2020/01/13

Carambola (1974 / Realizador: Ferdinando Baldi)

Vivendo toda a minha vida perto da fronteira com Espanha, tal como o meu amigo e sócio Pedro Pereira, sempre ouvimos falar de expressões como “contrabando”, “contrafação” ou “refugo”. O contrabando, que no nosso tempo de infância quase já não existia, era inócuo: sacas de batatas, café, bolachas, bacalhau ou garrafas de Coca-Cola. Hoje, o mundo é muito mais evoluído e o contrabando mudou: droga, armas, tabaco, putas, chulos, terroristas e afins. A contrafação, vulgo falsificação ou adulteração, também havia (e continua a haver). O refugo, isto é, aquilo que sobra, depois de escolhido o melhor, continua presente.

Mas o que é que tudo isto tem a ver com o filme “Carambola”? A resposta é simples: tem tudo a ver! “Carambola” é a contrafação dos filmes de sucesso da dupla Trinitá e Bambino. “Carambola” é o contrabando da dupla Trinitá e Bambino porque plagiam descaradamente e não pagam direitos de autor ou direitos alfandegários. “Carambola” é o refugo porque, não havendo Terence Hill e Bud Spencer, sobraram Antonio Cantafora e Paul Smith.

Colby, o pilha-galinhas.

O filme, per se, é um chorrilho de palhaçadas protagonizadas pelo elegante Colby e pelo abrutalhado Lem. À la carte ou à discrição temos chapadas nas trombas, murros no toutiço (também conhecidos por “murros à pedreiro”), jogos de snooker e uma banda a tocar Jazz, ou “Jás”, como se diz no Pé da Serra. E é tudo! Não vale a pena aprofundar mais o assunto porque o filme é tão mau que, se insistirem muito, é capaz de moer o juízo e os colhões ao padre-santo!

A força de Lem é proporcional à sua brutidade!

Epílogo: para os iniciantes em jogos de snooker / bilhar, um conselho: desconfiem sempre quando alguém pegar no giz azul (que é usado para esfregar na ponta do taco) e vos disser: “Cheira lá isto! Cheira a banana!”.

2019/12/30

Il ritorno di Clint il solitario (1972 / Realizador: Alfonso Balcázar)

Clint Madison regressou. Todos pensavam que tinha morrido. A sua esposa, conhecida por todos como “a viúva”, ainda vive no Rancho Green Circle com os seus dois filhos, Jimmy e Betty. Clint apresenta-se perante a sua mulher, desta vez disposto a largar as armas e a abraçar a vida pacífica do campo. Mas uns rufiões andam a ameaçar os agricultores daquela região. Clint recusa-se a lutar. Os seus filhos acham que ele não passa de um cobarde. Mas os rufiões são mais chatos do que a merda, agridem a família de Clint e matam um jovem agricultor. Os “flashbacks”, ao longo de todo o filme, explicam porque é que o protagonista não quer voltar à vida violenta de outrora.

Por aquelas bandas anda um caçador de prémios ansioso por encaixar 5 000 dólares pela captura de Clint Madison. Quem vai ganhar esta contenda? Clint? Os rufiões? Ou o caçador de recompensas?

Vais levar um papo-seco na tromba!!

Francisco Celeiro Martinez, ou melhor, George Martin, e Nikolaus Günther Karl Nakszynski, isto é, Klaus Kinski, são os dois grandes focos deste western mediano. O primeiro é mortífero com uma espingarda Winchester nas mãos. O segundo fuma charuto, veste uma longa capa, movimenta-se com pezinhos de lã e exibe um cabelo comprido à metaleiro.

Kinski, o pistoleiro!

A música é do maestro Ennio Morricone porque foi roubada à força toda, perdão, foi desviada de outros westerns, nomeadamente “I Crudeli” e “Tepepa”.

2019/12/16

...E il terzo giorno arrivò il corvo (1973 / Realizador: Gianni Crea)

Os irmãos Link, Tornado e Sally encontram por acaso uma carroça abandonada. Essa carroça pertence à Lawson Company e transporta uma carga preciosa: ouro! Os três irmãos não são desonestos, nem gananciosos, nem sovinas e devolvem a carroça ao legítimo dono. Quando chegam ao escritório e são recebidos por Lawson, em vez de agradecimentos, os três maninhos levam uma parelha de coices e são postos na rua! Ninguém percebe porquê. Pouco depois, uns marmanjos raptam Sally. Link e Tornado vão buscá-la. Mas porquê tanta intriga? Será porque o ouro que devolveram era falso? Ou será porque Lawson trabalha em conluio com o Corvo que, tal como o nome indica, é um tipo todo vestido de preto com uma capa a condizer.

