28/10/2009

Ballata per un pistolero (1967 / Realizador: Alfio Caltabiano)

Tenho nos últimos meses tentado encontrar os westerns-spaghetti protagonizados por Anthony Ghidra, o homem que nasceu como Dragomir 'Gidra' Bojanic ainda na antiga Jugoslávia e que, pelo que tenho percebido, ainda que não tenha conseguido implementar o seu nome como referência no género, garante em cada uma das suas participações uma grande dose de satisfação ao mais entusiasta adepto do western-spaghetti (veja-se L'ultimo killer, Un buco in fronte, Chiedi perdono a Dio... non a me). Não será por isso de estranhar que volte a debruçar-me sobre mais algumas das suas façanhas nos próximos tempos. Por agora fico-me por Ballata per un pistolero, filme dirigido em 1967 por Alfio Caltabiano, reconhecido mestre de armas italiano que incrivelmente se safa bastante bem atrás das câmaras (Così sia, Mamma mia è arrivato così sia). Este foi o seu primeiro filme nestas funções e, pelo que conheço da sua obra, o seu momento mais inspirado. Numa filosofia quase do it yourself, Alfio Caltabiano escreveu, realizou e ainda saltou para dentro da tela, onde desempenhou o papel de El Bedoja - o implacável líder de um grupo de bandidos (senhor de uma singular técnica de manejo da Winchester), que não hesita sequer em matar cães e espancar lindas mulheres.

Obcecado pelo objectivo de assaltar o supostamente inexpugnável banco da cidade, El Bedoja une esforços com o irmão, Chiuchi (Mario Novelli), infiltrando um elemento do bando dentro do banco, assaltando-o de seguida. Logrando fugir com o dinheiro do cofre, consegue também ganhar duas sombras extra, que jamais sairão do seu encalço - Rocco e Blackie - interpretados respectivamente por Anthony Ghidra e Angelo Infanti. Ainda que inicialmente Rocco rejeite a oferta de sociedade feita por Blackie, os dois pistoleiros acabam eventualmente por unir esforços na perseguição dos bandidos. El Bedoja consegue no entanto baralhar todos os pressupostos mostrando ter planos bem mais individualistas, acabando por ultrajar os seus comparsas de crime. Abandonando o seu refúgio secreto com o dinheiro roubado, seu oleoso irmão e uma bela mexicana que entretanto haviam sequestrado.

Os vastos conhecimentos técnicos de armas de Caltabiano em muito beneficiam as performances dos protagonistas do filme, não me lembro de ter visto por aí muitas sequências de tiroteios tão bem executadas como algumas das que aqui se apresentam – memorável a cena em que Ghidra despacha dois bandidos com tiros desferidos por detrás das costas! De resto, diga-se que as constantes cenas de acção mesmo não atingindo a espectacularidade desse momento, jamais atingem um nível banal. Mas se ao nível da realização Alfio Caltabiano consegue introduzir alguns elementos de interesse, com uma boa fotografia, montagem e escolha de cenários, já não se pode dizer o mesmo do argumento que usa o mesmíssimo esquema de Da uomo a uomo e I giorni dell'ira (todos lançados em 1967), em que o protagonismo é dividido entre um jovem e impulsivo pistoleiro (Blackie, interpretado por Angelo Infanti), e um outro mais velho e calejado (Rocco, interpretado por Anthony Ghidra). Ainda que por momentos fiquemos com a ideia de que ambos os pistoleiros procuram apenas os dólares oferecidos pela recompensa do bando de El Bedoja, cedo se percebe que a Rocco pouco interessa a fortuna mas sim a sede de vingança por contas não saldadas com El Bedoja. Impossível não fazer por isso o paralelo com as personagens da obra-mestra Per qualche dollaro in più (1965), Col. Douglas Mortimer e Manco. Caltabiano parece propositadamente ter pegado na fórmula de Sergio Leone, dando-lhe o sentido de moralidade que o mestre desprezou, lembrando em diversos momentos o quão suja é aquela profissão.

Este filme que em Portugal foi exibido como “Balada para um pistoleiro”, não conhece ainda edição em DVD, mas está disponível com o mesmo título no mercado Brasileiro através da Ocean Pictures. Sem deixar de ser um filme rotineiro e sem interpretações extraordinárias, é um daqueles filmes que garante grandes momentos de diversão aqueles que lhe dedicarem o seu tempo. A mim fez-me lembrar porque sou viciado em westerns-spaghetti!

