quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Il figlio di Django (1967 / Realizador: Osvaldo Civirani)


Il figlio di Django é mais um filme que explora o longo e proveitoso filão de “Django”, aqui com um mote algo diferente do comum, passando a habitual usurpação da famosa personagem para a sua descendência. O argumento do filme resume-se de uma forma simples: Django é baleado pelas costas em frente de seu filho - Tracy. Este ainda que não tenha conseguido ver a cara do assassino consegue ouvir um nome: “Thompson”! O miúdo acaba então por ser resgatado por um velho amigo de Django, que o deixa ao cuidado de uns seus familiares. Os anos passam e a criança torna-se num temível pistoleiro, partindo eventualmente em busca de vingança – condição mínima necessária para o regozijo da maioria dos fãs do género. A busca leva-o à cidade de Topeka, onde acaba por se envolver nas rixas entre duas facções lideradas por ex-companheiros do seu pai. Mas quem será afinal o homem que apertou o gatilho?

A modesta realização de Il figlio di Django ficou a cargo de Osvaldo Civirani, nome responsável por um punhado de westerns-spaghetti de qualidade quase sempre sofrível, tais como Uno sceriffo tutto d'oro ou I due figli di Trinità. E a coisa não começa bem, Civirani arrepia caminho e entrega todos os trunfos nas sequências iniciais, colocando em fundo um revelador tema cuja letra descreve grande parte da intriga do filme. Não existe por aí muita gente que tenha tentado isso, e percebe-se porquê. Toda e qualquer expectativa inicial que se poderia ter é defraudada num momento em que ainda nem sequer aquecemos o sofá! Curiosamente Demofilo Fidani - outro nome também conhecido pelas suas produções despreocupadas - esteve também ligado ao projecto, aqui enquanto responsável pela decoração.


De facto, de um modo geral não há muito que se possa escrever em abono de Il figlio di Django. Desde o fraco argumento (responsabilidade do próprio Civirani em pareceria com Alessandro Ferraù e Tito Carpi), extremamente atabalhoado e confuso nos 30 minutos iniciais do filme; passando pelas intermináveis sequências de tiroteio e terminando na interpretação mediana da generalidade do elenco da coisa, nada de memorável há que registar. No campo das interpretações reconheça-se ainda assim alguns pontos acima da média para Gabriele Tinti (Tracy) que até parece ter sido talhado para este tipo de papel, mas que infelizmente não se voltou a dedicar ao género. Já a estrela da companhia, Guy Madison (protagonista de filmes como Sette winchester per un massacro ou Reverendo Colt), tem aqui uma presença rotineira e sem brilho, o que acaba por ser desculpável tal a curta dimensão do papel que lhe foi entregue - muito pouco aprofundado pela direcção de Civirani.


Apesar de Il figlio di Django ser facilmente metido no saco daqueles filmes absolutamente esquecíveis, serve no entanto como exemplo da quantidade de adaptações que a marca Django teve durante os anos áureos dos "westerns all'italiana"! O filme está disponível em formato DVD através da “subterrânea” X-Rated, o que por si só serve de indicação para qual o público-alvo do filme: Fãs hardcore do género!

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Arrivano Django e Sartana... è la fine (1970 / Realizador: Demofilo Fidani)


Em 1970, o imenso balão de oxigénio da indústria cinematográfica italiana proporcionado pelos westerns estava a começar o seu ponto de declínio. Os grandes realizadores do género já tinham lançado as suas obras-primas, as fórmulas estavam mais do que gastas, os orçamentos já não eram tão generosos como anteriormente e, deste modo, o inesgotável filão era afinal esgotável! Surgiu uma nova fórmula apadrinhada por Enzo Barboni, Terence Hill e Bud Spencer, dando origem ao western cómico. Após o enorme sucesso dos filmes da dupla “Trinitá e Bambino” choveram várias cópias mal amanhadas para também encaixar mais dinheiro. No entanto, Demofilo Fidani seguiu um caminho distinto. Este realizador tornou-se especialista em westerns de orçamento muito baixo, quase ridículo e inexistente! Assinava as suas obras sob diversos pseudónimos (neste filme foi Dick Spitfire), recorria essencialmente a duplos mas mesmo assim ainda cativou nomes como Klaus Kinski, Gordon Mitchell ou Ettore Manni.


