faltava ver. Para meu azar a qualidade do filme é coerente com a média daquilo que foi saindo nos anos setenta e, portanto, bastante longe da qualidade dos seus primeiros westerns. Creio que teria sido melhor não tivesse sido contado com flashbacks, mas enfim, já todos sabemos que a fasquia baixou nesta década e este não é excepção. Era um dos poucos westerns protagonizados por Richard Harrison que ainda me faltava ver.

Dia 8: L'uomo dalla pistola d'oro (1965 / Alfonso Balcázar)


Um bom balão de oxigénio era quilo que precisava para continuar a jornada. Doc, jogador de poker e ex-cirurgião vê-se injustamente acusado de um assassinato. Na sua senda está Slade, um caçador de recompensas. Ao encontrar um cadáver, Doc decide tomar a sua identidade mas trama-se rapidamente, porque o cadáver era afinal um pistoleiro pago pela população da cidade com objectivo de defendê-los do bando de Reyes. Elenco lowcost, mas eficaz com Carl Möhner, Luis Dávila e o habitué Fernando Sancho. Bom filme!

Dia 9: Kid il monello del west (1973 / Tonino Ricci)


Nono dia. Fala-se sempre daquele chavão de que não há uma segunda oportunidade para dar uma boa primeira impressão. Pois bem, a minha primeira conexão com este Tonino Ricci foi com o bélico “Il dito nella piaga”, um bom filme de guerra com um elenco de se lhe tirar o chapéu (Klaus Kinski, George Hilton), além de conter todas os predicados que o género exige. Já os westerns dele, benza-o Deus. Este é uma paródia com miúdos a fazer de graúdos. Ri duas, ou três vezes, mais do que esperaria. Mas não recomendo o castigo. 

Dia 10: El Zorro (1968 / Guido Zurli)



Certo que iria ter mais sucesso com filmes do período de ouro, mas ainda convicto que evitaria revisões, lá escolhi este Zorro para o décimo dia. Há quem não considere estes filmes sequer como westerns-spaghettis, mas o pessoal que neles trabalhou era geralmente o mesmo e por isso faz-me sentido considerá-los para o grande saco. Este aqui não é tão intricado como o “Zorro” do signore Duccio Tessari e o George Ardisson não é nenhum Alain Delon, mas lavados os cestos, fiquei bem satisfeito com a escolha. Tenho urgentemente de ver mais filmes deste filão.

Dia 11: Johnny Oro (1966 / Sergio Corbucci)



Décimo-primeiro dia com western-spaghetti na ementa. Mais uma vez fico-me pela década de sessenta e desta risquei de vez “Ringo e a Sua Pistola de Oiro” da minha watchlist. A estrela é Mark Damon, um indivíduo que nunca me inspirou confiança nestes papeis de durão. E não foi desta que mudei de ideias, mas fiquei surpreendido por o filme não ser nada mau. Também não o achei equiparado aos melhores standards do amigo Sergio Corbucci, mas em defesa dele, não é nada aborrecido. O final é literalmente, explosivo!

Dia 12: Lola Colt (1967 / Siro Marcellini)



Dia cansativo, com adição de uns centos de quilómetros nas lombares, mas mantive-me em jogo. Ora aqui está mais um caso raro de western com uma personagem principal feminina. As minhas experiências anteriores têm tido resultados variáveis, o “Rita no Oeste” foi péssimo, mas já o “Giarrettiera Colt” foi bastante decente. Achava eu que este podia ser pelo menos do nível desse último, mas estava enganado. Não há nada aqui de interesse que não sejam os dotes físicos da Lola Falana, uma verdadeira dançarina da Broadway. Agora é só recalcar a experiência!

Dia 13: Anche per Django le carogne hanno un prezzo (1971 / Luigi Batzella)



Sexta-feira, o cansaço aperta ainda mais e sinceramente não estava com grandes forças para ver um western-spaghetti pela noite dentro. Mas depois de ouvir (e ver) os parceiros do podcast Once Upon a Time in Spaghetti Westerns, falar do underdog, Jeff Cameron, durante quase uma hora, decidi arriscar-me num dos poucos filmes dele que ainda tinha na watchlist: “Até para Django os Cadáveres Têm Preço”. Um dos centos de pseudo-Djangos que cresceram que nem ervas daninhas durante estes anos dos westerns à italiana. Cinema de baixo orçamento, enredo descomplexado e máxima diversão. Mesmo aquilo que precisava.

