01/06/2020

Onze anos de "Por um punhado de euros"


Contra todas as expectativas este espaço atingiu o seu décimo primeiro aniversário, sim leram bem. Foram onze anos em que desafiando a razão e por pura teimosia apostámos em dedicar um espaço na blogosfera a filmes esquecidos, alguns deles completamente vagabundos e à excepção daqueles realizados por Sergio Leone, sempre mal tratados pelos cinéfilos mais iluminados da nossa praça.  Mas fazemo-lo por gosto e daí ainda cá estarmos passado tanto tempo.

Nem sempre foi fácil, admita-se. No ano passado por motivos pessoais e profissionais não foi possível manter a cadência habitual de publicações. Mas porque isto é uma equipa e não um “one man show” ficámos à tona graças ao empenho do meu camarada de armas e amigo desde os tempos de liceu, Emanuel Neto. Ele sim, sempre certinho na publicação de material com o humor que o caracteriza.

Pelo meio do caminho tivemos a chegada da pandemia Covid-19 e com ela a imposição de passarmos todos mais tempo em casa. Já diz o povo, há males que vêm por bem, com isso foi também possível aliviar algum do stress profissional e pessoal. Com esta disponibilidade extraordinária, aproveitámos para dar uma lavadela à cara do blogue e simultaneamente rever alguns artigos que há muito tinham perdido a ligação para as imagens ilustrativas originais. Interessa dizer que a resolução deste problema foi uma critica que recebemos diversas vezes na nossa caixa de mensagens e que como bons ouvintes, tentámos resolver.

Durante estes anos de vida do blogue vimos blogues irmãos começar e definhar, muitos deles migraram para outros formatos, Facebook sobretudo. Casmurramente decidimos há muito que o espaço se manteria na blogosfera ou em mais lado nenhum. E assim pretendemos continuar por muitos mais anos porque ainda temos centos de filmes para falar. Assim haja forças para dar conta do recado. 

E para vos oferecer como prenda de aniversário, decidimos pedir uma mãozinha a uma série de amigos da lusofonia que sempre gravitaram à volta do blogue (teriam sido mais convidados não tivesse a ideia ter surgido tão perto da data do aniversário). A cada um deles pedimos que alinhassem os seus westerns-spaghetti favoritos. Com base em todas as participações publicaremos em breve o top oficial do POR UM PUNHADO DE EUROS, algo que não revíamos desde 2012. Estava mais do que na hora! 

Obrigado a todos os que continuam por aí e tenham cuidadinho com o corona. Saúde!

18/05/2020

Ed ora... raccomanda l'anima a Dio! (1968 / Realizador: Demofilo Fidani)

Ora então vamos lá a isto, só por causa das tosses! 

Este filme tem Jeff Cameron, Fabio Testi, Ettore Manni, Cristina Penz e Dennis Colt? Sim. 

Este filme tem cenas recicladas de outros westerns? Sim. 

Este filme é uma produção de baixíssimo orçamento e meios limitadíssimos? Sim. 

Este filme tem inúmeras cavalgadas, única e exclusivamente para ter mais minutos de projeção? Sim. 

Este filme tem várias cenas de sopapada no saloon, as habituais garrafas a voar, espelhos partidos, mesas e cadeiras feitas em cacos? Sim. 

Então este filme é obviamente realizado pelo grande Demofilo Fidani? Sim. 

Misteriosos pistoleiros ameaçam uma família.

Há alguma coisa fora do normal neste western “Fidaniano”? Sim, há. 

E o quê, concretamente? A presença do ator Mohammad Ali Fardin, ou apenas Fardin, para os amigos. Saiu do anonimato através do desporto (luta-livre), venceu a medalha de prata em Tóquio em 1954 e foi um carismático ator nos anos 1960 no Médio Oriente. Tinha nacionalidade iraniana e este “Ed Ora… Raccomanda L’anima a Dio” é conhecido no Irão como “Mardaneh Bekosh”. 

Vais levar tantas nesses cornos!!

Em 1968, quando este filme foi produzido, quem mandava no Irão era o Xá. A Revolução Islâmica aconteceu em 1979, o Xá bazou para o Egito e o Ayatollah Khomeini tomou o poder. O país passou a chamar-se República Islâmica do Irão, os fanáticos religiosos passaram a mandar em tudo e, claro, deram cabo daquela merda toda! 

Fardin extremamente irritado!

Fardin assistiu a tudo isto. Faleceu no dia 6 de abril de 2000 aos 70 anos de idade em Teerão. 