Eis os três protagonistas!

Os três irmãos querem ajustar contas com esse tal Corvo porque foi ele que, há muitos anos, matou o pai deles. Mas mesmo que consigam depenar o Corvo há que ter em conta que os pássaros de plumagem preta também têm família. O irmão do Corvo (o Corvo Júnior, talvez?) não vai ficar de braços cruzados (ou será de asas cruzadas?).

Cenas de violência também estão presentes.

Gianni Crea era um realizador que andava sempre a contar os poucos trocos que tinha no bolso. Nos seus westerns, a cheta era muito curta e por isso reciclava cenas de outros filmes (neste caso, cenas de “Se T’incontro, T’ammazzo”) para poder alcançar os mínimos olímpicos. Talvez por isso é tão evidente a montagem descuidada.

E eis o Corvo!

A música é da autoria de Nora Orlandi, o que é digno de registo porque até nesse aspeto não era habitual ter uma mulher como compositora de uma partitura musical de um western. O título em Portugal é “Ao Terceiro Dia Chegou o Corvo”. Até admira que desta vez tenham respeitado o título original italiano. Caso contrário, este filme arriscar-se-ia a chamar-se algo estapafúrdio como “A Revolta do Autoclismo” ou “Os Três Contigo”!

2019/10/31

Uccidi Django... uccidi per primo! (1970 / Realizador: Sergio Garrone)

Eis mais um de muitos westerns-spaghetti cujo título é mentiroso. Não há nenhum “Django” em todo o filme. O título em Espanha não é melhor: “Tequila”! E porquê este título? Não sei e duvido que alguém saiba. Este filme foi completamente desprezado, a distribuição foi praticamente inexistente e foi parar às salas de cinema de 3ª categoria. Muitos anos depois, Sergio Garrone até admitiu em entrevistas que não se lembra de absolutamente nada. O elenco tem à cabeça Giacomo Rossi Stuart, ator italiano que, anos mais tarde, iria interpretar o papel do Capitão Fritz Von Merkel no bem-sucedido “Zorro”, de Duccio Tessari. Temos também os inevitáveis vilões Aldo Sambrell e George Wang, o habitual Furio Meniconi e as lindíssimas Krista Nell e Diana Lorys. 
Aldo Sambrell a fumar uma cigarrada!

A receita é a habitual: Johnny McGee, o velho Thomas Nathaniel Livingstone (nome todo pomposo para um velho jarreta) e um mestiço vivem numa cabana perto da sua mina de ouro. O banqueiro Anthony Burton quer todas as minas da região e não aceita que lhe digam “não”. Todos os mineiros da zona são ameaçados, atacados e, alguns deles, assassinados. O braço armado de Burton é um mexicano chamado Lupe Martinez, que na maior parte do tempo anda todo grogue e vive escondido numa gruta húmida e terrivelmente lúgubre.

Além da pistola, o protagonista também maneja a picareta.

Para defender o que é seu, o trio de mineiros não vira a cara à luta. Johnny é implacável com o seu colt, o mestiço é mestre em lançar dardos através da sua flauta e o velho Livingstone, quando não está a agravar a sua cirrose, resmunga. Os condimentos da habitual receita acima mencionada são os inevitáveis balázios e sopapada! No auge dos westerns italianos, uns panhonhas franceses escreveram numa revista que “em Roma há lá um Sergio que faz três westerns por semana”. 

Esta gravata é mesmo à tua medida!!

Eles referiam-se a Sergio Garrone mas estavam completamente errados porque Garrone só fez cinco westerns. Participou, posteriormente, em mais dois westerns porque foi chamado pelo produtor para terminar o que outro realizador, Luigi Mangini, já tinha começado. “Uccidi Django… Uccidi Per Primo!” é um western pobre. Eu adjetivá-lo-ia como um filme “feito às três pancadas”. Ou, como se diz na minha terra, um filme “feito à papo-seco”!

