24/09/2026

RIP Richard Harrison


Richard Harrison morreu aos 90 anos, em Los Angeles, depois de uma carreira que dificilmente poderia ser mais representativa do cinema popular europeu da segunda metade do século XX. Americano de Salt Lake City, chegou a Hollywood ainda muito jovem, mas foi em Itália que encontrou o seu verdadeiro território. Primeiro nos peplums, onde o seu físico lhe abriu as portas das arenas da Cinecittà, depois nos westerns, nos filmes de espionagem, no cinema de aventuras e, já mais tarde, na delirante façanha pelos filmes de ninjas de Hong Kong. 

Mas é ao western-spaghetti que queremos regressar. Porque Richard Harrison foi um desses actores que ajudaram a povoar o Oeste imaginário que durante cerca de quinze anos se construiu entre Roma e Almería. Não teve a aura de um Lee Van Cleef, a expressividade de um Gian Maria Volonté ou o estatuto alcançado por Franco Nero. A sua força era outra: o físico, a presença, o rosto de estrangeiro transplantado para aquele universo de pistoleiros, saloons, vinganças e desertos. Era um americano a fazer de americano num cinema que adorava importar actores estrangeiros. 

Richard Harrison pertence à história de um cinema que não se fez apenas de obras-primas. Fez-se sobretudo de filmes baratuchos, produções apressadas, argumentos reciclados, realizadores obscuros e actores que, semana após semana, entravam num cenário de Almería para fazer carantonha taciturna e pegar no colt.

Quando o western europeu começou a perder gás, também ele começou a envelhecer juntamente com o género. Em “Apache Branco”, de 1986, já não é ele quem carrega a artilharia, havendo uma passagem de testemunho ao filho, Sebastian Harrison. Era quase uma metáfora involuntária para aquilo que acontecera ao próprio western-spaghetti. O tempo passara. Os actores tinham envelhecido. O público tinha mudado. O género que Harrison ajudara a alimentar já pertencia ao passado.

Não precisamos de fingir que todas as aparições de Richard Harrison foram em grandes filmes. Não precisamos sequer de fingir que ele era um actor genial. O cinema não é feito apenas de génios. É feito também daqueles homens que aparecem no cartaz, montam a cavalo, entram no saloon, sacam da pistola e nos acompanham durante hora e meia antes de desaparecerem para sempre.

Foi gladiador, aventureiro, agente secreto e pistoleiro. Trabalhou com cineastas como Antonio Margheriti e Godfrey Ho. E atravessou uma quantidade impressionante de géneros. E há ainda aquela pequena ironia que a história do cinema nunca deixará esquecer: quando Sergio Leone procurava o protagonista de “Por Um Punhado de Dólares”, Harrison esteve entre os actores considerados para o papel, mas recusou e terá referenciado Clint Eastwood. O resto é história.

Que a última viagem seja tranquila, pistoleiro!

RIP

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