04/05/2020

Il giustiziere di Dio (1973 / Realizador: Franco Lattanzi)

Chegou a hora de encarar os westerns-spaghetti de Franco Lattanzi, realizador de quem não reza a história. Comecei a tarefa por este “Il giustiziere di Dio”, que julgo não ter tido exibição por cá sequer. A premissa do filme até parecia simpática, afinal de contas toda a gente gosta da ideia de ter um padre com passado obscuro a desancar a patifaria. Ainda há dias assisti ao novo filme do Jess V. Johnson, “The Mercenary”, também ele uma produção de baixo orçamento que segue esse tipo de narrativa com resultados satisfatórios, mas não é o caso deste "Il giustiziere di Dio". O elenco principal é bastante decente (Willian Berger, Donald O'Brien, George Wang) mas a narrativa demasiado complexa misturada com diálogos/interpretações dignas de miúdos da quarta-classe arruínam completamente o resultado, tornando-o quanto muito, numa comédia involuntária.

Todo o bandido tem um anjo da guarda?

O gangue dos «três ases» cavalgam adentro da cidade de Abilene onde interrompem a execução de um dos seus compinchas, no entanto um cidadão de bem mais zeloso resolve espetar-lhe uma bala no bucho. Enquanto definha o quase-finado ainda sussurra a localização de um esconderijo repleto de lingotes de ouro. O ouro está escondido numa missão que o gangue manda pelos ares, a fim de deitar-lhe a mão. Promete acção mas na realidade é tudo filmado de longe ou sugerido, acção e emoção, nem vê-la.

O gangue mais ridículo que possam imaginar.

O gangue é no mínimo pitoresco, com três líderes mascarados com lenços amarelos pintados com símbolos do baralho de cartas. O método parece refinado, só fazem assaltos em cidades que não aquelas em que residem e usam os lenços com o propósito de manter a sua identidade incógnita, porque afinal são cidadãos respeitáveis. Tudo muito certo, não fossem os restantes acólitos completamente descaracterizados para a balburdia e no final também eles sigam o mesmo caminho de casa que os seus líderes. 

Ei-lo: O justiceiro de Deus! Além de ex-pistoleiro exímio, também ele um mestre do disfarce.

Não faltam incongruências no filme, mas o que mais se destaca pela negativa são as péssimas actuações, que afectam toda a gente envolvida. Também a paupérrima utilização de cenários, lesa gravemente o filme. Sendo obviamente uma produção modesta, vemos a acção rodopiar de cidade  em cidade mas na verdade sempre o mesmo vilarejo. Os ângulos não ajudam e a forma usada para disfarçar esta falência foi a colocação de placas de identificação aos magotes. Sempre focadas em zoom ao ponto de percebermos quão fresca está a pintura. 

Não consta que o senhor seja um metaleiro, portanto há cornudo(a) na área.

A realização é genericamente má, ponto final. Um trabalho medíocre de Franco Lattanzi, que aqui escreveu, editou e realizou. Claramente demasiado peso em cima de um homem só. Não bastasse isso, em 1973 ele ainda assinou mais outro filme, também um western-spaghetti: “Sei bounty killers per una strage”. Donald O'Brien confessou em entrevista que os filmes foram rodados em sequência, com partilha de actores e cenários. Tudo à revelia da equipa de produção, delicioso! Estamos nos 1970, o género definha por todo o lado e o publico alvo de Lattanzi seriam os cinemas de periferia, menos exigentes nas artes cénicas e mais na inclusão de maminhas, que efectivamente inclui com a mestria dos realizadores de filmes exploitation.

Esta senhora é muito encalorada.  

O filme está agora disponível nas plataformas de VOD (Amazon Prime, etc) e nos videoclubes do povo, claro. A imagem é cristalina, no entanto iniciantes do género devem evitá-lo a todo o custo. Os veteranos irão provavelmente soltar umas gargalhadas aqui e ali.

25/04/2020

5 westerns-spaghetti para ajudar a superar a quarentena - Vol.3

Como sabemos, por causa do coronavírus, vulgo COVID-19, a população tem de ficar em casa e respeitar a quarentena. Já que algumas das palavras de ordem são “confinamento”, “isolamento social” e “restrições”, eis um punhado de westerns-spaghetti que remetem para locais fechados, ambientes claustrofóbicos e situações de isolamento. Com estes cinco filmes, vão ver que, afinal, ficar em casa a ver cinema é algo extremamente bom e enriquecedor! Aproveitem!