2019/10/27

The Spikes Gang (1974 / Realizador: Richard Fleischer)

Estamos em 1974, ainda é viável para os americanos ir filmar para Almeria. É assim que aparece “A Quadrilha de Spikes”, filme realizado por Richard Fleischer, sim esse mesmo que nos deu o “Conan o Destruidor”, “Kalidor: A Lenda do Talismã” e o clássico “À Beira do Fim”. O elenco é quase totalmente preenchido por gringalhada, com excepção de uma curta participação de Ricardo Palacios e outra ainda menor de Tito García, que creio nem aparecer creditado. O grande nome do cartel é o mítico Lee Marvin, que interpreta o tal Spikes do título, um velho pistoleiro tão astuto quanto traiçoeiro. Então vamos lá.

O gang segue caminho pelas ramblas de Almeria.

Um grupo de chavalecos descobre um homem moribundo, fora baleado e sem auxílio certamente iria bater a caçoleta, mas os miúdos têm bom coração e tomam conta dele. O velho fica-lhes tão grato que lhes promete recompensar em qualquer situação que necessitem a sua ajuda. Um deles cede-lhe o cavalo para que possa seguir caminho e o pai ao aperceber-se do sucedido brinda-o com uma valente carga de porrada. Resultado, o gaiato resolve abandonar a quinta. Os outros ao aperceberem-se seguem com ele.

Quando a fome aperta e a única coisa que tens é água...

A vida fora do rancho provar-se-á mais complicada do que antecipariam, a fome aperta e iludidos pela fanfarronice que o velho bandido lhes pregara, resolvem assaltar um banco. A coisa não corre bem e matam uma pessoa importante no processo. Resultado, ficam com a cabeça a prémio. Ditará a sorte que se reencontrem com o velho Spikes, que não falha ao prometido e lhes dá a mão. Acaba mesmo por lhes propor juntarem-se a ele. O velho ensina-lhes umas coisas e começam a programar um grande assalto. É claro que tudo vai correr mal e o velho vai acabar por tentar salvar o próprio couro à conta dos rapazitos.

Vide o ruivo ali atrás, Ron Howard!

Este mote mestre/aluno, sempre deu bons frutos no western, sobretudo no trabalho máximo de Tonino Valerii, “Gigantes em Duelo”. E esta “Quadrilha de Spikes” apesar do seu ritmo lento não foge à excepção, conseguindo genuinamente manter o espectador despertado durante a duração completa do filme. Uma curiosidade, um dos miúdos do Gang é interpretado por Ron Howard, que como sabemos haveria de se tornar nome maior em Hollywood e que recentemente levou pau com a sua incursão na franquia Star Wars, “Solo”. 

2019/09/09

Trinità e Sartana figli di... (1972 / Realizador: Mario Siciliano)

Quando este filme estreou, em 1972, os westerns-spaghetti cómicos nasciam como cogumelos e o público-alvo era as crianças, os jovens e o pessoal que já estava farto de ver cadáveres em catadupa. O realizador Mario Siciliano escolheu o jovem Alberto Dell’Acqua, acrobata, duplo e ator secundário em muitos westerns, para o papel de Sartana. A maior novidade foi Harry Baird, ator negro de nacionalidade britânica, para encarnar Trinitá. Sartana, um rapaz loiro cheio de genica, alia-se a Trinitá, um negro que veste uma camisola de marinheiro às riscas vermelhas e brancas. Diz chamar-se Trinitá porque é nativo da ilha de Trinidad (atual Trinidad e Tobago).

Este Trinitá mais parece um marinheiro de água doce!

A dupla Sartana e Trinitá anda com um olho no burro e outro no cigano porque sabem que um carregamento de dinheiro chegou fresquinho ao banco. Ambos roubam a massa e pisgam-se. Trinitá apaixona-se por Martha (Daniela Giordano), uma jovem que vive com um grupo de agricultores pobres. Trinitá almoçou com eles, encheu os cornos de vinho e, perdido de bêbado, deu o dinheiro roubado aos agricultores. Quando Sartana chegou e viu o que o seu sócio fez, passou-se da marmita!

Ambos os protagonistas empunham as suas armas!

