2014/06/25

Morreu Eli Wallach


"Parece que tenho uma vida dupla", disse em tempos Eli Wallach. "No teatro, sou o homenzinho, ou o homem irritado, ou o homem incompreendido. No cinema, passo a vida a ser escolhido para os papéis de mau." Não é por isso surpresa que Wallach, falecido esta terça-feira aos 98 anos de idade, seja mais recordado pelos vilões que interpretou em dois dos filmes mais icónicos da década de 1960: Os Sete Magníficos (1960), versão western dos Sete Samurais de Akira Kurosawa dirigida por John Sturges, e O Bom, o Mau e o Vilão (1966), terceiro filme da trilogia de westerns-spaghetti de Sergio Leone. Mas é um destino, no mínimo, irónico para aquele que era um dos últimos nomes ainda vivos da “primeira fornada” formada na lendária escola de representação nova-iorquina do Actors Studio, que revolucionou o cinema e o teatro americanos no período do pós-II Guerra Mundial. Era no teatro que o actor nova-iorquino, nascido no bairro de Brooklyn em 1915 e filho único de emigrantes judeus polacos, se sentia mais à vontade. Embora tenha continuado a filmar quase até ao fim da sua vida - os seus últimos trabalhos de nota foram O Escritor Fantasma de Roman Polanski e Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme de Oliver Stone, em 2010 - foi no teatro, do qual se retirou de vez em 1997, que construiu a sua carreira. Trabalhou repetidamente com a sua mulher, a também actriz Anne Jackson, que conheceu nos palcos em 1946 e com quem casou dois anos depois. Entre os muitos autores que Wallach representou contam-se Tennessee Williams (vencendo o Tony por uma produção de A Rosa Tatuada em 1951), Jean Anouilh, Eugène Ionesco ou Tom Stoppard.

O “camaleão por excelência” Wallach foi um dos primeiros alunos da escola de representação do Actors Studio, fundado em 1947 e gerido a partir de 1951 por Lee Strasberg. Os seus colegas de curso chamavam-se Marlon Brando, Montgomery Clift e Sidney Lumet. E estreou-se no cinema precisamente sob o signo do teatro: foi em Baby Doll (1956), adaptação de Tennessee Williams sob o comando de Elia Kazan, ele próprio um dos fundadores da escola. Entre as quase duas centenas de filmes e produções televisivas em que entrou, muitos lembrar-se-ão particularmente de Os Inadaptados (1961), realizado por John Huston e escrito pelo dramaturgo Arthur Miller, com Clark Gable, Marilyn Monroe e Montgomery Clift nos papéis principais. A cena em que Wallach dança com Marilyn, de quem era amigo de longa data e que teria aqui a sua última interpretação em vida, ficou célebre. Wallach participou também em inúmeras séries televisivas – como Cidade Nua, Batman, onde interpretou (lá está...) o vilão Mr. Freeze, ou mais recentemente Nurse Jackie - e no último filme da trilogia O Padrinho de Francis Ford Coppola (1990).

Eli Wallach nunca foi nomeado para um Óscar, mas a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood reconheceu a sua carreira no final de 2010, entregando-lhe o Óscar honorário pela “desenvoltura inata com que interpretou uma variedade de personagens, ao mesmo tempo que deixou uma marca inimitável em cada papel”. Chamou-lhe então “um camaleão por excelência”. O “camaleão por excelência” era algo que vinha da sua extensa experiência teatral - e Wallach nunca escondeu que, para um actor de composição como ele, "o cinema era apenas um meio para chegar a um fim", como disse numa entrevista de 1973 citada pelo New York Times. "Vou montar a cavalo para Espanha durante dez semanas e regresso com uma almofada financeira suficiente para poder montar uma peça." Mas a verdade é que, se Wallach e Anne Jackson se tornaram no “primeiro casal” do teatro americano nas décadas de 1960 e 1970, foram mesmo os papéis de vilão que fizeram o nome do actor no grande écrã. Faltou-lhe “aquele” papel que o atirasse para uma carreira de primeira grandeza – mas a verdade é que o actor também nunca o terá querido. Como o comprova um daqueles fait-divers que muitas vezes definem uma personalidade: primeira escolha do realizador Fred Zinnemann para um papel secundário em Até à Eternidade (1953), Eli Wallach optou antes por aceitar o convite para uma nova peça de Tennessee Williams encenada por Elia Kazan, Camino Real. Em seu lugar ficou Frank Sinatra, que ganhou o Óscar de melhor actor secundário.

In Público

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