1. Dio non paga il sabato (1967 / Tanio Boccia) 

Um grupo de bandidos assalta uma diligência e refugia-se numa cidade-fantasma. Têm de passar vários dias juntos até que as autoridades desistam de os procurar. Será que os gatunos vão ter paciência para se aturar uns aos outros?
[resenha aqui]

2. Il venditore di morte (1971 / Enzo Gicca Palli)

O detetive / pistoleiro Silver é contratado para desvendar estranhos homicídios numa cidade cheia de puritanos. Os habitantes dessa cidade parecem saber mais do que aquilo que apregoam! Quantos assassinos há, afinal? Quem é culpado e quem é vítima?
[resenha aqui]

3. E Dio disse a Caino... (1969 / Antonio Margheriti)

Dez anos de xadrez não saciaram a sede de vingança de Gary Hamilton! Conseguida a liberdade, Hamilton volta a casa para ajustar contas com Acombar, o homem que o tramou. Numa cidade completamente cercada, uma terrível noite de tempestade é tempo suficiente para Hamilton matar todos os pistoleiros, fritar Acombar em lume (nada) brando e ainda pregar uma chapada na cara da voluptuosa Maria!
[resenha aqui]

4. Prega il morto e ammazza il vivo (1971 / Giuseppe Vari)

Dan Hogan e as suas bestas roubaram um valioso carregamento de ouro. Escondem-se numa pousada isolada antes de fugirem para o México. Os Rangers percorrem toda a região em busca do ouro e dos meliantes. O confinamento de todas as pessoas que estão na pousada decorrerá sem problemas?
[resenha aqui]

5. Quel maledetto giorno d'inverno... Django e Sartana ...all'ultimo sangue! (1970 / Demofilo Fidani)

O pistoleiro Django e o xerife Sartana estão em Black City. A cidade é ameaçada pelos jagunços de Bud Willer em parceria com os bigodudos de Paco Sanchez. Quase toda a ação acontece na cidade, principalmente os sangrentos duelos ao alvorecer, naquelas ventosas e geladas manhãs de inverno!

18/04/2020

Pagó cara su muerte (1968 / Realizador: León Klimovsky)

Um Marshall (Wayde Preston) anda no trilho de um bandido mexicano chamado Rojas (Guglielmo Spoletini), as pistas levam-no a uma cidade fronteiriça onde encontra um amontoado de mortos e um cúmplice do bandido. É então que ficamos a saber a história do fugitivo. Afinal Rojas não fora bandido a vida toda. Na verdade, ele tinha uma vida honesta até ao momento em que um gringo racista o força, a ele e à vizinhança, a abandonar as suas terras. Não sem antes dar alguma luta aos opressores. Receoso com a mais que provável revanche dos gringos, manda as mulheres e crianças para a segurança das terras mexicanas. Com os homens adultos passa a fazer saques no lado americano da fronteira, onde o preço da sua cabeça valoriza a cada acto.

Tarde de mais Marshall.

Atingida a "fama", recebe a visita de um trapaceiro, Trevor, interpretado pelo habitué do género, Eduardo Fajardo. Trevor propõe-lhe fazer um assalto ao banco de uma cidade americana onde um passarinho o informou da chegada de um carregamento com 300 mil dólares, que imaginem, caberão dentro de uma alforja! O assalto decorre sem problemas de maior, Trevor segue marcha em território americano com um terço do saque e Rojas e companhia atravessam a fronteira.

Eduardo Fajardo no seu enásimo wester.spaghetti.

Ao regressar a casa recebe a melhor das alegrias, o nascimento de um filho. Mas é aqui que se dá o ponto de inflexão no âmago do personagem. A esposa sucumbe no pós-parto e simultaneamente a aldeia é alvo de um raid dos homens do Xerife. Rojas, desolado com a tragédia, não oferece qualquer resistência e é enviado para a prisão e será o Xerife a assumir a guarda da criança. Anos mais tarde, já no campo de trabalhos forçados, recebe uma carta, um pedido de escusa de paternidade. O impulso que faltava para se evadir e procurar a criança.

As más notícias chegam ao presídio.

A realização é de León Klimovsky, o dentista de Buenos Aires tornado realizador de quem normalmente zumbamos devida ao episódio rocambolesco do afastamento da realização do “Poucos Dólares para Django” e à realização de alguns westerns de qualidade paupérrima, mas até ele teve momentos de clarividência e este filme é bastante aceitável. Não pela espectacularidade das cenas de acção, e muito menos pelo trabalho de câmara, mas tem a seu favor uma carga dramática anormal e uma trama pesada em que não faltam sequer farpas político-sociais.

