A recente notícia da morte de Luigi Montefiore, a 20 de maio, despertou-me a vontade de rever alguns dos seus filmes. Entre eles estava “Django Mata em Silêncio” (título brasileiro), que dependendo da versão, até pode vir carimbada como "Bill" em vez de “Django”.
Ainda que a flutuação do título não influencie a dinâmica da obra, recomendo o visionamento fora de qualquer cânone da saga iniciada por Sergio Corbucci. Salvo o típico exercício de «corta e cola» da época, não há aqui a mínima ligação à franquia original!
Pontapé de saída para Gigi.
O filme arranca com um prólogo impactante: um bando de pistoleiros mexicanos massacra uma família de três pessoas! No cume de uma colina surge o nosso protagonista, que chamaremos Bill para simplificar. O herói chega tarde demais para salvar os inocentes, mas a tempo de limpar o sarampo aos dois rufiões que ficaram para trás.
Trata-se de uma introdução assumidamente taciturna. A execução de uma criança nos primeiros minutos sem qualquer explicação, é uma decisão narrativa pesada, que deixa imediatamente o espectador em sentido. É um recurso extremo, mas eficaz, que realizadores como John Carpenter (em “Assalto à 13.ª Esquadra”) ou Claude Chabrol (em “A Besta Deve Morrer”) usaram magistralmente. No universo do western-spaghetti, o mote também já tinha sido explorado por Rafael Romero Marchent em “Ocaso de un pistolero”. Onde, de forma ainda mais terrível: a vítima é um bebé!
A partir desse massacre inicial a violência espalha-se… Noutro rancho inóspito, os bandoleiros assassinam o proprietário e tentam violar uma mulher em fuga do marido opressor. Mais uma vez, Bill surge em boa hora para eliminar a vilanagem! Contudo, antes que o cheiro a pólvora desapareça, a sobrevivente é rapidamente recapturada pelos capangas do marido.
Luciano Rossi e o seu capanga. Gente de respeito.
O protagonista segue para a cidade e logo impõe o respeito, subjugando os incautos locais que acabam por ter de o guiar até à casa de Sanders, o amigo que o motivara a fazer a viagem. Todavia, o rasto de morte antecipara-se: toda a família de Sanders fora dizimada por um tal de El Santo.
O filme beneficia do trabalho físico do gigantesco Luigi Montefiore (conhecido pelo pseudónimo de George Eastman). Montefiore, que chegou ao cinema por mera casualidade, tornar-se-ia um dos rostos mais reconhecíveis do cinema de culto europeu.
Após vários papéis menores, teve aqui a oportunidade de protagonizar a solo, embora a vida no set não lhe tenha sido facilitada. O realizador, Massimo Pupillo, exigia um protagonista inexpressivo, mas Montefiore, recém-saído do Centro Sperimentale di Cinematografia, queria injetar complexidade na personagem. Este desentendimento artístico entrincheirou as duas partes, e o resultado final saiu prejudicado.
Boido rima com doido. Aqui não foi exceção.
A juntar aos conflitos criativos, as restrições orçamentais da produção são evidentes e manifestam-se sobretudo na gritante escassez de figurantes e na ausência dos característicos exteriores andaluzes. Esta penúria de meios afeta profundamente a verosimilidade do filme, que acaba por se assemelhar a uma involuntária cidade-fantasma.
Na verdade, além do grupo de velhacos liderado pelo “nervoso” Federico Boido, fica a sensação de que só há vida dentro do saloon. Contudo, o maior pecado do filme reside mesmo no tempo excessivo despendido em cantorias e pancadaria redundante. Trata-se de um aborrecimento narrativo que nada acrescenta ao enredo e serve apenas para o espectador aproveitar para fazer uma pausa e ir "mudar a água às azeitonas".
Esta foi a única incursão de Massimo Pupillo (que assinou sob o pseudónimo de Max Hunter) no western à italiana, e ele não poupou nos clichés do género: o forasteiro que chega à cidade desolada, infiltra-se em fações rivais, leva uma soberba carga de porrada e, eventualmente, consegue aviar todos os meliantes. Nota ainda para as habituais gargalhadas exuberantes dos antagonistas, marcas registadas deste tipo de produção.
Está na hora da retribuição.
Em suma, “Django Mata em Silêncio” funciona como um mashup derivativo entre o “Django” de Corbucci e “Por Um Punhado de Dólares” (que, na génese, partilham a mesma matriz). Mas Pupillo acabou por perder o controlo da narrativa e a continuidade sofreu com isso, mesmo que a história nunca se torne impossível de seguir. Já o clímax é uma autêntica salganhada com um «todos contra todos» terrivelmente insipido.
Mas não é um desastre total, e ao revê-lo agora, até acabou por ser uma experiência nostálgica agradável. Ainda assim, como cantaria o Sérgio Godinho, no fim de contas, «hoje soube-me a pouco».
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