Dia 14: Uno sceriffo tutto d'oro (1966 / Osvaldo Civirani)



De volta às escolhas perfeitamente aleatórias. Tal como na escolha da noite anterior, faltam por aqui nomes sonantes, mas o filme sobrevive perfeitamente. Neste caso, não pelos socos certeiros do personagem principal, mas sobretudo pela qualidade do enredo, que envolve uma estranha aliança entre um bandido e um xerife com o objectivo de juntos darem sumiço a um carregamento de ouro. De longe o melhor western do Olvaldo Civirani.

Dia 15: Gli uomini dal passo pesante (1965 / Albert Band, Mario Sequi)



O filme gémeo de “Os Cruéis” (Sergio Corbucci), repesca a trama e até parte do elenco, mas não chega nem aos calcanhares da competência do filme de Corbucci. Curiosamente o filme foi lançado em Portugal como “Os Implacáveis”, que só ajuda a confundir o espectador mais desatento. Valeu sobretudo pela oportunidade de ver Franco Nero num raro papel secundário e por contar com o “Tarzan”, Gordon Scott no papel principal. 

Dia 16: Quel maledetto giorno della resa dei cont (1971 / Sergio Garrone)



E já vamos no décimo-sexto dia. Faltava-me ver este último western do Sergio Garrone e por isso já lhe tinha guardado lugar nesta maratona de westerns-spaghettis. As qualidades dos westerns dele são muito variáveis, no entanto acho que é um dos realizadores a ter em conta para quem tem interesse no género. E este filme apesar de já ter estreado no declínio de popularidade do género é melhor do que esperaria. Tem um elenco carregado de gente conhecida e que parece realmente empenhada no que estão a fazer, algo que raramente se encontra em euro-westerns desta década de setenta. Normalmente é um filme desancado pelos fãs do género, não entendo porquê.

Dia 17: I quattro inesorabili (1965 / Primo Zeglio)



A décima-sétima escolha foi para este western-spaghetti madrugador, realização de Primo Zeglio, que vale ser mencionado pelo recomendável “Killer, adiós”. Já este filme é sobretudo lembrado pelo facto de ser protagonizado pelo “Batman”, Adam West, aqui no papel de ranger bonzinho (com chapéu branco e tudo). Do outro lado da barricada temos Robert Hundar, um meliante que arranja forma de tramar o ranger por forma a pôr sobre ele uma recompensa, que fará questão de arrecadar. Um western tradicionalista mas que me encheu as medidas.

Dia 18: Sei iellato amico, hai incontrato Sacramento (1972 / Giorgio Cristallini)



O segundo western de Giorgio Cristallini também veio parar à rede. O nome e a arte usada para promovê-lo não deixava adivinhar coisa boa e de facto foi difícil de engolir. Um velho boxer (Ty Hardin) com propicio para as encrencas vê-se a mãos com o rapto da filha. Gostei da fotografia, mas de resto nada bate certo. No genérico uma portentosa música de louva a Deus, pouco depois um gospel inusitado e para terminar porrada de criar bicho e saraivada de balas de fazer inveja aos mais temidos pistoleiros do euro-western. Enfim, mais um para recalcar.

Dia 19: Il tredicesimo è sempre Giuda (1971 / Giuseppe Vari)


A ferida deixada pelo filme da noite anterior e o cansaço acumulado da semana quase me levou a folgar nesta noite, mas em vez disso escolhi um filme que fosse bem pequeno. Não vi todos os westerns do Giuseppe Vari, mas posso dizer que dos que vi nenhum me decepcionou. Este temia que fosse a excepção mas estava enganado. Bom elenco e trama complexa ao estilo dos filmes gialli. Tudo começa com uma petiscada entre amigos, quando se apercebem que estão treze à mesa, alvitram o pior e é o que acontece. A diligência que deveria transportar a noiva do Donald O'Brien chega finalmente, mas lá dentro só transporta cadáveres. Quem matou?!

