04/05/2020

Il giustiziere di Dio (1973 / Realizador: Franco Lattanzi)

Chegou a hora de encarar os westerns-spaghetti de Franco Lattanzi, realizador de quem não reza a história. Comecei a tarefa por este “Il giustiziere di Dio”, que julgo não ter tido exibição por cá sequer. A premissa do filme até parecia simpática, afinal de contas toda a gente gosta da ideia de ter um padre com passado obscuro a desancar a patifaria. Ainda há dias assisti ao novo filme do Jess V. Johnson, “The Mercenary”, também ele uma produção de baixo orçamento que segue esse tipo de narrativa com resultados satisfatórios, mas não é o caso deste "Il giustiziere di Dio". O elenco principal é bastante decente (Willian Berger, Donald O'Brien, George Wang) mas a narrativa demasiado complexa misturada com diálogos/interpretações dignas de miúdos da quarta-classe arruínam completamente o resultado, tornando-o quanto muito, numa comédia involuntária.

Todo o bandido tem um anjo da guarda?

O gangue dos «três ases» cavalgam adentro da cidade de Abilene onde interrompem a execução de um dos seus compinchas, no entanto um cidadão de bem mais zeloso resolve espetar-lhe uma bala no bucho. Enquanto definha o quase-finado ainda sussurra a localização de um esconderijo repleto de lingotes de ouro. O ouro está escondido numa missão que o gangue manda pelos ares, a fim de deitar-lhe a mão. Promete acção mas na realidade é tudo filmado de longe ou sugerido, acção e emoção, nem vê-la.

O gangue mais ridículo que possam imaginar.

O gangue é no mínimo pitoresco, com três líderes mascarados com lenços amarelos pintados com símbolos do baralho de cartas. O método parece refinado, só fazem assaltos em cidades que não aquelas em que residem e usam os lenços com o propósito de manter a sua identidade incógnita, porque afinal são cidadãos respeitáveis. Tudo muito certo, não fossem os restantes acólitos completamente descaracterizados para a balburdia e no final também eles sigam o mesmo caminho de casa que os seus líderes. 

Ei-lo: O justiceiro de Deus! Além de ex-pistoleiro exímio, também ele um mestre do disfarce.

Não faltam incongruências no filme, mas o que mais se destaca pela negativa são as péssimas actuações, que afectam toda a gente envolvida. Também a paupérrima utilização de cenários, lesa gravemente o filme. Sendo obviamente uma produção modesta, vemos a acção rodopiar de cidade  em cidade mas na verdade sempre o mesmo vilarejo. Os ângulos não ajudam e a forma usada para disfarçar esta falência foi a colocação de placas de identificação aos magotes. Sempre focadas em zoom ao ponto de percebermos quão fresca está a pintura. 

Não consta que o senhor seja um metaleiro, portanto há cornudo(a) na área.

A realização é genericamente má, ponto final. Um trabalho medíocre de Franco Lattanzi, que aqui escreveu, editou e realizou. Claramente demasiado peso em cima de um homem só. Não bastasse isso, em 1973 ele ainda assinou mais outro filme, também um western-spaghetti: “Sei bounty killers per una strage”. Donald O'Brien confessou em entrevista que os filmes foram rodados em sequência, com partilha de actores e cenários. Tudo à revelia da equipa de produção, delicioso! Estamos nos 1970, o género definha por todo o lado e o publico alvo de Lattanzi seriam os cinemas de periferia, menos exigentes nas artes cénicas e mais na inclusão de maminhas, que efectivamente inclui com a mestria dos realizadores de filmes exploitation.

Esta senhora é muito encalorada.  

O filme está agora disponível nas plataformas de VOD (Amazon Prime, etc) e nos videoclubes do povo, claro. A imagem é cristalina, no entanto iniciantes do género devem evitá-lo a todo o custo. Os veteranos irão provavelmente soltar umas gargalhadas aqui e ali.

