14/11/2025

30 Winchester per El Diablo (1965 / Gianfranco Baldanello) | SpagvemberFest 2025

 

Sou um grande defensor de "Black Jack", mas a filmografia western de Gianfranco Baldanello nunca esteve perto de repetir o feito. O austríaco Carl Möhner de quem já tinha gostado em “O Homem da Pistola de Ouro” (também de 1965), repete aqui uma boa presença. Além da sua competência na arte da representação tem o físico adequado. Deveria ter tido mais oportunidades, sobretudo a estrelinha de ser escalado para um filme de um realizador da primeira linha. Mas não aconteceu.

Jeff Benson (Carl Möhner) resgata um jovem de um massacre, juntos cavalgam até Canyon City onde procuram trabalho. Mas a zona está sob o domínio de um bandido chamado “El Diablo”. O xerife Webb não consegue conter essas ilegalidades do bando e Jeff Benson aceita dar uma mãozinha. 

O filme é prazeroso e depois do temporal que se abateu aqui na Margem Sul na noite em que o vi, foi mesmo a única coisa quentinha da noite. Gostei especialmente da prestação dos duplos e especialistas.  Não são poucas as cenas de acção e por regra são todas eficazes.  Mas há ali coisas que me chatearam, o estilo do filme tem muito do western-spaghetti mas não deixa de ser um híbrido e essas influências do western americano dos anos 50 não acrescentam.

A versão que vi foi a espanhola. A imagem está longe de ser primorosa, o que me prejudicou na apreciação da fotografia. Oxalá seja resgatado, para reapreciação.

Visto via YouTube, aqui.

13/11/2025

Cemitério Vermelho (2022 / Francisco Lacerda) | SpagvemberFest 2025

 

Não conheço pessoalmente nenhum dos implicados no projecto “Cemitério vermelho” pelo que rejeito desde já qualquer acusação de falta de independência! Dito isto, juro a pés juntos que até ver, que este foi o melhor western europeu que vi nesta maratona de 2025. Ou seja, uma curta-metragem de 10 minutos, de origem portuguesa, lançada décadas depois da febre, dá uma abada na concorrência!
 
"Cemitério Vermelho" é uma curta-metragem amadora habilmente produzida por uns maganos açorianos. Francisco Lacerda realiza e Francisco Afonso Lopes protagoniza. O seu "caloteire" tem um papel divertidíssimo que tanto deve ao Tuco de Eli Wallach como a qualquer um dos muitos besuntas vividos pelo mítico actor espanhol, Fernando Sancho.

Entre as cruzes de um antigo cemitério, dois foras da lei travam uma disputa sobre honra, companheirismo e ganância. Não podendo desvendar demasiado, digo-vos como fanático do western-spaghetti que a curta é um fartote. A fotografia é impecável. Os diálogos entre os dois pulhas (Francisco Afonso Lopes e Thomas Aske Berg) são divertidíssimos e a música assenta-lhe que nem uma luva. Depois, o pano cai ao som do José Pinhal, que garante um prolongar de sorrisos até ao cair dos créditos finais.

Quem conhece minimamente o trabalho de Francisco Lacerda (Karaoke Night, Freelancer, etc.) saberá que o gore é a sua praia. E aqui, apesar do tema ser o western, não falta tripa! A verdade é que não sei a que profundidade vai o conhecimento e interesse de Lacerda sobre o western-spaghetti mas pouca não será. Diria que possivelmente a maior referência para a feitura de "Cemitério Vermelho" tenha sido o estranhíssimo "Django Mata!" do mestre Giulio Questi. Um filme que apesar de granjear algum culto, continua a ser desconsiderado.

Resumindo e baralhando, recomendo vivamente que vão ver este “Cemitério Vermelho”, mas não sei como poderão fazê-lo. Lamento. Eu recebi em tempos um contacto do Francisco Afonso Lopes que me facilitou um link seguro e que voltei a usar. Contactem os Franciscos, exijam a disponibilização do filme. Chega de segredos. O azoresploitation é do povo!

Visto via Vimeo.

11/11/2025

Spara Joe... e così sia!!! (1971 / Emilio P. Miraglia) | SpagvemberFest 2025

 

A segunda semana para maratonar westerns europeus começou. Para não correr riscos desnecessários tentei escolher um filme do qual tinha já algum feedback positivo e que precisava ver para dar como encerrada a vistoria da filmografia western do gringo Richard Harrison.

