2017/01/17

Mille dollari sul nero (1966 / Realizador: Alberto Cardone)

A Itália, à semelhança dos seus vizinhos do sul da Europa, Portugal e Espanha, tem uma cultura de séculos e séculos ligada à religião. Roma, outrora o grande centro do mundo civilizado, também passou a ser a sede da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Ainda hoje a Bíblia é o livro mais vendido de sempre. Acontece que em 1966, em pleno “boom” do género cinematográfico western-spaghetti, os atores Gianni Garko e Anthony Steffen e o realizador Alberto Cardone são os líderes de um western claramente baseado num dos episódios mais famosos do Antigo Testamento: Abel e Caim. Para os mais distraídos eis um breve resumo: Abel e Caim são os dois filhos de Adão e Eva (o primeiro casal criado por Deus), que foram expulsos do Jardim do Éden por Deus. O grande chefe disse-lhes: “juizinho!”, mas o casal só queria ramboia e por isso foram postos na alheta!

O protagonista trata da saúde a dois vilões.

Agora que vivem na Terra têm de sofrer e têm de trabalhar. Abel é um gajo porreiro temente a Deus mas o seu maninho Caim é ruim como os cornos. Num ataque de fúria Caim assassinou Abel e Deus amaldiçoou-o. Matar um irmão é coisa séria. E é aqui que incide este western. Johnny cumpriu 12 anos no xadrez por homicídio e agora voltou a casa. Sempre alegou a sua inocência. O seu irmão Sartana é o fanfarrão que manda na cidade de Campos e arredores (e ainda por cima anda a papar a namorada de Johnny). Faz o que quer e ninguém chia!

Johnny Liston atura a sua ébria mãezinha!

A mãe de ambos é uma viúva que raramente sai de casa, vive uma vida amargurada e refugia-se na bebida para esquecer as suas agruras. Os dois irmãos adoram a mãe, respeitam-na, mas esta parece preferir Sartana. Johnny não esqueceu o martírio que passou durante 12 anos e quer descobrir quem é que o tramou. O vaidoso General Sartana, cujo quartel-general é um magnífico templo asteca, não acha que isso seja uma boa ideia. Um duelo mortal entre ambos é inevitável. Será que o irmão mau vai outra vez matar o bom, tal como nas Sagradas Escrituras? Ou a História, desta vez, não se vai repetir?

Excelente cena noturna dentro do forte asteca!

Nota final: o título do filme (Mil Dólares no Preto) é uma referência a um colar de diamantes no valor de 1000 dólares que Sartana oferece à sua mãe, que veste sempre de preto.

2017/01/03

Fora de tópico | "Adios Gringo" & "Blood on a Silver Dollar"


Juro que não recebemos comissão da Wild East, mas há que divulgar mais um dos seus recentes lançamentos. Este também já está nas lojas e é dedicado ao mítico Giuliano Gemma, contendo dois dos seus primeiros westerns, "Adios Gringo" e "Un dollaro bucato"

2016/12/30

Fora de tópico | "The Ugly Ones" & "Sonny and Jed"



Outra opção para gastarem os cobres que receberam no Natal, é esta nova double feature da Wild East. Nesta juntaram dois filmes protagonizados pelo nosso bem conhecido Tomas Milian. A encabeçar a edição temos "El precio de un hombre", o primeiro euro-western de Milian e um dos seus melhores, na modesta opinião deste escriba. A realização é do espanhol Eugenio Martín, e segundo apregoa a editora, esta versão tem um final diferente daquelas até agora editadas. O segundo filme do pacote é o apalhaçado "La banda J. & S. cronaca criminale del Far West", um dos westerns mais fracos de Sergio Corbucci.