Pai e filho num momento de conforto.

Para este bom porto destaco também a actuação eficaz de Guglielmo Spoletini. Ele como tantos outros actores da época saltou de filme em filme, quase sempre em papéis limitados, mas neste “Pagó cara su muerte” tem o tempo de antena suficiente para mostrar que tinha capacidade para muito mais. É a vida.  Já Klimovsky, realizou logo de seguida mais um western que facilmente sobreviveria num ambiente contemporâneo enquanto thriller de acção, “Quinto: non ammazzare” e apresar de ter voltado ao género, nos anos seguintes atalharia com sucesso pelo cinema de terror, tendo realizado alguns filmes marcantes como "La Noche de Walpurgis", um clássico do cinema de terror espanhol. 

13/04/2020

A influência do western americano no western-spaghetti

Artigo gentilmente cedido pelo companheiro António Furtado da Rosa, grande entusiasta do western-spaghetti e também ele blogger ocasional via http://westerneuropeu.blogspot.com/

Não é segredo para ninguém que Sergio Leone era um ávido consumidor de western americano na sua meninice, principalmente de John Ford o qual homenageou no filme “Aconteceu no Oeste” filmando em Monument Valley. Mas o Western Spaghetti libertou-se da influência do western americano que apresentava um oeste romântico e épico no qual os heróis eram puros defensores da justiça e de donzelas em perigo, principalmente até ao final dos anos 1940, com algumas exceções. 

Mas o próprio western americano também se modificou e o herói do próprio género começou a tornar-se mais complexo e, por vezes, anti-herói, e o western tornou-se adulto com realizadores como Anthony Mann, Delmer Daves ou Raoul Walsh, cujos heróis deixaram de ser puros defensores da justiça para se tornarem heróis complexos com passados obscuros e intenções, por vezes, pouco nobres. Claro que quase sempre acabavam por encontrar a redenção, mas estes heróis complexos foram, sem dúvida, precursores do anti-herói do Western Spaghetti. 

Personagens como Ethan Edwards (John Wayne) em “A Desaparecida” de John Ford, Howard Kemp (James Stewart) em “Esporas de Aço” de Anthony Mann ou Glyn McLyntock (James Stewart) em “Jornada de Heróis” de Anthony Mann, são apenas alguns exemplos deste novo herói mais adulto do western americano.

Além dos filmes mencionados acima, eis, na minha opinião alguns westerns americanos que influenciaram o western Spaghetti:

Vera Cruz (1954 / Robert Aldrich) 


Os heróis são mercenários cujo único objetivo é ganhar dinheiro e nada mais e onde abunda o cinismo e a violência. Curiosa o antagonismo entre o herói sulista e ainda com valores, Gary Cooper, e o anti-herói sem escrúpulos, Burt Lancaster.

Os 7 Magníficos (1960 / John Sturges)


Este filme tem uma larga influência no western Spaghetti desde a violência até ao argumento que influenciou alguns westerns europeus como “A Vingança de Bill Kiowa” com Montgomery Ford, “Os cinco Bandoleiros” com Peter Graves e Bud Spencer ou “Uma razão Para Viver Outra Para Morrer” com James Coburn e Bud Spencer. Por coincidência, duas sequelas, “O Regresso dos 7 Magníficos” e “Colts para os 7 Magníficos” foram filmadas em Espanha.

O Homem do Oeste (1958 / Anthony Mann)


Sobretudo a violência e um herói com um passado obscuro que já tinha atingido a redenção e que tem de voltar ao passado para ganhar o futuro. O duelo na cidade abandonada é um mimo e muitas vezes visto no western spaghetti.

Núpcias Trágicas (1947 / Raoul Walsh) 


Considerado por muitos o primeiro western “adulto”, na minha opinião é “A Cavalgada de Heroica” de John Ford, e também o primeiro western noir, ficou conhecido entre os amantes do western spaghetti por ter um mistério parecido ao de “Tempo de Massacre” de Lucio Fulci com Franco Nero e George Hilton, e por grandes planos dos rostos doa atores para mostrar intensidade emocional como nos filmes de Leone e no “Cemitério sem Cruzes” de Robert Hossein.

