2010/02/01

Per un pugno di dollari (1964 / Realizador: Sergio Leone)


De certa forma, este filme salvou a indústria cinematográfica italiana do desastre total. Quem diria que um projecto com um orçamento tão curto e destinado ao fracasso seria o pontapé de saída para a loucura dos westerns europeus? É verdade que antes disso os alemães já tinham produzido westerns para televisão, nomeadamente as adaptações dos livros de Karl May, mas com pouca qualidade. Os anos 50 na Itália foram marcados pelos filmes épicos (peplum) e as super produções americanas recorriam aos estúdios europeus porque era menos dispendioso e obtinham melhores resultados. Clássicos com Quo Vadis e Ben-Hur foram êxitos estrondosos. Cleópatra, o filme mais caro da história do cinema, foi um desastre total nas bilheteiras. A indústria cinematográfica de Itália caiu a pique, muitos estúdios faliram e centenas de pessoas viram-se desempregadas da noite para o dia.


Cineastas como Sergio Corbucci, Duccio Tessari e Sergio Leone também participaram activamente nos “peplum”, tendo Leone realizado o interessante O colosso de Rodes (1960). Em finais de 1963, a conselho de Enzo Barboni, Leone dirige-se ao cinema Arlecchino em Roma para ver Yojimbo, um filme de samurais de Akira Kurosawa. O filme é baseado num romance negro de Dashiell Hammett chamado “Red Harvest”. Leone ficou maravilhado e teve uma ideia: transformar aquilo que viu num western. Procurou alguém que financiasse o projecto e a muito custo conseguiu convencer Arrigo Colombo e Giorgio Papi, da Jolly Films. O filme intitulado “Il magnífico straniero” tinha de ser protagonizado por um actor americano. Henry Fonda e Charles Bronson eram inalcançáveis, James Coburn também, Steve Reeves e Richard Harrison declinaram o convite. Eis então que surge um jovem actor conhecido da televisão americana que aceitou o trabalho por 15 000 dólares. A partir daí, os nomes de Sergio Leone e Clint Eastwood tornaram-se inseparáveis.


A fórmula, como Christopher Frayling expõe num dos seus livros, denomina-se “servant of two masters plot”. Um forasteiro solitário (homem sem nome / Joe) chega a uma pequena vila mexicana e ao aperceber-se que há duas facções rivais (a família Rojo e a família Baxter) tenta jogar de ambos os lados e lucrar financeiramente com a rivalidade, mas as coisas nem sempre correm como previsto… O duelo final entre Clint Eastwood e Gian Maria Volonté fica para a História: “Quando um homem com uma pistola defronta um com uma espingarda, o da pistola é um homem morto!”
Este filme marca um novo estilo, recorrendo ao uso de grandes planos das caras dos actores, olhos e armas. A música de Ennio Morricone é a todos os níveis original e brilhante! Este foi também o primeiro western-spaghetti a ser rodado em Almeria, embora muitas cenas aconteceram na zona norte de Madrid. Após meses atribulados, o filme finalmente estreou e em poucas semanas tornou-se num estrondoso êxito de bilheteira na Europa, no Japão e, mais tarde, nos Estados Unidos. A indústria de cinema na Itália começava um novo ciclo que duraria cerca de 15 anos graças a este balão de oxigénio chamado Por um punhado de dólares.

Há muitas edições DVD à venda e desta vez Portugal não é excepção (até admira!). Comprei a edição portuguesa da Costa do Castelo Filmes, versão integral com áudio em italiano, legendas em português e formato letterbox 2.35:1. Além disso, contém o documentário “Era uma vez Sergio Leone”, a biografia e filmografia do realizador. Para mim, este filme é fundamental na minha DVDteca. Quem se considera um fã de westerns-spaghetti e nunca viu esta obra-prima, diria que é, no mínimo, um escândalo!


Trailer

25 comentários:

  1. Muito bom, mas é o que menos gosto do Leone. Seu filme posterior é muito mais genial.

    Ótimo texto e ótimas curiosidades!

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  2. Concordo com o Caio, mas julgo que este "Por um punhado de dólares" vale sobretudo pelo ponto de inflexão que causou no cinema de acção. Como já por aí ouvi dizer a alguém, foi aqui que nasceu a formula desses personagens durões que nos habituamos a idolatrar nos anos seguintes.

    A minha edição DVD é a inglesa da MGM, que vem pejada de entrevistas e documentários interessantes; e até o obscuro prólogo que os anjinhos dos americanos rodaram no intuito de dar um sentido moral a toda a carnificina que Leone providenciou. Infelizmente apenas contém idioma Inglês, por isso amigo Emanuel vais ter de me emprestar a tua cópia um dia destes!

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  3. Obra maestra.
    Felicidades por la reseña, Pedro.

    Masterpiece.
    Parabéns pela sua opinião, Pedro.

