Ainda não fez muito tempo que recebi via EUA uma das edições “Spaghetti Westerns” da Mill Creek Entertainment. Esta editora tal como a infame Videoasia têm primado pelas suas económicas edições compilatórias, em grande parte preenchidas por alguns dos piores euro-westerns jamais filmados, coisas que só o mais ávido coleccionista quereria ter nas suas prateleiras. Ora, quando se paga menos de 10 euros por uma caixa com 5 DVDs preenchidos com 20 filmes, qualidade de imagem e som é algo que não se pode exigir. As versões aqui incluídas são claramente transferências manhosas de antigas cassetes VHS, mas ainda assim são um belo meio para quem quer conhecer “tesourinhos deprimentes” como este
“Meu nome é Shangai Joe”!
Sozinho contra o mundo.
O filme foi lançado em 1972, ano em que a popularidade dos westerns de produção europeia decrescia a passos largos. As direcções apontadas pelo bem sucedido
Trinitá, Cowboy Insolente de Enzo Barboni pareciam ser a salvação para as bilheteiras, mas houve quem apostasse noutra direcção, cruzando o mundo das artes-marcais – então popularizado pelos filmes de Bruce Lee – com o western-spaghetti.
Mario Caiano, nome responsável por um dos primeiros westerns rodados em Almeria (
Le pistole non discutono) seria também o primeiro a realizar um “kung-fu spaghetti”! A acção do filme gravita em torno de Shanghai Joe (
Chen Lee), um imigrante chinês que chega ao oeste selvagem em busca de melhor vida. Já em São Francisco, Joe recusa trabalho numa lavandaria e compra bilhete para o Texas, onde se deparará com o racismo, escravatura e demais injustiças sociais da época. Obrigado a viajar junto às bagagens da diligência e abandonado num inóspito posto de paragem, o nosso herói é imediatamente troçado por um bando de saloios racistas locais. Não se conseguindo manter indiferente às provocações, distribui as primeiras doses de cacetada e segue caminho.
Este chinês está em apuros.
Joe procura então trabalho como vaqueiro, mas mais uma vez o preconceito racista leva-o a desancar mais uns quantos coirões. Tais feitos dão-lhe reputação na região e acaba por ser contratado pelos lacaios de Spencer (
Piero Lulli), mas afinal o emprego não consistiria em conduzir gado, mas sim em transportar mão-de-obra escrava desde o México até às terras de Spencer. No momento em que Joe se começa a aperceber do que se passa, surge o alarme da presença do exército mexicano e os bandidos apressam-se em eliminar todas as testemunhas. Tomando parte pelos mexicanos, Joe ganha um lugar especial na lista negra de Spencer, que o manda capturar.
Klaus Kinski ensaia mudanças de visual.
Numa das melhores cenas do filme, Shanghai Joe é colocado numa arena, em que mesmo amarrado terá de enfrentar um magnífico touro bravo! As habilidades marciais permitem-lhe pôr a besta em KO e sequestrar Spencer, que deixará algures no deserto. Spencer que tem o xerife local no bolso, fica impune às denúncias feitas por Joe e prontamente recruta quatro bandidos do piorio para por termo à vida do chinês: Pedro 'the Cannibal' (
Claudio Undari), Burying Sam (
Gordon Mitchell), Tricky (
Giacomo Rossi-Stuart) e Scalper Jack (
Klaus Kinski). Todos eles vão sendo eliminados à medida que entram em cena, e os associados de Spencer persuadem-no na contratação de um outro mestre das artes-marciais.
Se não o podes vencer de forma honrada...
"Il mio nome è Shanghai Joe" (titulo original italiano) não é um bom filme, muito longe disso, respira no entanto “exploitation” por todos os poros o que lhe confere algum interesse mediático. Como qualquer filme digno de ser colocado nesse pútrido saco, prima pela violência exagerada. Aqui vale mesmo tudo, até arrancar olhos! As cenas de pancadaria parecem hoje bastante datadas, mas agradarão pela certa aqueles que guardem alguma nostalgia pelos filmes de kung-fu lançados no inicio dos anos 70. O cruzamento entre o western-spaghetti e as artes-marciais não ficaria por aqui, uma vaga de filmes medíocres se seguiram. Daqueles que tive a oportunidade de assistir, este será o mais
gore de todos. Para estômagos fortes!