Durante muitos anos só se encontravam versões dobradas em francês de "Joe Dakota", título genérico adoptado em vários países (em Portugal não terá estreado em sala). Mas mais recentemente algum benemérito gravou a exibição na televisão espanhola e disponibilizou-a no YouTube. 

Tudo começa com um inusitado assalto a um banco. O artifício montado é grande mas o acto corre mal e o bando é encurralado pelos cidadãos. Como diria o Nicolau Breyner:
“Tá tudo preso, seus cabrões!”. 

Todos, excepto o chefe do bando, que se escapa com o dinheiro e segue marcha até ao bordel mais próximo (sim, este filme explora alguns nus). Mas o bando consegue escapulir-se sem grande dificuldade e começa imediatamente a caça ao pantomineiro, que acaba ferido e num último suspiro dá um mapa a um forasteiro que o auxilia nos seus momentos finais.

Até aqui, tudo bem. Mas depois disto o interesse do filme escapule-se. Ficando a descoberto a enorme falta de orçamento com que esta equipa terá trabalhado. Também não me conectei com a personagem interpretada pelo Richard Harrison. Ele que em 1971 protagonizava mais outros quatro westerns. As contas não se pagam sozinhas, não é?! 

Este foi o único western de Emilio Miragla. Reconheço que não conheço absolutamente mais nada do trabalho dele mas pelo que vi no IMDB pareceu-me mais talhado para o terror. Fiquei bem mais interessado nesse material, admito. 

Visto via YouTube, aqui.

RIP Tatsuya Nakadai


Faleceu aos 92 anos, Tatsuya Nakadai. Lenda do cinema japonês e por uma vez, estrela de um western-spaghetti. RIP.

10/11/2025

La muerte busca un hombre (1970 / Director: José Luis Merino) | SpagvemberFest 2025


Depois da overdose Zabalza, voltei às revisões. E ontem calhou rever este "O Caçador de Prémios", western realizado pelo madrileno José Luís Merino, que recordo, deu-nos uma bomboca chamada "A Justiça de Gringo". Não via este filme há mais de dez anos. Na época vi-o através de um DVD da editora espanhola Divisa, que comprei numa passagem por Badajoz. Coisa que me deve ter custado uns 5 paus. A imagem dessas edições nunca é espetacular mas na época havia muita carência de opções e o catálogo da editora permitiu-me alargar os horizontes no género sem ficar na penúria.

Desta vez não precisei sequer de levantar o rabo do sofá, foi só vasculhar as gravações da box e lá estava ele a chamar por mim. A imagem com que começa a introdução assustou-me mas depois a coisa muda para melhor. E nesta versão exibida na TV cabo nacional a dobragem é a italiana que difere num aspecto essencial: o nome do personagem interpretado por Carlos Quiney. Na versão espanhola era um genérico George Forsythe mas na italiana ele apelida-se Sartana. Ora, como seria de esperar, ele não tem nada a ver com o mítico Sartana da saga protagonizada pelo grande Gianni Garko.


Sartana, chamemos-lhe assim, tem junto da sua companheira um esquema prolífero. Nos saloons de mal fama deixam “escapar” a informação de que estão bem abotoados, o que incentiva os amigos do alheio a atacá-los quando se fazem à estrada. Não sabendo na armadilha em que se metem, são os meliantes que acabam chumbados por Sartana, que assim arrecada os prémios afixados sob as cabeças destes bandidos de má sorte.

Numa espécie de segunda parte do filme a acção fica mais centrada no enigmático personagem interpretado por Peter Lee Lawrence e num bando de drogados que escravizam uma tribo índia. Os problemas começam aqui. As índias mais sexys que o género já viu tem os pares masculinos menos verosímeis do western europeu (e daí talvez não, mas certamente uns dos piores).

Sem dúvida que Merino estava sem dinheiro para elevar a produção e as ideias estavam escassas. O vilão deste arco é por isso uma versão sem brilho do “el índio” (Por Mais Alguns Dólares). Curiosamente na ponta final do filme esse janado enverga um poncho de pele de jaguar, provavelmente o mesmo que Lang Jeffries usou um par de anos antes no tal "A Justiça de Gringo". 

Gostei da ponte entre os dois filmes e até admito que no geral ele conseguiu entreter-me. Não tivesse tantos bloopers descarados, até entraria noutro campeonato. Assim, fica-se pela Liga 3.

Visto via Star Movies.