Este Chegam Django e Sartana… e é o fim! é claramente uma produção inferior em termos técnicos. Eu próprio tive uma reacção negativa, quando o vi pela primeira vez em formato VHS há mais de 10 anos, porque estava habituado a produções mais cuidadas. Fidani tentou jogar com a junção de duas personagens carismáticas (e em declínio) do western italiano (Django e Sartana) e talvez isso tenha feito com que os seus filmes não tenham caído no esquecimento total. A história do filme não tem nada de novo: A filha de um rico rancheiro é raptada pelos larápios de Burt Keller (Gordon Mitchell), usando-a como refém para conseguir escapar para o México. Uma grande recompensa é oferecida pela captura dos malfeitores e os caçadores de prémios Django (Hunt Powers) e Sartana (Chet Davis) fazem o que lhes compete, vulgo despachar a vilanagem! Na minha opinião, as obras de Demofilo Fidani (Giù la testa... hombre, Era Sam Wallash... lo chiamavano 'Così Sia', Per una bara piena di dollari, etc.) nunca podem ser vistas como material topo de gama mas a intenção nunca foi rivalizar com Leone ou Corbucci. Se o fizesse seria inevitavelmente derrotado. Mas, apesar de tudo, consigo ver alguma magia e humildade neste filme. Eu defendo que os westerns-spaghetti não se resumem única e exclusivamente às obras mais carismáticas e aos orçamentos gordos. Aliás, um fã deve sempre procurar mais informação além da que facilmente lhe é oferecida!


O elenco deste filme é composto por Hunt Powers, Chet Davis, Gordon Mitchell, Ettore Manni, Krista Nell, Simone Blondell e Dennis Colt. A música e a fotografia merecem ser destacados pela positiva. Há edições DVD à venda na Alemanha e na Espanha. Perdi o amor ao dinheiro e comprei a versão espanhola que é simples, agradável e contém o filme no formato 1.85:1. Este western é apenas para pessoal menos exigente ou para quem gosta de produções de série B, como eu. Dir-se-ia que foi uma de muitas tentativas que se fez naquela altura de reacender o entusiasmo pelo sub-género mas, naturalmente, falhou! Quem ficou a ganhar fomos nós porque a obra persiste, independentemente de ser série B, A ou Z.


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terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Preparati la bara! (1967 / Realizador: Ferdinando Baldi)


Tal o sucesso de Django (1966), surgiram quase imediatamente dezenas de filmes que se apoiaram no seu nome como chamariz para um público mais alargado. Alguns desses filmes seguiram de uma forma mais ou menos coerente as características da personagem mostrada ao mundo por Sergio Corbucci, outros (maioria) limitaram-se a adicionar o nome Django ao seu título, mas todos eles contribuíram para o culto de uma das mais místicas personagens do spaghetti-western. É por isso justo que prestemos a merecida homenagem ao sombrio pistoleiro aqui no Por um punhado de euros, expondo alguns desses filmes nos artigos que aqui se publicarão nos próximos tempos. Não deixando de ser verdade que em grande parte dos filmes de que me refiro, a utilização da marca «Django», funciona sobretudo como uma abusiva manobra de marketing, outros há que até poderemos considerar como sequelas ditas oficiais. É nesta franja que surge Preparati la bara! - em Portugal lançado como Viva Django - que cronologicamente terá de ser considerada uma prequela, já que a sua acção decorre antes da guerra da secessão. Num período em que conhecemos um Django bastante diferente do que Corbucci nos apresentou, aqui Django ainda sorri e desfruta da feliz vida de casado. Isto por breves momentos, já que a sua vida está prestes a levar uma grande volta.