21/10/2009

Curiosidades western-spaghetti Vol.1



Eis algumas curiosidades sobre o fascinante universo dos westerns-spaghetti. A grande maioria desta informação foi retirada de três magníficas obras literárias que tenho a honra e o privilégio de ter. Aconselho estas autênticas enciclopédias a todos os fanáticos do género que não se importem de ler em inglês:

Sergio Leone: Something to do with death, de Christopher Frayling
Spaghetti Westerns: Cowboys and Europeans from Karl May to Sergio Leone, de Christopher Frayling.
10000 Ways to Die, de Alex Cox.

  • Antes de ser escolhido por Sergio Leone para o filme “Por mais alguns dólares”, Lee Van Cleef tinha-se retirado do cinema devido a um grave acidente de viação e dedicava-se exclusivamente à pintura.
  • Em 1971, numa entrevista em Paris, Sergio Corbucci afirmou: “Eu tenho algo em comum com Hawks, Ford, Hathaway, Sturges, Walsh, André de Toth e Lang: Somos todos cegos do olho direito!”
  • Sergio Leone disse: “Para mim, o primeiro grande criador de westerns foi Homero porque criou personagens egocêntricas e individualistas que resolvem a situação naquele momento, à semelhança de um pistoleiro.”
  • Ao contrário de Gian Maria Volonté, Tomas Milian defendia que a sua acção como actor não deveria interferir em questões políticas.
  • Após ver “Yojimbo”, de Akira Kurosawa, Clint Eastwood disse: “Seria uma boa ideia transformar este filme num western mas nunca ninguém terá coragem para o fazer!”
  • A rodagem de “Por um punhado de dólares” foi interrompida por vários dias devido a problemas financeiros e a conflitos entre Leone e os produtores Arrigo Colombo e Giorgio Papi (Jolly Films).
  • A camada de neve na cidade de Snow Hill em “O grande silêncio” era na realidade espuma de barbear.
  • Luís Beltran, duplo e responsável pelo casting em Espanha, foi duas vezes esfaqueado por ciganos que compareceram aos castings de “Por mais alguns dólares” e que não gostaram de ser rejeitados em detrimento de outros ciganos.
  • A região de Almeria foi escolhida para inúmeros westerns-spaghetti porque na altura era a região mais pobre de Espanha e muitas localidades nem sequer ainda tinham electricidade, o que seria perfeito para este tipo de filmes. Há quem defenda que essa pobreza persistia devido à geral simpatia da região pelos ideais republicanos durante a guerra civil e não pela política nacionalista de Francisco Franco, à época governante absoluto de Espanha.
  • Em 1969, Burt Kennedy falava sobre cinema com o mestre do western clássico americano John Ford. Eis o breve diálogo:
BK – Já viu algum daqueles westerns espanhóis e italianos?
JF – Estás a brincar?
BK – Não, esses filmes existem! E alguns até são bem conhecidos!
JF – E esses filmes, como são?
BK – Não têm história, nem grandes cenas… limitam-se a matar! Em cada filme morrem pelo menos 50 ou 60.

13/10/2009

Quien sabe? (1966 / Realizador: Damiano Damiani)


Motivado pela interessante interacção que se desenvolveu com a publicação da resenha de Vamos a matar, compañeros (1970) no blogue irmão Dementia 13, decidi abordar agora o filme Quien sabe?, mais conhecido por aí como A bullet for the general. Quien Sabe? é um excelente filme de contornos políticos realizado em 1966 pelo reconhecido intelectual de esquerda italiano, Damiano Damiani. A acção do filme desenrola-se no epicentro da revolução mexicana, condição que haveria de servir como elemento diferenciador dentro do género, carregando este tipo de filmes o rótulo de Zapata westerns. Pois bem, neste campo este título merece especial destaque já que terá sido o pioneiro!

Barricada à Mexicana.

Numa tentativa de rentabilização do sucesso que Quien Sabe? alcançaria, muitos outros Zapata westerns seriam lançados pelas produtoras cinematográficas ítalo-espanholas, mas só Damiani conseguiu fazer á primeira tentativa o que muitos outros cineastas jamais lograram nas suas carreiras - conceber um filme de fortes convicções políticas e ao mesmo tempo uma poderosa obra de entretenimento. O realizador sempre refutou a ideia de que Quien Sabe? é um western-spaghetti, mas sim uma critica ás incursões americanas na América do Sul, nomeadamente através dos conhecidos esquemas ilegais da CIA. O facto de a acção decorrer num ambiente western seria portanto uma mera casualidade. Teimas à parte, para a maioria dos mortais, Quien Sabe? contém todos os elementos do género, sendo por isso logicamente metido no grande saco do western-spaghetti. E se nos restringirmos ao subgénero Zapata, arrisco-me mesmo a considerá-lo o melhor de todos!