Enquanto isso, Burton e o mexicano El Tigre andam armados em parvos à cata de ouro que os Rangers transportam. Sartana e Trinitá também vão meter o focinho no assunto. O resto do filme não é mais do que muitas chapadas, pontapés no cu, frigideiras nas ventas, cabeças partidas, narizes amassados e algum tiroteio. Na cena final surge uma metralhadora, há muita confusão, muito cagaçal, muito banzé mas… zero mortos!

Sartana disfarçado de mexicano.

O veredito: não tem o impacto dos dois primeiros “Trinitá” com Terence Hill e Bud Spencer mas, verdade seja dita, também não é a estupidez à “Tresette” ou à “Carambola”. Quem quiser arriscar… fora, figo! Quem não quiser… não vem mal ao mundo.

2019/08/14

Pochi dollari per Django (1966 / Realizador: Enzo G. Castellari)

O pistoleiro Reagan dirige-se para cidade de Miles City, Montana. Antes de chegar, tropeça no cadáver de um xerife. Reagan fica com o distintivo do morto e apresenta-se na cidade como xerife. Sally Norton é a sobrinha de um tal Trevor Norton, pacífico agricultor da região. Mas Trevor é a cara chapada de Jim Norton, um bandido procurado pela lei. Será que são irmãos gémeos ou tudo não passa de uma farsa? A ver vamos… O tema do filme é a guerra entre criadores de gado e agricultores com o seu famigerado arame farpado. Mas o melhor de tudo isto é que não se vê uma única cabeça de gado bovino em todo o filme! O projeto foi realizado a quatro mãos e duas cabeças: León Klimovsky e Enzo G. Castellari.

Quem será o gajo montado no burro?

O primeiro não tinha muito jeito e foi-se embora, o segundo remediou a coisa. Além disso, temos também os dois cabeças de cartaz, Anthony Steffen e Frank Wolff. Ambos tiveram carreiras e vidas muito distintas: Steffen tornou-se numa grande vedeta em Itália e, quando acabou a sua carreira artística, foi para o Brasil gozar uma reforma dourada. 

Estás lixado, Anthony Steffen!!

Em sentido contrário, o americano Frank Wolff, aos poucos, foi definhando a nível artístico e pessoal, acabando por cair numa terrível depressão que o levou ao suicídio! A necrologia definitiva: Frank Wolff morreu a 12 de dezembro de 1971, “requiescat in pace”. Anthony Steffen morreu a 4 de junho de 2004, “requiescat in pace”.

2019/07/15

Attento gringo, è tornato Sabata (1972 / Realizador: Alfonso Balcázar, Pedro Luis Ramírez)

Apesar do seu título internacional “Watch Out Gringo! Sabata Will Return”, esclareça-se já o leitor que estamos na presença de um filme órfão de qualquer relação com a trilogia originalmente lançada por Gianfranco Parolini. Além disso, como provavelmente também já vão imaginando, é uma produção a milhas da pomposidade das produções da saga Sabata. Ainda assim, o elenco é potente e para uma produção de setentas louve-se-lhe o enfoque naqueles clichês do western-spaghetti, ao invés de seguir como a maioria, pelo ritmo de paródia à Trintitá. A realização é assinada por Alfonso Balcázar e Pedro Luis Ramírez, mas  pelo que li, terá sido este último o único a tratar da direcção. Não me admiro que assim tenha acontecido, o sobrenome  Balcázar gozava de alguma fama e por isso é provável que o tenham aproveitado para capitalizar o produto. A parceria resultou num western mediano e claramente influenciado por “Il buono, il brutto, il cativo”, com direito a tantas traições que a certo ponto já dou por mim concentrado na porcaria do smartphone em vez da televisão. São os tempos modernos…

Um grupo de bandidos liderados pelo vil Luke Morgan (Daniel Martín), rouba uma caixa forte carregada de ouro e esmilham-se para o esconderijo com uma refém (a Rosalba Neri, espertos!), não vá o diabo tecê-las. Carrancho, por sua vez aproveita uma ocasião para dar sumiço ao ouro, escondendo-o num terreno onde se implantará uma igreja Mórmon. Está dado o mote para o enésimo jogo do gato e do rato, que entretanto se adensa com a inclusão de mais dois pistoleiros interessados no tema. 

Este gajo vai-se arrepender de salvar este trapaceiro da morte certa.