25/04/2020

5 westerns-spaghetti para ajudar a superar a quarentena - Vol.3

Como sabemos, por causa do coronavírus, vulgo COVID-19, a população tem de ficar em casa e respeitar a quarentena. Já que algumas das palavras de ordem são “confinamento”, “isolamento social” e “restrições”, eis um punhado de westerns-spaghetti que remetem para locais fechados, ambientes claustrofóbicos e situações de isolamento. Com estes cinco filmes, vão ver que, afinal, ficar em casa a ver cinema é algo extremamente bom e enriquecedor! Aproveitem!

1. Dio non paga il sabato (1967 / Tanio Boccia) 

Um grupo de bandidos assalta uma diligência e refugia-se numa cidade-fantasma. Têm de passar vários dias juntos até que as autoridades desistam de os procurar. Será que os gatunos vão ter paciência para se aturar uns aos outros?
[resenha aqui]

2. Il venditore di morte (1971 / Enzo Gicca Palli)

O detetive / pistoleiro Silver é contratado para desvendar estranhos homicídios numa cidade cheia de puritanos. Os habitantes dessa cidade parecem saber mais do que aquilo que apregoam! Quantos assassinos há, afinal? Quem é culpado e quem é vítima?
[resenha aqui]

3. E Dio disse a Caino... (1969 / Antonio Margheriti)

Dez anos de xadrez não saciaram a sede de vingança de Gary Hamilton! Conseguida a liberdade, Hamilton volta a casa para ajustar contas com Acombar, o homem que o tramou. Numa cidade completamente cercada, uma terrível noite de tempestade é tempo suficiente para Hamilton matar todos os pistoleiros, fritar Acombar em lume (nada) brando e ainda pregar uma chapada na cara da voluptuosa Maria!
[resenha aqui]

4. Prega il morto e ammazza il vivo (1971 / Giuseppe Vari)

Dan Hogan e as suas bestas roubaram um valioso carregamento de ouro. Escondem-se numa pousada isolada antes de fugirem para o México. Os Rangers percorrem toda a região em busca do ouro e dos meliantes. O confinamento de todas as pessoas que estão na pousada decorrerá sem problemas?
[resenha aqui]

5. Quel maledetto giorno d'inverno... Django e Sartana ...all'ultimo sangue! (1970 / Demofilo Fidani)

O pistoleiro Django e o xerife Sartana estão em Black City. A cidade é ameaçada pelos jagunços de Bud Willer em parceria com os bigodudos de Paco Sanchez. Quase toda a ação acontece na cidade, principalmente os sangrentos duelos ao alvorecer, naquelas ventosas e geladas manhãs de inverno!

18/04/2020

Pagó cara su muerte (1968 / Realizador: León Klimovsky)

Um Marshall (Wayde Preston) anda no trilho de um bandido mexicano chamado Rojas (Guglielmo Spoletini), as pistas levam-no a uma cidade fronteiriça onde encontra um amontoado de mortos e um cúmplice do bandido. É então que ficamos a saber a história do fugitivo. Afinal Rojas não fora bandido a vida toda. Na verdade, ele tinha uma vida honesta até ao momento em que um gringo racista o força, a ele e à vizinhança, a abandonar as suas terras. Não sem antes dar alguma luta aos opressores. Receoso com a mais que provável revanche dos gringos, manda as mulheres e crianças para a segurança das terras mexicanas. Com os homens adultos passa a fazer saques no lado americano da fronteira, onde o preço da sua cabeça valoriza a cada acto.

Tarde de mais Marshall.

Atingida a "fama", recebe a visita de um trapaceiro, Trevor, interpretado pelo habitué do género, Eduardo Fajardo. Trevor propõe-lhe fazer um assalto ao banco de uma cidade americana onde um passarinho o informou da chegada de um carregamento com 300 mil dólares, que imaginem, caberão dentro de uma alforja! O assalto decorre sem problemas de maior, Trevor segue marcha em território americano com um terço do saque e Rojas e companhia atravessam a fronteira.

Eduardo Fajardo no seu enásimo wester.spaghetti.

Ao regressar a casa recebe a melhor das alegrias, o nascimento de um filho. Mas é aqui que se dá o ponto de inflexão no âmago do personagem. A esposa sucumbe no pós-parto e simultaneamente a aldeia é alvo de um raid dos homens do Xerife. Rojas, desolado com a tragédia, não oferece qualquer resistência e é enviado para a prisão e será o Xerife a assumir a guarda da criança. Anos mais tarde, já no campo de trabalhos forçados, recebe uma carta, um pedido de escusa de paternidade. O impulso que faltava para se evadir e procurar a criança.