Django surge aqui como escolta de carregamentos de ouro para o depósito federal, um desses carregamentos acaba no entanto por ser atacado pelo bandido Lucas (George Eastman) e seus homens, a trama é no entanto maior já que o dito Lucas age em nome de David Barry (Horst Frank) - amigo de Django e curiosamente seu patrão - que pretende utilizar esse ouro como financiamento para as suas aspirações políticas. Escapando à morte mas vendo a sua mulher morrer em frente aos seus olhos, Django promete vingança. Depois de fisicamente recuperado, o pistoleiro regressa ao povoado, onde se faz passar por carrasco. Aí supostamente fará cumprir as injustas sentenças lidas a habitantes locais, que um sistema judicial corrupto condenou injustamente apenas por se terem oposto ao bando de Lucas (testa de ferro de Barry). O plano de Django consiste no entanto em libertar estes indivíduos de uma morte certa, fazendo dos enforcamentos uma farsa, provendo-lhes com a devida antecedência um engenhoso casaco que suportará o seu peso na forca. Com este grupo de supostos enforcados, Django cria o seu exército privado que utilizará na execução da sua vingança, atormentando a vida dos “sócios” de Lucas com a reaparição destes supostos fantasmas. A edição espanhola de Preparati la bara! foi justamente intitulada de El clan de los ahorcados, que é porventura o mais esclarecedor dos títulos que o filme recebeu. Como seria de esperar a ganância destes “enforcados” levam à traição a Django, baralhando um pouco mais o enredo do filme, mas no essencial nunca se afastando em demasia da fórmula de Yojimbo (1961) - também seguida no filme de Corbucci.


Ao que parece a ideia original do produtor Manolo Bolognini e da BRC Produzione Film seria colocar novamente Franco Nero no papel de Django, com o qual haviam assinado contrato para três filmes, no entanto Nero agora elevado ao grau de estrela escapuliu-se para a mais apetecível cena de Hollywood, onde interpretaria Lancelot no oscarizado Camelot (1967). Sem o «Django» original disponível, Ferdinando Baldi (Texas, addio, Il pistolero dell'Ave Maria, Blindman) e a produtora activaram um plano de recurso, entregando o papel a Terence Hill, à data ainda relativamente desconhecido. Excelente escolha, dadas as grandes parecenças físicas entre os dois actores. Vestido de negro, Hill parece realmente uma sósia de Franco Nero. Existem cenas em que dificilmente são distinguíveis, ver para crer! Aqueles que reconhecem Terence Hill, sobretudo pelos seus papéis cómicos em Lo chiamavano Trinità... ou ...continuavano a chiamarlo Trinità, poderão criar uma falsa expectativa sobre este filme. Alerto por isso desde já para que não se deixem enganar por algum do marketing utilizado para divulgação do mesmo. Isto não é um spaghetti cómico ao bom estilo de Trinitá, aqui os sorrisos idiotas na cara do Terence Hill contam-se pelos dedos de uma mão e a contagem de cadáveres é larga (veja-se a memorável chacina da cena final).

Por conter todos os elementos que considero essenciais num bom western-spaghetti, Preparati la bara! é um daqueles filmes pelo qual tenho um carinho especial. Não sendo ainda assim uma maravilha em termos cinematográficos, há que reconhecer a Baldi e a Franco Rossetti a capacidade de conceber um filme que não choca com os pressupostos anteriormente apresentados pela personagem. Pessoalmente considero mesmo este «Django» a melhor adaptação que o cinema ítalo-espanhol pariu. Indumentária negra, caixão com metralhadora oculta, mote vingativo – está tudo lá! Destaco também a poderosa banda sonora dos irmãos Reverberi, que incrivelmente viram não há muito tempo, um dos seus temas ser samplado pelo DJ Danger Mouse, no seu projecto Gnarls Barkley. Fiquem por isso sabendo (caso não o saibam já) que o muito orelhudo “Crazy”, grande êxito do verão de 2006, foi inspirado em bandas sonoras de filmes western-spaghetti, em particular por esta.

Tal como Django, também este Preparati la bara! tem edição DVD na “Colección spaghetti western” da espanhola Filmax. É esta edição que tenho em casa e que recomendo apenas aqueles que não desgostem do formato 4:3, e que entendam minimamente a língua espanhola. Existe também no mercado uma edição brasileira da Ocean Pictures cuja qualidade som/imagem não posso infelizmente opinar.


