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2016/11/22

Dio li crea... io li ammazzo! (1968 / Realizador: Paolo Bianchini)

Nem o próprio Paolo Bianchini acreditaria que a sua primeira aventura no western-spaghetti fosse recordada quatro décadas depois do seu lançamento, mas aconteceu! Nesse longínquo ano de 1968, o artista fazia a transição da função de assistente para a cadeira de manda-chuva, ainda tinha por isso de aceitar projectos baratuchos como este. O argumento é de Fernando Di Leo, que se tornaria alguns anos depois num dos pesos pesados do policial italiano. Não sei se propositado ou não, Di Leo parece ter reciclado a história de "Sugar Colt", experimentada com sucesso dois anos antes pela mão do nosso bem-amado, Franco Giraldi. Pode até ser embirração aqui do alentejano mas a personagem principal parece sacada a papel químico. Ora vejamos, um pistoleiro a soldo com pinta de galã, investiga um caso mal explicado. No primeiro seria o desaparecimento de um regimento de soldados, aqui trocou-se o «capital humano» por um factor mais comum ao universo western: assaltos a carregamentos de ouro!

Deus cria-os, Dean Read mata-os! E ainda arranja tempo para nos cantar o tema "God Creates Them, I Kill Them".

Mas a categoria do supracitado, "Sugar Colt", é francamente superior. Giraldi como profundo conhecedor das manhas do género, soube bem como transformar uma ideia estapafúrdia num mini-clássico. Ainda assim, não descartem já este intento. "Dio li crea... io li ammazzo!" é um daqueles westerns em que há mais conversa do que propriamente tiroteio e porrada, coisa que demoverá alguns, porém interessa também exaltar as coisas boas, como é o caso do trabalho de fotografia de Sergio D'Offizi, francamente acima da média.

Dean Reed suposto espião na vida real, interpreta ele próprio uma espécie de 007 do western-spaghetti.

O papel principal do filme foi entregue a Dean Reed, que a rapaziada mais velha reconhecerá também de outras andanças. Reed iniciara anos antes da sua chegada a Itália, uma carreira enquanto cantor. Algo que lhe valeu fama em alguns países, nalguns terá mesmo atingido um reconhecimento popular superior ao do próprio Elvis Presley, imaginem só! As suas ideologias politicas valeriam-lhe a apropriada alcunha de Red Elvis. Bianchini relembra em entrevista incluída na "Koch Media - Italowestern Enzyklopädie No.2", as fortes convicções comunistas de Reed, que ao que as más línguas dizem, ter-se-à tornado espião e silenciado por tais actos. Os mais paranóicos acreditam que o seu suicídio foi mais um daqueles embustes que nos habituámos a ver nos filmes de espionagem da guerra-fria. Existe um documentário interessante sobre a vida do actor (Der rote Elvis), em que tudo isto se aborda mas francamente pareceu-me inconclusivo.

Pietro Martellanza é Don Luis del la Vega, um vilão à medida do nosso herói.

Fora de conspirações, o que a nós nos interessa é a habilidade do americano no manejo do revolver e afins. E amigos, nas cenas de acção a cavalo, o americano não falha. Pode até parecer irrelevante mas são estes pormenores que permitem que o realizador use planos mais elaborados e não aquelas filmagens manhosas a um quilómetro de distância, para esconder as fuças de um duplo qualquer.

Parece que alguém vai levar chumbo quente no bucho!

O tal DVD da Koch Media é excelente, o filme apresenta-se com uma imagem cristalina e com opções áudio para todos os gostos (inglês, italiano, alemão) e ainda a dita entrevista com o realizador, documentários, galerias e trailers. A edição aparece em formato pacote e contém ainda os filmes: "California", "Dio non paga il sabato", e "Campa carogna... la taglia cresce". Valeu os malvados euros!


Mais propaganda da barbarolândia:



2012/02/27

Sette pistole per i MacGregor (1966 / Realizador: Franco Giraldi)

Um grupo de bandidos mexicanos rodeia o rancho dos MacGregor com intenção de lhes roubar a manada de cavalos. Apenas quatro idosos se encontram no rancho pelo que o golpe parece fácil, mas a ladroagem não podia estar mais enganada. Os velhos pioneiros escoceses têm pelo na venta e recebem o bando a tiro. A saraivada de balas que se gera não chega para demover os assaltantes o que leva os velhos MacGregor a utilizar o meios mais estrondosos, um canhão que carinhosamente chamam de Rainha Ana.

Alertados pelo estrondo dos tiros de canhão, os sete MacGregors mais novos apressam-se a regressar ao rancho em auxílio dos velhotes, acabando por espantar os bandidos. Decidem então levar o gado para Las Mesas, onde o tentarão vender ao melhor preço. Aí encontrarão Crawford (Chris Huerta) que os tentará enganar no negócio. A coisa acaba com toda a gente do saloon à pancadaria e os sete escoceses acabam na cadeia do Xerife John F. Mason (Antonio Molino Rojo), um escroque escondido por detrás da estrela da lei.


