01/06/2020

Onze anos de "Por um punhado de euros"


Contra todas as expectativas este espaço atingiu o seu décimo primeiro aniversário, sim leram bem. Foram onze anos em que desafiando a razão e por pura teimosia apostámos em dedicar um espaço na blogosfera a filmes esquecidos, alguns deles completamente vagabundos e à excepção daqueles realizados por Sergio Leone, sempre mal tratados pelos cinéfilos mais iluminados da nossa praça.  Mas fazemo-lo por gosto e daí ainda cá estarmos passado tanto tempo.

Nem sempre foi fácil, admita-se. No ano passado por motivos pessoais e profissionais não foi possível manter a cadência habitual de publicações. Mas porque isto é uma equipa e não um “one man show” ficámos à tona graças ao empenho do meu camarada de armas e amigo desde os tempos de liceu, Emanuel Neto. Ele sim, sempre certinho na publicação de material com o humor que o caracteriza.

Pelo meio do caminho tivemos a chegada da pandemia Covid-19 e com ela a imposição de passarmos todos mais tempo em casa. Já diz o povo, há males que vêm por bem, com isso foi também possível aliviar algum do stress profissional e pessoal. Com esta disponibilidade extraordinária, aproveitámos para dar uma lavadela à cara do blogue e simultaneamente rever alguns artigos que há muito tinham perdido a ligação para as imagens ilustrativas originais. Interessa dizer que a resolução deste problema foi uma critica que recebemos diversas vezes na nossa caixa de mensagens e que como bons ouvintes, tentámos resolver.

Durante estes anos de vida do blogue vimos blogues irmãos começar e definhar, muitos deles migraram para outros formatos, Facebook sobretudo. Casmurramente decidimos há muito que o espaço se manteria na blogosfera ou em mais lado nenhum. E assim pretendemos continuar por muitos mais anos porque ainda temos centos de filmes para falar. Assim haja forças para dar conta do recado. 

E para vos oferecer como prenda de aniversário, decidimos pedir uma mãozinha a uma série de amigos da lusofonia que sempre gravitaram à volta do blogue (teriam sido mais convidados não tivesse a ideia ter surgido tão perto da data do aniversário). A cada um deles pedimos que alinhassem os seus westerns-spaghetti favoritos. Com base em todas as participações publicaremos em breve o top oficial do POR UM PUNHADO DE EUROS, algo que não revíamos desde 2012. Estava mais do que na hora! 

Obrigado a todos os que continuam por aí e tenham cuidadinho com o corona. Saúde!

18/05/2020

Ed ora... raccomanda l'anima a Dio! (1968 / Realizador: Demofilo Fidani)

Ora então vamos lá a isto, só por causa das tosses! 

Este filme tem Jeff Cameron, Fabio Testi, Ettore Manni, Cristina Penz e Dennis Colt? Sim. 

Este filme tem cenas recicladas de outros westerns? Sim. 

Este filme é uma produção de baixíssimo orçamento e meios limitadíssimos? Sim. 

Este filme tem inúmeras cavalgadas, única e exclusivamente para ter mais minutos de projeção? Sim. 

Este filme tem várias cenas de sopapada no saloon, as habituais garrafas a voar, espelhos partidos, mesas e cadeiras feitas em cacos? Sim. 

Então este filme é obviamente realizado pelo grande Demofilo Fidani? Sim. 

Misteriosos pistoleiros ameaçam uma família.

Há alguma coisa fora do normal neste western “Fidaniano”? Sim, há. 

E o quê, concretamente? A presença do ator Mohammad Ali Fardin, ou apenas Fardin, para os amigos. Saiu do anonimato através do desporto (luta-livre), venceu a medalha de prata em Tóquio em 1954 e foi um carismático ator nos anos 1960 no Médio Oriente. Tinha nacionalidade iraniana e este “Ed Ora… Raccomanda L’anima a Dio” é conhecido no Irão como “Mardaneh Bekosh”. 

Vais levar tantas nesses cornos!!

Em 1968, quando este filme foi produzido, quem mandava no Irão era o Xá. A Revolução Islâmica aconteceu em 1979, o Xá bazou para o Egito e o Ayatollah Khomeini tomou o poder. O país passou a chamar-se República Islâmica do Irão, os fanáticos religiosos passaram a mandar em tudo e, claro, deram cabo daquela merda toda! 

Fardin extremamente irritado!

Fardin assistiu a tudo isto. Faleceu no dia 6 de abril de 2000 aos 70 anos de idade em Teerão. 