09/11/2025

20,000 dólares por un cadáver (1970 / Director: José María Zabalza) | SpagvemberFest 2025


Há muitos anos, apanhei a estreia em televisão do filme “Até Amanhã, Camaradas”, que adaptava a obra homónima de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal. O filme retratava o Portugal dos anos quarenta, oprimido por uma ditadura retrógrada. E era um filme estava há muito no boca-a-boca os lagóias por ter sido filmado parcialmente na cidade de Portalegre.

Numa das cenas com cenário mais reconhecível, a guarda nacional carregava a cavalo sobre um grupo de desgraçados. Isto dava-se no largo da igreja dos mortos (Igreja de São Tiago) e continuava pela rua do Carmo. Ao descerem, encontram-se já sobre as margens do rio. Ora, como é sabido não temos rio a banhar a cidade. Fiquei para sempre com estas imagens como exemplo máximo de como o cinema pode ser mágico. Fui-me lembrar disto porque neste “20.000 dólares por un cadaver” temos o mesmo tipo de cena, mas com um resultado nos antípodas. 

Este é o terceiro filme da saga rodada em sete semanas por José María Zabalza. E apesar de estar uns furos acima do filme anterior, não escapa à mediocridade. Vi-o no YouTube onde já conta com 82000 visualizações, números fortes para uma produção deste tipo. Dei-me ao trabalho de ler o que dizem os incautos que tomaram a mesma decisão que eu. E sem surpresa vejo que estamos todos em sintonia sobre a qualidade do filme. Alguém escrevia sagazmente: Para mim, um guião estúpido, dos piores que já vi!

A somar a estas 82000 criaturas, temos os números oficiais de bilhetes vendidos na época de lançamento, 563719.  Voltamos então à magia do cinema. Conseguem imaginar um veículo que consiga “enganar” tão eficazmente tanta gente?!

O facto é que Zabalza já se gabarolava na famosa entrevista ao Fotogramas, de 19 de Setembro de 1969 que antes sequer de terminar os filmes, eles já estavam vendidos para o mercado Grego, Belga, Africano e Sul-Americano. O negócio corria-lhe bem e o seu objectivo de fazer filmes b despretensiosos realizava-se. Ainda bem para ti Zequinha!

A história deste filme volta a ter os caminhos de ferro como mote e mais uma vez teremos as mesmíssimas localizações. Até a cena do rancho em chamas é aqui reutilizada. E desta vez o protagonismo vai para Miguel de la Riva que interpreta um simples rancheiro que se vê obrigado a mudar de vida depois de uma inesperada visita de um estranho que quer sabotar a nova ferrovia. Até aqui tudo bem, mas 10 minutos depois as coisas desandam de tal forma que fica difícil explicar o que raio se passa ali. Piorando e piorando até ao ápice. 

Obviamente que não vos recomendo a experiência. Nem deste, nem dos anteriores. Já eu depois de recalcar estes últimos dias, conto conferir o último western de Zabalza, “Al oeste de Río Grande”, que lançou já na década de oitenta. 

Visto via YouTube, aqui.


08/11/2025

Los rebeldes de Arizona (1970 / José María Zabalza) | SpagvemberFest 2025

 

Ontem estive quase a meter dia de folga na maratona SpagvemberFest. Mas acabei por ver o segundo filme dos três filmados simultaneamente por Zabalda. Em retrospectiva mais valia ter levado uma paulada na cabeça. Irra, que filme foleiro. Nem o Demofilo Fidani consegui fazer pior. 

Como esperava, o elenco de “Plomo sobre Dallas” repete presença ainda que em papeis diferentes. Excepção de Guillermo Méndez que faz reprise no papel de xerife. Os paralelos entre esses dois filmes são enormes e até nomes de personagens e locais se reciclam. O que acho simplesmente inexplicável. 

E se no filme anterior estava claro que os figurantes eram um problema, neste a coisa alastra ao elenco secundário. Até um actor respeitado como Luis Induni faz figura de palhaço no meio desta embrulhada. 

Um jovem casal, Allan (Charles Quiney) e Peggy (Claudia Gravy), entram na cidade em busca de um juiz para que os case. No saloon da cidade conhecem o xerife local, que concorda em realizar o matrimónio. A festa dura pouco já que uns arruaceiros andam a dar toque de lume a todos os que fazem frente ás intenções do ferrovia. 

Acção que os impulsionará a enredar numa série de assaltos em que invariavelmente têm sucesso apenas para na cena seguinte perderem os lucros. Possivelmente Zabalda terá visto o “Bonnie e Clyde” do Artur Penn e achou boa ideia fazer uma variante western.

