2010/06/27

Blindman (1971 / Realizador: Ferdinando Baldi)


Realizado pelo experiente Ferdinando Baldi (Texas, addio; Preparati la bara! ou Il pistolero dell'Ave Maria) e lançado numa época em que algumas barreiras sociais se levantavam por esse mundo fora, a equipa por detrás da produção deste petardo fez desfilar um número impressionante de mulheres em trajes menores pelo meio das desérticas paisagens de Almería. O nudismo presente em diversas cenas do filme seria nos dias de hoje considerado banal, mas em plena entrada nos anos 70 constituía novidade e grande motivo de interesse. Acabando por ser decisivo no sucesso que o filme fez nas bilheteiras. Em defesa da obra, diga-se que Blindman vive para além disso. Tony Anthony (Un dollaro tra i denti; Un uomo, un cavallo, una pistola) encarna um pistoleiro sem paralelo nas centenas de películas do género lançadas até então: Um pistoleiro cego! Claramente influenciado pela mítica personagem Zatoichi, o samurai cego, que as gerações mais recentes se recordarão graças ao galardoado filme homónimo de Takeshi Kitano.


Devidamente adaptado ao ambiente western, o nosso ceguinho não tem direito à espada afiada, mas uma baioneta cravada no cano da sua Winchester parece capaz de fazer o serviço! Com pinta de simpático e quase sempre de sorriso estúpido na cara, o nosso herói é afinal uma espécie de traficante de mulheres encarregue de escoltar cinquenta esposas de aluguer, recrutadas algures na velha Europa, até a uma cidade texana em que são esperadas por outros tantos mineiros ressabiados. Aparentemente enganado pelos comparsas, o cego fica sem a mercadoria, mas não desiste: “Quero as minhas cinquenta mulheres!”

Trocadas umas prosas e alguma dinamite com os canalhas que o traíram, parte para o México, para onde afinal a carga parece ter tido remetida. Aí terá de convencer o bando liderado por Domingo (Lloyd Battista) a devolver-lhe o mulherio. Mas Domingo e familiares, têm outros planos para as mulheres, que aparentemente tencionam vender ao exército federal mexicano. A trama avoluma-se quando percebemos que o negócio é afinal uma farsa, e os soldados acabam por ser massacrados após pagarem pela mercadoria. As mulheres não têm melhor fim, sendo entretanto brutalmente perseguidas, violadas e alvejadas pelos maus da fita no meio do deserto. Elevando o interesse do filme para uns quantos, e tornando-o demasiado duro de assistir para muitos mais.


A produção do filme repartida pelo próprio Tony Anthony com Allen Klein e Saul Swimmer - estes últimos com fortes ligações à carreira dos The Beatles - acabaram por ser decisivos para a participação de Ringo Starr no filme. O baterista ainda na ressaca da ruptura da banda, interpreta razoavelmente um dos vilões mexicanos, estranhamente apelidado de Candy. As opiniões sobre “Blindman” ainda hoje estão longe de ser consensuais. O famoso realizador e estudioso destas artes, Alex Cox, é-lhe particularmente crítico nas páginas que lhe dedica no seu “10.000 Ways To Die”. Mas ainda que “Blindman” fique a léguas de qualquer grande clássico do western-spaghetti e que faça parte da grande fatia de películas lançadas na fase decadente do género, não deixa de cumprir com o seu pressuposto principal: divertir!

Em súmula: Um filme sexista, pejado de violência gratuita e injustificada; muito adequado a um público interessado em cinema de acção sem final à vista. “Blindman” está actualmente disponível no mercado lusófono de audiovisuais através da editora brasileira Ocean Pictures, sob o título “Preso Na Escuridão”.

Nota:

Artigo originalmente publicado em The Spaghetti Western Database como parte integrante do destaque: “Tony Anthony Special”. Link directo: http://www.spaghetti-western.net/index.php/Blindman_Review_(Portuguese)

Trailers:



14 comentários:

  1. Foi sem ter medo das balas que o poderiam acertar que Tony Anthony se aventurou num filme que achei super interessante, dada a ousadia de fazer cego um pistoleiro negociante. Embora não seja excelente há cenas que me ficaram marcadas pelo desembaraço e criatividade com personagem principal se mexe no meio de quem lhe quer estragar o negócio!
    Vale a pena ser visto!

    ResponderEliminar
  2. Mais uma vez o cinema japonês serviu de inspiração para um western europeu! Dá que pensar porque a maioria das pessoas ainda pensa (erradamente) que apenas o cinema americano é que é bom!!

    ResponderEliminar
  3. Longe disso, existe bastante para além de Hollywood. Felizmente...

    ResponderEliminar
  4. Ya la tengo lista para ver despues de tiempo buscándola esta variante de Zatoichi, que como bien apuntais certifica las constantes corrientes e influencias de ida y vuelta entre el western norteamericano, el chambara japonés y el eurowestern.

    ResponderEliminar
  5. Correcto e pertinente! Desde os seminais "Per un pugno di dollari" ou "Django", passando pelo interessante "Oggi a me... domani a te!", todas elas variantes do cinema japonês.