Há outros filmes e outros realizadores americanos com influência no Western Spaghetti, talvez só numa cena, mas poucos como estes que são referidos neste pequeno texto, mas creio que nenhum filme terá influenciado mais Leone, Corbucci, Sollima ou Baldi, como “Vera Cruz” e “Os 7 Magníficos”. Está lá tudo, o cenário, os personagens dúbios, a ação, o cinismo e a violência.

08/04/2020

5 westerns-spaghetti para ajudar a superar a quarentena - Vol.2

A COVID-19 continua lá fora e a nós exige-se que sejamos responsáveis e fiquemos em casa. Assim, voltamos à carga com mais uma dose de westerns-spaghetti que vos aconselhamos para ajudar a passar o tempo nesta Páscoa de quarentena. E longe vão os tempos que para vermos estas pérolas tínhamos de recorrer a DVDs manhosos ou transferências de VHS gastas até ao tutano, hoje pelo contrário encontramos cada uma destas sugestões com qualidade cristalina. Procurem-nos nas lojas virtuais, ou alternativas para o povão. E já sabem, fiquem em casa!

1. Non aspettare Django, spara (1967 / Edoardo Mulargia)

O pai de Django Foster é agredido e morto por um vilão chamado Navarro. Logo depois, Navarro é enganado por seu próprio filho, que foge para uma cidade fronteiriça com dinheiro. Quando Navarro chega, o seu filho está morto e o dinheiro desapareceu. Agradável sotto-Django com direcção eficaz de Edoardo Mulargia.
[resenha aqui]

2. L'ultimo killer (1967 / Giuseppe Vari)

Os pais de Ramon são mortos por homens do ricaço John Barrett. Ao tentar vingar-se, Ramon é ferido. Rezza, um velho assassino, irá tomar conta dele tornando-se no seu implacável tutor. Um filme de baixo orçamento com elenco impecável com o gigante George Eastman (Cani arrabbiati) e Dragomir Bojanic-Gidra.
[resenha aqui]

3. Ammazzali tutti e torna solo (1968 / Enzo G. Castellari)

Clyde, um oficial do exército confederado, recebe ordens para apreender um depósito de ouro escondido num forte do exército do norte. Para consegui-lo contará com uma trupe de nada confiável. Provavelmente será o western mais bombástico de  Enzo Castellari, que imita descaradamente "Doze Indomáveis Patifes", mas o grande destaque é a presença de Chuck Connors no papel principal.
[resenha aqui]

4. Shalako (1968 / Edward Dmytryk)

Em 1880, no Novo México, um cowboy chamado Shalako trabalha como guia de um grupo de aristocratas europeus, que transitam em áreas desertas dominadas por índios. Este não é um spaghetti-western em toda a linha, a produção é do Reino Unido e o argumento não se enquadra no género, mas foi rodado em Almeria e merece uma olhada, nem que seja pela oportunidade de ver o Bond original num western!

5. Un fiume di dollari (1966 / Carlo Lizzani)

Ken e Jerry são dois bandidos que fogem para a fronteira mexicana depois de rapinar uma avultada soma ao governo americano. A cavalaria alcança-os mas Ken consegue fugir com o dinheiro. Após cinco anos de prisão, Jerry sai pronto para se vingar do seu ex-colega. Não é o melhor western-spaghetti do mundo, mas é o único em que podemos ver o grande Henry Silva (Nico - À Margem da Lei )!

01/04/2020

La vendetta è un piatto che si serve freddo (1971 / Realizador: Pasquale Squitieri)

O jovem Jeremiah Bridge (Leonard Mann) crê que os seus pais foram massacrados por um grupo de índios selvagens. Alguns anos depois, já adulto, Jeremiah é um homem que destila ódio contra os índios e é agora um implacável matador de indígenas (e vendedor de escalpes). Os seus sentimentos começam a mudar quando encontra uma jovem índia que levou um tratamento com alcatrão e penas. A arrogância do ricaço Perkins (Ivan Rassimov) e do seu sabujo Virgil Prescott (Klaus Kinski) leva Jeremiah a ver as coisas de outro prisma. No fim, ele descobre quem são os verdadeiros selvagens e os verdadeiros assassinos.

Agarrem essa gaja!

Este filme é um dos poucos westerns-spaghetti que aborda o tema do ódio / racismo entre brancos e índios (e toma partido do lado dos índios). Klaus Kinski teve um papel menor neste filme, o que não o impediu de “armar barraca”. Segundo o realizador Pasquale Squitieri, na cena em que Kinski é levado à força por vários indivíduos, o irascível ator alemão desatou a bater em todos os que se aproximavam dele. 

