2012/11/06

Le goût de la violence (1961 / Realizador: Robert Hossein)

Devo começar por dizer que “Le goût de la violence” é uma pequena jóia de filme, daqueles que se vem inúmeras vezes sem cansar. Quem me conhece, provavelmente, sabe que trata de um tipo de filme com o qual eu me identificaria de imediato. Eu sei que é um sentimento egoísta, mas parece Hossein fez o filme para o meu gosto pessoal.
Escrito por Hossein, a historia tem a pura simplicidade de grandeza, é uma história de amor, um drama trágico, uma afirmação de índole política, tudo isso junto num maravilhoso estudo em comportamento e condição humana com cada personagem retratando um papel específico que mostra os sentimentos mais importantes que no final de contas são aquilo que nos somos... Seres humanos, o amor, o ódio, a coragem, cobiça, tristeza, etc. O papel que a irmã de Perez representa é um exemplo do descrito anteriormente, como ela tenta convencer o irmão a desistir, e como ela acabou sendo morta pelas mãos dos inimigos de seu irmão, que apenas queria paz, mas vêem nela um inimigo, e não há misericórdia para meus inimigos, puro spaghetti-western vintage ainda antes de Leone.


A história decorre num lugar não especificado da América Central, eu arriscaria dizer no sul do México ou outro, mas isso não é importante. Hossein no entanto faz uma referência directa a Zapata, perto do final do filme. Nessa cena, vemos uma fila de homens enforcados, perto de uma igreja, Perez murmura perante um desses homens sem vida - "Emiliano" - no que parece ser uma referência específica a Emiliano Zapata. É de conhecimento comum que Zapata e Villa foram ambos aliados durante a Guerra da Independência do México, mas enquanto Villa (também com sangue índio), representava os pequenos senhorios ou tierratenientes do Norte do México, e tinha reivindicações politicamente mais convencionais, quase corporativas ou de classes, Zapata representou e lutou pelos povos nativos do sul do México (Chiapas). A sua luta era a luta pela terra contra os latifundiários ricos da região e, claro, pela autodeterminação dos povos nativos. Ele foi de facto traído por alguém infiltrado entre os seus homens de confiança. Foi capturado com a ajuda de um traidor, de um Judas, e foi de facto enforcado.

É uma afirmação ousada, mas atrevo-me a dizer que o filme foi uma grande influência no trabalho posterior de Leone. Em Perez consigo distinguir algo de Bronson na sua lendária personagem do homem da harmónica, até mesmo um Coburn de “Giù la testa”, na sua indiferença de quem vive apenas porque já viveu. Tal como Leone, Kurosawa foi uma grande influência para Hossein, recuperando o mesmo estilo do mestre nipónico. A solenidade sempre presente nas obras de Kurosawa, também é visível aqui, sendo óbvio que “Cimitero senza croci” não aconteceu por acaso. Existem várias cenas impressionantes, do mais puro cinema como forma de arte e não apenas de entretenimento, inesquecível a cena em que é dito a uma mãe que seu filho está morto. Outro exemplo de uma cena fortíssima é aquela em que os aldeões perseguem os fugitivos no campo de milho, e estes têm que atear fogo ao milho para poderem escapar; esta cena diz mais sobre o que realmente são as revoluções e sobre o que realmente importa, do que tantas obras intelectuais com as suas mensagens sem sentido. Que importa se o povo fique sem pão? A luta pela liberdade tem o seu preço e há que pagá-lo.


Sinceramente não vejo quaisquer elementos de Nouvelle Vague no filme, algo que se poderia esperar de um filme Francês de 1961. Podem haver alguns traços que lembrem Clouzot, sim, mas o estilo direcional é bastante singular. Podem alguns ver o filme como uma mensagem de contraponto sobre a situação política da França na época, com os problemas antes na Indochina e que ocorriam na altura na Argélia, mas para ser honesto, não me parece ser essa a intenção Hossein. A fotografia é magistral, a câmara não se move mais do que o necessário, e o preto e branco é filmado em toda a sua glória. A banda sonora feita por Hossein sénior é simplesmente linda de ouvir. Cada cena é feita com um acumular de tensão e de contenção em simultâneo que é tão raro ver estes dias, cinema é acima de tudo sobre sentimentos como Fuller disse uma vez. As paisagens balcânicas da região do Montenegro, são perfeitas para negritude e dureza do filme.