Dia 20: Il piombo e la carne (1964 / Marino Girolami)



A vigésima escolha veio com a chancela de Marino Girolami, o pai do favoritíssimo Enzo G. Castellari. O velho também queimou uns cartuchos no género e fê-lo deste ceda hora. Neste western pré-boom encontrei tudo o que não gosto no meu western, escaramuças entre índios e cowboys com romance proibido pelo meio. Ao contrário de todas as escolhas até aqui, que vieram de canais de YouTube, este repesquei-o da minha colecção de westerns-spaghettis. Um DVD dos primórdios da Divisa que tinha a apanhar pó para cima de dez anos. Lá devia ter continuado.

Dia 21: Tu fosa será la exacta... amigo (1972 / Juan Bosch)



Os filmes de Craig Hill dos anos setenta são normalmente beras e tenho fugido deles como o diabo da cruz. Mas em dia de fim-de-semana senti a força necessária para enfrentar mais um desses. A escolha foi, “O Meu Cavalo, a Minha Pistola, a Tua Viúva”. Um chorizo-western de baixo orçamento com o mote da caça ao tesouro e com a guerra civil em pano de fundo. Apesar de cumprir minimamente com os clichés do género, ter as típicas personagens exageradas, muito tiroteio e porrada, há nele um desalinhamento de estilo que não o permite enquadrar nem a secção das comédias pós-Trinitá, nem na secção ultra-violenta. Muito, mas muito difícil de mastigar.

Dia 22: La tumba del pistolero (1964 / Amando de Ossorio)



Dia 22. E a precisar desesperadamente de algo mais aceitável para retomar o ânimo. Por essa razão ocorreu-me em apostar nalgum filme com realizador com provas dadas e segui caminho com este western de Amando de Ossorio, nome de respeito do cinema de terror espanhol, sobretudo graças à saga iniciada com o excelente “A Noite do Terror Cego”. Trata-se de um western ainda filmado a preto e branco, com um clima bastante clássico e com uma boa dose de mistério. Já a acção é manifestamente fraca, mas não belisca o resultado. Caras conhecidas temos algumas. George Martin (o protagonista), Luis Induni (o xerife, claro está), Aldo Sambrell (o chefe dos mineiros), entre outros.

Dia 23: I quattro pistoleri di Santa Trinitá (1971 / Giorgio Cristallini)



A maratona seguiu com “Os Aventureiros de Santa Trinitá”, o segundo filme de Giorgio Cristallini a vir à tona por estes dias. E atendendo ao suplicio que foi o primeiro que me saíu na rifa, provavelmente nem o deveria considerado, mas a verade é que nem estava a prestar atenção aos créditos. A razão de o ter escolhido foi só uma: Peter Lee Lawrence. O titulo do filme não é ingénuo, há obviamente uma piscadela de olho aos filmes do “Trinitá”, mas fora isso, nada os liga. A mim pareceu-me demasiado confuso e tirando a espetacular cena final com o vilão a ser obliterado por uma pazada no pescoço, pouco de interesse lhe encontrei. Foi um spoiler? Desculpem.

Dia 24: Sangue chiama sangue (1968 / Luigi Capuano)



Mais uma repetição, desta vez foi o Luigi Capuano a ressurgir nas preferências. E deste senhor já estava seguro de que a qualidade seria outra. Não me enganei. “Sangue Chama Sangue” conta uma história básica de vingança, mas com um enquadramento bastante original. Um bando assalta um mosteiro para rapinar uma relíquia. No acto varrem a chumbo todo e qualquer elemento do clérigo, incluindo o irmão do nosso futuro vingador. Este é para repetir daqui a uns tempos. Bom filme.

Dia 25: Diamante Lobo (1975 / Gianfranco Parolini)



Vigésimo quinto dia com spaghetti na ementa. Desta vez a escolha recaiu sobre “A Pistola de Deus”, um western com um elenco principal impecável não fossem esses protagonistas estarem já na fase mais decadente das suas carreiras, Lee Van Cleef e Jack Palance. Um padre e o seu irmão gémeo defendem a cidade das malfeitorias de um bando. Filmado em Israel e com os homens da Cannon por detrás da produção!