Apesar da considerável riqueza do elenco (George Martin, Vittorio Richelmy, Rosalba Neri, Daniel Martín, Luciano Rossi), o destaque total do filme vai para o gorducho Fernando Sancho, uma figura quase omnipresente no género (para o bem e para o mal), que curiosamente volta a interpretar uma personagem de nome Carrancho, anos depois de o ter feito noutra produção de Balcázar, apropriadamente lançada em Espanha como ''Viva Carrancho''. Mas não há ligação entre os dois filmes.

Hey gringo! Onde está a paella?

“Judas... ¡toma tus monedas!”, titulo de lançamento em Espanha, foi um dos últimos westerns assinados por Alfonso Balcázar (Clint el solitario, Los Pistoleros de Arizona, Sonora), que depois derivaria para outro género em alta rotação nos idos de setenta, as comédias eróticas!

2019/07/01

Tre Croci Per Non Morire (1968 / Realizador: Sergio Garrone)

Paco é um ladrão de cavalos. Jerry é um engatatão pilantra. Reno é um pistoleiro. Este trio foi parar à prisão por causa das macacadas que armaram. Com eles, na mesma cela, está também um tal Francisco Ortega, um rapaz que está prestes a receber uma gravata de corda porque foi acusado de homicídio e violação. O pai de Francisco e o advogado tentam acionar todos os recursos possíveis. A lei não é branda e rejeita esses recursos. Francisco Ortega será enforcado ao fim de dez dias. Mas o patriarca Ortega não desiste e define um plano: tira da prisão Paco, Jerry e Reno e promete-lhes um prémio de 30 000 dólares se eles ajudarem a provar a inocência do seu filho nos dez dias que restam. Os três sócios investigam, interrogam, vasculham por todo o lado e rapidamente percebem que a história do crime alegadamente cometido por Francisco está muito mal contada.

Uma bela gravata de corda!

A vítima que foi abusada, Betty Fletcher, está paralisada numa cama em completo estado de choque (não fala e não reage). O pai de Betty levou um tiro na cabeça e todos deitaram as culpas sobre Francisco Ortega. Ninguém naquela cidade quer falar sobre o assunto.Mas há um rumor que uma tal Dolores sabe exatamente o que se passou mas ninguém sabe onde ela está. O mistério adensa-se! E quem é a moça que vive e trabalha sozinha num moinho? Os dias passam. Paco, Jerry e Reno têm de obter provas concretas e regressar rapidamente, a fim de evitar o enforcamento de Francisco Ortega. Vai ser uma corrida contra o tempo. Será que conseguem?


Estás sob a minha mira!

Este segundo western de Sergio Garrone é um filme bem estruturado com uma trama a roçar o “giallo” e o gótico, géneros cinematográficos do gosto de Garrone. Craig Hill, Ken Wood (Giovanni Cianfriglia), Peter White (Franco Cobianchi D’Este), Evelyn Stewart (Ida Galli) e Jean Louis fazem as honras da casa. Sergio Garrone, sempre competente, dirige bem as operações. Anos mais tarde, o realizador até se gabou de ter conseguido arrancar uma boa atuação de Ken Wood porque, segundo dizia Garrone, “o homem parecia um calhau a representar”!

2019/06/21

Nato per uccidere (1967 / Realizador: Antonio Mollica)

Resumindo este filme, vemos Gordon Mitchell como Roose, um jogador de cartas lacónico e rápido no gatilho sempre pronto a ganhar uns dólares a mais, mas cujo destino leva-o a uma pequena vila onde os pequenos rancheiros são subjugados e aterrorizados pela ambição desmedida de um grande proprietário, Tyson (Tom Felleghy), apoiado por Dudgett (Aldo Berti) e o seu bando. Quando este filme me chegou às mãos, confesso, torci o nariz. Pareceu-me mais um western obscuro de qualidade duvidosa e, ainda por cima, não era grande admirador do Gordon Mitchell dos westerns spaghettis, principalmente nas extravagâncias com aquele charme muito próprio de  Demofilo Fidani onde passava os filmes a gritar num tom interpretativo exagerado a raiar a fronteira do cabotinismo, embora, a verdade seja dita, admirava bastante o Gordon Mitchell do peplum em filmes como “Maciste Contra o ciclope”, “A Ira de Aquiles”, “7 contra o Mundo” ou “A vingança de Spartacus”. Depois de algum tempo na prateleira vi o filme, e em boa hora o fiz.