Gregor MacGregor (Robert Woods) que age como líder da família engendra um mecanismo com as esporas das botas que lhes permitirá destruir a parede da cela e assim conseguem escapar. Mas para seu infortúnio também os cavalos desapareceram dos currais. Para reavê-los Gregor infiltra-se no bando de Santillana (Leo Anchoriz), responsável pelo furto assumindo para tal a falsa identidade de um foragido procurado pela lei. Depois de aceite no bando, toma partido da informação privilegiada para sabotar todos os actos de Santillana e seu braço direito, Miguel (Fernando Sancho). À boa moda do western europeu, Gregor acaba por ser desmascarado e por consequência espancado pelos fora-da-lei. Mas escapa eventualmente de modo a poder voltar e aniquilar o bando.

Franco Giraldi que anteriormente havia sido responsável pela segunda unidade de Sergio Leone em “Por Um Punhado de Dólares” estreia-se na cadeira de realizador neste aventuroso “Sete pistolas para os Macgregor”. Para o efeito usou inclusive alguns dos cenários do primeiro nomeadamente a vila de San Miguel que para aqui renomearia como El Rojo, numa clara homenagem para com o filme de Leone. Mas o filme de Giraldi privilegia os elementos cómicos em detrimento da violência mais visceral e gratuita. Em geral poderia-se dizer que é um filme interessante mas que vive longe da perfeição, sendo pejado de lugares comuns e muitos erros de raccord a que se lhe possa apontar o dedo. Apesar disso tornar-se-ia um dos primeiros westerns-spaghetti cómicos a atingir o sucesso comercial tendo mesmo sido mote para uma sequela – “7 Mulheres Para os MacGregor” – também realizado por Giraldi.


Infelizmente a passagem dos anos fez com que o filme se ressinta, sendo necessária alguma predisposição para vê-lo de fio a pavio. Eu já conto com uma versão DVD do filme na minha colecção há alguns anos e por duas ou três vezes tinha tentado vê-lo, mas tanta palhaçada nos primeiros 10 minutos levaram-me sempre a carregar no botão «stop» e voltar a colocar o DVD na prateleira. Apesar disso na recente quadra natalícia, em que se toleram opções mais leves e descontraídas, decidi voltar a tentar. E desta vez até ao fim!

O DVD de que falo é uma edição da Divisa, editora espanhola que tem um bom punhado de westerns-spaghetti editados na terra de nuestros hermanos. Por regra as suas edições contém os filmes em formato widescreen, áudio em espanhol e sem extras de destaque. Tenho encontrado ocasionalmente parte desse catálogo em lojas especializadas espanholas e sempre me ficaram em conta. Actualmente, como já abriu a sucursal espanhola da Amazon, viver a meia-dúzia de quilómetros da fronteira espanhola já não se pode considerar uma vantagem para o coleccionador destes nichos. A facilidade de acesso a filmes destas editoras espanholas ficam ainda mais acessíveis aos fãs do género, o que naturalmente se louva.


Mais algumas fotos de família:


Trailer:

2011/08/09

Navajo Joe (1966 / Realizador: Sergio Corbucci)

Nunca se viu um western em que o herói andasse a vaguear como um fantasma a arrastar um caixão. Nunca se viu um western em que o herói fosse cobardemente assassinado pelos vilões. Era muito pouco habitual a presença de índios nos westerns-spaghetti. Não era nada habitual o protagonista ser um índio. Sergio Corbucci fez tudo isso. Em 1966, o cineasta italiano oscilou, para não variar, entre o seu toque de génio (Django) e a simples banalidade (Johnny Oro). Mas tudo isto começou quando Burt Reynolds, ator conhecido da televisão americana, ambicionava fazer a sua transição para o cinema.

No outono de 1964, o seu amigo Clint Eastwood chama-o ao Review Studios, em Hollywood, para ver o seu último trabalho, um western europeu de baixo orçamento filmado em Espanha e Itália. Burt Reynolds viu o filme e adorou! Mais tarde, Eastwood apresentou Reynolds ao influente produtor italiano Dino de Laurentiis. Já com Sergio Corbucci a dirigir as operações, numa de várias reuniões, Dino disse a Reynolds: “Este filme vai ser ainda melhor que os anteriores! Eastwood matou 100 pessoas mas tu vais matar 245!”


O enredo é simples e violento: Duncan, uma besta da pior espécie, lidera um bando de brutamontes cuja ocupação é massacrar aldeias de tribos índias para depois vender os escalpos. Mas os tempos mudaram, já não há conflitos entre brancos e índios, mas Duncan não aceita isso e arrasa tudo por onde passa! Mas um misterioso índio navajo persegue esse violento grupo e sempre que há uma oportunidade deita a luva a uns quantos mal-encarados e faz trinta por uma linha! Mas qual será o seu verdadeiro motivo?


