2017/08/08

Lo straniero di silenzio (1969 / Realizador: Luigi Vanzi)

Nas montanhas geladas do Klondike, nos Estados Unidos da América, o nosso bem conhecido Stranger encontra um homem moribundo. O indivíduo, de nacionalidade japonesa, revela-lhe um segredo sobre uma fortuna em dinheiro e dá-lhe um pequeno pergaminho antes de morrer. Sem hesitar, Stranger viaja imediatamente para o Japão em busca dessa bendita fortuna. Chega ao país do sol nascente, cedo se apercebe que o modo de vida e a cultura do país é muito diferente dos costumes ocidentais e rapidamente arranja confusão com os nativos. Uma miúda japonesa ajuda-o como tradutora, deixando bem claro que o americano pretende trocar o pergaminho por dinheiro. Mas aquela zona vive tempos turbulentos, há uma guerra violenta entre clãs e aquele pergaminho desperta a cobiça de pessoas importantes.

Uma metralhadora de pôr os olhos em bico!

Chegado a uma aldeia, Stranger vê um grupo de perigosos bandidos a exigirem o pagamento imediato de impostos aos habitantes. Os que não pagam são executados. Stranger prefere fugir do que lutar mas não fica a salvo porque, após várias tentativas de assassinato (inclusive mulheres com facas dentro da sauna) e após as habituais sovas e humilhações (até o põem pendurado como espantalho), o homem encontra dentro de um baú um antigo arcabuz capaz de fazer estragos consideráveis em todos aqueles que o chatearam! Este é o terceiro filme da saga “Stranger”, protagonizada pelo ator americano Tony Anthony e dirigida por Luigi Vanzi (pseudónimo Vance Lewis).

Stranger leva na trombra, de novo!

Na minha opinião, os filmes foram perdendo gás à medida que foram aparecendo: o primeiro filme é bom, o segundo já não é tão bom, este terceiro registo é pior que os anteriores. Em jeito de conclusão, e no meio de tantas espadas afiadas, “senseis”, “dojos” e samurais gordos, magros, barbudos, altos, baixos e anões, fica registada a melhor frase de todo o filme: “Há apenas duas certezas na vida: a morte e os impostos”.

2017/07/18

Tre pistole contro Cesare (1967 / Realizador: Enzo Peri)

Com o sucesso esmagador de “Il buono, il brutto, il cattivo” disparou a produção de westerns em que o mote homens em missão com traições ao minuto, se imitava à descarada. Filmes como “Vado... l'ammazzo e torno”, “Ammazzali tutti e torna solo” ou “Professionisti per un massacro”; serão porventura os exemplares mais conhecidos do público, mas muitos mais - e piores - foram feitos nos anos de ouro do western europeu. Este “Tre pistole contro Cesare” aparece nesse segundo crivo, bem menos interessante que qualquer um dos mencionados, muito por culpa do pouco experiente Enzo Peri, que assumia aqui pela segunda vez a função de realizador.

Nesta aventura os protagonistas são três meios-irmãos desconhecedores da afinidade com cada um dos outros. Uma notificação de um advogado dá-lhes a nova de que herdaram uma mina do seu velho pai. Unidos sobre o pretexto de encontrarem o ouro que supostamente existirá na dita, enfrentarão o espalhafatoso vilão Giulio Cesare Fuller, que apropriadamente enverga as vestes de um verdadeiro imperador romano. 

O "imperador" Enrico Maria Salermo alivia a pressão no seu harém. 

Este “Julio César” é certamente uma das mais excêntricas personagens que o western-spaghetti viu parir. O papel coube a Enrico Maria Salermo, que lamentavelmente não consegue salvar a personagem do ridículo, na minha opinião o ponto mais merdoso do filme. O trio da irmandade é encabeçado pelo americano Thomas Hunter, que recorde-se teve uma boa passagem pelo western de Carlo Lizzani, “Un fiume di dollari”. Julgo que o bom look do actor lhe deveria ter assegurado mais e melhores papéis no género, mas não aconteceu ficando-se o saldo entre estes dois e mais um telefilme – “Carlos” – lançado já nos anos setenta e onde já nem assume a liderança do elenco.

Thomas Hunter a mandar tetra balázio com a sua geringonça.

Hunter é aqui coadjuvado pelo havaiano James Shigeta que interpreta Kato (1), o irmão nipo-americano. Com a colocação de um actor “asiático” no elenco principal, a produção parece tentar fazer uma nova aproximação do western com o cada vez mais emergente cinema de acção asiático (2). Mas sejamos francos, neste caso a adição pouco ou nada acrescentou à acção do filme, uma vez que as cenas de pancadaria farão bocejar o menos exigente dos fãs do cinema de kung-fu. Desengane-se aquele que avaliar o filme pelo fabuloso poster promocional, na verdade o filme é chato como a potassa; além da particularidade da arma usada por Hunter e pela curiosidade de as rodagens terem sido parcialmente rodadas na Argélia (3), pouco ou nada poderei dizer em seu favor. Ainda assim pelo bizarro da coisa, sei que interessará a alguns dos cinéfilos mais inveterados, saibam esses que já existe por aí pelo menos um DVD com o dito (4).

