Estamos numa insignificante aldeia algures no México. A noite revela-se escura, silenciosa e estranhamente ameaçadora. Não se vê ninguém nas ruas. Todo o povoado parece adormecido… exceto dentro de uma das casas. Uma discussão aparentemente inofensiva resulta na morte de um homem. O cadáver da vítima é levado para um local público onde é descoberto na manhã seguinte pela população. A vítima é o telegrafista da aldeia que, segundo se sabe, não tinha inimigos. O chefe da polícia desconfia que as peças não encaixam bem no puzzle e descobre um complô organizado pelos parentes da vítima: o alcaide, o dono da estalagem, a prostituta mais concorrida da aldeia e o seu primo sacristão.
Após desmascará-los e chantageá-los o tenente Hernandez não só não os prende como exige unir-se ao grupo porque o crime pode compensar encaixando 10 000 dólares de herança! Para meter a cheta ao bolso é fundamental eliminar o único e verdadeiro herdeiro, o jovem Manuel. Para fazer esse trabalho contratam Luke, um pistoleiro americano que agora vive na miséria devido às carraspanas de caixão à cova que apanha.
Em 1969 Luke Askew apareceria ainda no clássico "Easy Rider", ao lado de Peter Fonda e Dennis Hopper.
Quando lhe dizem que o trabalho é matar um homem Luke aceita sem pestanejar mas quando percebe que o alvo é uma criança faz-se luz na sua mente conturbada! Não pode concluir a sua missão porque no passado teve a triste experiência de disparar sobre o seu próprio filho (quis armar-se em Guilherme Tell) com consequências desastrosas! Será que Luke vai conseguir proteger Manuel ou será que os cinco conspiradores conseguirão levar a sua avante?
Luigi Pistilli que já trabalhara com Petroni em "Da uomo a uomo", interpreta aqui o malvado Tenente Hernandez.
Giulio Petroni assina um filme equilibrado, bem estruturado mas muito longe dos melhores do subgénero. As cenas noturnas vão ao encontro do cinema gótico bem ao estilo italiano dos anos 60. Nada mais há a acrescentar exceto que esta foi a única incursão do ator americano Luke Askew nos westerns-spaghetti. Os outros intervenientes (Luigi Pistilli, Chelo Alonso, Magda Konopka, Benito Stefanelli) já são repetentes.
Manuel “Cuchillo” Sanchez é um personagem criado por Sergio Sollima, realizador de renome e homem de esquerda. Sollima não quis um herói taciturno, veloz e imbatível nos momentos cruciais com a pistola. Cuchillo é um simples homem do campo, um pobre peão mexicano tagarela que não usa armas de fogo porque, segundo o cineasta, “é demasiado primitivo para isso”. Embora seja ignorante em letras Cuchillo também tem armas valiosas: a sua astúcia, a sua perspicácia, a sua capacidade de reação e… o manejo perfeito de facas. A vida de Cuchillo é tudo menos faustosa e vive uma relação de altos e baixos com a bela Dolores. Um pequeno delito leva-o à prisão onde partilha a cela com Ramirez, um intelectual que apoia o movimento revolucionário e a queda do atual governo.
Ambos conseguem fugir e Ramirez já tem em mente um plano: resgatar o ouro escondido para financiar a revolução. O destino é cruel e Ramirez é morto a tiro sem poder revelar o segredo, conseguindo apenas mencionar a cidade de Barton City. Cuchillo encaminha-se para lá mas o trajeto está cheio de obstáculos. Estará a revolução mexicana nas mãos de um mísero e insignificante peão?
Sergio Sollima não seguiu o caminho da esmagadora maioria dos seus colegas. Fez muito poucos westerns porque ele próprio achava que o subgénero já tinha perdido a credibilidade. Dizia que o que começou por ser uma bonita forma de arte depressa se tornou numa paródia que nunca mais podia ser levada a sério. Em “Corri Uomo Corri” os intérpretes cumprem sem mácula o seu papel: Donald O’Brien como pistoleiro / mercenário americano, José Torres como intelectual / poeta, John Ireland como líder de um grupo revolucionário, Nello Pazzafini como brutamontes e Tomas Milian a liderar como “Cuchillo”.
Uma nota de destaque para as duas belezas femininas deste filme na pessoa de Linda Veras e Chelo Alonso. Conclui-se então que Cuchillo tinha dois amores: uma loira e uma morena, tal como diziam as imortais palavras de Marco Paulo!