“Navajo Joe” é um filme simples, apesar de ter beneficiado de um orçamento generoso! Não é muito bom mas também não é mau. Digamos que é um filme do meio da tabela (falta-lhe claramente a magia de outros filmes; tudo parece demasiado forçado; alguns diálogos nem sequer fazem sentido). Os pontos altos são o tiroteio em frente do banco da cidade e o final pessimista típico de Corbucci. Para mim, o maior trunfo é a magnífica música de Ennio Morricone. Resta apenas dizer que, apesar de ter conseguido dar o tão ambicionado salto para o grande ecrã, Burt Reynolds admitiu mais tarde que não gostou desta experiência. Paciência…


Mais alguns lobbys gringos:




Trailer:


2010/04/04

Il ritorno di Ringo (1965 / Realizador: Duccio Tessari)


A literatura da Antiguidade Clássica grega e latina marcou há muitos séculos atrás a nossa vida. Portugueses, espanhóis, italianos e gregos foram educados e regidos segundo uma matriz clássica que hoje temos bem presente nas obras literárias de Cícero, Tito Lívio ou Virgílio. No caso português, Luís Vaz de Camões, considerado o príncipe dos poetas renascentistas, é o caso mais marcante com “Os Lusíadas”. Contudo, acima de todos estes nomes está Homero. Este brilhante poeta grego é o expoente máximo da literatura greco-latina clássica porque as epopeias “A Ilíada” e “A Odisseia” ainda hoje são objecto de estudo, são ricas em simbologia e são fundamentalmente um tributo aos povos do mediterrâneo. Como se sabe, antes da exploração até à exaustão do western houve a exploração até à exaustão do “peplum” na Itália dos anos 50. Temas como a guerra de Tróia, o império romano, os gladiadores, os temas religiosos e os feitos dos heróis (Hércules, Sansão, Ulisses, Aquiles, Eneias, Ursus, Maciste) viram a luz do dia pelos mesmos cineastas que mais tarde se dedicariam ao western. Sergio Leone considerava Homero como o primeiro criador de westerns mas ironicamente foi o seu amigo Duccio Tessari quem transformou a parte final de “A Odisseia” num western. O resultado foi O regresso de Ringo.


Este filme tem todos os elementos chave da epopeia homérica que tem como protagonista Ulisses, o mais astuto dos heróis gregos. O herói volta da guerra após anos de ausência. Ao chegar vê-se confrontado com uma dura realidade: a cidade onde vivia foi tomada de assalto e ocupada por forasteiros. Como se não bastasse a sua esposa é forçada a viver com o líder invasor, sempre na esperança de ver o marido regressar são e salvo, tal qual Penélope espera por Ulisses sem nunca casar com os pretendentes (símbolo da fidelidade feminina). A única forma do herói obter sucesso é infiltrar-se na cidade disfarçado e aguardar pela hora certa para ajustar contas! Este é o final de “A Odisseia” e é o enredo de “O regresso de Ringo”. Ulisses passa a ser Giuliano Gemma, Penélope é Hally Hammond e os vilões estão a cargo de George Martin e Fernando Sancho. A Guerra de Tróia é substituída pela Guerra Civil Americana e a justiça vai prevalecer ao fim de 90 minutos de acção, drama, traição, violência e amor.


Na minha opinião, este filme é em tudo superior ao seu antecessor Uma pistola para Ringo. Pessoalmente nem sequer considero que ambos os filmes estejam ligados porque são muito distintos. Por acaso, “O regresso de Ringo” até está editado em DVD em Portugal juntamente com “Uma pistola para Ringo” numa caixa de dois discos intitulada “Caixa Giuliano Gemma”. Conheço o conteúdo mas preferi a versão francesa no formato original 2.35:1 sem legendas e áudio em francês. Esta edição tem extras bem interessantes mas breves. O documentário “De Ringo a Ulisses” tem cerca de 10 minutos mas é esclarecedor. Há também uma entrevista de 7 minutos com Vera Gemma, a filha de Giuliano Gemma, que nos ilumina sobre o sucesso que o seu pai teve na Itália e além fronteiras. Fala do privilégio que foi passar a sua infância nos bastidores dos westerns protagonizados pelo seu progenitor e afirma que, após muitas viagens ao Japão, só dois actores europeus provocavam tantas paixões loucas e tanta histeria naquele país: Um deles é o francês Alain Delon, o outro é o italiano Giuliano Gemma! Eis a prova que os westerns-spaghetti são admirados e respeitados pelo mundo inteiro! Quem defende o contrário pode fazê-lo mas está enganado!


Trailer

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