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02/01/2012

Garringo (1969 / Realizador: Rafael Romero Marchent)

Neste relativamente desconhecido psico-western, o espanhol Rafael Romero Marchent reúne sob o mesmo cartaz dois astros do género, o macambúzio Anthony Steffen (no papel de implacável Tenente Garringo) e o louro com cara de menino da mamã, Peter Lee Lawrence (enquanto Johnny, um assassino de militares). O filme sofre de diversas falhas rítmicas mas têm os seus trunfos e bem vistas as coisas acaba por ser minimamente interessante para vos poder recomendar para estes dias frios que aí estão à porta.

Via flashback ficamos a conhecer o passado de Johnny (Peter Lee Lawrence). Na sua infância Johnny assiste à execução do seu pai pela mão de um oficial do exército. Em choque a criança foge do local acabando por ser encontrado por Klaus (José Bodalo) que acaba por o salvar e adoptar. Mas a dramática cena marca-o profundamente e depois de crescido o seu lado mais psicótico vêm ao de cima abraçando o caminho dos fora-da-lei. Os seus actos criminosos dirigem-se especialmente para com os oficiais do exército, que pune brutalmente sem que tenham a mínima oportunidade de defesa. Depois de executadas todas e quaisquer fardas azuis que se lhe passem pelo caminho envia ainda sarcásticos recados às chefias do exército, subscrevendo-se em todas elas.


Decididos em terminar com os actos de Johnny, os cabecilhas do exército decidem dar uma segunda oportunidade ao implacável tenente Harris, que libertam da prisão militar com a missão de identificar e capturar o perturbado rapaz. Mesmo que para isso use os brutais métodos que o haviam colocado por detrás das barras do forte. Depois de quatro anos malvadez longe de casa, Johnny regressa para junto de Klaus que entretanto se tornou o xerife da cidade. O seu regresso não é no entanto inocente, na verdade apenas se deve a um golpe que planeia executar sobre um carregamento de ouro do exército que passará pelas redondezas. Mas Garringo segue as suas pistas alcançando os parceiros de Johnny, acabando por chegar finalmente perto do bandido.

Entre tantos e tantos westerns europeus, convenha-se dizer que nada aqui é realmente extraordinário, mas “Garringo” têm ao menos o privilégio de conter aquela que muitos consideram a melhor interpretação do austríaco Peter Lee Lawrence. O papel de vilão permitiu-lhe sair da habitual pele de pistoleiro bonzinho por quem as miúdas suspiram. Ele saca aqui uma interpretação bastante variada. Ora encarna o papel de simpático rapaz, aparentemente enamorado pela filha do novo médico da cidade, que numa cena algo comovente agracia a rapariga com um belo vitelo! Mas o mesmo rapazola é capaz de matar uma mão cheia de soldados sem pestanejar apenas pelo simples prazer de matar.


Surpreendentemente Marchent foge ao típico duelo entre o bom e o mau, acabando por colocar o louro doido nas mãos de um dos seus criminosos parceiros. Também os caracteres dos dois personagens principais são algo antagónicos. Johnny é um rapaz bem-educado, agradável ao olho mas completamente abrasado da cabeça, que mata oficiais e lhes retira as insígnias como troféu que guarda na campa do seu pai. Já o Tenente Garringo apesar de representar o lado da lei, julga-se acima dela usando todos os meios para eliminar a corja da sociedade. Os seus métodos são desaprovados pela lei militar e – ainda que temporariamente – até o levaram a ver o sol aos quadradinhos, mas mesmo depois de libertado não hesita em matar um homem indefeso. O que faz então os seus actos mais justificáveis que os de Johnny?

Os cenários utilizados são algo pobres mas ainda assim têm a curiosidade de contar com uma sequência rodada nas ruínas de El Cercón, mosteiro nos arredores de Madrid que ficou imortalizada no clássico do terror luso-espanhol “A noite do terror cego”. Em 1971 outro filme com «Garringo» no título chegou aos cinemas italianos – “Sei giá cadavere amico… ti cerca Garringo!” – mas não se trata de uma sequela. Na verdade o título original espanhol nem contém a menção a «Garringo», mas sim a um mais rentável herói do género: «Sabata». Anos loucos para o cinema europeu! Já a testada dupla Steffen e Lawrence voltar-se-ia a encontrar alguns anos mais tarde num western-spaghetti de contornos cómicos, bem diferente deste aqui. Filme que chegou a ser lançado nalguns países como “Arriva Garringo”, mas desengane-se também quem julgar que se trata de uma sequela.

“Garringo” está disponível em DVD através da editora espanhola Impulso Records, é mais um dos filmes incluídos na “La colección sagrada del spaghetti western”. Tem áudio em espanhol e imagem em widescreen.


Mais imagens do filme:



Trailer:

19/07/2011

Professionisti per un massacro (1967 / Realizador: Nando Cicero)

Neste explosivo filme de Nando Cicero somos levados para os anos da Guerra da Secessão. Enquanto o Exército do Sul investe sobre uma cidade sob domínio nortista, um grupo de soldados pouco escrupulosos aproveita o caos instalado para assaltar os cofres de um banco local. Já de volta ao quartel, os três afoitos patifes desviam uma considerável porção de armas que se apressam a negociar com o Exército da União. A transacção é feita mas os soldados azuis não chegam longe, já que Preacher (George Hilton) se encarrega de acender o rastilho de uma carga de dinamite refundida no carregamento de fuzis.