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quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Django (1966 / Realizador: Sergio Corbucci)


Quando se aborda o tema westerns-spaghetti, o primeiro nome que vem à memória da esmagadora maioria é “Sergio Leone”. É com inteira justiça que isso acontece, já que foi o grande mestre do género e realizou obras marcantes. Contudo, Sergio Corbucci segue de muito perto o seu compatriota, se tivermos em conta as suas duas obras-primas: “O grande silêncio” e “Django”. Concentremo-nos neste último. O ano é 1966 e várias dezenas de westerns-spaghetti surgiram no grande ecrã até à data. Alguns desses filmes são maus, uns são medianos, outros são agradáveis, outros muito interessantes mas quase todos ainda bebem inspiração da abundante fonte clássica americana. Eis então que surge “Django”, uma obra genial que consegue em alguns aspectos ir ainda mais longe que “Por um punhado de dólares”. “Django” define perfeitamente o que é o western-spaghetti: violência, crueldade, sadismo, vingança, ambição, abundância de símbolos religiosos (caixão, cruzes, cemitérios) e, naturalmente, muitos tiroteios e respectivos cadáveres. As paisagens lúgubres, a cidade de aspecto desolador, enlameado e fantasmagórico, as cores escuras falam mais alto e são o ponto de partida para um marco da história do cinema. O sucesso foi de tal forma gigantesco que deu origem a dezenas de outros filmes com o nome do protagonista mas nenhum deles chegou sequer aos seus calcanhares (o nome tem a ver com um músico de jazz europeu chamado Django Reinhardt).


O enredo é simples: Django chega a uma localidade praticamente deserta a arrastar um caixão e envolve-se no meio de um conflito entre mexicanos revolucionários liderados pelo General Hugo e os fanáticos sulistas da Ku Klux Klan do Major Jackson. O objectivo é enriquecer às custas dos mexicanos e vingar-se de Jackson, o culpado pela morte da sua mulher. Após muita violência e um elevado número de mortos, Django defronta o seu inimigo mortal no cemitério. Dito desta forma até parece um filme perfeitamente banal mas a maneira como este projecto foi concebido (cenários, armas e figurinos são da responsabilidade de Carlo Simi) foi magnífica. A fotografia de Enzo Barboni e a arrepiante música do argentino Luís Enriquez Bacalov são excelentes. O leque de actores, liderados por Franco Nero, que passou de desconhecido a super vedeta, é composto por Loredana Nusciak, José Bodalo, Eduardo Fajardo e Angel Alvarez.


O sucesso desta obra-prima foi proporcional à polémica. A censura inglesa, por exemplo, baniu o filme até início dos anos 90 devido à excessiva violência (cortar uma orelha, esmagar mãos, chicotear mulheres) mas contra todos esses atritos “Django” resistiu e é hoje um filme de culto e obrigatório a todos os fãs do género. Hoje em dia é muito fácil comprar edições DVD deste filme em qualquer loja on-line excepto em Portugal, que é uma pobreza franciscana. Eu optei pela edição espanhola que tem boa qualidade de som e imagem (1.85:1). Não existem filmes perfeitos mas, na minha opinião, “Django” roça a perfeição.


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Documentário

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Ballata per un pistolero (1967 / Realizador: Alfio Caltabiano)


