Está aí a primeira de três participações no VHS Podcast do Daniel Louro e do Paulo Fajardo, nesta primeira conversa falámos de "Imperdoável", o grande vencedor dos Óscares de 1992. Este ano também temos westerns na corrida, será que a balança pende para o género?
Clint Eastwood, Sergio Leone e Eli Wallach nas filmagens de "O Bom, o Mau e o Vilão"
Inicialmente Clint Eastwood não ficou satisfeito com o roteiro do filme e estava preocupado que fosse ofuscado por Eli Wallach, e disse a Leone, "No primeiro filme eu estava sozinho. No segundo éramos dois. Aqui somos três. Se continuar desta forma, no próximo eu vou ser a estrela da cavalaria americana".
Recordamos que amanhã passa um dos melhores filmes de sempre na sala de cinema mais bonita de Lisboa. Os bilhetes estão à venda no local e aqui. E tu, vais perder esta oportunidade?
Este ano, o 8 ½ Festa do Cinema Italiano em colaboração com a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema organiza uma retrospetiva de Sergio Leone - cineasta que popularizou em todo o mundo o género Spaghetti Western. Com atores célebres como Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté, Eli Wallach e Charles Bronson, que se tornaram verdadeiros ícones do género, músicas que fizeram a história das bandas sonoras do cinema graças ao génio do maestro Ennio Morricone, juntamente com um talento cinematográfico único fazem das películas de Leone verdadeiras obras-primas da sétima arte, amadas pelo público de todo o mundo. Nesta retrospetiva, o 8 ½ apresenta, pela primeira vez em Portugal, algumas das suas obras em novas versões restauradas em formato digital, entre as quais a antestreia do director’s cut do célebre Era uma vez na América e a versão em 4K de O Bom, Mau e o Vilão. Em Abril, na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema:
O Colosso de Rodes (Il Colosso di Rodi)
Por um Punhado de Dólares (Per un Pugno di Dollari)
Por uns Dólares a Mais (Per Qualche Dollaro in Più)
O Bom, o Mau e o Vilão (Il buono, brutto e cattivo)
Era uma Vez no Oeste (C’era una volta il West)
Quando Explode a Vingança (Giù la testa)
Era uma Vez na América (C’era una volta in America)
Ennio Morricone já havia composto uma banda sonora para um western - Duello nel Texas - antes de ser convidado pelo seu antigo colega de escola para fazer a trilha do seu novíssimo projecto, “Per un pugno di dollari”. Sergio Leone não escondeu nunca que esse trabalho anterior de Morricone não era do seu agrado mas mesmo assim confiou-lhe o projecto e o resultado haveria de tornar um dos alicerces do western europeu. Reciclado dezenas e dezenas de vezes.
Esta é uma das bandas sonoras que mais me marcou a infância. Sempre que lá em casa se alugava o VHS do filme, via e revia até à exaustão a famosa dança fúnebre que ilustrava o genérico do filme. Hoje cruzei-me novamente com ela enquanto bisbilhotava a base de dados do Grooveshark, e por isso decidi partilhar!
Com o seu primeiro western, Sergio Leone deu início a uma nova fase do cinema italiano mas agora sentia na pele as desvantagens de ter assinado de forma precipitada um contrato pouco vantajoso com a Jolly Films. O contrato dizia que Leone era forçado a fazer outro filme e sucediam-se os conflitos com os produtores Arrigo Colombo e Giorgio Papi. O cineasta sentia-se injustiçado na divisão dos lucros e antes de cortar o mal pela raiz e rescindir unilateralmente disse aos produtores da Jolly Films: “Vou processá-los em tribunal! Eu nem sabia se queria fazer outro western mas agora vou mesmo fazer, só para vos chatear! E o título vai ser… Por Mais Alguns Dólares!” O advogado que se ocupou do processo foi um tal Alberto Grimaldi.
Grimaldi também tinha ambições no cinema, já tinha produzido três westerns de Joaquin Romero Marchent, mas aguardava por uma grande oportunidade. Viu em Sergio Leone o homem certo para apostar e fez-lhe uma proposta irrecusável: Para o novo filme, a produção garantia as despesas, os salários e 50% do lucro das bilheteiras ia diretamente para o bolso do realizador! Mas a guerra de bastidores continuava e, numa jogada cínica, Colombo e Papi contactaram Clint Eastwood e tentaram convencê-lo para protagonizar uma sequela produzida pela Jolly Films, desviando-o do caminho de Leone. Contudo, Eastwood não aceitou e pouco tempo depois Leone viajou de propósito aos Estados Unidos para resgatar o ator para uma segunda aventura juntos.
Mas “Por Mais Alguns Dólares” não podia ter apenas um protagonista. Henry Fonda, Charles Bronson, Lee Marvin e Robert Ryan recusaram categoricamente. Em Los Angeles, um dos assistentes de Leone facultou-lhe um documento com uma fotografia de um ator de segunda linha e que agora tinha desaparecido misteriosamente após um grave acidente de viação. Ao ver a foto, Leone decidiu instantaneamente: Lee Van Cleef era o homem certo e nada mais interessava! Com uma mala cheia de dinheiro, Leone apresentou o contrato ao ator e 10 000 dólares. Foi mais do que suficiente…
O filme gira em torno de dois caçadores de prémios que perseguem o psicopata / assassino / ladrão / drogado / violador El Índio. Enquanto um quer o dinheiro da recompensa o outro parece ter outras razões. Alguns momentos do filme ficam para sempre na memória dos cinéfilos, nomeadamente o duelo final dentro de uma área circular, a “arena da vida”, como Sergio Leone lhe chamava, “o momento da verdade na hora da morte”, tudo isto acompanhado pela genial partitura musical do mestre Ennio Morricone.