As armas e os soldados vão pelos ares, mas desta vez o plano sai-lhes furado e são capturados pelo Major Lloyd (Gerard Herter), que os entrega ao tribunal militar. Ao mesmíssimo Major é-lhe entregue a missão de escoltar um importante carregamento de ouro que o Exército da Confederação tenciona usar na compra de armamento, mas o oficial e seus cúmplices aniquilam os camaradas de armas, saindo de cena com o ouro e uma inestimável metralhadora.


Ao bom estilo de “Doze Indomáveis Patifes”, os três condenados ganham a oportunidade de voltar a servir o exército. Agora não como soldados mas como larápios, salvando no processo os seus próprios pescoços. Para garantir o sucesso do resgate entra em cena um outro oficial, que terá a árdua tarefa de controlar os movimentos dos três malandros. E se quiserem saber mais terão mesmo de ver o filme!

A tripla de gatunos é interpretada por George Hilton, Edd Byrnes e George Martin; que dividem o protagonismo do filme sem que nenhum se destaque particularmente. Pessoalmente gostei sobretudo da personagem Fidel, um machão mexicano interpretado pelo actor espanhol George Martin, que aqui volta a demonstrar as suas habilidades de ginasta. George Hilton é Preacher, um piromaníaco com mania das contagens decrescentes. Bastante divertido na minha opinião, mas como fã confesso que sou do Uruguaio, não consigo ser isento na análise. Já Byrnes (Chattanooga Jim), apesar de ser o legítimo «gringo» do trio, acaba por ter a mais modesta das presenças, acabando por transmitir até a sensação de estar a fazer um grande frete.


Sem ser um mimo de competência cinematográfica e muito menos de originalidade, “Professionisti per un massacro” consegue ainda assim ser um bom veículo de entretenimento. Nando Cicero que curiosamente até começou por ser assistente de gente intocável como Luchino Visconti ou Roberto Rossellini, não faria carreira no western-spaghetti, realizando apenas mais dois filmes no género: “Due volte giuda” e “Il Tempo degli avvoltoi”. O seu nome haveria pois de ficar ligado às comédias eróticas dos anos 70, em que dirigiria por diversas vezes dois dos nomes maiores do género: Edwige Fenech e Alvaro Vitali.

“Professionisti per un massacro” está disponível em diversas edições DVD, tenho duas delas no meu acervo particular. A da editora espanhola Impulso, que conta com o filme num belo widescreen e áudio em Espanhol; e a da norte-americana Wild East que recomendo aqueles que preferem as dobragens em Inglês. Esta última é uma das famosas double features da editora, incluindo também “Sette winchester per un massacro” (filme realizado por Enzo G. Castellari e que também conta com Edd Byrnes nos principais papeis).


Mais alguns lobbys italianos:



04/11/2009

Django (1966 / Realizador: Sergio Corbucci)


Quando se aborda o tema westerns-spaghetti, o primeiro nome que vem à memória da esmagadora maioria é “Sergio Leone”. É com inteira justiça que isso acontece, já que foi o grande mestre do género e realizou obras marcantes. Contudo, Sergio Corbucci segue de muito perto o seu compatriota, se tivermos em conta as suas duas obras-primas: “O grande silêncio” e “Django”. Concentremo-nos neste último. O ano é 1966 e várias dezenas de westerns-spaghetti surgiram no grande ecrã até à data. Alguns desses filmes são maus, uns são medianos, outros são agradáveis, outros muito interessantes mas quase todos ainda bebem inspiração da abundante fonte clássica americana. Eis então que surge “Django”, uma obra genial que consegue em alguns aspectos ir ainda mais longe que “Por um punhado de dólares”. “Django” define perfeitamente o que é o western-spaghetti: violência, crueldade, sadismo, vingança, ambição, abundância de símbolos religiosos (caixão, cruzes, cemitérios) e, naturalmente, muitos tiroteios e respectivos cadáveres. As paisagens lúgubres, a cidade de aspecto desolador, enlameado e fantasmagórico, as cores escuras falam mais alto e são o ponto de partida para um marco da história do cinema. O sucesso foi de tal forma gigantesco que deu origem a dezenas de outros filmes com o nome do protagonista mas nenhum deles chegou sequer aos seus calcanhares (o nome tem a ver com um músico de jazz europeu chamado Django Reinhardt).


O enredo é simples: Django chega a uma localidade praticamente deserta a arrastar um caixão e envolve-se no meio de um conflito entre mexicanos revolucionários liderados pelo General Hugo e os fanáticos sulistas da Ku Klux Klan do Major Jackson. O objectivo é enriquecer às custas dos mexicanos e vingar-se de Jackson, o culpado pela morte da sua mulher. Após muita violência e um elevado número de mortos, Django defronta o seu inimigo mortal no cemitério. Dito desta forma até parece um filme perfeitamente banal mas a maneira como este projecto foi concebido (cenários, armas e figurinos são da responsabilidade de Carlo Simi) foi magnífica. A fotografia de Enzo Barboni e a arrepiante música do argentino Luís Enriquez Bacalov são excelentes. O leque de actores, liderados por Franco Nero, que passou de desconhecido a super vedeta, é composto por Loredana Nusciak, José Bodalo, Eduardo Fajardo e Angel Alvarez.


O sucesso desta obra-prima foi proporcional à polémica. A censura inglesa, por exemplo, baniu o filme até início dos anos 90 devido à excessiva violência (cortar uma orelha, esmagar mãos, chicotear mulheres) mas contra todos esses atritos “Django” resistiu e é hoje um filme de culto e obrigatório a todos os fãs do género. Hoje em dia é muito fácil comprar edições DVD deste filme em qualquer loja on-line excepto em Portugal, que é uma pobreza franciscana. Eu optei pela edição espanhola que tem boa qualidade de som e imagem (1.85:1). Não existem filmes perfeitos mas, na minha opinião, “Django” roça a perfeição.