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04/09/2020

Quanto costa morire (1968 / Realizador: Sergio Merolle)

O western spaghetti é frequentemente achincalhado por ser o género dos “Sergios”. Sergio Leone, Sergio Corbucci e Sergio Sollima, na linha da frente por razões óbvias. Já outros profetas do maldizer apontavam um quarto nome: Sergio Garrone. O tal que diziam que fazia um western por mês. Pimenta na língua desses abutres se ainda por cá andarem, a filmografia do homem tem altos e baixos mas merece ser descoberta. Mas hoje queremos falar-vos de outro Sergio de quem não reza a história, Sergio Merolle. Nunca ouviram falar? Não se admirem, ele só realizou este filme. 

Qualquer semelhança com o Trigero (O Grande Silêncio), não será mera coincidência.

Em vez das habituais vistas áridas de Almeria a acção do filme é ambientada nas montanhas nevadas do Colorado (na verdade a rodagem foi feita nos arredores de Roma). Um cenário anormal no género, usado apenas esporadicamente, mas curiosamente quase sempre com resultados acima da média. Senão lembrem-nos do excelente “O Grande Silêncio” ou do violentíssimo “Condenados a vivir”. E este aqui também não é nada mau, mas já lá vamos. 

John Ireland (esquerda) e Andrea Giordana (direita) em séria reflexão.

Um bando de ladrões de gado toma refúgio numa aldeia encostada às montanhas nevadas. A passagem para o lado de lá está intransponível e o único remédio é aguardar que a tempestade passe. O xerife não gosta da ideia de ter estes malandros nas redondezas, mas dá-lhes algum tempo para que se abriguem e recomponham. No entanto os vaqueiros rapidamente armam confusão e o xerife não está com falinhas mansas e dá-lhes guia de marcha. Um dos meliantes é um velho conhecido do xerife e tenta demovê-lo de um confronto, mas em vez disso o teimoso do xerife convoca a população com intuito de convencê-los a tomar conta da situação. Só que a tomada de posição dá para o torto e o desgraçado é abatido pelo vil Scafie, que faz questão em executá-lo na presença de toda a população. 

O opressor aplica tácticas de terror sobre a população.

Scafie, interpretado pelo badass Bruno Corazzari, é aquilo a que podemos chamar um verdadeiro filho da puta, não muito diferente da personagem de Klaus Kinski em “O Grande Silêncio”. Um dos vários pontos comuns entre ambas as obras. Mas o filme sobrevive enquanto obra distinta, como veremos de seguida. Após esta situação trágica, a aldeia é escravizada pelo bando. Terão de construir currais para o gado roubado pela vilanagem e até satisfazer os seus desejos mais primitivos, se é que me faço entender. É então que o jovem Tony (Andrea Giordana) resolve escapulir-se para as montanhas. Atacando estrategicamente diversos elementos do bando. A ele junta-se o velho Dan El (John Ireland), que deixou de ter paciência para aturar as merdas do Scafie. 

Lamentavelmente não é possível disfrutar da fotografia do filme no seu formato original.

A partir desse momento o filme começa a tomar contornos mais interessantes, únicos se quiserem. Os dois vão iniciar uma espécie de movimento de resistência civil, expulsando eventualmente o opressor. Se isto vos soa mais a sinopse de filme de guerra que a western, então estão a entender a metáfora do filme. Vejamos, como é sabido a Itália foi durante a segunda guerra mundial incluída no Eixo Nazi. Os alemães tomaram conta do pedaço com a conivência de Mussolini e não faltaram episódios de italianos contra italianos. Sergio Merolle parece ter arranjado forma de mostrar esses movimentos partisans no seu western. Chapeau! 

Uma vida por um misero pedaço de pão.

Em suma um filme ambicioso com ambiente pesado, frequentemente negrume e com um enquadramento dramático bastante aceitável. Não é totalmente original, acredito piamente que Merolle se tenha influenciado em “Homens de Gelo” (clássico de André de Toth, lançado em 1959), mas a mescla com este enquadramento histórico é de mestre. Então, mas porque não vingou? É difícil responder a essa questão passados mais de 40 anos, pior não existindo muito sururu à volta dele. O elenco está muito bem, a música de Massi é soberba e perfeitamente enquadrada na acção do filme, na verdade só a fotografia das cenas interiores me pareceu demasiado amadora. O filme é um “must see” do género, mas como dizia lá atrás o senhor Sergio Merolle, não voltou a tentar a sorte na realização. Uma pena!

21/03/2017

Lo ammazzò come un cane... ma lui rideva ancora (1972 / Realizador: Angelo Pannacciò)

Assaltaram o rancho de Nick Barton! Rapinaram e mataram tudo e todos! Ou será que não? O patriarca estava ausente e, consequentemente, safou-se. A sua filha Suzy escapou à morte mas foi selvaticamente torturada e violada! Todos os outros membros da família ganharam um lugar no cemitério. O ataque foi da responsabilidade de Ransom e dos seus pistoleiros (um deles é irmão do xerife). Kimble, um tipo misterioso que veste um sobretudo preto, usa o cinturão a tiracolo e anda com uma flauta ao pescoço, já está farto das brutidades de Ransom e decide dissolver a sociedade, abandonando o grupo. O seu ex-chefe não fica nada satisfeito e planeia fazer-lhe a folha brevemente. Enquanto isso, Nick Barton chega a casa e depara-se com um quadro verdadeiramente dantesco! Sepulta os mortos, cuida da filha e parte em busca de vingança. Encontra casualmente Kimble (este diz que conhece os agressores), Barton paga-lhe mil dólares para o ajudar nesta demanda e ambos unem forças.

O justiceiro sedento de vingança!

À medida que o tempo vai passando, os bandidos ficam cada vez mais nervosos, de tal modo que Ransom mata o irmão do xerife numa estúpida discussão. O xerife, quando sabe do ocorrido, passa-se da marmita! As culpas recaem injustamente sobre Kimble. Entretanto, o flautista e o rancheiro Barton continuam a cuspir fogo dos seus revólveres e todos os culpados do ataque ao rancho são eliminados. Tudo parece resolvido até que… a sinistra melodia de uma flauta desperta más recordações a Suzy!

Flautista de Hamelin? Não! Flautista dos westerns!

Assinado sob o pseudónimo Mark Welles, Angelo Pannacciò assinou um western-spaghetti interessante feito com meia dúzia de trocos, revisitando cenários degradados e sujos, tal como manda o protocolo. Alguns anos mais tarde, o realizador abandonou as pistolas e os chapéus e dedicou-se a outros “tiros” na indústria porno. Em suma: “Death Played The Flute” é série B da cabeça aos pés.