04/05/2020

Il giustiziere di Dio (1973 / Realizador: Franco Lattanzi)

Chegou a hora de encarar os westerns-spaghetti de Franco Lattanzi, realizador de quem não reza a história. Comecei a tarefa por este “Il giustiziere di Dio”, que julgo não ter tido exibição por cá sequer. A premissa do filme até parecia simpática, afinal de contas toda a gente gosta da ideia de ter um padre com passado obscuro a desancar a patifaria. Ainda há dias assisti ao novo filme do Jess V. Johnson, “The Mercenary”, também ele uma produção de baixo orçamento que segue esse tipo de narrativa com resultados satisfatórios, mas não é o caso deste "Il giustiziere di Dio". O elenco principal é bastante decente (Willian Berger, Donald O'Brien, George Wang) mas a narrativa demasiado complexa misturada com diálogos/interpretações dignas de miúdos da quarta-classe arruínam completamente o resultado, tornando-o quanto muito, numa comédia involuntária.

Todo o bandido tem um anjo da guarda?

O gangue dos «três ases» cavalgam adentro da cidade de Abilene onde interrompem a execução de um dos seus compinchas, no entanto um cidadão de bem mais zeloso resolve espetar-lhe uma bala no bucho. Enquanto definha o quase-finado ainda sussurra a localização de um esconderijo repleto de lingotes de ouro. O ouro está escondido numa missão que o gangue manda pelos ares, a fim de deitar-lhe a mão. Promete acção mas na realidade é tudo filmado de longe ou sugerido, acção e emoção, nem vê-la.

O gangue mais ridículo que possam imaginar.

O gangue é no mínimo pitoresco, com três líderes mascarados com lenços amarelos pintados com símbolos do baralho de cartas. O método parece refinado, só fazem assaltos em cidades que não aquelas em que residem e usam os lenços com o propósito de manter a sua identidade incógnita, porque afinal são cidadãos respeitáveis. Tudo muito certo, não fossem os restantes acólitos completamente descaracterizados para a balburdia e no final também eles sigam o mesmo caminho de casa que os seus líderes. 

Ei-lo: O justiceiro de Deus! Além de ex-pistoleiro exímio, também ele um mestre do disfarce.

Não faltam incongruências no filme, mas o que mais se destaca pela negativa são as péssimas actuações, que afectam toda a gente envolvida. Também a paupérrima utilização de cenários, lesa gravemente o filme. Sendo obviamente uma produção modesta, vemos a acção rodopiar de cidade  em cidade mas na verdade sempre o mesmo vilarejo. Os ângulos não ajudam e a forma usada para disfarçar esta falência foi a colocação de placas de identificação aos magotes. Sempre focadas em zoom ao ponto de percebermos quão fresca está a pintura. 

Não consta que o senhor seja um metaleiro, portanto há cornudo(a) na área.

A realização é genericamente má, ponto final. Um trabalho medíocre de Franco Lattanzi, que aqui escreveu, editou e realizou. Claramente demasiado peso em cima de um homem só. Não bastasse isso, em 1973 ele ainda assinou mais outro filme, também um western-spaghetti: “Sei bounty killers per una strage”. Donald O'Brien confessou em entrevista que os filmes foram rodados em sequência, com partilha de actores e cenários. Tudo à revelia da equipa de produção, delicioso! Estamos nos 1970, o género definha por todo o lado e o publico alvo de Lattanzi seriam os cinemas de periferia, menos exigentes nas artes cénicas e mais na inclusão de maminhas, que efectivamente inclui com a mestria dos realizadores de filmes exploitation.

Esta senhora é muito encalorada.  

O filme está agora disponível nas plataformas de VOD (Amazon Prime, etc) e nos videoclubes do povo, claro. A imagem é cristalina, no entanto iniciantes do género devem evitá-lo a todo o custo. Os veteranos irão provavelmente soltar umas gargalhadas aqui e ali.

25/04/2020

5 westerns-spaghetti para ajudar a superar a quarentena - Vol.3

Como sabemos, por causa do coronavírus, vulgo COVID-19, a população tem de ficar em casa e respeitar a quarentena. Já que algumas das palavras de ordem são “confinamento”, “isolamento social” e “restrições”, eis um punhado de westerns-spaghetti que remetem para locais fechados, ambientes claustrofóbicos e situações de isolamento. Com estes cinco filmes, vão ver que, afinal, ficar em casa a ver cinema é algo extremamente bom e enriquecedor! Aproveitem!