Cuidado Berti, a estrela sou eu!

Roose, à primeira vista, parece ser um típico anti-herói do género que já vimos em muitos filmes, mas não, Mitchell retrata um pistoleiro infalível que não se sente satisfeito por sê-lo e vemos isso logo no início do filme, numa caracterização de personagem brilhante, quando enquanto se vestia no quarto do hotel antes de enfrentar três homens em duelo, apanha um mosca e em vez de a matar, abre a janela e liberta-a dizendo: “Vive em paz, tu que podes.” A paz que ele não tem, a paz que quem vive com uma arma na mão não tem. Não é movido por qualquer paixão ou por um desejo de vingança nem é um justiceiro movido por qualquer responsabilidade social e não tenciona, de maneira nenhuma, mudar o mundo, Roose procura um futuro em paz, mesmo que para isso se tenha de tornar um herói e fazer aquilo para o qual nasceu, matar.

Mitchell chega e mata!

“Nascido para Matar” é um filme de orçamento exíguo e uma pequena pérola do género que merece ser descoberto e é um exemplo seguro de que os meios nem sempre justificam os fins, porque com poucos meios, Antonio Mollica (Tony Mulligan), de quem se conhece a realização de apenas três filmes (“20 Passos Para a Morte” com Dean Reed e o interessante filme de piratas “O Regresso do Pirata Negro” com Robert Woods)  conseguiu levar este filme a um bom fim com uma realização segura e sem invenções, criando um filme que foi feito sem mais nenhuma intenção se não para entreter com cenas de ação muito bem coordenadas e com o mimo de nos podermos deliciar com a bela música de Felice Di Stefano muita acima da média do género e do próprio maestro que compôs as partituras de filmes como “Cjamango, o Vingador”, “Não matar” ou “Pede Perdão a Deus”. 

Em 1967 o género ainda não estava de rastos.

Como nota final, gostaria de ter visto Gordon Mitchell muitas vezes mais neste registo de pistoleiro implacável e lacónico, sem histrionismos, criando mais personagens nascidas para nos surpreender. Recomendo esta pérola algo obscura, mas cativante.

Resenha gentilmente cedida pelo companheiro António Furtado da Rosa, grande entusiasta do western-spaghetti e também ele blogger ocasional via http://westerneuropeu.blogspot.com/

2019/06/11

...e lo chiamarono Spirito Santo (1971 / Realizador: Roberto Mauri)

Por alguma razão vi o segundo filme desta trilogia antes do seu predecessor, tal a qualidade dessa zurrapa demorei anos a arriscar voltar à saga, mas fi-lo um dia destes e afortunadamente tenho de reconhecer que este primeiro filme é bastante superior. Tem menos traços de paródia, um andamento razoável e sobretudo actuações muito aceitáveis. No elenco encontramos: Jack Betts a empoçar a bigodaça mais épica do western europeu; Mimmo Palmara que não falha quando o põem a fazer de índio (ora lembrem-se lá do clássico “Black Jack”); José Torres num papel completamente tresloucado (bem sei que fez muitos, mas quem imaginaria um padre homicida?) e o “mocinho” de serviço é Vassili Karis: nada mais nada menos que o dono dos ponchos mais ridículos do western-spaghetti.

Uma mulher entra em trabalho de parto, há dor, há choro, mas logo chega a alegria: “é um rapaz!”. Um olhar breve pela janela revela uma pomba branca e alguém grita: “Espírito Santo!”. E assim se faz a ponte mais foleira que se poderia imaginar com a personagem popularizada  pelo filme de Giuliano Carnimeo e interpretada pelo nosso favorito Gianni Garko. 

Vassili Karis, além de protagonizar ainda tratou do recrutamento do elenco.

Anos mais tarde encontramos novamente Spirito Santo (Vassili Karis), agora a vergar o aço num campo de trabalhos forçados de onde será liberado por acção de um tal Foster (Jack Betts), que pretende impingi-lo na participação a um assalto a um carregamento de ouro. A equipa forma-se e o golpe dá-se, mas um dos comparsas - o padre Steve (José Torres) - tem um surto psicótico e dizima uma quantidade avassaladora de militares com a sua metralhadora. Padre que é padre não sai de casa sem ela, certo?! 

Com padres destes não me apanham na missa.