O filme estreou no outono de 1965 e foi um sucesso gigantesco, tornando-se no filme mais rentável em Itália durante vários anos. Lee Van Cleef ascendeu ao estatuto de estrela, Clint Eastwood confirmou as suas credenciais de super vedeta e Sergio Leone matou dois coelhos com uma cajadada só: conseguiu mais um extraordinário marco da História do Cinema e vergou definitivamente as intenções malévolas dos seus inimigos de estimação.
Se é verdade que o western clássico americano foi a grande inspiração da maioria dos cineastas europeus por detrás do western-spaghetti, não menos verdade é que os papeis se inverteriam com o passar dos tempos. O estigma inicial lançado por alguns puristas americanos sob a reciclagem do género feito por realizadores europeus - Ford inclusive - haveria de se esvanecer e não muito tempo depois o western europeu passaria também ele a ser fonte de inspiração para um punhado de realizadores americanos ligados ao género western, mas não só.
Nos dias que correm, é Quentin Tarantino o nome mais relacionado com o universo do western-spaghetti. Os seus filmes transpiram influências do cinema série B por todo o lado e o subgénero western-spaghetti é sem dúvida uma das componentes mais presente. Num futuro não muito distante Tarantino presentar-nos-à mesmo com o seu primeiro western: "Django Unchained".
Mas antes dele outros entenderam e reformularam as fórmulas existentes. Sam Peckinpah, contemporâneo de Leone e Corbucci, terá sido porventura o nome mais enigmático dessas décadas, propondo uma mescla entre a estrutura dos grandes clássicos americanos e a violência crua, típica dos filmes rodados em Espanha ou Itália.
Como Peckinpah também Clint Eastwood contribuiu para a reformulação do western americano. Depois de filmar sob as ordens de Sergio Leone na “trilogia dos dólares”, Eastwood regressaria aos Estados Unidos com outro estatuto. Em 1973 realizou e protagonizou o seu primeiro western, "High Plains Drifter". Neste interpretaria um fantasmagórico pistoleiro sem nome, em muito semelhante ao personagem Django, que Anthony Steffen imortalizou anos antes no interessante western italiano "Django il Bastardo" (de Sergio Garrone).
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Two Mules for Sister Sara (1970 / Realizador: Don Siegel)
Alguns anos antes de que Clint Eastwood tomasse as rédeas dos seus próprios westerns, unir-se-ia a Don Siegel num projecto em que de algum modo quase satiriza os westerns europeus popularizados pelo próprio Eastwood. O filme rodado em pleno México segue a linha do popular subgénero zapata-western. Em que um pistoleiro estrangeiro se envolve na revolução mexicana com o único objectivo de enriquecer rapidamente. Afinal de contas, aquilo que Sergio Corbucci usara anos antes no seu "Il Mercenario".
Eastwood interpreta Hogan, um mercenário mal-encarado que salva a freira Sara (Shirley MacLaine) das garras de um bando de pulhas, que se preparavam para a violar. A freira acaba por seguir viagem com Hogan, que se vai aproveitando dos seus conhecimentos sobre uma fortaleza francesa que pretende invadir com os seus clientes, os revolucionários Juaristas.
As parecenças estilísticas de "Os abutres têm fome" (titulo Português) com o western-spaghetti não se resumem ao enredo zapatista. A banda sonora ficou sob responsabilidade do grande maestro italiano Ennio Morricone, que aqui compôs uma trilha bastante cómica, baseada nos urros das mulas! A utilização de compositores italianos em produções americanas repetir-se-ia aliás por diversas ocasiões. Lembre-se o caso do saudoso filme de acção "Lone Wolf McQuade", protagonizado pela super-estrela do cinema de pancadaria Chuck Norris, e cujo tema principal responsabilidade de Francesco De Masi (outro dos grandes maestros italianos) se tornaria tão icónico quanto o filme para que foi composto.
Actualmente "Os abutres têm fome" goza de fraca popularidade, sendo desvalorizado quer pela critica quer pelo próprio Eastwood. Mas para mim continua a ser um dos mais divertidos westerns feitos do lado de lá do Atlântico. Penso pois que merecia maior atenção!
Rapazito nascido e criado em Portalegre mas mudou-se para os ares de Alcochete na vida adulta. Ávido devorador de pernas de rã. Adepto dos Belenenses. Ouvinte de música com distorção e fã incondicional de westerns-spaghetti desde tenra idade!
EMANUEL NETO
Nizorro que sempre viveu em Portalegre, cedo ganhou o gosto pelos westerns-spaghetti. Grande fã de Megadeth e heavy metal em geral, é também um compulsivo leitor que, entre vários tipos de literatura, nunca dispensa Tex e Zagor!