2016/12/29

Fora de tópico | Lançamento "May God Forgive You... But I Want" & "Massacre At Grand Canyon"


Depois de muita especulação e promessas falhadas, "Chiedi perdono a Dio... non a me" chega finalmente à colecção spaghetti-western da Wild East. Este filme dá uma sequência solta q.b. ao bem mais conhecido "Cjamango" (aqui resenhado pelo Emanuel). Um bom filme que vale a pena conferir. Também no pacote, aparece "Massacro al Grande Canyon", o primeiro western realizado por Sergio Corbucci, que curiosamente não vê o seu nome creditado na ficha técnica. Já está à venda!

2016/12/22

Feliz Natal!


E a brincar, a brincar já estamos outra vez a chegar ao Natal. Época ideal para descansar os costados e conferir alguns westerns-spaghetti na companhia da família. Aproveitem e sejam pedinchões, pode ser que vos calhe um no sapatinho. Feliz Nata!

2016/12/06

Cipolla Colt (1975 / Realizador: Enzo G. Castellari)

Senhoras e senhores, damas e cavalheiros, preparem-se que isto vai dar molho! Enzo G. Castellari (realizador) e Franco Nero (ator) passaram-se completamente da mona! Só assim se explica a razão de terem feito este filme! Em 1975, os westerns-spaghetti violentos praticamente já não existiam e os westerns-spaghetti cómicos eram tão maus que até metiam dó! “Cipolla Colt” foi o primeiro western da parceria Castellari / Nero. Ambos sempre desvalorizaram este filme (claro, não são tolos!) alegando que era uma comédia dirigida às crianças e ao público mais jovem. O título deste filme em inglês é “Cry Onion”. É bastante adequado porque, de facto, isto dá realmente vontade de chorar! Em Portugal foi batizado de “O Cheiro Das Cebolas” mas até se podia chamar “A Revolta Das Cebolas”, “Bafo De Cebola” ou então “Excesso de Cebola Provoca Parvoíce Extrema” ou até mesmo “As Cebolas Fazem Bem à Saúde Mas Este Filme Não”!

Fazer cara de parvo é obrigatório neste filme!

Cebola Colt, um maltrapilho malcheiroso, viaja numa carroça carregada de cebolas. A carroça é puxada por Archibald, um cavalo muito esperto que tem um chapéu de palha na cabeça, que sabe assobiar e peida-se para afugentar os inimigos. Cebola Colt é um tipo que come cebolas como quem come maçãs. Manda um bafo que o pessoal até desmaia, espreme cebolas e bebe um nutritivo sumo de cebola tão forte capaz de derreter o copo! O tique que o homem tem no pescoço torna-o ainda mais esparvoado. Paradise City está repleta de torres e poços de petróleo. Ali, o ouro negro é rei e senhor. Os magnatas do petróleo, sediados em Austin, Texas, mandam a seu bel-prazer. Quem se atrever a levantar cabelo é pura e simplesmente eliminado. 

O sócio de quatro patas de Cebola Colt.

Foi o que aconteceu ao pai de dois miúdos que vivem no campo. Agora que são órfãos, vão receber a visita de Cebola Colt porque este acabou de comprar aqueles terrenos agrícolas. Cebola e as crianças vivem como querem: bebem vinho, fumam charutos, mantêm uma dieta equilibrada à base de cebola mas… os empresários do petróleo querem aquele terreno imediatamente. Dá-se então início a um conflito entre Cebola e o pessoal do petróleo, com o protagonista a demonstrar a sua perícia na arte de manejar as suas duas armas favoritas: a pistola e a cebola! Este distinto comedor de cebolas apaixona-se por uma mulher (e o seu amor é correspondido), com destaque para uma intensa conversa romântica entre ambos cujo tema é… as várias qualidades de cebola que há no mundo! Mas isto ainda não fica por aqui! 

Um parvalhão maneta.

O manda-chuva lá do sítio é um maneta que tem uma mão de chapa, o seu ajudante tem uma marrafinha e um bigode à Hitler, temos bicicletas e motas, trambolhões, chapadas (Cebola Colt transforma-se em Chapada Colt), perseguições em “fast-forward” ao estilo de Benny Hill e pontapés no cu à Charlie Chaplin. Guido e Maurizio de Angelis assinam o registo musical do filme e esta resenha chega ao fim porque já tenho lágrimas nos olhos com toda esta embrulhada!