Que estás tu a fazer palerma?

O elenco aqui compilado é todo ele de grande qualidade, o papel principal (El Chuncho) foi muito bem entregue ao magnífico actor italiano Gian Maria Volontè, certamente o único actor italiano que nunca deixou créditos por mãos alheias no cinema spaghetti, participando apenas em filmes dirigidos por realizadores comprometidos com as suas ideologias de esquerda. Terá porventura por isso ter perdido a hipótese de enriquecer rapidamente, mas por outro lado conseguiu um registo imaculado, com presença em filmes que se poderão todos eles considerar de topo (Per un pugno di dollari, Per qualche dollaro in più, Faccia a faccia).

Na vida real, Lou Castel foi parte activa no movimento maoista italiano.

A Lou Castel, que também teve uma curta mas interessante passagem pelo western-spaghetti (em que se destaca Requiescant), coube o papel de Bill “Niño” Tate, um gringo algo misterioso que transporta consigo uma bala de ouro e cujo único interesse parece ser o de enriquecer muito rapidamente. O terceiro nome do cartaz foi entregue ao arrepiante Klaus Kinski (Il grande silenzio, E Dio disse a Caino, Prega il morto e ammazza il vivo), um dos actores europeus que mais presenças teve neste tipo de cinema, e que pelas características físicas e tipo de interpretação demencial, tem um lugar especial nas minhas preferências. Kinsky desempenha aqui a personagem de Santo (meio-rmão de El Chuncho) um indivíduo cujas motivações religiosas não impediram o empunhar das armas em nome da libertação do povo mexicano.

Um padre demasiado extravagante.

Damiani precisou de quase duas horas para contar esta excelente história, que não terá sido por acaso co-escrita com outro conhecido esquerdista italiano, Franco Solinas (que chegou a ser nomeado para um Óscar). O inicio das hostilidades não poderia ser mais violento, com um brutal fuzilamento de um grupo de peones pelo exército do governo mexicano. É aqui que nos cruzamos pela primeira vez com Tate, o gringo americano de intenções pouco claras. Fazendo-se passar por prisioneiro, o americano junta-se aos supostos revolucionários após o assalto feito por estes ao comboio militar em que seguia. Comboio esse que o próprio Tate faz deter - sem que isso o impeça de limpar o sebo quer a um soldado quer a um bandido.

Anda cá ao palanque falar com o Chuncho.

A dualidade e falta de escrúpulos do personagem demarca-se em cada uma das suas acções, não obstante consegue cair nas graças de El Chuncho, o alegre homem do tambor e também líder do grupo de saqueadores revolucionários. Estes parecem no entanto importar-se muito pouco com os ideais revolucionários, estando mais interessados em roubar o máximo de armas aos soldados do exército para de seguida as vender à Revolução, encabeçada pelo General Elias. Este esquema interessa a Tate, cujo objectivo cedo se perceberá consistir em chegar suficientemente perto do General Elias, para assim lhe tirar a vida. Tate engendra assim uma série de assaltos a guarnições militares, que permitirá aos pseudo-revolucionários engrossar o seu stock e assim levá-lo ao quartel-general secreto do General Elias quanto antes…

Dois dos melhores actores a trabalhar em Itália nos anos sessenta.

Quien sabe?, que em Portugal foi lançado como "O mercenário” – por favor não confundir com Il Mercenario (1968) de Sergio Corbucci – teve honras de edição em formato DVD pela Prisvideo, fazendo parte da “Colecção western” da editora. Esta colecção foi lançada em caixas (mais ou menos) temáticas de duas unidades e peca apenas pela sua curta amplitude. Quien sabe? aparece incluído na designada “caixa spaghetti”, lado a lado com Il bianco, il giallo, il nero (1975), com o qual não vislumbro qualquer ponto de contacto. O conjunto vale sobretudo por este de que agora vos falo. O filme é apresentado em formato 16:9 com excelente qualidade de imagem e idioma original em italiano (curiosamente a informação do booklet indica o inglês). Vale a compra!