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29/05/2026

Bill il taciturno (1967 / Realizador: Massimo Pupillo)

 

A recente notícia da morte de Luigi Montefiore, a 20 de maio, despertou-me a vontade de rever alguns dos seus filmes. Entre eles estava “Django Mata em Silêncio” (título brasileiro), que dependendo da versão, até pode vir carimbada como "Bill" em vez de “Django”. 


Ainda que a flutuação do título não influencie a dinâmica da obra, recomendo o visionamento fora de qualquer cânone da saga iniciada por Sergio Corbucci. Salvo o típico exercício de «corta e cola» da época, não há aqui a mínima ligação à franquia original!

Pontapé de saída para Gigi.

O filme arranca com um prólogo impactante: um bando de pistoleiros mexicanos massacra uma família de três pessoas! No cume de uma colina surge o nosso protagonista, que chamaremos Bill para simplificar. O herói chega tarde demais para salvar os inocentes, mas a tempo de limpar o sarampo aos dois rufiões que ficaram para trás.

Trata-se de uma introdução assumidamente taciturna. A execução de uma criança nos primeiros minutos sem qualquer explicação, é uma decisão narrativa pesada, que deixa imediatamente o espectador em sentido. É um recurso extremo, mas eficaz, que realizadores como John Carpenter (em “Assalto à 13.ª Esquadra”) ou Claude Chabrol (em “A Besta Deve Morrer”) usaram magistralmente. No universo do western-spaghetti, o mote também já tinha sido explorado por Rafael Romero Marchent em “Ocaso de un pistolero”. Onde, de forma ainda mais terrível: a vítima é um bebé!

A partir desse massacre inicial a violência espalha-se… Noutro rancho inóspito, os bandoleiros assassinam o proprietário e tentam violar uma mulher em fuga do marido opressor. Mais uma vez, Bill surge em boa hora para eliminar a vilanagem! Contudo, antes que o cheiro a pólvora desapareça, a sobrevivente é rapidamente recapturada pelos capangas do marido.

Luciano Rossi e o seu capanga. Gente de respeito.

O protagonista segue para a cidade e logo impõe o respeito, subjugando os incautos locais que acabam por ter de o guiar até à casa de Sanders, o amigo que o motivara a fazer a viagem. Todavia, o rasto de morte antecipara-se: toda a família de Sanders fora dizimada por um tal de El Santo.

O filme beneficia do trabalho físico do gigantesco Luigi Montefiore (conhecido pelo pseudónimo de George Eastman). Montefiore, que chegou ao cinema por mera casualidade, tornar-se-ia um dos rostos mais reconhecíveis do cinema de culto europeu. 

Após vários papéis menores, teve aqui a oportunidade de protagonizar a solo, embora a vida no set não lhe tenha sido facilitada. O realizador, Massimo Pupillo, exigia um protagonista inexpressivo, mas Montefiore, recém-saído do Centro Sperimentale di Cinematografia, queria injetar complexidade na personagem. Este desentendimento artístico entrincheirou as duas partes, e o resultado final saiu prejudicado.

Boido rima com doido. Aqui não foi exceção. 

A juntar aos conflitos criativos, as restrições orçamentais da produção são evidentes e manifestam-se sobretudo na gritante escassez de figurantes e na ausência dos característicos exteriores andaluzes. Esta penúria de meios afeta profundamente a verosimilidade do filme, que acaba por se assemelhar a uma involuntária cidade-fantasma. 

Na verdade, além do grupo de velhacos liderado pelo “nervoso” Federico Boido, fica a sensação de que só há vida dentro do saloon. Contudo, o maior pecado do filme reside mesmo no tempo excessivo despendido em cantorias e pancadaria redundante. Trata-se de um aborrecimento narrativo que nada acrescenta ao enredo e serve apenas para o espectador aproveitar para fazer uma pausa e ir "mudar a água às azeitonas".