    ResponderEliminar
  6. Este filme não é um dos meus preferidos, do mesmo realizador prefiro muito mais o VIVA DJANGO com Terence Hill, talvez seja devido à sua atmosfera hippie, ou devido à actuação irritante de Ringo Starr, na verdade este filme nunca me agradou por aí além, embora reconheça que tenha os seus momentos.
    O título deste filme em Portugal foi.

    JUSTICEIRO SEM OLHOS

    ResponderEliminar
  7. Olá António.

    Também me parecia que o titulo que vi no VHS era esse, mas não tinha como confirmar. Obrigado!

    Entendo o teu ponto de vista, um tipo de Liverpool a fazer de Mexicano pode ser um problema. Os hippies também não abonam a favor, mas nesse campo parece-me que a atmosfera hippie do Gli specialisti (Sergio Corbucci) é muito mais irritante.

    ResponderEliminar
  8. De esta película tenía muy buenas referencias pero la verdad es que no me ha convencido y no consigo pillar el sentido del humor de Anthony. Para mí una decepción, máxime porque las tres películas dirigidas por Baldi que había visto anteriormente me habían gustado bastante, sobre todo "El pistolero de Ave María"y "Adiós Texas"

    ResponderEliminar
  9. Sim, não será de certeza o melhor filme do senhor Baldi. Mas este justiceiro sem olhos é melhor que "Little Rita nel west" ou até "Odia il prossimo tuo".

    ResponderEliminar
  10. como faço para baixar este filmes????

    ResponderEliminar
  11. como faço para baixar estes filmes?

    ResponderEliminar
  12. Tenta aqui:

    http://pt.kickasstorrents.com/blindman-1971-western-t3835500.html

    ResponderEliminar
  13. Os mexicanos parecem bárbaros hippies que capturam mulheres para lançá-las nas prostituição. Mas apesar dos contratempos presentes nesse Spaghetti visualmente ele é fantástico. A câmera nos puxa para dentro da tela, nos joga de um lugar para o outro;uma construção imagética que aprimorou ainda mais a plasticidade visual do gênero.Só para comparação"Texas adeus" do mesmo diretor tem um roteiro mais consistente e concatenado, mas visualmente não é dos melhores e fica bem aquém de Blindman. Estilisticamente eu o colocaria no mesmo nível das inovações visuais de Django Kill e Matálo.

    ResponderEliminar
  14. Blindman (1971)

    Direção: Ferdinando Baldi
    Com: Tony Anthony, Lloyd Battista, Ringo Starr, Magda Konopka, Raff Baldassare

    Texto por Rafael Hansen Quinzani
    O filme Blindman de Ferdinando Baldi constitui-se num dos mais originais Spaghetti Westerns já realizados principalmente pelo fato de ser protagonizado por um personagem cego e pelos elementos que o diretor soube articular com este enredo.
    O protagonista da trama é interpretado por Tony Anthony, que também produz o filme. Sua interpretação conduz os pontos positivos do filme, mas estes não ficam somente restringidos ao personagem central. A abertura contém os elementos já clássicos do gênero: o deserto, o vento, a aridez, o sol escaldante e a excelente música pontuando a cena. Logo em seguida somos apresentados à história: Um pistoleiro cego está em busca de 50 mulheres que ele deveria conduzir ao Texas para servirem de esposas aos mineiros de uma localidade isolada. Mas ele foi enganado e está em busca de reparações. As 50 mulheres foram capturadas por Domingo, um poderoso e rico mexicano que as utiliza como armadilha para prender um general (Raf Baldassarre). Este personagem insere um tom característico atribuído aos mexicanos: a galhardia, a insolência e o cômico.
    Um ponto peculiar de Blindman é a presença de Ringo Starr como Candy, o irmão de Domingo disposto a qualquer atitude para se casar com Pilar (a bela Agneta Eckemyr), uma moça da localidade.
    O roteiro e a direção do filme souberam muito bem articular os elementos decorrentes da deficiência do protagonista: o mapa em relevo, a bússola sem tampa, a astúcia desenvolvida pelo personagem e o cavalo do pistoleiro, responsável por momentos hilários. Baldi conduz o filme num andamento acelerado marcado por constantes reviravoltas e consegue muito bem articular os momentos cômicos com os de tensão. Agregado a estes elementos insere-se o tom soturno (onde ganha importância a fotografia de Riccardo Pallottini), sarcástico, irônico e de extremo humor negro. Como exemplo as cenas de sadismo protagonizadas pela irmã de Domingo (a belíssima Magda Konopka), as 50 belas loiras e morenas seminuas em fuga pelo deserto, sendo vítimas de um massacre e estupro coletivo e o bizarro enterro de Candy. Num contraponto a falta de visão do protagonista o que visualizamos são ambientes com pouca luz, ângulos irregulares e inquietos com rápidos movimentos de câmera.
    O desfecho do filme ocorre num cemitério, cenário caro ao gênero, mas aí também Baldi não deixa de caracterizar seu filme. Quando o cego está frente a Domingo ele proclama: “- Não te desejo mal Domingo! Só espero que você perca todos os seus dentes, menos um. E que este te doa pelo resto de sua vida!”.
    Um filme surpreendente, peculiar e por que não, visceral.

    http://www.imdb.com/title/tt0066844/


    fonte:
    http://dollarirosso.blogspot.com/2007/06/blindman-1971.html

    ResponderEliminar

Related Posts with Thumbnails