Sabata, o famoso circus-western de Gianfranco Parolini safou-se bem nas bilheteiras, La collina degli stivali idem e a coisa começou a tomar outras proporções. Enzo Barboni, o talentoso homem responsável pela direcção fotográfica de alguns dos filmes de Sergio Corbucci (Django, I crudeli, etc.), que até já tinha alcançado a realização de um filme (interessante mas não propriamente rentável), conseguia agora convencer uma produtora a lançar o seu grande - e supostamente antigo – projecto. O que lhe permitiria sair definitivamente de detrás das câmaras para assumir os comandos da “locomotiva”. Ao que parece Peter Martell e George Eastman, as estrelas dessa sua estreia enquanto realizador - Ciakmull - L'uomo della vendetta - estavam escalados para assumir o protagonismo de “Trinitá, Cowboy Insolente” (mais um brilhante título nacional). No entanto foi a dupla Terence Hill/Bud Spencer, já antes testada com sucesso na trilogia de Giuseppe Colizzi (Dio perdona... Io no!, I quattro dell'Ave Maria , La collina degli stivali), que ficou com os papeis de Trinitá e Bambino, respectivamente.
A história do filme gira em torno destes dois delinquentes que a páginas tantas acabam por salvar os indefesos agricultores locais da expropriação levada a cabo pelo corrupto vilão local. Nada de inovador portanto, dezenas de westerns americanos já haviam sido feitos com base neste modelo, mas Barboni renova a fórmula com o seu cunho pessoal. Os seus heróis são no mínimo improváveis: sujos, ladrões e devoradores de feijões! Na verdade, bastante muda com a batuta de Barboni: a violência gratuita e injustificada até agora habitual no género é reduzida a mínimos. No inicio do filme ainda vemos Trinitá e Bambino a despachar uns quantos, mas com o decorrer da acção as armas são despromovidas a simples acessórios e é ao punho e chapada que a patifaria acaba por ser enfrentada. O filme foi um sucesso, dentro do universo western-spaghetti registaria mesmo o maior encaixe financeiro do ano, dobrando os valores do segundo filme mais visto, Vamos a matar, compañeros (Corbucci), e deixando a léguas as sequelas das franchisings «Sabata» e «Sartana». A cena em que Terence Hill surge deitado numa esteira puxada pelo seu cavalo tornar-se-ia icónica, e uma sequela seria imediatamente forjada. ...continuavano a chiamarlo Trinità (1971) faria ainda maior furor nos cinemas e com este novo fôlego o spaghetti à italiana mudaria definitivamente de direcção.
Coincidência ou não, um dos maiores videoclubes da minha cidade natal, Portalegre (Alentejo, Portugal), chamava-se «Trinitá», foi lá que aluguei este filme por diversas vezes. Estas, somadas às inúmeras vezes em que o filme foi transmitido na televisão nacional, não me tiraram nunca a vontade de sorrir nas por vezes intermináveis sequências cómicas de pancadaria à Barboni. Mas com o passar dos anos olho agora de maneira diferente para “Trinitá, Cowboy Insolente”, analiticamente falando entendo agora o efeito trágico que a entrada em cena deste tipo de película causou. Ainda assim, ao contrário de muitos que têm acusado Enzo Barboni como responsável pela morte do western-spaghetti enquanto género, não consigo responsabiliza-lo pelo mal feito. Afinal de contas, em finais de 60 o género já mostrava uma grande saturação, a velha premissa «homem procura vingança» já havia sido explorada amplamente e o público do género ambicionaria agora alguma invenção. E foi isso que Barboni fez, faça-se-lhe por isso a merecida justiça. Com o modelo instituído no franchising «Trinitá» o cinema italiano ganhou mais um balão de oxigénio, o que inevitavelmente serviria apenas para que esses doidos italianos copiassem agora esta nova fórmula até à sua completa exaustão, e esses sim condenando o spaghetti-western à morte! Gente outrora conhecida pelas suas obras pessimistas e violentas, como Enzo G. Castellari ou Segio Corbucci tinham agora de adaptar o seu cinema a esta nova onda, produzindo películas a roçar a mediocridade, títulos como Tedeum ou Il bianco, il giallo, il nero, que ficaram para a posterioridade como notas negativas nos seus currículos.
