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20/09/2011

Continuavano a chiamarlo Trinità (1971 / Realizador: Enzo Barboni)


Qual é a primeira coisa que nos vem à memória quando falamos de Mario Girotti / Terence Hill e Carlo Pedersoli / Bud Spencer? Cadáveres e muito sangue? Não! Violência extrema, sadismo e umas pitadas de sexo? Nem pensar! A especialidade destes dois atores italianos é a comédia, recheada de pancadaria, acrobacias, humor simples e algumas patetices.

Os westerns de Giuseppe Colizzi já davam sinais de mudança. Enzo Barboni assumiu a rutura de forma clara e resgatou a dupla de protagonistas para o seu filme. Após o grande êxito de “Trinitá, cowboy insolente”, algo que foi contra todas as expetativas, as pessoas queriam voltar a ver Trinitá e Bambino a aviar porrada nos seus adversários. O produtor Italo Zingarelli e o realizador Enzo Barboni (E.B. Clucher) fizeram-lhes a vontade. Não demorou muito a dar frutos: Foi um enorme sucesso de bilheteira na Europa, maior que o filme anterior. Mas foi também o canto do cisne porque a loucura dos westerns-spaghetti tinha acabado!


Concordo com Terence Hill, que muitos anos mais tarde afirmou que o grande mérito dos “Trinitás” foi o momento em que surgiram. O público queria algo diferente porque a enorme quantidade de westerns violentos com heróis sedentos de vingança tornou-se banal e pouco apelativo. Este filme desperta em mim sentimentos contraditórios: Pessoalmente, acho que os elementos cómicos arruínam o western. Por outro lado, divirto-me a ver Terence Hill a manejar o seu colt e Bud Spencer a “varrer” toda a gente com murros no toutiço e chapadas nas trombas. Deve ser porque a minha geração cresceu a ver em VHS os filmes desta dupla. Na minha opinião, enquanto comédia este filme alcança os objetivos. Enquanto western é uma desilusão.


A “inocente” junção de Hill e Spencer acabou por desencadear um fenómeno cinematográfico, dando origem a uma das mais carismáticas duplas da História do Cinema, uma parceria que iria durar até finais dos anos 80. Pelo caminho, ao longo de todos estes anos, muitas cenas de pancadaria cómica aconteceram, para gáudio das crianças e adolescentes de então. Aposto que Terence Hill e Bud Spencer ficaram com as mãos a arder após tantos anos a distribuir castanhas ao pessoal!


Mais algumas imagens do filme:



Trailer:

06/09/2010

California (1977 / Realizador: Michele Lupo)


Nesta fase do cinema italiano, o ponto de saturação já tinha sido mais do que ultrapassado, no que toca às produções western. Este tipo de filmes surgia a conta-gotas porque os estúdios e os produtores já estavam virados para outros géneros mais rentáveis, nomeadamente os policiais, os “giallo” e o erotismo. Mesmo assim, dentro desta atmosfera crepuscular, surge este muito interessante western protagonizado por Giuliano Gemma (Il ritorno di Ringo, I giorni dell'ira), à data o astro maior dos actores italianos. Esta época revelava uma nova face do western europeu. Já não se assistia a cenas de mortes em massa ou tiroteios alucinantes! Agora tínhamos ritmos mais contemplativos, momentos mais íntimos e expressava-se abertamente o estado de alma dos personagens.


A Guerra Civil Americana terminou e os soldados derrotados têm a difícil tarefa de regressar a casa, submetendo-se às novas leis da União. Entre eles está Michael Random “Califórnia” (Giuliano Gemma), um tipo fechado e misterioso, o que não o impede que fazer amizade com o jovem soldado sulista Willy Preston (Miguel Bosé). Durante a viagem de regresso, Willy é barbaramente assassinado após uma estúpida rixa! “Califórnia” dirige-se à casa da família do seu amigo para informar o triste fim que teve! A angustiada família Preston acolhe-o, para se dedicar a uma nova vida de paz, tranquilidade e amor. Mas os negócios sujos do caçador de recompensas Rope Whitaker (Raimund Harmstorf) vão interferir na vida desta pacata família, culminando no rapto da filha do casal Preston! O choque é demasiado grande e “Califórnia” sabe que a única forma de resgatar a jovem é recorrer aos meios que ele tão bem conhece e que tentou evitar: a violência pura e dura!


O compositor Gianni Ferrio oferece-nos ao longo de todo o filme uma partitura musical muito sentimental e de grande talento. Aqui, o termo “crepuscular” não significa falta de qualidade. Significa sim uma outra maneira de ver a mesma coisa. Conclui-se portanto que Michele Lupo assinou um belo western que foge substancialmente ao habitual do subgénero. Foi um risco mas foi bem sucedido!


