2010/03/14

Lo chiamavano Trinità... (1970 / Realizador: Enzo Barboni)


Sabata, o famoso circus-western de Gianfranco Parolini safou-se bem nas bilheteiras, La collina degli stivali idem e a coisa começou a tomar outras proporções. Enzo Barboni, o talentoso homem responsável pela direcção fotográfica de alguns dos filmes de Sergio Corbucci (Django, I crudeli, etc.), que até já tinha alcançado a realização de um filme (interessante mas não propriamente rentável), conseguia agora convencer uma produtora a lançar o seu grande - e supostamente antigo – projecto. O que lhe permitiria sair definitivamente de detrás das câmaras para assumir os comandos da “locomotiva”. Ao que parece Peter Martell e George Eastman, as estrelas dessa sua estreia enquanto realizador - Ciakmull - L'uomo della vendetta - estavam escalados para assumir o protagonismo de “Trinitá, Cowboy Insolente” (mais um brilhante título nacional). No entanto foi a dupla Terence Hill/Bud Spencer, já antes testada com sucesso na trilogia de Giuseppe Colizzi (Dio perdona... Io no!, I quattro dell'Ave Maria , La collina degli stivali), que ficou com os papeis de Trinitá e Bambino, respectivamente.


A história do filme gira em torno destes dois delinquentes que a páginas tantas acabam por salvar os indefesos agricultores locais da expropriação levada a cabo pelo corrupto vilão local. Nada de inovador portanto, dezenas de westerns americanos já haviam sido feitos com base neste modelo, mas Barboni renova a fórmula com o seu cunho pessoal. Os seus heróis são no mínimo improváveis: sujos, ladrões e devoradores de feijões! Na verdade, bastante muda com a batuta de Barboni: a violência gratuita e injustificada até agora habitual no género é reduzida a mínimos. No inicio do filme ainda vemos Trinitá e Bambino a despachar uns quantos, mas com o decorrer da acção as armas são despromovidas a simples acessórios e é ao punho e chapada que a patifaria acaba por ser enfrentada. O filme foi um sucesso, dentro do universo western-spaghetti registaria mesmo o maior encaixe financeiro do ano, dobrando os valores do segundo filme mais visto, Vamos a matar, compañeros (Corbucci), e deixando a léguas as sequelas das franchisings «Sabata» e «Sartana». A cena em que Terence Hill surge deitado numa esteira puxada pelo seu cavalo tornar-se-ia icónica, e uma sequela seria imediatamente forjada. ...continuavano a chiamarlo Trinità (1971) faria ainda maior furor nos cinemas e com este novo fôlego o spaghetti à italiana mudaria definitivamente de direcção.


Coincidência ou não, um dos maiores videoclubes da minha cidade natal, Portalegre (Alentejo, Portugal), chamava-se «Trinitá», foi lá que aluguei este filme por diversas vezes. Estas, somadas às inúmeras vezes em que o filme foi transmitido na televisão nacional, não me tiraram nunca a vontade de sorrir nas por vezes intermináveis sequências cómicas de pancadaria à Barboni. Mas com o passar dos anos olho agora de maneira diferente para “Trinitá, Cowboy Insolente”, analiticamente falando entendo agora o efeito trágico que a entrada em cena deste tipo de película causou. Ainda assim, ao contrário de muitos que têm acusado Enzo Barboni como responsável pela morte do western-spaghetti enquanto género, não consigo responsabiliza-lo pelo mal feito. Afinal de contas, em finais de 60 o género já mostrava uma grande saturação, a velha premissa «homem procura vingança» já havia sido explorada amplamente e o público do género ambicionaria agora alguma invenção. E foi isso que Barboni fez, faça-se-lhe por isso a merecida justiça. Com o modelo instituído no franchising «Trinitá» o cinema italiano ganhou mais um balão de oxigénio, o que inevitavelmente serviria apenas para que esses doidos italianos copiassem agora esta nova fórmula até à sua completa exaustão, e esses sim condenando o spaghetti-western à morte! Gente outrora conhecida pelas suas obras pessimistas e violentas, como Enzo G. Castellari ou Segio Corbucci tinham agora de adaptar o seu cinema a esta nova onda, produzindo películas a roçar a mediocridade, títulos como Tedeum ou Il bianco, il giallo, il nero, que ficaram para a posterioridade como notas negativas nos seus currículos.

“Trinitá, Cowboy Insolente” goza ainda hoje em dia de um estatuto especial sendo relativamente fácil encontrá-lo à venda. Em Portugal o filme gozou de uma edição em formato DVD pela mão da Prisvideo, a única editora nacional que ainda parece interessada em lançar filmes europeus de culto. O DVD goza de uma correcta qualidade de imagem, em widescreen 16:9, com áudio em Inglês e legendas opcionais em Português. Para além do filme, conte-se ainda com alguns extras, de onde se destaca entrevistas como a dupla Hill/Spencer. Ainda hoje em dia uma excelente opção para ver em família!