Por muito tempo pensei que Hossein era apenas o actor dos filmes da série «Angelique» ou dos thrillers policiais franceses, ou que Adorf fosse apenas interveniente em alguns filmes estranhos com origem na Alemanha, isto depois de assistir ao “The Tin Drum” numa sessão nocturna de TV. Graças a Deus pela Internet para me mostrar o quadro geral. Ambos os actores são perfeitos nos seus papéis, sem exagero, sem nada, mesmo o desconhecido que interpretou Chico foi excelente em sua ingenuidade, e Giovana Ralli estava linda como sempre em preto e branco, retratando alguém por quem qualquer homem poderia se apaixonar com muita facilidade. Hossein é o melhor ator que eu conheço atuando sempre com a mesma expressão, mas para ele funciona, realmente acho que ele é um bom ator, o que é não deixa de ser estranho, se pensarmos sobre o que são qualidades de um actor, que por norma se baseiam na diversidade.


Uma pequena obra-prima, que, para minha vergonha, só tive oportunidade de assistir agora. Terei que prestar mais atenção a todos os filmes dirigidos Hossein. O filme mostra da forma mais bela e poética o verdadeiro significado da condição humana, sem filosofias bacocas, sem agendas ocultas, ruido panfletário, apenas a pureza comum da natureza humana, isto em menos de 90m. Minha cena favorita? Bem, talvez aquela com o homem e mulher na praia, juntos unidos para sempre, antes de receberem a notícia que irá separá-los, mas todo o filme é genial. Concordo que não é um western-spaghetti, nem mesmo um European Western, mas as raízes western-spaghetti estão aqui com tudo o que é mais belo no nosso adorado subgénero cinematográfico. 


Artigo gentilmente cedido por Vitor Louçã e que originalmente foi publicado em inglês no sitio The Spaghetti Western Database (www.spaghetti-western.net).


Lobbys francófonos:

7 comentários:

  1. Este filme ainda é desconhecido para mim. Acredito que seja uma obra interessante porque Robert Hossein parece ser uma pessoa competente no seu trabalho de realizador. Pelo menos provou isso quando fez CIMITERO SENZA CROCI.

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  2. já andava de olho neste filme há algum tempo. Obrigado, Pedro.

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    1. Temos que agradecer ao Vitor "El Topo" Louçã, que disponibilizou o seu texto para publicação no nosso cantinho.

      Quem conhece o Vitor sabe bem que não há por aí muita gente que tenha assistido a tantos filmes obscuros como ele. O parecer que ele dá sobre este filme é muito favorável, que por certo fará que o filme seja visto por mais alguns curiosos.

      Sei que existe por aí um DVD francês mas eu tenho apenas um vhsrip que encontrei faz algum tempo na internet. Posso partilhar com quem esteja interessado, basta que entrem em contacto via mail.

      --
      Pedro Pereira

      http://por-um-punhado-de-euros.blogspot.com
      http://destilo-odio.tumblr.com/

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  3. Um excelente texto do Vítor, que me deixou curioso quanto ao filme, até porque gostei muito do "Cimitero Senza Croci". Vou procurá-lo, sem dúvida. Obrigado pelo "alerta".

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    1. Eu também posso dar o meu parecer positivo. Gostei muito da velocidade lenta em que a acção decorre e quase tive pena que acabasse. Aí acho que peca, precisava mais uns 15 minutos. Outra coisa que gostei particularmente foi o pouco preenchimento musical só aqui e ali salpicado por uma melodia contagiosa qb... "poderoso senhor..."

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  4. Sí es una reseña muy interesante. Yo tampoco la he visto y le tengo ganas. ¡Además sale Mario Adorf!

    Tiene muy buena pinta. Hossein me gusta como actor y también veo que tiene muchas ganas y amor por el cine. Eso se nota.

    ¡La buscaré!

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