Tenho nos últimos meses tentado encontrar os westerns-spaghetti protagonizados por Anthony Ghidra, o homem que nasceu como Dragomir 'Gidra' Bojanic ainda na antiga Jugoslávia e que, pelo que tenho percebido, ainda que não tenha conseguido implementar o seu nome como referência no género, garante em cada uma das suas participações uma grande dose de satisfação ao mais entusiasta adepto do western-spaghetti (veja-se L'ultimo killer, Un buco in fronte, Chiedi perdono a Dio... non a me). Não será por isso de estranhar que volte a debruçar-me sobre mais algumas das suas façanhas nos próximos tempos. Por agora fico-me por Ballata per un pistolero, filme dirigido em 1967 por Alfio Caltabiano, reconhecido mestre de armas italiano que incrivelmente se safa bastante bem atrás das câmaras (Così sia, Mamma mia è arrivato così sia). Este foi o seu primeiro filme nestas funções e, pelo que conheço da sua obra, o seu momento mais inspirado. Numa filosofia quase do it yourself, Alfio Caltabiano escreveu, realizou e ainda saltou para dentro da tela, onde desempenhou o papel de El Bedoja - o implacável líder de um grupo de bandidos (senhor de uma singular técnica de manejo da Winchester), que não hesita sequer em matar cães e espancar lindas mulheres.


Obcecado pelo objectivo de assaltar o supostamente inexpugnável banco da cidade, El Bedoja une esforços com o irmão, Chiuchi (Mario Novelli), infiltrando um elemento do bando dentro do banco, assaltando-o de seguida. Logrando fugir com o dinheiro do cofre, consegue também ganhar duas sombras extra, que jamais sairão do seu encalço - Rocco e Blackie - interpretados respectivamente por Anthony Ghidra e Angelo Infanti. Ainda que inicialmente Rocco rejeite a oferta de sociedade feita por Blackie, os dois pistoleiros acabam eventualmente por unir esforços na perseguição dos bandidos. El Bedoja consegue no entanto baralhar todos os pressupostos mostrando ter planos bem mais individualistas, acabando por ultrajar os seus comparsas de crime. Abandonando o seu refúgio secreto com o dinheiro roubado, seu oleoso irmão e uma bela mexicana que entretanto haviam sequestrado.


Os vastos conhecimentos técnicos de armas de Caltabiano em muito beneficiam as performances dos protagonistas do filme, não me lembro de ter visto por aí muitas sequências de tiroteios tão bem executadas como algumas das que aqui se apresentam – memorável a cena em que Ghidra despacha dois bandidos com tiros desferidos por detrás das costas! De resto, diga-se que as constantes cenas de acção mesmo não atingindo a espectacularidade desse momento, jamais atingem um nível banal. Mas se ao nível da realização Alfio Caltabiano consegue introduzir alguns elementos de interesse, com uma boa fotografia, montagem e escolha de cenários, já não se pode dizer o mesmo do argumento que usa o mesmíssimo esquema de Da uomo a uomo e I giorni dell'ira (todos lançados em 1967), em que o protagonismo é dividido entre um jovem e impulsivo pistoleiro (Blackie, interpretado por Angelo Infanti), e um outro mais velho e calejado (Rocco, interpretado por Anthony Ghidra). Ainda que por momentos fiquemos com a ideia de que ambos os pistoleiros procuram apenas os dólares oferecidos pela recompensa do bando de El Bedoja, cedo se percebe que a Rocco pouco interessa a fortuna mas sim a sede de vingança por contas não saldadas com El Bedoja. Impossível não fazer por isso o paralelo com as personagens da obra-mestra Per qualche dollaro in più (1965), Col. Douglas Mortimer e Manco. Caltabiano parece propositadamente ter pegado na fórmula de Sergio Leone, dando-lhe o sentido de moralidade que o mestre desprezou, lembrando em diversos momentos o quão suja é aquela profissão.

Este filme que em Portugal foi exibido como “Balada para um pistoleiro”, não conhece ainda edição em DVD, mas está disponível com o mesmo título no mercado Brasileiro através da Ocean Pictures. Sem deixar de ser um filme rotineiro e sem interpretações extraordinárias, é um daqueles filmes que garante grandes momentos de diversão aqueles que lhe dedicarem o seu tempo. A mim fez-me lembrar porque sou viciado em westerns-spaghetti!

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Curiosidades western-spaghetti Vol.1



Eis algumas curiosidades sobre o fascinante universo dos westerns-spaghetti. A grande maioria desta informação foi retirada de três magníficas obras literárias que tenho a honra e o privilégio de ter. Aconselho estas autênticas enciclopédias a todos os fanáticos do género que não se importem de ler em inglês:

Sergio Leone: Something to do with death, de Christopher Frayling
Spaghetti Westerns: Cowboys and Europeans from Karl May to Sergio Leone, de Christopher Frayling.
10000 Ways to Die, de Alex Cox.