E que tal um balázio nas trombas?

Squitieri mandou parar tudo, perguntou o que se passava e Kinski respondeu: “Realismo! Isto tem de ter realismo!”. Squitieri pediu-lhe calma. Mas o cabrão era tinhoso e tinha a mania nos cornos! Continuou a fazer a mesma merda até que Squitieri entrou em cena com um taco de basebol nas mãos pronto para lhe escavacar a marmita! Só aí é que Kinski baixou a bolinha e fez as coisas como deve ser.

Leonard Mann, o caçador de índios!

Título original italiano traduzido à letra: “A vingança é um prato que se serve frio”.
Título em Espanha: “Le venganza esperó diez años”.
Título em Portugal: “Fúria Selvagem”.

29/03/2020

5 westerns-spaghetti para ajudar a superar a quarentena - Vol.1

Numa altura em que a quarentena exigida para contenção do vírus COVID-19, nos empurra para dentro das quatro paredes, começa a sobrar tempo para outras coisas. Porque não queremos que o usem para pensar em negatividade, recomendamos um punhado de westerns-spaghetti para verem no conforto do sofá. Todos eles disponíveis nos super-mercados virtuais do povo. Fiquem em casa!

1. Lo voglio morto (1968 / Paolo Bianchini)

Durante a Guerra Civil Americana, dois homens violam e matam a irmã de Clayton. A busca de vingança de Clayton convergirá com os destinos da guerra, assassinando dois generais que se reúnem para discutir termos de paz. Um excelente exemplar de western-spaghetti de baixo orçamento versus alto rendimento.
[resenha aqui]

2. I Crudeli (1967 / Sergio Corbucci)


No pós-Guerra Civil, um coronel confederado recusa-se a aceitar a derrota do Sul e tenta formar um exército para relançar o sul. Com a ajuda dos seus filhos, ele rouba um grande baú, que tentam escoltar escondido no caixão de um oficial que (supostamente) tencionam levar de volta ao sul. Um filme injustamente desconhecido de muita gente.


3. Il pistolero dell'Ave Maria (1969 / Ferdinando Baldi)

Revisão em ambiente western da lenda grega de Orestes, que vinga o assassinato de seu pai com a ajuda de seu amigo e ex-mentor Pylades e a sua irmã Electra. O fascínio dos realizadores italianos pela literatura grega não é um segredo mas este filme ainda é bastante negligenciado, uma pena por ser um dos mais ambiciosos.

4. Starblack (1966 / Giovanni Grimaldi)

Johnny Blith regressa a casa depois de vários anos em trabalho num rancho do Colorado, onde descobre que o seu pai morreu no decorrer de circunstâncias especiais. É o mote para mais um filme com um vigilante mascarado, tudo ao melhor estilo de Zorro. Simplório em momentos, não deixa de ser um garante de diversão.

5. Il mio nome è Shangai Joe (1973 / Mario Caiano)

Shanghai Joe vai para o oeste em busca de melhor vida. Ao chegar é constantemente confrontado com gringos racistas e inevitavelmente a coisa acaba à pancada. Mas quando Shanghai Joe ajuda alguns peões mexicanos a salvar-se da escravidão, os problemas avolumam-se. Provavelmente será o mais reconhecido dos crossovers western/artes marciais. Divertido se não se levar demasiado a sério.
[resenha aqui]

02/03/2020

Una pistola per cento croci (1971 / Realizador: Carlo Croccolo)

Reza a lenda que o realizador Carlo Croccolo era amigalhaço do ator Tony Kendall. O primeiro queria fazer um western mas tinha muito pouco dinheiro. O segundo, por amizade (ou talvez solidariedade), aceitou protagonizar esse mesmo western. Carlo Croccolo e o produtor Oscar Santaniello conseguiram os meios necessários e avançaram. Tony Kendall, Mimmo Palmara, Marina Mulligan, Monica Miguel e Ray Saunders são os mais importantes do elenco. Os restantes são fundamentalmente duplos, quase todos presença assídua nos westerns de Demofilo Fidani (Dennis Colt, Custer Gail, Luciano Conti, etc.). A história é muito simples: Sartana / Santana / Django (consoante a versão) é um pistoleiro dos sete costados que decide proteger a indefesa donzela Jessica Dublin. A súcia que anda a fazer mal à mulher é liderada por Frank Damon, ex-camarada de armas de Sartana.