Na entrevista que consegui ler no blog Mon nom est Personne, Zabalda descreve resumidamente o enredo do filme que na versão final pouco se encaixa no que descrevo acima. Acredito que o caminho do filme tenha sido trilhado dia-a-dia e para azar de todos nós, temos como resultado um filme péssimo. Cheio de infantilidades, erros de continuidade e cortes feitos a machado. 

Isto em Itália foi lançado como “Adios Cjamango”, o que seria uma continuação do filme de Edoardo Mullargia, que não sendo brilhante, dá um bigode neste “Los rebeldes de Arizona”. 

A razão diz-me que deveria dar uma trégua, e deixar o terceiro filme desta produção maldita para outro dia, mas algo me diz que vou mesmo arriscar em vê-lo ainda hoje. Amanhã vos direi.

Visto via YouTube, aqui.


06/11/2025

Plomo sobre Dallas (1970 / José María Zabalza) | SpagvemberFest 2025

Um forasteiro (Carlos Quiney) entra adentro de um povoado deserto. Sem ver vivalma, avia-se no bar e vai descansar para um quarto vazio do hotel. Só horas depois começam a cirandar as primeiras pessoas. A razão é então explicada: ali aplicam a lei da siesta nas horas de maior calor. Está decidido. Não há western mais espanhol que este! Ficamos então a saber que ele procura um tal de Ralston (interpretado por Luis Induni), que ninguém admite conhecer. O cheiro a esturro adensa-se enquanto a história avança.

Apesar de os meus contactos anteriores com os westerns de José María Zabalza não terem sido de boa memória, tenho ainda o estoico propósito de conferir a sua filmografia western, sobretudo esta “trilogia” que filmou em 1969. Zabalda tinha fama de beberrão mas isso não o impedia de filmar em tempo record e segundo declarações do próprio, filmou esses três filmes em sete semanas! Obviamente partilhando cenários, equipa técnica, actores e argumentos. E admito que é este último factor que me faz temer pelos dois filmes que me faltam conferir (Los rebeldes de Arizona e 20.000 dólares por un cadaver).

Sem surpresas, este “Plomo sobre Dallas” tem uma produção tão humilde que nem estreou em mercados como o nosso. Mas em boa verdade, tenho visto tanta vulgaridade nos últimos anos de garimpo que este até entreteve. Pareceu-me ter um suspense razoável e até uma fotografia adequada. Mas é um filme com problemas. Bués problemas. Começando pelas transições mal-amanhadas e acabando no grupo de figurantes mais mal treinados do western europeu.

Acredito que se houvesse um pouco mais de tempo e dinheiro estas coisas seriam resolvidas na edição ou com algumas pequenas refilmagens, mas estando ciente do contexto por detrás da produção, nem me choca. Já vi muito pior e a pagar! Ainda assim, há coisas que me aborrecem de morte num western e este filme tem uma dessas em abundância: cantorias de salloon. Argh! 

Tanto faz. Amanhã hei de despachar mais um da saga!  

Visto via YouTube, aqui.

05/11/2025

La pazienza ha un limite... noi no! (1974 / Franco Ciferri) | SpagvemberFest 2025


O quinto dia da maratona Spagvemberfest começou cedo. Mais de 30000 relâmpagos durante a madrugada. Chegar à fábrica e ter uma área completamente alagada. Ter de resolver isso mesmo antes do café bater. Porra!

Dia difícil. Quando cheguei a casa só me apetecia hibernar, mas não sei bem como ainda arranjei paciência para ir conferir mais um filmezito da minha lista de pendentes. E “paciência” é a palavra-chave aqui. Não se chamasse o filme: A Paciência Tem Um Limite... Nós Não!

O filme é uma variação manhosa dos filmes da saga “Trinitá”, que tinham feito um sucesso estrondoso no virar da década. É, todavia, sabido que dessa enxurrada de imitações, muito poucas tiveram real piada e este creio que se pode afirmar que só terá apelado a um publico mais infantil que reconheceriam nalgumas mimicas o estilo cartoonesco de bandas desenhada. Muito graças à grande expressividade do actor Sal Borgese, que estava no seu habitat. 

Já o amigo Pietro Martellanza andou a apanhar bonés o filme todo. Ele que era claramente um homem de acção, talhado para interpretar pistoleiros tão carrancudos quanto letais. Nem a martelo chegaria aos trejeitos do Terence Hill, mas há entre eles um ponto comum. Era Pietro Martellanza que estava escalado para contracenar com Bud Spencer no clássico “Deus Perdoa... Eu Não!”, mas as coisas correram-lhe mal e foi substituído por Hill, que como se sabe, iniciava nesse momento uma vertiginosa carreira, quase sempre em dupla com o gigante Bud Spencer.