  • Antes de ser escolhido por Sergio Leone para o filme “Por mais alguns dólares”, Lee Van Cleef tinha-se retirado do cinema devido a um grave acidente de viação e dedicava-se exclusivamente à pintura.
  • Em 1971, numa entrevista em Paris, Sergio Corbucci afirmou: “Eu tenho algo em comum com Hawks, Ford, Hathaway, Sturges, Walsh, André de Toth e Lang: Somos todos cegos do olho direito!”
  • Sergio Leone disse: “Para mim, o primeiro grande criador de westerns foi Homero porque criou personagens egocêntricas e individualistas que resolvem a situação naquele momento, à semelhança de um pistoleiro.”
  • Ao contrário de Gian Maria Volonté, Tomas Milian defendia que a sua acção como actor não deveria interferir em questões políticas.
  • Após ver “Yojimbo”, de Akira Kurosawa, Clint Eastwood disse: “Seria uma boa ideia transformar este filme num western mas nunca ninguém terá coragem para o fazer!”
  • A rodagem de “Por um punhado de dólares” foi interrompida por vários dias devido a problemas financeiros e a conflitos entre Leone e os produtores Arrigo Colombo e Giorgio Papi (Jolly Films).
  • A camada de neve na cidade de Snow Hill em “O grande silêncio” era na realidade espuma de barbear.
  • Luís Beltran, duplo e responsável pelo casting em Espanha, foi duas vezes esfaqueado por ciganos que compareceram aos castings de “Por mais alguns dólares” e que não gostaram de ser rejeitados em detrimento de outros ciganos.
  • A região de Almeria foi escolhida para inúmeros westerns-spaghetti porque na altura era a região mais pobre de Espanha e muitas localidades nem sequer ainda tinham electricidade, o que seria perfeito para este tipo de filmes. Há quem defenda que essa pobreza persistia devido à geral simpatia da região pelos ideais republicanos durante a guerra civil e não pela política nacionalista de Francisco Franco, à época governante absoluto de Espanha.
  • Em 1969, Burt Kennedy falava sobre cinema com o mestre do western clássico americano John Ford. Eis o breve diálogo:
BK – Já viu algum daqueles westerns espanhóis e italianos?
JF – Estás a brincar?
BK – Não, esses filmes existem! E alguns até são bem conhecidos!
JF – E esses filmes, como são?
BK – Não têm história, nem grandes cenas… limitam-se a matar! Em cada filme morrem pelo menos 50 ou 60.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Quien sabe? (1966 / Realizador: Damiano Damiani)


Motivado pela interessante interacção que se desenvolveu com a publicação da resenha de Vamos a matar, compañeros (1970) no blogue irmão Dementia 13, decidi abordar agora o filme Quien sabe?, mais conhecido por aí como A bullet for the general. Quien Sabe? é um excelente filme de contornos políticos realizado em 1966 pelo reconhecido intelectual de esquerda italiano, Damiano Damiani. A acção do filme desenrola-se no epicentro da revolução mexicana, condição que haveria de servir como elemento diferenciador dentro do género, carregando este tipo de filmes o rótulo de Zapata westerns. Pois bem, neste campo este título merece especial destaque já que terá sido o pioneiro!

Numa tentativa de rentabilização do sucesso que Quien Sabe? alcançaria, muitos outros Zapata westerns seriam lançados pelas produtoras cinematográficas ítalo-espanholas, mas só Damiani conseguiu fazer á primeira tentativa o que muitos outros cineastas jamais lograram nas suas carreiras - conceber um filme de fortes convicções políticas e ao mesmo tempo uma poderosa obra de entretenimento. O realizador sempre refutou a ideia de que Quien Sabe? é um western-spaghetti, mas sim uma critica ás incursões americanas na América do Sul, nomeadamente através dos conhecidos esquemas ilegais da CIA. O facto de a acção decorrer num ambiente western seria portanto uma mera casualidade. Teimas à parte, para a maioria dos mortais, Quien Sabe? contém todos os elementos do género, sendo por isso logicamente metido no grande saco do western-spaghetti. E se nos restringirmos ao subgénero Zapata, arrisco-me mesmo a considerá-lo o melhor de todos!