1. Dio non paga il sabato (1967 / Tanio Boccia) 

Um grupo de bandidos assalta uma diligência e refugia-se numa cidade-fantasma. Têm de passar vários dias juntos até que as autoridades desistam de os procurar. Será que os gatunos vão ter paciência para se aturar uns aos outros?
[resenha aqui]

2. Il venditore di morte (1971 / Enzo Gicca Palli)

O detetive / pistoleiro Silver é contratado para desvendar estranhos homicídios numa cidade cheia de puritanos. Os habitantes dessa cidade parecem saber mais do que aquilo que apregoam! Quantos assassinos há, afinal? Quem é culpado e quem é vítima?
[resenha aqui]

3. E Dio disse a Caino... (1969 / Antonio Margheriti)

Dez anos de xadrez não saciaram a sede de vingança de Gary Hamilton! Conseguida a liberdade, Hamilton volta a casa para ajustar contas com Acombar, o homem que o tramou. Numa cidade completamente cercada, uma terrível noite de tempestade é tempo suficiente para Hamilton matar todos os pistoleiros, fritar Acombar em lume (nada) brando e ainda pregar uma chapada na cara da voluptuosa Maria!
[resenha aqui]

4. Prega il morto e ammazza il vivo (1971 / Giuseppe Vari)

Dan Hogan e as suas bestas roubaram um valioso carregamento de ouro. Escondem-se numa pousada isolada antes de fugirem para o México. Os Rangers percorrem toda a região em busca do ouro e dos meliantes. O confinamento de todas as pessoas que estão na pousada decorrerá sem problemas?
[resenha aqui]

5. Quel maledetto giorno d'inverno... Django e Sartana ...all'ultimo sangue! (1970 / Demofilo Fidani)

O pistoleiro Django e o xerife Sartana estão em Black City. A cidade é ameaçada pelos jagunços de Bud Willer em parceria com os bigodudos de Paco Sanchez. Quase toda a ação acontece na cidade, principalmente os sangrentos duelos ao alvorecer, naquelas ventosas e geladas manhãs de inverno!

18/04/2020

Pagó cara su muerte (1968 / Realizador: León Klimovsky)

Um Marshall (Wayde Preston) anda no trilho de um bandido mexicano chamado Rojas (Guglielmo Spoletini), as pistas levam-no a uma cidade fronteiriça onde encontra um amontoado de mortos e um cúmplice do bandido. É então que ficamos a saber a história do fugitivo. Afinal Rojas não fora bandido a vida toda. Na verdade, ele tinha uma vida honesta até ao momento em que um gringo racista o força, a ele e à vizinhança, a abandonar as suas terras. Não sem antes dar alguma luta aos opressores. Receoso com a mais que provável revanche dos gringos, manda as mulheres e crianças para a segurança das terras mexicanas. Com os homens adultos passa a fazer saques no lado americano da fronteira, onde o preço da sua cabeça valoriza a cada acto.

Tarde de mais Marshall.

Atingida a "fama", recebe a visita de um trapaceiro, Trevor, interpretado pelo habitué do género, Eduardo Fajardo. Trevor propõe-lhe fazer um assalto ao banco de uma cidade americana onde um passarinho o informou da chegada de um carregamento com 300 mil dólares, que imaginem, caberão dentro de uma alforja! O assalto decorre sem problemas de maior, Trevor segue marcha em território americano com um terço do saque e Rojas e companhia atravessam a fronteira.

Eduardo Fajardo no seu enásimo wester.spaghetti.

Ao regressar a casa recebe a melhor das alegrias, o nascimento de um filho. Mas é aqui que se dá o ponto de inflexão no âmago do personagem. A esposa sucumbe no pós-parto e simultaneamente a aldeia é alvo de um raid dos homens do Xerife. Rojas, desolado com a tragédia, não oferece qualquer resistência e é enviado para a prisão e será o Xerife a assumir a guarda da criança. Anos mais tarde, já no campo de trabalhos forçados, recebe uma carta, um pedido de escusa de paternidade. O impulso que faltava para se evadir e procurar a criança.

As más notícias chegam ao presídio.

A realização é de León Klimovsky, o dentista de Buenos Aires tornado realizador de quem normalmente zumbamos devida ao episódio rocambolesco do afastamento da realização do “Poucos Dólares para Django” e à realização de alguns westerns de qualidade paupérrima, mas até ele teve momentos de clarividência e este filme é bastante aceitável. Não pela espectacularidade das cenas de acção, e muito menos pelo trabalho de câmara, mas tem a seu favor uma carga dramática anormal e uma trama pesada em que não faltam sequer farpas político-sociais.

Pai e filho num momento de conforto.

Para este bom porto destaco também a actuação eficaz de Guglielmo Spoletini. Ele como tantos outros actores da época saltou de filme em filme, quase sempre em papéis limitados, mas neste “Pagó cara su muerte” tem o tempo de antena suficiente para mostrar que tinha capacidade para muito mais. É a vida.  Já Klimovsky, realizou logo de seguida mais um western que facilmente sobreviveria num ambiente contemporâneo enquanto thriller de acção, “Quinto: non ammazzare” e apresar de ter voltado ao género, nos anos seguintes atalharia com sucesso pelo cinema de terror, tendo realizado alguns filmes marcantes como "La Noche de Walpurgis", um clássico do cinema de terror espanhol.