Dia 26: Il pistolero segnato da Dio (1968 / Giorgio Ferroni)



Depois de duas noites com westerns com padres nas personagens principais, pareceu-me adequado continuar a linha e lá prossegui com o “O Pistoleiro Designado por Deus”. Era o único western de Giorgio Ferroni que não tinha visto à data e sendo apreciador de todos os outros, talvez devesse estar entusiasmado, mas para dizer a verdade estava bastante relutante. Anthony Steffen no papel de estrela de circo, não é das coisas mais excitantes que um fã de westerns-spaghetti possa imaginar, mas em defesa do filme, diga-se que não é de jogar fora. O desenlace final foi surpreendentemente satisfatório. 

Dia 27: Dans la poussière du soleil (1972 / Richard Balducci)



Chega de religiosidades. A vigésima-sétima escolha foi tudo menos católica, aliás este será facilmente o filme com mais mamoca ao léu que vi no género (sei que há uns mais hardcore mas os nossos caminhos ainda não se cruzaram). Fora isso, dizer que o filme é estranho para cacete apesar de usar um argumento adaptado de “Hamlet”. A saber, Joe Bradford mata o irmão e casa-se com a sua viúva, Gertie. O filho de Gertie, Hawk, vai fazer algo em relação a isso. Mas como o rapaz só tem uma fala em todo o filme, cada um que entenda aquilo que quiser. Sou capaz de o rever, caso me cruze com uma versão com qualidade de imagem decente. 

Dia 28: Frontera al sur (1967 / José Luis Merino)


Quase a  chegar ao final da maratona, mas com o sentimento que poderia facilmente continuar por mais algum tempo, evitasse apenas alguns caminhos que já conheço como penosos. Mas para bem do bom estar patrimonial, é melhor nem pensar no assunto. Para a sessão da noite repesquei este "Kitosch", o único western protagonizado pelo saudoso George Hilton que ainda não tinha visto. O filme destaca-se desde logo pela acção ser passada no Canadá. Hilton escolta um grupo de mulheres (e caixões) até ao Forte Eagle, que terá de defender de um grupo de índios saqueadores e bandidos liderados por um tipo tão misterioso que só lhe descobriremos a identidade no fecho da fita.

Dia 29: Il lungo giorno del massacro (1968 / Alberto Cardone)



O dia de trabalho cansativo pedia algo mais descomprometido para a sessão da noite. Os filmes protagonizados por Peter Martell costumam assegurar isso mesmo. Os filmes do Alberto Cardone, idem. Decisão fácil, portanto. O xerife Joe Williams (Martell) é injustamente acusado do assassinato de um jovem casal, mesmo com a lei no seu encalce actua contra um bando de meliantes que assalta o banco local. Acção, muita acção. Escolha acertadíssima!

Dia 30: Der Schatz im Silbersee (1962 / Harald Reinl)



O trigésimo dia é simultaneamente dia de véspera de feriado o que me permitiu apostar num filme maior que o  habitual (em média tinha visto sempre filmes com hora e meia). Um desses que tinha aqui guardado é "O Tesouro do Lago da Prata", o primeiro capitulo da longa saga Winnetou. Tenho memória de ter visto alguns desses filmes há muitos anos atrás na televisão espanhola mas sem nenhum me ter feito mossa. Talvez por isso tenha mandado sempre tacada no filão germânico, mas tenho de me retratar porque gostei bastante deste filme, e sim, já penso em dar uma oportunidade aos restantes. A história é claramente apontada ao cinema de aventuras, as localizações são fantásticas e a fotografia espelha isso mesmo. Aliás, contra o filme só mesmo a ultra-moralidade das personagens principais.

E pronto chegámos ao final da maratona. A esposa apostava que conseguisse ver dez ou onze filmes, no máximo. Eu concordava, mas acreditava que conseguiria mais caso apostasse nalgumas revisões de clássicos. Mas contra todas as expectativas consegui chegar aos trinta filmes, todos novos para mim, todos do fundo do tacho, uns melhores, outros piores e outros tão banais que já pouco lhes recordo. 

Raramente tenho vistos trinta filmes num mês, muito menos resumidos a um único género e sinceramente, apesar de amar o euro-western, não acho que tivesse conseguido manter esta rotina, não fosse a pandemia Covid-19 e as consequentes imposições preventivas governamentais. Há que ver bem onde só parece haver mal. Evitem o contágio, fiquem em casa e vejam algum cinema!