E pronto, já adivinharam, quem amocha com as culpas de tudo isto e mais um par de botas é o nosso amigo Spirito Santo, que acabará por ter de confrontar os seus ex-parceiros e ainda livrar-se de um xerife mestiço (Mimmo Palmara) que o persegue por motivos alheios a este imbróglio. Motivações que terão de conferir vocês mesmos, para não entrar aqui em modo spoiler total.  

O cachet do Jack Betts foi todo para aquela bigodaça.

Rodado quase totalmente na região de Manziana (Itália), o filme peca evidentemente pela falta dos grandes planos proporcionados pelas co-produções ítalo-espanholas, mas esqueçamo-nos disso. É uma história simples e coerente que não sofre dos sobressaltos habituais das produções de menor orçamento que o género produzia nestes inícios de setenta. Até ver arrisco-me mesmo a dizer que é o meu spaghetti favorito da safra do siciliano Roberto Mauri. Portanto, larguem lá os centos de filmes de super-heróis e as séries da moda que os grandes estúdios vos tentam enfiar pela goela e arrisquem algo completamente diferente!

2019/06/03

Il suo nome gridava vendetta (1968 / Realizador: Mario Caiano)

Os atores Anthony Steffen, William Berger, Robert Hundar, Evelyn Stewart, Mario Brega e Jean Louis unem forças neste western de Mario Caiano. O realizador, juntamente com Tito Carpi, alinhavou e escreveu o argumento. Enzo Barboni assinou o seu nome como diretor de fotografia. Este leque de profissionais, em conjunto, deu origem a um western bastante decente, longe da genialidade de uns e longe da palhaçada de outros. Como diriam alguns: “não é bom, nem mau… antes pelo contrário”! Davy Flanagan, ex-militar ianque, tem a cabeça a prémio. É acusado de traição e deserção. Após cinco anos de ausência, Flanagan regressa a Dixon, a cidade onde sempre viveu.

O taciturno Steffen!

A vizinhança é pouco amistosa. O ambiente naquela cidade é de cortar à faca. Mas Flanagan não percebe o porquê de tanta animosidade. Pior: o facto de ter sido baleado na cabeça durante a Guerra Civil fez com que perdesse a memória.Lisa, a sua ex-mulher, casou-se com um tipo chamado Clay Hackett. O desgosto de Lisa é tão grande que passa os dias a encher as trombas de bebida. O juiz Sam Kellog é o único que o quer ajudar.

O sádico Berger!

Aos poucos, a memória torna-se menos turva. Mas à medida que Davy Flanagan maneja o seu revólver com mestria, a sua memória vai-se tornando mais clara e aí é que haverá tiros e batatada que até ferve! E ferve de tal maneira que, no final, o vilão dará um belo mergulho no bebedouro dos cavalos para arrefecer as suas malévolas intenções.É um mergulho digno dos melhores que já vimos, semelhante aos mergulhos do pessoal maluco que se atirava em grande estilo do alto da 3ª prancha na Piscina Municipal de Portalegre. Aqueles que viveram esses tempos nesta cidade do Alto Alentejo sabem do que eu estou a falar!

2019/06/01

Dez anos de "Por um punhado de euros"

Nota prévia: este breve diálogo está escrito nos dialetos “Lagoia” e “Nizorro”.

- Contaram-me, disseram-me, ouvi dizer que o blogue faz 10 anos.
- Diz que sim! Diz que sim!
- E o blogue já tem mais de 200 resenhas de filmes.
- Ai sim? Ai basta que sim!
- E o contador do blogue já vai em quase 1 milhão de visitas.
- Quase 1 milhão de visitas?! Arre porra!
- Achas que devíamos ficar por aqui e desistir disto tudo?
- El não, homem! Mas tu és tonto dos cornos?! Ainda temos de manter isto por mais algum tempo.
- Mas temos de festejar este 10º aniversário. Mas uma coisa à patrão!
- Então pois sabe-se! Tem de haver pingalheda!
- Hã?! Tem de haver o quê?
- Uma pingalheda. Encher as trombas de bebida.
- Mas antes temos de anunciar este aniversário como é dado. Estás pronto?
- Estou.
- Então, lá vai alho! Um, dois, três… DEZ ANOS DE «POR UM PUNHADO DE EUROS»!!