O que seria da carreira de Martellanza se tivesse ficado com o papel? Podemos especular, mas não saberemos nunca. O que vos posso dizer é que o título do filme é muitíssimo adequado e não há paciência para o aturar!

Visto via YouTube, aqui.

04/11/2025

Río maldito (1966 / Juan Xiol) | SpagvemberFest 2025

 

Não consta que exista uma edição DVD ou Blu-ray deste “7 Pistolas para Gringo” (o título brasileiro, julgo que em Portugal nunca terá estreado), mas nos pântanos do YouTube lá está ele! Com uma qualidade de imagem correcta e com o áudio original em espanhol.  Isto para dizer que jamais acreditei encontrar algo tão subterrâneo, muito menos com esta facilidade. 

Longe vão as noites de insónia com o Cinemageddon em freeleech e a recompensa: uns meros VHS rip gregos.
Saudades de maus formatos é tão difícil de explicar racionalmente quanto as saudades da ditadura, que agora parece ser uma nova moda. Credo! Abraço por isso estas benesses e bora lá ver um western europeu comandado por um basco!

Talvez essa regionalidade tenha pesado para a localização das filmagens, maioritariamente captadas nos deslumbrantes Pirenéus. Uma lufada de ar fresco, admito. Estes ambientes montanhosos e com rios prateados traz uma beleza ao filme que não encontra par em mais nenhum dos seus elementos e só tem paralelo com os westerns teutónicos (saga Winnetou e derivados).

Mas apesar de acreditar que esse fosse o formato usado como referência, tratando-se de uma coprodução ítalo-espanhola temos salpicos do tema de sempre: vingança! Aqui uma criança vê o pai ser injustamente enforcado pelos habitantes da cidade. Ele é depois criado por um dentista ambulante e anos mais tarde ao passarem de novo pela região desenterram-se as mágoas do passado. Mas a vingança tem um sabor muito amargo…

Amarga, achei eu a escrita do argumento. E o elenco não é muito melhor, fraquinho, mas tem o César Ojínaga que é uma das fuças mais reconhecíveis/detestáveis dos westerns espanhóis. Já o vingador é interpretado pelo italiano Bruno Piergentili (americanizado Dan Harrison) que é incrivelmente parecido com o astro Giuliano Gemma. Sendo igualmente hábil na ginástica e na prática do punho fechado.

Tudo somado, temos claramente um filme Melhoral. Nem faz bem, nem mal. 

Visto via YouTube, aqui.

03/11/2025

Pancho Villa (1972 / Eugenio Martin) | SpagvemberFest 2025


Tinha este "Pancho Villa" na lista de pendências há muito tempo. Não lhe dei oportunidade antes por desconfiar que o estilo fosse demasiado à americana e pelos vistos não me enganei muito. O que não esperava é que ele fosse tão galhofa. E pior, sei hoje a custo que as piadas acertam todas ao lado.

Apesar de o filme ser creditado ao espanhol Eugenio Martin, o carola por detrás do seminal "El precio de un hombre" e ser rodado em Espanha, nada nele o conecta com o estilo áspero do western europeu. Nada, nada, nada. 

Não tinha de ser um problema, mas o elenco é também ele um erro descomunal . Com que carga de água é que alguém se lembrou de colocar o careca Telly Savallas no papel da lenda Pancho Villa? E quem se lembrou de por o canastrão do Clint Walker num espécie de Corto Maltese dos pobres?!

Por outro lado a produção parece ter tido alguma pujança financeira, empregando uma quantidade anormal de comboios e destruindo mesmo alguns deles. Mas o clima de comédia dos trezentos tira toda a verossimilhança que se poderia ter recriado sobre o assalto de Pancho Villa à cidade de  Columbus nos Estados Unidos. 

Os westerns revolucionários deram pano para mangas durante os anos de ouro do western-spaghetti, alguns ficaram para a história mas curiosamente aqueles que mais directamente abordaram as personagens históricas, falharam. Neste caso é preciso dizer que o resultado é do mais medíocre que se fez. Um desastre completo de que só se safam algumas cenas da primeira meia-hora de fita em que o marinheiro interpretado por Clint Walker limpa eficazmente o sarampo aos assassinos que o perseguem.

Actualmente este é um dos muitos filmes que se podem encontrar no enorme acervo de bootlegs do YouTube (a Wild East fechou portas muito por causa desta concorrência desleal, recordo). E espante-se, a imagem é bastante aceitável. Mas em rigor não vos posso recomendar a experiência.