2016/11/22

Dio li crea... io li ammazzo! (1968 / Realizador: Paolo Bianchini)

Nem o próprio Paolo Bianchini acreditaria que a sua primeira aventura no western-spaghetti fosse recordada quatro décadas depois do seu lançamento, mas aconteceu! Nesse longínquo ano de 1968, o artista fazia a transição da função de assistente para a cadeira de manda-chuva, ainda tinha por isso de aceitar projectos baratuchos como este. O argumento é de Fernando Di Leo, que se tornaria alguns anos depois num dos pesos pesados do policial italiano. Não sei se propositado ou não, Di Leo parece ter reciclado a história de "Sugar Colt", experimentada com sucesso dois anos antes pela mão do nosso bem-amado, Franco Giraldi. Pode até ser embirração aqui do alentejano mas a personagem principal parece sacada a papel químico. Ora vejamos, um pistoleiro a soldo com pinta de galã, investiga um caso mal explicado. No primeiro seria o desaparecimento de um regimento de soldados, aqui trocou-se o «capital humano» por um factor mais comum ao universo western: assaltos a carregamentos de ouro!

Deus cria-os, Dean Read mata-os! E ainda arranja tempo para nos cantar o tema "God Creates Them, I Kill Them".

Mas a categoria do supracitado, "Sugar Colt", é francamente superior. Giraldi como profundo conhecedor das manhas do género, soube bem como transformar uma ideia estapafúrdia num mini-clássico. Ainda assim, não descartem já este intento. "Dio li crea... io li ammazzo!" é um daqueles westerns em que há mais conversa do que propriamente tiroteio e porrada, coisa que demoverá alguns, porém interessa também exaltar as coisas boas, como é o caso do trabalho de fotografia de Sergio D'Offizi, francamente acima da média.

Dean Reed suposto espião na vida real, interpreta ele próprio uma espécie de 007 do western-spaghetti.

O papel principal do filme foi entregue a Dean Reed, que a rapaziada mais velha reconhecerá também de outras andanças. Reed iniciara anos antes da sua chegada a Itália, uma carreira enquanto cantor. Algo que lhe valeu fama em alguns países, nalguns terá mesmo atingido um reconhecimento popular superior ao do próprio Elvis Presley, imaginem só! As suas ideologias politicas valeriam-lhe a apropriada alcunha de Red Elvis. Bianchini relembra em entrevista incluída na "Koch Media - Italowestern Enzyklopädie No.2", as fortes convicções comunistas de Reed, que ao que as más línguas dizem, ter-se-à tornado espião e silenciado por tais actos. Os mais paranóicos acreditam que o seu suicídio foi mais um daqueles embustes que nos habituámos a ver nos filmes de espionagem da guerra-fria. Existe um documentário interessante sobre a vida do actor (Der rote Elvis), em que tudo isto se aborda mas francamente pareceu-me inconclusivo.

Pietro Martellanza é Don Luis del la Vega, um vilão à medida do nosso herói.

Fora de conspirações, o que a nós nos interessa é a habilidade do americano no manejo do revolver e afins. E amigos, nas cenas de acção a cavalo, o americano não falha. Pode até parecer irrelevante mas são estes pormenores que permitem que o realizador use planos mais elaborados e não aquelas filmagens manhosas a um quilómetro de distância, para esconder as fuças de um duplo qualquer.

Parece que alguém vai levar chumbo quente no bucho!

O tal DVD da Koch Media é excelente, o filme apresenta-se com uma imagem cristalina e com opções áudio para todos os gostos (inglês, italiano, alemão) e ainda a dita entrevista com o realizador, documentários, galerias e trailers. A edição aparece em formato pacote e contém ainda os filmes: "California", "Dio non paga il sabato", e "Campa carogna... la taglia cresce". Valeu os malvados euros!


Mais propaganda da barbarolândia:



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