“Trinitá, Cowboy Insolente” goza ainda hoje em dia de um estatuto especial sendo relativamente fácil encontrá-lo à venda. Em Portugal o filme gozou de uma edição em formato DVD pela mão da Prisvideo, a única editora nacional que ainda parece interessada em lançar filmes europeus de culto. O DVD goza de uma correcta qualidade de imagem, em widescreen 16:9, com áudio em Inglês e legendas opcionais em Português. Para além do filme, conte-se ainda com alguns extras, de onde se destaca entrevistas como a dupla Hill/Spencer. Ainda hoje em dia uma excelente opção para ver em família!
Eis o melhor “circus-western” (termo designado por Alex Cox) de Gianfranco Parolini, que costuma assinar sob o pseudónimo de Frank Kramer. Parolini foi o criador de duas personagens emblemáticas do universo dos westerns-spaghetti: Sartana e Sabata. Sinceramente, acho que não existem grandes diferenças entre ambos porque a atitude, a destreza no manejo das armas, as engenhocas e até o guarda-roupa parece ser o mesmo. Mas, pessoalmente, há algo que faz toda a diferença: Lee Van Cleef! Embora respeite e admire o trabalho de Gianni Garko como Sartana, só a presença de Van Cleef faz com que o filme valha a pena! Este filme representa provavelmente a consagração deste actor americano nos westerns italianos. Deu-se a conhecer em Por mais alguns dólares e desde então foi sempre a aviar!
Descobri este western em inícios dos anos 90, quando a televisão generalista em Portugal ainda era alguma coisa de jeito e exibia bons filmes a horas decentes. Hoje, como toda a gente sabe, essa mesma televisão é um atestado de estupidez e piroseira! Quanto ao filme, além do protagonista e da acção alucinante, houve algo mais que me marcou: um certo indivíduo que vestia umas calças com guizos, tocava banjo e esse mesmo instrumento musical escondia uma espingarda! Tudo isso era surpreendente para mim porque a minha infância tinha sido marcada essencialmente pelos westerns clássicos americanos à John Wayne. No entanto, nunca mais tive oportunidade de rever o filme, nem mesmo em VHS, e durante 15 anos caiu no esquecimento. Há alguns anos atrás, numa pesquisa na Internet, voltei a reencontrar Sabata e então pensei: “Tenho de ter este filme em DVD”! E assim foi! O enredo tem como pontapé de saída um assalto ao banco da cidade de Daugherty e Sabata envolve-se no assunto, distribuindo balázios aos seus adversários com a ajuda do mexicano Garrincha e do seu amigo acrobata. Enquanto isso surge Banjo, um vagabundo ganancioso que jogará dos dois lados da barricada.
“Sabata” é um western repleto de acção, explosões, tiroteios e, claro está, acrobacias (imagem de marca dos filmes de Parolini). O elenco é liderado por Lee Van Cleef e apoiado por alguns suspeitos do costume nestas andanças: William Berger, Pedro Sanchez,Franco Ressell, Gianni Rizzo, Linda Veras e Robert Hundar. A cidade de Daugherty é o bem conhecido Elios Studio, na Cinecittà, Roma, mas muitas cenas foram filmadas no lindíssimo deserto espanhol de Almería. Em suma, este western é o ideal para aqueles que querem acção do princípio ao fim sempre num ritmo rápido. Para mim, como sou um grande fã de Lee Van Cleef, o DVD já cá canta! Comprei a edição da MGM com várias opções áudio, sem legendas em português, sem extras e apresentado no formato widescreen 16:9 em 2.35:1.