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  4. Atención Julio Alberto, esta reseña fue hecha por mi compadre Emanuel Neto. En su nombre agradezco las simpáticas palabras!

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  5. Muito legal o texto. Eu adoro o filme e é uma pena que não consigo mais achar o DVD por aqui no Brasil no formato de tela (ecrã em Portugal?) certo... só acho em fullscreen.

    Grande abraço!

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  6. Es verdad, no ví abajo su nombre.
    Pues felicidades a él. 8 )

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  7. Muchas gracias, amigo Julio Alberto! Felicidades para ti!

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  8. Para mim, este é o meu filme preferido de Leone. É verdade que tecnicamente não é tão evoluido como os seguintes mas também é verdade que o orçamento era muito curto! Por vezes não é preciso ter muito dinheiro para fazer um bom filme, o que é fundamental é talento!

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  9. Muito legal, adoro esse filme e muitos outros do Sérgio Leone. Agora, com Eastwood na crista da onda, seria muito oportuno recuperar para estes filmes a atenção que merecem. Gostei de seu blog e estou linkando-o no meu, um abraço e aguardo sua visita!

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  10. Não, tudo não passou de falsa informação.
    No link abaixo está o desmentido pelo próprio:

    http://www.youtube.com/watch?v=nVHoDH-eKdI

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  11. Acho o filme fantástico! Adorei! Tem cenas que ficaram para a história do cinema!

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  12. É de facto um filme magnífico! aliás toda a trilogia de que faz parte.

    Também sou fã do género (recentemente diga-se) e gostaria que me indicasses assim alguns filmes spaghetti e se quiseres outros Westerns que sejam relevantes e bons num panorama geral?

    abraço

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  13. Amigo Jorge, mantém-te atento ao blog e poderás constatar que quase todos os filmes que aqui apontamos são acessíveis em dvd. Para mim os westerns-spaghetti não se resumem à trilogia dos dólares, há um vasto tesouro além de Leone!

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  14. Penso que uma boa sugestão para o Jorge seria tentar arranjar os filmes apontados pelo portal SWDB como Top 20. Ver aqui:

    http://www.spaghetti-western.net/index.php/Essential_Top_20_Films

    Ainda durante este mês publicaremos os nossos top 10 individuais, o que também poderá ajudar.

    Um abraço Jorge.

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  15. Obrigado pelas sugestões e pelos conselhos.
    E desde já elogio o vosso espaço, pela qualidade que impera, assim como a vossa dedicação a um género que de facto é um pouco esquecido e subvalorizado!

    Cá estarei vos acompanhando :)

    abraços

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  16. Filme de Sergio Leone que colocou o western spaghetti no mapa tem edição fraca em DVD

    Por: Rodrigo Carreiro




    Clint Eastwood já estava com 33 anos em 1963, e Hollywood ainda era um sonho distante. Entre tentativas de virar cantor country e bicos como construtor de piscinas em Los Angeles (EUA), ele embarcou na carreira de ator de TV e foi descoberto por um cineasta ainda mais desconhecido, que lhe enviou uma proposta. O diretor italiano Sergio Leone oferecia o papel de protagonista num faroeste local. Clint aceitou por farra, pois teria a oportunidade de conhecer a Itália e a Espanha, em cujos desertos o longa-metragem seria rodado. Quis o destino, entretanto, que o tal filme o pusesse no mapa. “Por Um Punhado de Dólares” (Per un Pugno di Dollari, Itália/Espanha/Alemanha, 1964) levou os faroestes B produzidos na Europa, chamados de western spaghetti, aos cinemas internacionais, e revelou o talento de um dos diretores de estilo mais pessoal da história do cinema.

    Embora tido por muitos como marco inicial dos faroestes baratos feitos na Itália, “Por Um Punhado de Dólares” não foi o primeiro filme do estilo, uma vez que pelo menos 25 outros westerns já haviam sido lançados no país europeu, nos primeiros anos da década de 1960. Foi o filme de Leone, no entanto, que abriu os olhos dos cinéfilos de outros países para a boa qualidade das produções italianas. Além disso, reza a lenda que foi Leone, junto com o assistente Sergio Corbucci (que juntos haviam feito “O Colosso de Rodes” em 1960), o primeiro homem a perceber que o deserto de Almeria, na Espanha, oferecia paisagens adequadas para westerns. Portanto, não é errado considerar o italiano como pioneiro do subgênero.

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  17. A inspiração para “Por Um Punhado de Dólares” veio de um filme japonês. Em “Yojimbo”, lançado três anos antes, Akira Kurosawa apresentava a saga de um samurai sem nome que se via no meio de uma disputa entre dois grupos de criminosos. Sergio Leone simplesmente transportou a ação para o Velho Oeste. Um misterioso pistoleiro (Eastwood) chega a uma pequena cidade dominada por duas gangues, os Rojo e os Baxter, e vê na disputa dos grupos uma oportunidade para ganhar dinheiro de ambos os lados. A trama é uma espécie de rascunho que seria refinado nos dois filmes seguintes do diretor, ambos reapresentando o mesmo personagem principal.