2019/05/06

Johnny Oro (1965 / Realizador: Sergio Corbucci)

A canção diz tudo: “Il suo unico amore era l’oro”! Esta é a história de Johnny Oro (Mark Damon), um pistoleiro sorridente que tem uma cremalheira impecável, um bigodinho à Cantinflas e um revólver dourado. O xerife Bill Norton (Ettore Manni) é quem manda na cidade de Goldstone. Norton decretou que é proibido o uso de armas de fogo na cidade. Johnny Oro não sabia dessa regra e é metido na pildra. Mas problemas maiores estão para acontecer: o xerife tem um contencioso com os Apaches porque expulsou da cidade o chefe deles (estava bêbado e armou briga no saloon). 


Johnny Oro tem um contencioso com os mexicanos porque matou uns quantos que o desafiaram. Os mexicanos são velhacos. Os Apaches são ainda piores. Ambos os grupos, liderados por Juanito Pérez e pelo índio Sebastian, unem forças e vão atacar a cidade à bruta! É impossível o exército chegar a tempo para ajudar. Borrada de medo, a população abandona a cidade. 

Johnny Oro armado em engatatão!

Barricados no escritório estão Bill Norton, a sua esposa, o seu filho, um velho bêbado e Johnny Oro. Cinco pessoas contra dezenas de agressores! Mas Oro e o xerife nada temem porque, como diria o antigo treinador do Benfica, Fernando Cabrita, “vamos a eles que nem Tarzões”! Este filme é considerado uma obra menor de Sergio Corbucci

A ferramenta dourada do protagonista.

O cerco à cidade é claramente inspirado em “Rio Bravo”, Ettore Manni tenta imitar o xerife John T. Chance (John Wayne) e o velho rabugento que dispara um velho arcabuz é uma homenagem a Stumpy (Walter Brennan). Anos mais tarde, a fórmula claustrofóbica de “ninguém entra, ninguém sai” passou a ser a imagem de marca do excelente realizador John Carpenter.

2019/04/22

La Banda J. & S. cronaca criminale del Far West (1972 / Realizador: Sergio Corbucci)

Anno Domini 1972: estreia “Sonny and Jed” (título internacional). O ator cubano Tomas Milian, ainda com a mesma boina à Che Guevara que usara anteriormente com Corbucci, é o protagonista do filme. Mas o cineasta italiano nunca foi coerente. Houve sempre altos e baixos. Corbucci tanto era capaz de sacar westerns geniais como também realizava umas larachas de meia-tigela. Mas vamos ao que interessa:O xerife Franciscus (Telly Savalas) anda atrás do bandido Jed Trigado (Tomas Milian). Numa das suas fugas, Jed cruza-se casualmente com Sonny (Susan George), uma moça loira, atraente e (ainda) virginal. Ela quer unir-se a Jed e seguir o caminho do crime.

Tomas Milian: uma espécie de Che Guevara de pacotilha!

Relutante, Jed aceita-a. Mas Sonny irá rapidamente perceber que essa vida não é fácil, especialmente porque Jed é bruto que nem uma camioneta de porcos e trata-a como um cão (aliás, abaixo de cão)!Refugiam-se numa casa de putas, Jed enfarda à bruta um prato de esparguete, Sonny dá coices porque não quer ser prostiputa, perdão, prostituta, Jed enxovalha-a constantemente, Sonny apanha uma puta de uma bebedeira, fica com a passareta aos saltos, há atração sexual entre ambos e… lenha para a máquina!

Ambos os protagonistas na casa de alterne.

Casam-se pela igreja, roubam o padre e iniciam uma sociedade de gamanço. Assaltam lojas, armazéns, casas de jogo, bancos, correios e a lei oferece 5 000 dólares pela captura de ambos. Mas o casal tão depressa anda à bulha como logo a seguir anda aos linguados e a enterrar a faca, tal como em época de cio!

Telly Savalas e a sua famosa careca!

O xerife Franciscus não desiste e vai até às últimas consequências para eliminar esta dupla, principalmente porque o xerife ficou cego quando foi atacado por Jed e Sonny. Eles que se ponham a pau porque Franciscus pode ter ficado cego mas de parvo não tem absolutamente nada.Para terminar, eis a frase de lançamento: “Ladrão, zombeteiro, generoso, sanguinário, imoral. Era assim o chefe do bando J. e S., que espalhou o terror no Novo México e no Texas”!
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