O elenco aqui compilado é todo ele de grande qualidade, o papel principal (El Chuncho) foi muito bem entregue ao magnífico actor italiano Gian Maria Volontè, certamente o único actor italiano que nunca deixou créditos por mãos alheias no cinema spaghetti, participando apenas em filmes dirigidos por realizadores comprometidos com as suas ideologias de esquerda. Terá porventura por isso ter perdido a hipótese de enriquecer rapidamente, mas por outro lado conseguiu um registo imaculado, com presença em filmes que se poderão todos eles considerar de topo (Per un pugno di dollari, Per qualche dollaro in più, Faccia a faccia). A Lou Castel, que também teve uma curta mas interessante passagem pelo western-spaghetti (em que se destaca Requiescant), coube o papel de Bill “Niño” Tate, um gringo algo misterioso que transporta consigo uma bala de ouro e cujo único interesse parece ser o de enriquecer muito rapidamente. O terceiro nome do cartaz foi entregue ao arrepiante Klaus Kinski (Il grande silenzio, E Dio disse a Caino, Prega il morto e ammazza il vivo), um dos actores europeus que mais presenças teve neste tipo de cinema, e que pelas características físicas e tipo de interpretação demencial, tem um lugar especial nas minhas preferências. Kinsky desempenha aqui a personagem de Santo (meio-rmão de El Chuncho) um indivíduo cujas motivações religiosas não impediram o empunhar das armas em nome da libertação do povo mexicano.


Damiani precisou de quase duas horas para contar esta excelente história, que não terá sido por acaso co-escrita com outro conhecido esquerdista italiano, Franco Solinas (que chegou a ser nomeado para um Óscar). O inicio das hostilidades não poderia ser mais violento, com um brutal fuzilamento de um grupo de peones pelo exército do governo mexicano. É aqui que nos cruzamos pela primeira vez com Tate, o gringo americano de intenções pouco claras. Fazendo-se passar por prisioneiro, o americano junta-se aos supostos revolucionários após o assalto feito por estes ao comboio militar em que seguia. Comboio esse que o próprio Tate faz deter - sem que isso o impeça de limpar o sebo quer a um soldado quer a um bandido. A dualidade e falta de escrúpulos do personagem demarca-se em cada uma das suas acções, não obstante consegue cair nas graças de El Chuncho, o alegre homem do tambor e também líder do grupo de saqueadores revolucionários. Estes parecem no entanto importar-se muito pouco com os ideais revolucionários, estando mais interessados em roubar o máximo de armas aos soldados do exército para de seguida as vender à Revolução, encabeçada pelo General Elias. Este esquema interessa a Tate, cujo objectivo cedo se perceberá consistir em chegar suficientemente perto do General Elias, para assim lhe tirar a vida. Tate engendra assim uma série de assaltos a guarnições militares, que permitirá aos pseudo-revolucionários engrossar o seu stock e assim levá-lo ao quartel-general secreto do General Elias quanto antes…

Quien sabe?, que em Portugal foi lançado como "O mercenário” – por favor não confundir com Il Mercenario (1968) de Sergio Corbucci – teve honras de edição em formato DVD pela Prisvideo, fazendo parte da “Colecção western” da editora. Esta colecção foi lançada em caixas (mais ou menos) temáticas de duas unidades e peca apenas pela sua curta amplitude. Quien sabe? aparece incluído na designada “caixa spaghetti”, lado a lado com Il bianco, il giallo, il nero (1975), com o qual não vislumbro qualquer ponto de contacto. O conjunto vale sobretudo por este de que agora vos falo. O filme é apresentado em formato 16:9 com excelente qualidade de imagem e idioma original em italiano (curiosamente a informação do booklet indica o inglês). Vale a compra!


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