    “Por Um Punhado de Dólares” é o mais fraco exemplar da famosa “trilogia dos dólares”, mas nem por isso é um filme ruim. Todos os elementos do estilo de Leone já estão lá: as longas tomadas silenciosas e carregadas de tensão que precedem os duelos, o uso generoso de closes nos rostos suados e queimados de sol dos personagens, o humor negro.

    É verdade que todos esses elementos, que se tornariam marca registrada do diretor nos trabalhos seguintes, ainda não aparecem na sua forma perfeita, mas já deixam antever a qualidade superior do cineasta, e certamente demarcam a diferença qualitativa entre Leone e os demais diretores italianos que se dedicariam ao estilo, como Sergio Corbucci e Damiano Damiani. Esses últimos não são ruins, mas estão longe do apuro estético e do domínio absoluto da linguagem cinematográfica demonstrados pelo homem por trás da câmera de “Por Um Punhado de Dólares”.

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  18. Um outro ponto que encontra eco na filmografia de Leone é a trama irregular, quase um pretexto para que o diretor possa exercitar seu modo personalista de filmar. Essa frouxidão no enredo permite, contudo, que a personalidade do herói sofra pequenas mudanças no decorrer da trama, de forma que ele se transforma de mero oportunista em um sujeito com coração (no início do longa, que o personagem de Clint Eastwood é um sujeito amoral, interessado apenas em ganhar dinheiro. Já no final, ele é capaz de ter atitudes altruístas, como quando liberta uma família da tirania do chefe de uma das gangues da cidade).

    De qualquer forma, o filme cresce na segunda metade, quando Leone imprime um ritmo mais acelerado, utiliza enquadramentos originais (como imagens que ilustram o ponto de vista do protagonista de dentro de um caixão, por exemplo) e cria tomadas de composição exímia. Boa parte desse trecho acontece em cenas noturnas e Leone se sai muito bem no trabalho com a iluminação, valorizando o estilo chiaro-escuro nas cenas passadas em interiores, compondo enquadramentos que parecem roubados de pinturas de Vermeer.

    O filme desemboca em uma linda seqüência, que mostra um duelo tenso entre o “homem sem nome” e os remanescentes de uma das gangues. O final acentua o caráter mítico do personagem de Clint Eastwood, sugerindo que ele manipula os adversários para induzi-los a atribuir a ele uma aura quase sobrenatural.

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  19. Há um paralelo evidente entre este filme e “Django”, a obra de estréia de Sergio Corbucci. O ponto de partida de ambos parece ter sido o mesmo personagem principal: um homem misterioso, de passado desconhecido e rápido no gatilho, que enfrenta sozinho um bando de malfeitores. Leone, que delinearia em termos estéticos e narrativos todo o gênero do western spaghetti, também recebeu influência do ex-pupilo, e seus filmes seguintes reforçam a aura mítica do “homem sem nome”.

    A curiosidade é que o misterioso pistoleiro de passado desconhecido tem, na verdade, um nome: é chamado de Joe por alguns personagens, embora o filme jamais deixe claro se este é mesmo o nome dele ou se é apenas um apelido popular para alguém cujo nome não se conhece (seria o correspondente a algo como “Zé”, em bom português).

    A edição do filme em DVD brasileiro é pobre, contendo apenas o filme (em formato widescreen letterboxed) e uma trilha de áudio no formato Dolby Digital 2.0, em inglês. Não há extras, e qualidade da imagem não passa do razoável. Pior: há uma pequena falha de sincronia nas legendas, que aparecem um pouco depois do diálogo correspondente. Esse problema se agrava perto do final do filme, mebora não seja algo tão grande. A obra também conta da caixa “Trilogia do Homem Sem Nome”, alnçada pela Fox, com qualidade de imagem idêntica.

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  20. fonte:

    http://www.cinereporter.com.br/criticas/homevideo/por-um-punhado-de-dolares/

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  21. Ótimo post. Falando em Leone, garimpando pelo youtube encontrei um video bacana que mostra como seria uma versão do Homem-aranha (Spider-man) dirigida pelo Sergio Leone. O endereço é:

    http://www.youtube.com/watch?v=pX2xuXI2uZk

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  22. Divertido. Obrigado por partilhares connosco Gringo!

    --
    Pedro Pereira

    http://por-um-punhado-de-euros.blogspot.com
    http://auto-cadaver.posterous.com
    http://filmesdemerda.tumblr.com

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  23. Memorável faroeste com uma trilha sonora exuberante do genial Ennio Morricone. É o único do ciclo italiano incluído na minha relação do "Dez maiores do gênero".

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