Dou-vos antes outras recomendações deste elenco antes de ir lavar a louça. Ora do amigo Clint Walker têm dois westerns que gosto bastante, um deles é "Mais Morto que Vivo" e o outro é "O Tesouro das Sete Colinas". E este último é mesmo muito bom. Nele temos ainda um grande papel do futuro agente 007, Roger Moore. Incentivo extra!

E do Telly Savalas temos muitíssimos petardos mas fiquemo-nos pelo western clássico, "O Ouro de Mackenna". E o western-spaghetti "Uma Razão para Viver, Outra para Morrer" que é uma espécie de reinvenção do filme bélico "Doze Indomáveis Patifes", um filmaço de Robert Aldrich que curiosamente conta com ambos os actores. Fecha-se o ciclo! 

Visto via YouTube, aqui.


02/11/2025

Yankee (1966 / Tinto Brass) | SpagvemberFest 2025

 

Segundo dia, outra revisão. E outra que fui preguiçosamente repescar às gravações da TV box. Como habitual a imagem destas transmissões televisivas é bastante limpa e neste caso temos áudio em espanhol, que bem sei fazer o público nacional destilar ódio. Mas como bom raiano não me maça em absoluto. Aliás, continuarei a defender que a par do italiano é assim que estes filmes devem ser vistos.

Este "Yankee" é um filme que prima pela fotografia. Tem planos e iluminação de uma ousadia inaudita neste género. É igualmente um outlier na obra de Tinto Brass, o rei do cinema erótico italiano. Curiosamente, o filme ganhou notabilidade décadas depois do seu lançamento graças ao boom do DVD. 

Um yankee cruza o Rio Grande apesar das muitas advertências que vai recebendo. Obviamente ignora-as. Não fosse ele um homem de "negócios" e a zona parece ter grande potencial lucrativo. O pistoleiro gringo está interessado no lote oferecido pelas cabeças do bando do Grande Concho e não perde tempo a misturar-se entre eles para assim os ir liquidando um a um. Onde é que eu já vi isto?! 

Eu gosto muito da estética do filme e das personagens interpretadas pelo Philippe Leroy e pelo Adolfo Celi (o vilão de "007 - Operação Relâmpago") mas não posso deixar de lhe apontar problemas. O argumento cabula fortemente o seminal "Por Um Punhado de Dólares". Diz-se até que o Tinto Brass não era nada fã dessa ideia e terá  tentado ajustar o texto. Mas a base deixada pelo Alfonso Balcázar e o Alberto Silvestri ficou bem vincada e as comparações são inevitáveis. 

Os muitos problemas de produção levaram mesmo ao estúdio a contratar alguém para reeditar o filme o que levou Tinto Brass a processa-los e a ganhar o direito de remover o seu nome dos créditos de direção.

Leiam também a nossa resenha  no arquivo do  blog ou clicando aqui.

Visto via Star Movies.

01/11/2025

In nome del padre, del figlio e della Colt (1971 / Mario Bianchi) | SpagvemberFest 2025

 

E começo a jornada com uma revisão de um western de Mario Bianchi, realizador que se notabilizou por dirigir outro tipo de cavalgadas. A carreira dele começou precisamente com este "Em Nome do Pai, do Filho e da Colt", que é um hibrido entre o western-spaghetti e o giallo. Uma fórmula que repetiria no seu filme seguinte, mas aí com resultados francamente superiores. 

Estávamos em 1971 pelo que a produção teria de ser modesta. O filme foi rodado integralmente em Itália e conta com um elenco de actores de segunda e terceira linha. Conseguiram ainda assim cativar Craig Hill para um (duplo) papel principal. É o "Duplo Impacto" do western transalpino! 

Craig Hill, ora interpreta o insuspeito Xerife da cidade ou o seu psicótico irmão gémeo. As semelhanças físicas entre eles levam a que o primeiro vá parar injustamente à choldra mas o enredo é muitíssimo mais enleado, contando para isso com a presença de um misterioso assassino mascarado. Mas podem saber mais sobre o filme lendo a resenha que o Emanuel escreveu lá atrás. 

A versão que vi agora tem uma qualidade de imagem bastante melhor do que que tive acesso em 2018, mas trata-se da mesmíssima versão italiana, que se supõe ser a mais curta. Assim, continua a pairar a dúvida sobre a real qualidade da fita original de Bianchi. Ou pode-se até especular se esses minutos extra não seriam algum prolongamento mais picante das várias cenas a dois!  