(1) Em 1996-1967 a ABC exibia a série Green Hornet” com Bruce Lee no papel de Kato. Provavelmente terá surgido daí a referência.
(2) Os Shaw Brothers Studios por estes anos já tinham lançado dezenas de filmes de kung-fu/wuxia, o clássico “One-Armed Swordsman” era lançado neste mesmo ano de 1967.
(3) No Dizionario del western all'italiana, Marco Giusti recorda que as filmagens derraparam para Agosto, com temperaturas insuportáveis para actores e equipe técnica. 
(4) Edição da alemã Wild Coyote. Detalhes aqui: https://www.spaghetti-western.net/index.php/Tre_pistole_contro_Cesare/DVD

2017/07/04

Carambola, filotto... tutti in buca (1975 / Realizador: Ferdinando Baldi)

Outro registo da fase mais patética, mais deprimente e mais estúpida dos westerns-spaghetti. Coby e Len, aliás, Antonio Cantafora e Paul Smith, respetivamente, querem imitar Trinitá e Bambino. Coby e Len são a contrafação da dupla de sucesso interpretada por Terence Hill e Bud Spencer. Para a imitação ser o mais fiel possível há que ter dois protagonistas com traços fisionómicos muito específicos: um é elegante, loiro, com olhos azuis e muito ágil. O outro é barbudo, gordo, atarracado e mal-humorado. O realizador Ferdinando Baldi, nestes anos, andava armado em macaco de imitação apenas para tentar ganhar uns trocos. Coby e Len levam uma vida de pura vadiagem. Quando não estão a discutir e a brigar entre si, só pensam em comer, beber, jogar bilhar / snooker e coçar a micose. Anseiam chegar a uma cidade para fazer exatamente isso mas quando chegam… a cidade está deserta. A desilusão provoca mais brigas entre ambos. Subitamente, um pelotão do exército chega a essa cidade fantasma para praticar tiro ao alvo porque possuem uma arma nova: uma mota equipada com uma metralhadora!

Antonio Cantafora, uma espécie de Trinitá dos muito pobres!

Quando os militares estão distraídos, Coby e Len roubam a mota e fogem mas como a mota não tem travões escavacam tudo por onde passam. Finalmente chegam a outra cidade (desta vez habitada) e, claro está, armam confusão num ápice. Até ao final do filme temos muitas cenas de punhada, mesas e cadeiras partidas, espelhos desfeitos, barris de whisky feitos em pedaços, marradas na parede e humor bacoco com soldados em ceroulas. Tal como a dupla original, também Coby é especialista em aviar chapadas na cara e Len é perito em golpes com a pança e murros à pedreiro.

Pistolas!! Muitas pistolas!!

Há também algumas insinuações de cariz sexual quando Len se põe a fazer bolos, o que deixa uma gaja histérica com a rata aos pulos! Quilos de farinha pelo ar, ovos a voar, creme de bolos a esguichar na cara, parvoíce em doses bem generosas… eis a receita deste filme. Finalmente, um conselho para o Signor Ferdinando Baldi: tenha juízo, homem!!

2017/06/06

Take A Hard Ride (1975 / Realizador: Antonio Margheriti)

O que há a dizer sobre o filme “Cavalgada Fantástica” (título em Portugal)? Primeiro que tudo, é um registo que se enquadra muito mais numa matriz americana do que nas características europeias (leia-se, italianas). O veterano Lee Van Cleef, conhecido pelo seu nariz aguçado de falcão e pela sua calvície, apresenta-se aqui com uma longa cabeleira grisalha e nunca tira o chapéu. Jim Brown, ex-jogador profissional de futebol americano (jogou entre 1957 e 1966), já tinha alguns westerns no seu “curriculum vitae”. Fred Williamson é outro ator negro que abandonou a liga profissional de futebol americano (foi atleta entre 1960 e 1967) e dedicou-se ao cinema de ação. Brown e Williamson chegaram a protagonizar vários filmes policiais nos anos 70, a década dourada do chamado “Blaxploitation”. 

Brown e Williamson em evidência.

Tinha chegado a hora de fazerem um western juntos. O processo não foi nada fácil. O estúdio não queria ceder às exigências dos dois atores, que queriam um realizador negro a comandar. Finalmente chegou-se a um entendimento “não com um realizador branco, não com um realizador negro mas sim com um realizador cinzento”, como afirmaria anos mais tarde Antonio Margheriti. Digamos que entrou em vigor a neutralidade italiana (na pessoa de Margheriti) em vez da habitual e tão bem conhecida neutralidade suíça. 

Todos em digressão. 

A história centra-se em Pike (Jim Brown), um vaqueiro que, após a morte do seu patrão Bob Morgan (morte natural, imagine-se!), tem como missão levar o dinheiro do gado (86 000 dólares) à viúva. A notícia espalhou-se pela região (até no Velho Oeste há linguarudos) e muito pessoal vai atrás dele para lhe roubar as verdinhas. Tyree (Fred Williamson) é um jogador de cartas todo janota (ou “dandy”, como agora é moda chamarem a essa seita) que se une a Pike durante toda a viagem. O vaqueiro, além de perceber de gado, também percebe de artilharia. O finório, além de perceber de baralhos de cartas, idem. 

O cabeludo Lee Van Cleef. 

No encalço de ambos está também Kiefer, um caçador de prémios que o público nunca chega a entender o que realmente pretende. A dama em apuros é Catherine Spaak, que não se aproxima da ousadia e do carisma de atrizes como Raquel Welch ou Marianna Hill. Filmado nas Canárias e no Arizona, “Take a Hard Ride” tem três bons atores, um excelente realizador mas paradoxalmente é um filme pouco conseguido e pouco emocionante. Fraquinho, fraquinho…
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