Não sei ao certo quantas vezes terei visto este filme, mas lembro-me bem de me ter arrebatado logo no primeiro contacto – era ainda muito novo e o então jovem canal de televisão português, SIC, fazia as primeiras emissões. Depois disso voltei a vê-lo noutros canais de televisão espanhóis e até em VHS, ora dobrado em espanhol ora em inglês. Mas a primeira visualização de
I giorni dell'ira (1967) foi desde logo na sua versão original, isto é falado em italiano. Ainda que este não tenha sido o primeiro western que assisti falado nessa língua, foi neste em que pela primeira vez reflecti sobre a nacionalidade daqueles tipos que tinha dentro da caixa mágica. Não eram afinal verdadeiros gringos, mas sim na sua maioria europeus como eu. E aquele oeste selvagem que mostravam, afinal não era mais do que as áridas paisagens mediterrâneas, muitas delas aqui bem ao lado de mim.
A minha devoção por este filme tornou-se grande ao longo dos anos e sem grandes hesitações considero ainda hoje que tenha qualidades suficientes para figurar num hipotético “spaghetti top 10” pessoal, surgindo nas minhas preferências logo após as obras-mestras de Sergio Leone. Foi por isso com muito prazer que algures em 2008, aquando de uma viagem de trabalho que fiz a Madrid, finalmente encontrei à venda uma cópia em DVD deste filme que me permitiria fazer a substituição da já gasta cassete VHS pirata lá de casa. Foi aliás através desta compra que tomei conhecimento da existência da excelente “La colección sagrada del spaghetti western”, editada
en tierras de nuestros hermanos pela Impulso. Esta colecção merece algumas linhas, dada a qualidade e raridade de alguns dos seus títulos, entre os quais destaco películas de grande valor inéditas em Portugal como,
Lo voglio morto (1968),
Un treno per Durango (1968),
Una pistola per cento bare (1968) ou
Una nuvola di polvere... un grido di morte... arriva Sartana (1971).
I giorni dell'ira, lançado por estas paragens como “Gigantes em duelo”, foi o segundo filme dirigido por
Tonino Valerii (
Per il gusto di uccidere,
Una ragione per vivere e una per morire,
Il mio nome è Nessuno). Valerii ao contrário do elenco de actores que teve à sua disposição – ambos com louros recolhidos – tinha ainda que demonstrar o seu valor, objectivo que atingiu com o seu empenho no projecto, que passou não só pela realização mas também pelo argumento (adaptado do romance “Der Tod ritt dienstags"). Este conta-nos a história de Scott (
Giuliano Gemma), um pacato rapaz que sonha um dia ser um grande pistoleiro, mas que por circunstâncias de uma vida dura se vê relegado para as árduas e indesejadas tarefas de limpeza na cidade de Clifton. Comummente enxovalhado pelos respeitáveis cidadãos locais, Scott vê na chegada à cidade de um tal Frank Talby (
Lee Van Cleef) a sua grande oportunidade de aprender a manejar o colt e assim impor o respeito aqueles que sempre o humilharam. Talby que se revelará um implacável pistoleiro, acaba eventualmente por se tornar o seu mentor, incutindo-lhe assim os seus ensinamentos, permito-me chamar-lhe uma espécie de mandamentos do pistoleiro! Os momentos em que Talby instrui as lições a Scott, são mesmo alguns dos pontos altos da narrativa do filme, sempre eficazmente acompanhados por uma magnífica trilha sonora de Riz Ortolani (
Requiescant,
La notte dei serpenti) - característica que provavelmente foi aprendida por Valerii nos tempos em que trabalhou como assistente de Sergio Leone. Talby, como rato velho que é, surge então com um esquema para chantagear e dominar a cidade. Aproveitando-se da então criada relação com Scott de mestre/aprendiz, para fazer deste o seu guarda-costas pessoal. Depostos do poder, os corruptos e até então pouco amistosos habitantes de Clifton tentarão convencer Scott a livrar-se de Talby e do seu então criado bando de bandidos. E mais não conto sob pena de desvendar demasiado da história do filme.

Este é sem dúvida o meu filme favorito de Valerii, de quem admito ser grande adepto, conto em breve voltar a debruçar-me sobre mais um título da sua obra. Quem também parece ser apreciador do cinema de Valerii, é George Lucas. Aparentemente o mestre da ficção-ciêntifica terá declarado ser apreciador de western-spaghetti, facto mais que suficiente para muitos terem já especulado sobre o paralelo entre as personagens de
I giorni dell'ira com as de
Star Wars. Dá que pensar!
Um excelente argumento, superiormente interpretado por um elenco muito bem escolhido, que não se esgota de modo algum nas já então estrelas do cinema europeu - Lee Van Cleef e Giuliano Gemma - associado a uma cuidada escolha de cenários, filmagem e montagem de se lhe tirar o chapéu, e claro, uma inesquecível trilha sonora; fazem de
I giorni dell'ira um clássico imperdível!