As más notícias chegam ao presídio.

A realização é de León Klimovsky, o dentista de Buenos Aires tornado realizador de quem normalmente zumbamos devida ao episódio rocambolesco do afastamento da realização do “Poucos Dólares para Django” e à realização de alguns westerns de qualidade paupérrima, mas até ele teve momentos de clarividência e este filme é bastante aceitável. Não pela espectacularidade das cenas de acção, e muito menos pelo trabalho de câmara, mas tem a seu favor uma carga dramática anormal e uma trama pesada em que não faltam sequer farpas político-sociais.

Pai e filho num momento de conforto.

Para este bom porto destaco também a actuação eficaz de Guglielmo Spoletini. Ele como tantos outros actores da época saltou de filme em filme, quase sempre em papéis limitados, mas neste “Pagó cara su muerte” tem o tempo de antena suficiente para mostrar que tinha capacidade para muito mais. É a vida.  Já Klimovsky, realizou logo de seguida mais um western que facilmente sobreviveria num ambiente contemporâneo enquanto thriller de acção, “Quinto: non ammazzare” e apresar de ter voltado ao género, nos anos seguintes atalharia com sucesso pelo cinema de terror, tendo realizado alguns filmes marcantes como "La Noche de Walpurgis", um clássico do cinema de terror espanhol. 

13/04/2020

A influência do western americano no western-spaghetti

Artigo gentilmente cedido pelo companheiro António Furtado da Rosa, grande entusiasta do western-spaghetti e também ele blogger ocasional via http://westerneuropeu.blogspot.com/

Não é segredo para ninguém que Sergio Leone era um ávido consumidor de western americano na sua meninice, principalmente de John Ford o qual homenageou no filme “Aconteceu no Oeste” filmando em Monument Valley. Mas o Western Spaghetti libertou-se da influência do western americano que apresentava um oeste romântico e épico no qual os heróis eram puros defensores da justiça e de donzelas em perigo, principalmente até ao final dos anos 1940, com algumas exceções. 

Mas o próprio western americano também se modificou e o herói do próprio género começou a tornar-se mais complexo e, por vezes, anti-herói, e o western tornou-se adulto com realizadores como Anthony Mann, Delmer Daves ou Raoul Walsh, cujos heróis deixaram de ser puros defensores da justiça para se tornarem heróis complexos com passados obscuros e intenções, por vezes, pouco nobres. Claro que quase sempre acabavam por encontrar a redenção, mas estes heróis complexos foram, sem dúvida, precursores do anti-herói do Western Spaghetti. 

Personagens como Ethan Edwards (John Wayne) em “A Desaparecida” de John Ford, Howard Kemp (James Stewart) em “Esporas de Aço” de Anthony Mann ou Glyn McLyntock (James Stewart) em “Jornada de Heróis” de Anthony Mann, são apenas alguns exemplos deste novo herói mais adulto do western americano.

Além dos filmes mencionados acima, eis, na minha opinião alguns westerns americanos que influenciaram o western Spaghetti:

Vera Cruz (1954 / Robert Aldrich) 


Os heróis são mercenários cujo único objetivo é ganhar dinheiro e nada mais e onde abunda o cinismo e a violência. Curiosa o antagonismo entre o herói sulista e ainda com valores, Gary Cooper, e o anti-herói sem escrúpulos, Burt Lancaster.

Os 7 Magníficos (1960 / John Sturges)


Este filme tem uma larga influência no western Spaghetti desde a violência até ao argumento que influenciou alguns westerns europeus como “A Vingança de Bill Kiowa” com Montgomery Ford, “Os cinco Bandoleiros” com Peter Graves e Bud Spencer ou “Uma razão Para Viver Outra Para Morrer” com James Coburn e Bud Spencer. Por coincidência, duas sequelas, “O Regresso dos 7 Magníficos” e “Colts para os 7 Magníficos” foram filmadas em Espanha.