Esta foi a única incursão de Massimo Pupillo (que assinou sob o pseudónimo de Max Hunter) no western à italiana, e ele não poupou nos clichés do género: o forasteiro que chega à cidade desolada, infiltra-se em fações rivais, leva uma soberba carga de porrada e, eventualmente, consegue aviar todos os meliantes. Nota ainda para as habituais gargalhadas exuberantes dos antagonistas, marcas registadas deste tipo de produção.


Está na hora da retribuição. 

Em suma, “Django Mata em Silêncio” funciona como um mashup derivativo entre o “Django” de Corbucci e “Por Um Punhado de Dólares” (que, na génese, partilham a mesma matriz). Mas Pupillo acabou por perder o controlo da narrativa e a continuidade sofreu com isso, mesmo que a história nunca se torne impossível de seguir. Já o clímax é uma autêntica salganhada com um «todos contra todos» terrivelmente insipido. 

Mas não é um desastre total, e ao revê-lo agora, até acabou por ser uma experiência nostálgica agradável. Ainda assim, como cantaria o Sérgio Godinho, no fim de contas, «hoje soube-me a pouco».

25/10/2016

Black Killer (1971 / Realizador: Carlo Croccolo)

Tombstone é uma cidade apavorada! O medo deve-se à violência que os irmãos O’Hara exercem sobre a população. Assaltos e homicídios são o prato do dia. O juiz é um malandro corrupto e o xerife é tão inútil que depressa acabam com ele. O advogado James Webb (Klaus Kinski) chega à cidade. Elegantemente vestido de negro, Webb vem carregado de livros muito importantes, muito especiais e muito misteriosos. Procura saber rapidamente o que se passa naquela localidade e, sendo um advogado abelhudo, mete o nariz (discretamente) em todo o lado: espreita pelas janelas, ouve atrás das portas, esconde-se atrás dos cortinados e nunca se separa de, pelo menos, um dos seus essenciais tomos da lei. Com pezinhos de lã e constantemente a recorrer ao paleio técnico (cita artigos da lei), o advogado Webb cedo percebe que o juiz é um ciganão e que não tem intenção nenhuma de acabar com a corrupção.

Preparando a artilharia.

Enquanto isso, um tal Burt Collins chega a Tombstone. O homem tem o dedo leve no gatilho e Webb insiste que o tipo seja nomeado xerife. Com a estrela ao peito, Collins limpa a cidade (com a extraordinária ajuda da sua cunhada índia especialista em arco e flecha) e o advogado mantém-se nos bastidores com os seus inseparáveis livros. Mas que raio de livros serão aqueles? “Black Killer” é um dos 7 westerns que o ator Klaus Kinski fez no ano de 1971. É um filme fraco, com uma montagem descuidada e que recorre a alguma nudez feminina para evitar que o pessoal se deixe dormir durante os 90 minutos que o filme dura. Alguns perguntar-se-ão como é que um ator de prestígio como Klaus Kinski aceitava estes papéis nestas produções rascas.

Este artigo da lei é mortal!

Eis a resposta: “A certa altura eu já nem me dava ao trabalho de ler argumentos. Nem queria saber! Chegava lá, fazia o que tinha a fazer, recebia o dinheiro e ia-me embora!” E quanto aos westerns-spaghetti, concretamente: “Muitos e muitos westerns que fiz em Itália”, dizia Kinski, “cada um pior do que o outro! E os seus pseudo-realizadores ainda mais incompetentes! E quanto mais incompetentes eles eram mais hostis se tornavam! Mas pagavam-me bem e isso é que me interessava. Com o estilo de vida que eu levo preciso de trabalhar.”

Sangue!!

De facto, ao ler a sua autobiografia, eu próprio constatei que Klaus Kinski levava uma vida absurdamente cara: 7 Ferraris, 6 Rolls-Royce, 3 Maseratis, várias mansões, apartamentos e palacetes na Europa e na América, viagens, banquetes, champanhe, caviar e muitas putas è discrição! Chegou a ganhar um salário astronómico de 50 000 Marcos por dia mas… será que era suficiente para cobrir todas estas despesas loucas? Excêntrico e genial para uns, alucinado de merda que não respeitava nada nem ninguém para outros, Klaus Kinski era mesmo assim: um homem de extremos. Com ele, ou oito ou oitenta!