Trailer:

28/10/2009

Ballata per un pistolero (1967 / Realizador: Alfio Caltabiano)

Tenho nos últimos meses tentado encontrar os westerns-spaghetti protagonizados por Anthony Ghidra, o homem que nasceu como Dragomir 'Gidra' Bojanic ainda na antiga Jugoslávia e que, pelo que tenho percebido, ainda que não tenha conseguido implementar o seu nome como referência no género, garante em cada uma das suas participações uma grande dose de satisfação ao mais entusiasta adepto do western-spaghetti (veja-se L'ultimo killer, Un buco in fronte, Chiedi perdono a Dio... non a me). Não será por isso de estranhar que volte a debruçar-me sobre mais algumas das suas façanhas nos próximos tempos. Por agora fico-me por Ballata per un pistolero, filme dirigido em 1967 por Alfio Caltabiano, reconhecido mestre de armas italiano que incrivelmente se safa bastante bem atrás das câmaras (Così sia, Mamma mia è arrivato così sia). Este foi o seu primeiro filme nestas funções e, pelo que conheço da sua obra, o seu momento mais inspirado. Numa filosofia quase do it yourself, Alfio Caltabiano escreveu, realizou e ainda saltou para dentro da tela, onde desempenhou o papel de El Bedoja - o implacável líder de um grupo de bandidos (senhor de uma singular técnica de manejo da Winchester), que não hesita sequer em matar cães e espancar lindas mulheres.

Obcecado pelo objectivo de assaltar o supostamente inexpugnável banco da cidade, El Bedoja une esforços com o irmão, Chiuchi (Mario Novelli), infiltrando um elemento do bando dentro do banco, assaltando-o de seguida. Logrando fugir com o dinheiro do cofre, consegue também ganhar duas sombras extra, que jamais sairão do seu encalço - Rocco e Blackie - interpretados respectivamente por Anthony Ghidra e Angelo Infanti. Ainda que inicialmente Rocco rejeite a oferta de sociedade feita por Blackie, os dois pistoleiros acabam eventualmente por unir esforços na perseguição dos bandidos. El Bedoja consegue no entanto baralhar todos os pressupostos mostrando ter planos bem mais individualistas, acabando por ultrajar os seus comparsas de crime. Abandonando o seu refúgio secreto com o dinheiro roubado, seu oleoso irmão e uma bela mexicana que entretanto haviam sequestrado.

Os vastos conhecimentos técnicos de armas de Caltabiano em muito beneficiam as performances dos protagonistas do filme, não me lembro de ter visto por aí muitas sequências de tiroteios tão bem executadas como algumas das que aqui se apresentam – memorável a cena em que Ghidra despacha dois bandidos com tiros desferidos por detrás das costas! De resto, diga-se que as constantes cenas de acção mesmo não atingindo a espectacularidade desse momento, jamais atingem um nível banal. Mas se ao nível da realização Alfio Caltabiano consegue introduzir alguns elementos de interesse, com uma boa fotografia, montagem e escolha de cenários, já não se pode dizer o mesmo do argumento que usa o mesmíssimo esquema de Da uomo a uomo e I giorni dell'ira (todos lançados em 1967), em que o protagonismo é dividido entre um jovem e impulsivo pistoleiro (Blackie, interpretado por Angelo Infanti), e um outro mais velho e calejado (Rocco, interpretado por Anthony Ghidra). Ainda que por momentos fiquemos com a ideia de que ambos os pistoleiros procuram apenas os dólares oferecidos pela recompensa do bando de El Bedoja, cedo se percebe que a Rocco pouco interessa a fortuna mas sim a sede de vingança por contas não saldadas com El Bedoja. Impossível não fazer por isso o paralelo com as personagens da obra-mestra Per qualche dollaro in più (1965), Col. Douglas Mortimer e Manco. Caltabiano parece propositadamente ter pegado na fórmula de Sergio Leone, dando-lhe o sentido de moralidade que o mestre desprezou, lembrando em diversos momentos o quão suja é aquela profissão.

Este filme que em Portugal foi exibido como “Balada para um pistoleiro”, não conhece ainda edição em DVD, mas está disponível com o mesmo título no mercado Brasileiro através da Ocean Pictures. Sem deixar de ser um filme rotineiro e sem interpretações extraordinárias, é um daqueles filmes que garante grandes momentos de diversão aqueles que lhe dedicarem o seu tempo. A mim fez-me lembrar porque sou viciado em westerns-spaghetti!