O Homem do Oeste (1958 / Anthony Mann)


Sobretudo a violência e um herói com um passado obscuro que já tinha atingido a redenção e que tem de voltar ao passado para ganhar o futuro. O duelo na cidade abandonada é um mimo e muitas vezes visto no western spaghetti.

Núpcias Trágicas (1947 / Raoul Walsh) 


Considerado por muitos o primeiro western “adulto”, na minha opinião é “A Cavalgada de Heroica” de John Ford, e também o primeiro western noir, ficou conhecido entre os amantes do western spaghetti por ter um mistério parecido ao de “Tempo de Massacre” de Lucio Fulci com Franco Nero e George Hilton, e por grandes planos dos rostos doa atores para mostrar intensidade emocional como nos filmes de Leone e no “Cemitério sem Cruzes” de Robert Hossein.

Há outros filmes e outros realizadores americanos com influência no Western Spaghetti, talvez só numa cena, mas poucos como estes que são referidos neste pequeno texto, mas creio que nenhum filme terá influenciado mais Leone, Corbucci, Sollima ou Baldi, como “Vera Cruz” e “Os 7 Magníficos”. Está lá tudo, o cenário, os personagens dúbios, a ação, o cinismo e a violência.

08/04/2020

5 westerns-spaghetti para ajudar a superar a quarentena - Vol.2

A COVID-19 continua lá fora e a nós exige-se que sejamos responsáveis e fiquemos em casa. Assim, voltamos à carga com mais uma dose de westerns-spaghetti que vos aconselhamos para ajudar a passar o tempo nesta Páscoa de quarentena. E longe vão os tempos que para vermos estas pérolas tínhamos de recorrer a DVDs manhosos ou transferências de VHS gastas até ao tutano, hoje pelo contrário encontramos cada uma destas sugestões com qualidade cristalina. Procurem-nos nas lojas virtuais, ou alternativas para o povão. E já sabem, fiquem em casa!

1. Non aspettare Django, spara (1967 / Edoardo Mulargia)

O pai de Django Foster é agredido e morto por um vilão chamado Navarro. Logo depois, Navarro é enganado por seu próprio filho, que foge para uma cidade fronteiriça com dinheiro. Quando Navarro chega, o seu filho está morto e o dinheiro desapareceu. Agradável sotto-Django com direcção eficaz de Edoardo Mulargia.
[resenha aqui]

2. L'ultimo killer (1967 / Giuseppe Vari)

Os pais de Ramon são mortos por homens do ricaço John Barrett. Ao tentar vingar-se, Ramon é ferido. Rezza, um velho assassino, irá tomar conta dele tornando-se no seu implacável tutor. Um filme de baixo orçamento com elenco impecável com o gigante George Eastman (Cani arrabbiati) e Dragomir Bojanic-Gidra.
[resenha aqui]

3. Ammazzali tutti e torna solo (1968 / Enzo G. Castellari)

Clyde, um oficial do exército confederado, recebe ordens para apreender um depósito de ouro escondido num forte do exército do norte. Para consegui-lo contará com uma trupe de nada confiável. Provavelmente será o western mais bombástico de  Enzo Castellari, que imita descaradamente "Doze Indomáveis Patifes", mas o grande destaque é a presença de Chuck Connors no papel principal.
[resenha aqui]

4. Shalako (1968 / Edward Dmytryk)

Em 1880, no Novo México, um cowboy chamado Shalako trabalha como guia de um grupo de aristocratas europeus, que transitam em áreas desertas dominadas por índios. Este não é um spaghetti-western em toda a linha, a produção é do Reino Unido e o argumento não se enquadra no género, mas foi rodado em Almeria e merece uma olhada, nem que seja pela oportunidade de ver o Bond original num western!

5. Un fiume di dollari (1966 / Carlo Lizzani)

Ken e Jerry são dois bandidos que fogem para a fronteira mexicana depois de rapinar uma avultada soma ao governo americano. A cavalaria alcança-os mas Ken consegue fugir com o dinheiro. Após cinco anos de prisão, Jerry sai pronto para se vingar do seu ex-colega. Não é o melhor western-spaghetti do mundo, mas é o único em que podemos ver o grande Henry Silva (Nico - À Margem da Lei )!