Visto via Star Movies.

Spagvemberfest 2025 - Punhos, feijões e balas a rodo!


Começa hoje mais um SpagvemberFest. Iniciativa do fórum Spaghetti Western Database que tem como proposta expressar o amor pelo western-spaghetti durante todo o mês de Novembro. Ver ou rever as pilhas empoeiradas de filmes do género e se houver estômago, encarar aqueles títulos que há muito evitamos. 

Participo na brincadeira desde 2020 mas nos últimos anos não encontrei nem tempo nem vontade para vir aqui deixar um diário de bordo da minha maratona. Limitei-me a lista-los na minha conta do Letterboxd  (a de 2024 está aqui, procurem as outras a partir daí). Este ano tentarei algo diferente. Conto deixar aqui um diário de bordo mais ou menos ao dia daquilo que for vendo. 

Aos fãs ou simplesmente curiosos, deixo-vos também o desafio. Não vos falta oferta seja no streaming, TV, Youtube ou no Videoclube do Sr. Joaquim. Vamos, sejam valentes!


18/09/2025

Todos ao Nimas!


Há dias atrás trocava umas mensagens com o tiozão da blogosfera nacional, Pedro CinemaXunga, que me perguntava como andava o blogue. Obviamente parado, paradíssimo. Mas curiosamente achei razão para regressar aqui hoje com objectivo único de vos informar que no próximo domingo, 21 de Setembro, teremos uma oportunidade rara para ver no grande ecrã o maior dos westerns-spaghetti: Aconteceu no Oeste. 

A ocasião dá-se no ciclo "Os Anos de Ouro do Cinema Italiano" a decorrer actualmente no Cinema Medeia Nimas em Lisboa. O cardápio é deveras fantástico, não se esgotando apenas num ou outro clássico transalpino. Tempo houvesse e ia morar lá para a porta. Na falta disso, lá estarei no fim-de-semana para ver este petardo. Recomendo que façam o mesmo! 



01/06/2024

Django spara per primo (1966 / Realizador: Alberto De Martino)


A desértica cidade de Silver Creek tem um novo visitante, um misterioso cavaleiro solitário cujas únicas posses parecem ser o seu cavalo, a sua arma e um cadáver que carrega. O nome do forasteiro é Glenn Garwin e o cadáver é do seu pai, um suposto fora-da-lei procurado na implacável cidade de Silver Creek.

Todavia, ao chegar à cidade descobre que o seu pai afinal não era criminoso nenhum, mas sim um empresário aldrabado pelo seu antigo sócio. Esta descoberta leva-o a ficar na cidade, vingar-lhe a morte e tentar reclamar a sua legítima herança.

Acasos da vida: Um caçador de prémios cruza-se com o filho do homem que acabara de mandar para os anjinhos.


E assim estava dado o mote para a primeira apropriação não oficial da personagem Django, uma temática que daria azo nos anos seguintes a dezenas de sequelas sem qualquer ligação ao filme originalmente lançado por Sergio Corbucci. 

Sem surpresas, o personagem interpretado por Glenn Saxon (nome artístico do holandês Roel Bos) tem muito pouco em comum com o lendário homem do caixão. A própria explicação dada para que lhe chamem Django é simplória: «É assim que sou conhecido no México».

Duelo estiloso com as paisagens de Almeria em pano de fundo. 


Glenn Saxon, actor holandês de sorriso maroto, aqui mais se compara aos habituais papeis de Giuliano Gemma do que o taciturno Django, popularizado por Franco Nero. E curiosamente há mesmo uma ligação entre este filme e o pistolero nazionale. 

Ao que parece a produtora Fida Cinematografica tinha entregue o então projecto de “Per pochi dollari ancora” (em Portugal: “Gringo Não Perdoa”) ao realizador Alberto de Martino, a estrela do filme seria o bello Giuliano. Mas este, desconhecendo ou desmerecendo as qualidades de Martino, forçou a entrega da cadeira de realização a alguém da sua confiança: Giorgio Ferroni! Com quem já trabalhara no fundamental “Um Dólar Furado”.

Não faltam beldades nesta pelicula. 


A produtora para não deixar o pobre Alberto na mão, e visto que ele até se tinha safado na colaboração anterior entre as duas partes, “100.000 Dólares por Ringo”, entregou-lhe então este “Django Atira Primeiro”.  Ficando a segunda unidade desses dois filmes da Fida ao comando do emergente Enzo G. Castellari. Ele que teria de remendar outro pseudo Django nesse mesmo ano, o frenético: “Poucos Dólares para Django”.

