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13/04/2020

A influência do western americano no western-spaghetti

Artigo gentilmente cedido pelo companheiro António Furtado da Rosa, grande entusiasta do western-spaghetti e também ele blogger ocasional via http://westerneuropeu.blogspot.com/

Não é segredo para ninguém que Sergio Leone era um ávido consumidor de western americano na sua meninice, principalmente de John Ford o qual homenageou no filme “Aconteceu no Oeste” filmando em Monument Valley. Mas o Western Spaghetti libertou-se da influência do western americano que apresentava um oeste romântico e épico no qual os heróis eram puros defensores da justiça e de donzelas em perigo, principalmente até ao final dos anos 1940, com algumas exceções. 

Mas o próprio western americano também se modificou e o herói do próprio género começou a tornar-se mais complexo e, por vezes, anti-herói, e o western tornou-se adulto com realizadores como Anthony Mann, Delmer Daves ou Raoul Walsh, cujos heróis deixaram de ser puros defensores da justiça para se tornarem heróis complexos com passados obscuros e intenções, por vezes, pouco nobres. Claro que quase sempre acabavam por encontrar a redenção, mas estes heróis complexos foram, sem dúvida, precursores do anti-herói do Western Spaghetti. 

Personagens como Ethan Edwards (John Wayne) em “A Desaparecida” de John Ford, Howard Kemp (James Stewart) em “Esporas de Aço” de Anthony Mann ou Glyn McLyntock (James Stewart) em “Jornada de Heróis” de Anthony Mann, são apenas alguns exemplos deste novo herói mais adulto do western americano.

Além dos filmes mencionados acima, eis, na minha opinião alguns westerns americanos que influenciaram o western Spaghetti:

Vera Cruz (1954 / Robert Aldrich) 


Os heróis são mercenários cujo único objetivo é ganhar dinheiro e nada mais e onde abunda o cinismo e a violência. Curiosa o antagonismo entre o herói sulista e ainda com valores, Gary Cooper, e o anti-herói sem escrúpulos, Burt Lancaster.

Os 7 Magníficos (1960 / John Sturges)


Este filme tem uma larga influência no western Spaghetti desde a violência até ao argumento que influenciou alguns westerns europeus como “A Vingança de Bill Kiowa” com Montgomery Ford, “Os cinco Bandoleiros” com Peter Graves e Bud Spencer ou “Uma razão Para Viver Outra Para Morrer” com James Coburn e Bud Spencer. Por coincidência, duas sequelas, “O Regresso dos 7 Magníficos” e “Colts para os 7 Magníficos” foram filmadas em Espanha.

O Homem do Oeste (1958 / Anthony Mann)


Sobretudo a violência e um herói com um passado obscuro que já tinha atingido a redenção e que tem de voltar ao passado para ganhar o futuro. O duelo na cidade abandonada é um mimo e muitas vezes visto no western spaghetti.

Núpcias Trágicas (1947 / Raoul Walsh) 


Considerado por muitos o primeiro western “adulto”, na minha opinião é “A Cavalgada de Heroica” de John Ford, e também o primeiro western noir, ficou conhecido entre os amantes do western spaghetti por ter um mistério parecido ao de “Tempo de Massacre” de Lucio Fulci com Franco Nero e George Hilton, e por grandes planos dos rostos doa atores para mostrar intensidade emocional como nos filmes de Leone e no “Cemitério sem Cruzes” de Robert Hossein.

Há outros filmes e outros realizadores americanos com influência no Western Spaghetti, talvez só numa cena, mas poucos como estes que são referidos neste pequeno texto, mas creio que nenhum filme terá influenciado mais Leone, Corbucci, Sollima ou Baldi, como “Vera Cruz” e “Os 7 Magníficos”. Está lá tudo, o cenário, os personagens dúbios, a ação, o cinismo e a violência.

21/06/2019

Nato per uccidere (1967 / Realizador: Antonio Mollica)


Artigo gentilmente cedido pelo companheiro António Furtado da Rosa, grande entusiasta do western-spaghetti e também ele blogger ocasional via http://westerneuropeu.blogspot.com/ 

Resumindo este filme, vemos Gordon Mitchell como Roose, um jogador de cartas lacónico e rápido no gatilho sempre pronto a ganhar uns dólares a mais, mas cujo destino leva-o a uma pequena vila onde os pequenos rancheiros são subjugados e aterrorizados pela ambição desmedida de um grande proprietário, Tyson (Tom Felleghy), apoiado por Dudgett (Aldo Berti) e o seu bando. Quando este filme me chegou às mãos, confesso, torci o nariz. Pareceu-me mais um western obscuro de qualidade duvidosa e, ainda por cima, não era grande admirador do Gordon Mitchell dos westerns spaghettis, principalmente nas extravagâncias com aquele charme muito próprio de  Demofilo Fidani onde passava os filmes a gritar num tom interpretativo exagerado a raiar a fronteira do cabotinismo, embora, a verdade seja dita, admirava bastante o Gordon Mitchell do peplum em filmes como “Maciste Contra o ciclope”, “A Ira de Aquiles”, “7 contra o Mundo” ou “A vingança de Spartacus”. Depois de algum tempo na prateleira vi o filme, e em boa hora o fiz.

Cuidado Berti, a estrela sou eu!

Roose, à primeira vista, parece ser um típico anti-herói do género que já vimos em muitos filmes, mas não, Mitchell retrata um pistoleiro infalível que não se sente satisfeito por sê-lo e vemos isso logo no início do filme, numa caracterização de personagem brilhante, quando enquanto se vestia no quarto do hotel antes de enfrentar três homens em duelo, apanha um mosca e em vez de a matar, abre a janela e liberta-a dizendo: “Vive em paz, tu que podes.” A paz que ele não tem, a paz que quem vive com uma arma na mão não tem. Não é movido por qualquer paixão ou por um desejo de vingança nem é um justiceiro movido por qualquer responsabilidade social e não tenciona, de maneira nenhuma, mudar o mundo, Roose procura um futuro em paz, mesmo que para isso se tenha de tornar um herói e fazer aquilo para o qual nasceu, matar.

Mitchell chega e mata!

“Nascido para Matar” é um filme de orçamento exíguo e uma pequena pérola do género que merece ser descoberto e é um exemplo seguro de que os meios nem sempre justificam os fins, porque com poucos meios, Antonio Mollica (Tony Mulligan), de quem se conhece a realização de apenas três filmes (“20 Passos Para a Morte” com Dean Reed e o interessante filme de piratas “O Regresso do Pirata Negro” com Robert Woods)  conseguiu levar este filme a um bom fim com uma realização segura e sem invenções, criando um filme que foi feito sem mais nenhuma intenção se não para entreter com cenas de ação muito bem coordenadas e com o mimo de nos podermos deliciar com a bela música de Felice Di Stefano muita acima da média do género e do próprio maestro que compôs as partituras de filmes como “Cjamango, o Vingador”, “Não matar” ou “Pede Perdão a Deus”. 

Em 1967 o género ainda não estava de rastos.

Como nota final, gostaria de ter visto Gordon Mitchell muitas vezes mais neste registo de pistoleiro implacável e lacónico, sem histrionismos, criando mais personagens nascidas para nos surpreender. Recomendo esta pérola algo obscura, mas cativante.