Só a meio do filme é que ficamos a saber que acima do chefe Frank Damon há uma “chefa” que veste roupas pretas, tem um vistoso sombrero mexicano e maneja o chicote com a destreza de um domador de circo! Os melhores momentos do filme são o tiroteio final recheado de cadáveres e a cena em que a “chefa” despe Jessica Dublin à chicotada.

Tony Kendall com um ar extremamente sério!

Com Croccolo e Santaniello, a máxima era “no poupar é que está o ganho” e por isso várias cenas deste filme foram recicladas no western seguinte, “Black Killer”. Carlo Croccolo, sob o pseudónimo Lucky Moore, além de fazer filmes em Itália cujos atores sacavam das suas pistolas (cinema western), também foi aos Estados Unidos fazer filmes em que os atores sacavam das suas gaitas (cinema porno). Mas o objetivo permanecia o mesmo: disparar a arma!

29/02/2020

Vamos a matar, compañeros (1970 / Realizador: Sergio Corbucci)

Então vamos lá dar mais uma voltinha aos western’s zapatistas. Desta vez queremos recomendar-vos esta espécie de reprise refinada de “Il mercenário”. Uma revisão do mesmo Sergio Corbucci, que engendrou um quase remake com alterações estratégicas, objectivamente focadas na mudança de humor da história. Afinal é possível falar de temas sérios sem sermos demasiado sisudos, certo? Já li milhentas opiniões sobre o filme e existe uma espécie de facção que o desconsidera, mas pessoalmente ponho-me de parte. Acredito piamente que o objectivo do amigo Corbucci foi excepcionalmente conseguido e creio que isso aconteceu sobretudo pela substituição de Tony Musante pelo actor cubano Tomas Milian, que interpreta o simplório mas divertido Vasco.

Tomás Quintín Rodríguez, aka Tomas Milian.

Durante a Revolução Mexicana, um camponês chamado Vasco (Tomas Milian) inicia uma revolta no seu vilarejo ao matar o coronel do exército no comando. O líder rebelde e auto-nomeado General Mongo (José Bódalo) chega entretanto ao local e rapidamente promove Vasco a seu tenente. Quase paralelamente surge outro player em cena, Yodlaf Peterson (Franco Nero), um mercenário sueco chega ao México para vender armas ao General Mongo. O dinheiro para meter toda a engrenagem a trabalhar está trancado e apenas o professor Xantos (Fernando Rey) conhece a combinação. Xantos é o líder de uma contra-revolução estudantil que se opõe à violência e é mantido na prisão pelo exército dos Estados Unidos, depois de tentar obter financiamento dos EUA e não concordar em monopolizar toda a riqueza do petróleo de seu país. 

"Um dólar para o primeiro idiota que encontrar!" 

Como se percebe, trata-se de mais uma western de contornos políticos, os tais que acabaram no saco dos zapata westerns, que teve expoente máximo com "Quién sabe?" do Damiano Damiani. Tratavam-se de filmes com agendas política bem vincada, cheios de comentários sociais satíricos e que metaforicamente colocavam a acção na revolução mexicana da década de 1910, convocando quase invariavelmente um mercenário estrangeiro itinerante (neste caso sueco) e um camponês mexicano politicamente ingénuo. Sendo grande parte dos realizadores e argumentistas italianos simpatizantes socialistas ou comunistas, não seria de esperar qualquer outra coisa que não fosse um dedo apontado ao imperialismo americano então em crescente na guerra do Vietname (coloco um manifesto da época aí mais abaixo que ilustra bem as posições ditas mais radicalizadas).

Manifesto comunista italiano dos anos sessenta. 

Mas como disse lá atrás, apesar de todo este rastilho político, o elemento dominante deste filme é a comédia. De um lado temos o tal Vasco, um pobretana inculto e manipulável, transformado em bandido revolucionário que se emenda e assimila os princípios pacifistas de Xantos. Do outro temos o sueco, um mercenário disposto a vender os seus atributos a quem pagar mais. Um tipo sem escrúpulos, ora aliado aos bandidos de Mongo ora aos revolucionários Xantistas, sempre com o objectivo de lucrar. Pelo meio temos os americanos a tentar tirar proveito da situação. Ontem e hoje, sempre a mesma coisa. 

Yodlaf Peterson foi deixado para morrer, mas quem tem um amigo tem um tesouro.