Nota:

Artigo originalmente publicado em The Spaghetti Western Database como parte integrante do destaque mensal de Março 2010: “Terence Hill & Bud Spencer – Special”. Link directo: http://www.spaghetti-western.net/index.php/Trinit%C3%A1_-_Cowboy_insolente


Trailer

15 comentários:

  1. Os clássicos de Bud Spencer e Terrence Hill são espectaculares! Trinitá é uma personagem bastante engraçada e o filme, embora ofereça sempre o mesmo da dupla, diverte como sempre!

    Abraço

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  2. Vi pouca coisa com a dupla, mas considero Terrence Hill um dos atores mais carismáticos do cinema.

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  3. Viva,

    Com tantas parcerias algumas teriam de ser mais fracas, mas os dois filmes da saga Trinitá e "Deus perdoa... eu não" são imprescindíveis.

    Ao Nekas recomendo este último, que é bastante diferente do habitual.

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  4. Os filmes da dupla Hill / Spencer marcaram a minha infãncia e ainda hoje gosto de ver as cenas cómicas de porrada! Este filme teve o mérito de fugir ao habitual dos westerns italianos, o sucesso foi enorme mas os elementos cómicos num western não são do meu agrado! Prefiro a dureza e o realismo. Mas seja como for é sempre bom rever Terence Hill e Bud Spencer a distribuir murros e chapadas nos seus inimigos!

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  5. Uma curiosidade: A edição da Prisvideo em Portugal tem de facto uma imagem nítida mas não no formato certo. Deveria estar no original 2.35:1 mas nota-se que a imagem está um pouco alterada. Um pormenor técnico que quem fez esse trabalho não teve em atenção.

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  6. Pois, é coisa habitual nas edições deles. Parecem sempre ligeiramente cortados nos lados. Mas a imagem é nítida e sem dúvida melhor do que o 4:3, que por exemplo as edições da espanhola Filmax apresentam por regra.

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  7. Eu ainda não me debrucei sobre essas ramificações cômicas do western spaghetti, caro Pedro. Nem sei ainda o que dizer, embora tenha esse aqui sobre o qual vc falou me esperando na parteleira para ser assistido. Mas ainda tivemos no meado dos anos de 1970 uns esparsos spaghetti "tardios", não é mesmo? Qual a sua opinião, por exemplo, a respeito de Sela de Prata, do Lucio Fulci. Li poucos comentários a respeito, mas todos dando conta de se tratar de um grande filme. É mesmo?

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  8. Viva Fidani!

    Ora aí está um filme que tenho mesmo de rever! Vi-o à muitos anos atrás em formato VHS. Não sei se o posso considerar marcante no género, mas é um bom filme para fazer "ponto final". Há mesmo quem o considere o último spaghetti a sério.

    Outros títulos imprescindíveis desta fase (opinião muito pessoal) são:

    Keoma (1976 / Enzo G. Castellari)
    Mannaja (1977 / Sergio Martino)
    California (1977 / Michele Lupo)

    Quanto à facção cómica, nem todos são obras menores, por exemplo, o "Testa t'ammazzo, croce... sei morto... Mi chiamano Alleluja" [They Call Me Hallelujah], é dos meus filmes favoritos!

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  9. Esse é bala!
    Um dos filmes mais simpáticos do mundo e uma das melhores dobradinhas da história. Sendo de uma sincera e infantil sinceridade, o Trinity deve ser o tipo de "herói" que eu adoraria ser, ehehe.

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  10. Espalhar o caos no faroeste... eu também alinho!

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  11. Caro Pedro:
    Encontrei o blog por um mero acaso, enquanto lia umas coisas sobre La Resa Dei Conti no Spaghetti Western Database.
    Excelente blog. Parabéns. Vou passar a estar atento a novas entradas.
    Dá uma olhadela ao meu, Zona de Culto (http://zonadeculto.blogspot.com), que é um pouco mais ligeiro que este, e faço-o apenas por diversão. Nada de críticas muito longas e cheias de palavreado caro, apenas umas linhas sobre os filmes que vou (re)vendo.
    Tenho andado é algo desligado, mas prometo novas entradas por lá :)
    Abraços;
    Ricardo.

    P.S. Além do ZdC, tenho tb o Fénix (http://fenixwebzine.blogspot.com) para a música.

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  12. Depois de milênios defasado, finalmente (re)vi este divertido filme de Barboni. Aqui no Brasil a dupla Terence Hill e Bud Spencer é inesquecível para minha geração, que se acostumou a vê-los com frequência nas sessões da tarde... falando um pouco sobre o filme, me encantou seu descompromisso com toda a seriedade da maioria dos western spaghetti, e a decisão pela patada aos tiros é muito boa. Além disso, a química Hill-Spencer é daquelas que entram pra história do cinema, pois quando eles estão na tela a coisa sempre melhora! Ah, e outro adendo: sou só eu que achei que o Major é um Clark Gable fajuto?

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