29/03/2024

Là dove non batte il sole (1974 / Realizador: Antonio Margheriti)


Em 1974 já o western-spaghetti estava nas ruas da amargura. A produção excessiva fatigara as audiências, a qualidade caíra a pique e as estrelas abandonavam a Itália ou migravam para outros géneros emergentes. As produtoras que insistiam em continuar a financiar westerns, optavam maioritariamente por aproveitar a boleia de Enzo Barboni, que entretanto havia atingido finalmente o sucesso comercial com os seus filmes da saga «Trinitá». 

Outras preferiram apostar em novas fórmulas, misturando histórias no velho oeste com outros géneros. Daí surgiriam filmes de crossover Oriente/Ocidente, que incluíam aspectos da cultura oriental nas suas tramas, apresentando personagens como samurais, lutadores de kung-fu ou de karaté.

Uma dupla improvável.

Antonio Margheriti, reconhecido pelos conhecedores do cinema de género italiano sobretudo pelos seus primeiros trabalhos no horror gótico (“Danza macabra”, “I lunghi capelli della morte”), foi um dos realizadores que apostou fichas neste novo filão. O seu crossover entre o cinema de acção de Hong Kong versus oeste selvagem, resultou com algum efeito, ainda que furos abaixo dos seus dois westerns anteriores (“E Dio disse a Caino” e “Joko invoca Dio... e muori”). 

Para a frente das câmaras Margheriti recuperou um dos actores mais reconhecidos do western europeu, Lee Van Cleef, por esta altura já bastante envelhecido e que aqui interpreta o assaltante azarado, Dakota. A ele junta-se uma das maiores estrelas do cinema de kung-fu, Lo Lieh, actor que na altura já era uma super-estrela na Ásia e que começava a ganhar tracção internacional com as ondas de choque provocadas pelo super-clássico da Shaw Bros: “Five Fingers of Death”. 

Lee Van Cleef tenta saber o segredo do punho de ferro.

Dakota mete-se num plano arriscado para apoderar-se da fortuna de um chinês chamado Wang. A sua tentativa de roubar o cofre de um banco com dinamite, fracassa quando Wang aparece inesperadamente e morre com o impacto da explosão. Para surpresa de Dakota, o cofre não contém dinheiro, mas sim quatro fotos das amantes de Wang. Dakota é então condenado à morte pelo assassinato, mas o seu destino sofre uma reviravolta inesperada quando o sobrinho do falecido Wang, que é enviado da China por ordem do imperador para recuperar a fortuna da família, intervém para o salvar da forca. 

Juntos, embarcam numa busca desvairada pelas quatro mulheres, cada uma com uma mensagem oculta no seu traseiro! Os dois, enfrentarão a perseguição de um sádico reverendo que se faz apresentar com uma igreja móvel puxada a cavalos, um lutador indígena e um gangue de bandidos mexicanos. 

Longe de ser a última Coca Cola do deserto, este “Onde o Sol Nunca Brilha” ainda consegue entreter com o seu bom humor e com as muitas boas cenas de acção. Mas Antonio Margheriti, não voltaria a tentar esta fórmula e no ano seguinte voltaria com uma nova ideia de um crossover, desta vez misturando o western-spaghetti com o blaxploitation: “Take a Hard Ride”. Aí o resultado roçou o medíocre e esse seria mesmo o último western que assinaria. 

O realizador prosseguiria depois a sua carreira com maior foco no cinema de acção de baixo orçamento, assinando alguns filmes que são ainda hoje clássicos dos tempos dos videoclubes: “Indio”, “The Last Hunter” ou “Tiger Joe”. No terror, aventurou-se num rip-off manhoso do clássico “Piranha”, que transformou no infame “Killer Fish”, mas mais aconselhável será a sua incursão no género zombie, com o filmaço “Cannibal Apocalypse”. Um autor com rendimento inconstante, mas que merece a pena descobrir. 

01/11/2023

Chegou aquela altura do ano: SpagvemberFest 2023!


Começa hoje mais uma edição do #spagvemberfest um evento anual que propõe maratonar westerns-spaghetti durante os trinta dias do mês de Novembro. Saibam mais em The Spaghetti Western Database - SWDb. Participem e divirtam-se!

01/09/2023

Projectos jamais finalizados: Jorge Rivero como Sartana! As conclusões possíveis!


E passado algum tempo, eis que Mike Malloy tira as conclusões possíveis sobre o imbróglio destas produções perdidas.