O elenco é fantástico. Franco Nero é sempre óptimo (excepto no “Cipolla Colt”, toda a gente sabe que esse odeio profundamente) e Jack Palance tem um papel secundário mas marcante, porém quem toma conta das rédeas é o cubano Tomas Milian. Um actor acima da média que poderi
a (deveria) ter cravado o seu nome ao lado dos maiores. Creio que ficou demasiado agarrado na sua zona de conforto, passando nos anos seguintes a actuar em toneladas de filmes estereotipados, muitos deles sem qualquer interesse (quem já viu o “Cane e gatto” sabe do que estou a falar).

General Mongo, revolucionário ou vigarista?

Como habitualmente acontece nos western’s de Sergio Corbucci, não faltam os caixões, mutilações ou metralhadoras, ao ponto de certas cenas serem descaradamente reedições de outras anteriormente usadas pelo próprio. Não é um modo operandi anormal, outros cineastas mais ou menos contemporâneos fizeram o mesmo. “Firecracker” é uma revisão aprimorada do blaxploitation “TNT Jackson”, ambos com o filipino Cirio H. Santiago na cadeira. Não faltam casos idênticos e entre isso ou um remake por um estranho qualquer, rejeitarei sempre a segunda opção.

Inteligente é o homem que sabe valorizar o que tem. Yodlaf  ainda não aprendeu a lição.

Quando comparado com outros Zapata western’s  como “Tepepa” (de Giulio Petroni e também com Milian) ou o já referenciado “Quien sabe?”, este “Vamos a matar, compañeros” perde em toda a linha mas ganha claramente para o tal irmão mais velho que tão descaradamente replica. Nesse embate a dois creio que só perde para trilha sonora (ambas do mestre Ennio Morricone), esta aqui é bastante orelhuda e garanto-vos que o refrão “vamos a matar companeros” vos vai ecoar na cabeça por muitos dias, mas fica aquém da profundidade da primeira, aquele assobio… 



Inacreditavelmente o filme está disponível no mercado DVD português, e já há bastantes anos, se calhar até já saiu de catálogo, não sei. É uma edição da Prisvideo e faz parte de uma colecção western spaghetti, que inclui outros clássicos que todos deviam ter em casa. O título dessa edição foi simplificado para “Companheiros” embora as edições VHS dos anos oitenta o retratem com o mais pujante e aproximado do original, “Vamos Matar companheiros” (confirme-se no blogue do Nuno Vieira). Em tempos recentes também passou a fazer parte da programação da Fox Movies Portugal, portanto estejam atentos!

VHS portuguesa. Foto da colecção privada do Nuno Vieira (fonte).

16/02/2020

Amico mio, frega tu... che frego io! (1973 / Realizador: Demofilo Fidani)

Primeira e única tentativa do cineasta Demofilo Fidani no western cómico. Primeira e única vez que o ator Ettore Manni é o protagonista de um western de Fidani. Denver, Colorado. A febre do ouro está alta. Anda tudo com os cornos no ar porque todos ambicionam encontrar o filão que os vai enriquecer. Mulieta (Gordon Mitchell) e o seu bando de mal-encarados também entram no jogo. Perla (Simone Blondell) oferece-nos o seu olhar sensual, o seu lindo sorriso e as suas belas pernas (é uma espécie de bailarina da coxa grossa)! Jonathan Dickinson (Ettore Manni) é um trafulha disfarçado de sacerdote que não faz mais nada senão enganar os otários e encher a camisola (à conta dos outros, obviamente). 

Este “sacerdote” lambão viaja montado num burro velho chamado Gordon e tem uma sociedade com Mark Tabor (Bud Randall), também vigarista de primeira. As montanhas estão repletas de garimpeiros. Jonathan Dickinson e Mark Tabor passam dias e dias de pá e pica. A fome e o desespero começam a apertar. O trabalho não está a dar frutos. Até ao dia em que…

Estás encurralado, seu vigarista!

Muita gente diz que Demofilo Fidani é o “Ed Wood dos westerns-spaghetti”. Muitos dizem isso como forma de desprezo. Eu vejo isso como um elogio. Tanto Wood como Fidani são realizadores de culto que ficarão para sempre. São realizadores que fizeram filmes tão maus que até se tornaram bons! E por causa dos filmes de qualidade duvidosa que fizeram, hoje são respeitados e venerados por todos os que amam a série B. 

Biqueirada de meia-noite!

Em sentido contrário, há por aí muitos imbecis que realizam filmes nojentos com orçamentos de milhões, filmes esses capazes de provocar urticária, vómitos e diarreia a qualquer pessoa boa do sentido! Sim, fantoches de Hollywood, estou a falar de vocês, tropa dum cabrão!!