Sergio Corbucci é um cineasta com extenso currículo e trabalhou em quase todos os ramos do cinema (peplum, comédia, drama, terror, western). Normalmente fazia vários filmes num só ano e talvez isso tenha prejudicado a sua reputação porque muitos desses projectos não ultrapassavam a mediocridade. A meu ver, Corbucci é um cineasta irregular, quase bipolar! Só assim se explica o facto de fazer westerns fracos e logo a seguir saca algo genial como “Django”. Dois anos após esse grande sucesso, e com alguns falhanços pelo meio, surge como o inventor de “O grande silêncio”, outro ponto alto da sua carreira.

Eis o silencioso protagonista!
Apesar dos muitos defeitos, Corbucci é para mim o realizador de westerns-spaghetti mais corajoso (e mais louco) de sempre. Atreveu-se a fazer tudo aquilo que todos os outros tinham receio de experimentar! Com ele não há meias medidas nem presta qualquer tipo de homenagem a ninguém! Explora o subgénero para lá dos limites e deu-se muito bem! Provavelmente só Giulio Questi está na mesma linha com o incrível e brutal “Se sei vivo, spara!”

Pauline sofre!
Este filme triunfa porque é em tudo diferente do que as pessoas já estavam habituadas no subgénero. As paisagens áridas são substituídas por um quadro branco gélido e desolador. E é aí que surge “Silêncio”, um pistoleiro mudo (não de nascença) que será um dos vértices de um triângulo problemático composto por “Pauline” e “Tigrero”. Aqui não há alegria, risos, luz ou calor. Todo o filme é pessimismo, é violência, é frio porque, ao contrário do que queriam fazer passar nos westerns clássicos americanos do cinema e da televisão, o oeste selvagem era mesmo selvagem! E a selvajaria no ser humano resulta sempre no mesmo: Matar para sobreviver!

Neve! Muita neve!!
Ao longo dos tempos criou-se uma imagem idealizada do herói imune às balas e à tentação carnal em forma de mulher! Pois bem, até nisso “O grande silêncio” é diferente. O protagonista envolve-se sexualmente com a sua amante numa sensual cena de amor, apoiada pela sempre brilhante música de Ennio Morricone.

Cicatrizes assustadoras!
Haveria muito mais a dizer mas prefiro guardar surpresa para quem ainda nunca viu o filme. Levanto somente a ponta do véu: o final é de tal forma chocante e violento que Corbucci foi obrigado a filmar um final alternativo para poder ser distribuído noutros países mais conservadores. Felizmente, hoje em dia a versão original mantém-se em quase todos os DVD disponíveis para venda (o ridículo final alternativo faz parte dos extras de algumas edições DVD).

Tigrero, um vilão imbatível.
O filme conta com nomes consagrados como o francês Jean-Louis Trintignant, o alemão Klaus Kinski, o italiano Luigi Pistilli e os americanos Frank Wolff e Vonetta McGee. Boas sequências de tiroteio, drama, muita violência e morte são os ingredientes desta obra-prima do western italiano e de Sergio Corbucci, que entre 1966 e 1968 tirou da cartola dois filmes geniais que vão figurar para sempre na galeria dos mais notáveis! Para terminar, uma breve observação: “Homens duros” como John Ford, John Wayne, Howard Hawks e Anthony Mann ficariam arrepiados com este filme, se tivessem coragem para o ver!