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30/12/2020

Per qualche dollaro in meno (1966 / Realizador: Mario Mattoli)


Bill, vice-caixa do banco de Silver City descobre um déficit de 100 dólares ao contabilizar os movimentos do dia. Aterrorizado pela fama do chefe do banco, enceta uma tramóia para recuperar a diferença. Para consegui-lo terá a ajuda do primo Frank, que se propõe a torná-lo num fora-da-lei e consequentemente ser ele a capturá-lo e colectar a recompensa. Mas a falta de astucia de ambos, trará resultados desastrosos. O título é esclarecedor. Estamos na presença de uma paródia ao segundo filme da trilogia dos dólares, “Por mais alguns dólares”


Este bandido de meia-tijela está em apuros.

O elenco é composto pelo trio, Lando Buzzanca (o vice-caixa / Clint Eastwood), Raimondo Vianello (o primo / Lee Van Cleef), e Elio Pandolfi (o mexicano / Gian Maria Volonté). A realização é de Mario Mattoli, senhor de uma larga carreira por altura da feitura deste “Per qualche dollaro in meno” e um velho especialista no mundo da comédia italiana. Com um currículo que inclui entre outros, várias incursões na bem conhecida franquia «Totò». 

Por esta altura Buzzanca também vestiu as peles do James Tont, paródias 007 realizadas pelo mano Bruno Corbucci.

O roteiro é da mão dos irmãos Corbucci (em parceria com Mario Guerra e Vittoriano Vighi), o que adiciona um interesse extra ao filme. Recorde-se que só nesse ano, Sergio Corbucci assinou três westerns: “Ringo e a sua pistola de oiro” (1), “Navajo Joe” e o sublime “Django”. Onde raio encontrou ele tempo para escrever ainda outro western? E porque se haveria ele de meter num negócio destes? Nunca saberemos.


Personagens exageradas, marca do cinema cómico italiano.

Numa breve conversa com um velho conhecido dos fóruns do Spaghetti Western Database, Simon Gelten, dizia-me ele que tentou ver o filme uma certa vez, mas rapidamente abandonou a tarefa. É compreensível. Como é característico na comédia italiana, as personagens são extremamente teatrais, barulhentas e genericamente difíceis de suportar. Do trio, o vice-caixa é de longe o que mais se enquadra neste estereotipo. O culpado é esse tal de Lando Buzzanca, um tipo de Pallermo que ascendeu ao estrelato justamente por fazer papéis de palerma!


Poster italiano de "James Tont operazione U.N.O.", obviamente uma paródia aos filmes do 007.

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1. “Ringo e a sua pistola de oiro” terá sido rodado em 1965 mas apenas finalizado e lançado no ano seguinte. 

25/10/2011

Dai nemici mi guardo io! (1968 / Realizador: Mario Amendola)

No pós guerra civil, Alan Burton (Charles Southwood) vagueia pelo deserto com uma sela ás costas. Ao longe avista uma diligência que aborda e a troco da sua sela consegue autorização para subir e seguir viagem. Eis que pouco depois, um grupo de homens a cavalo ataca a diligência. O objectivo dos agressores é sequestrar um dos passageiros, um militar do derrotado exército sulista. Escamoteando-se habilmente, o nosso herói acidental consegue abater os delinquentes a tiro de Winchester.

No meio da troca de balas também o Major acaba por ser baleado, mas antes de morrer transmite um rico segredo a Burton. Um valioso tesouro confederado fora refundido e para determinar o seu paradeiro será necessário possuir três moedas de dólar muito especiais. Nestas estão estampados os códigos que determinam a localização exacta do lote. Burton lança-se então na busca das outras duas moedas.


As reminiscências a “Il buono, il brutto, il cattivo” são óbvias. Temos um tesouro escondido e imaginem só, três tipos atrás dele (um gringo, um mexicano de intenções dúbias e um mauzão que por breves momentos até une esforços com os bonzinhos da fita). E como se não bastasse temos também um Charles Southwood que aqui e ali replica o modus operandi usado por Clint Eastwood na trilogia do «Homem sem nome». A versão dobrada em Inglês que tive a oportunidade de assistir comprova-o. Mas desenganem-se, este “Dai nemici mi guardo io!” fica a léguas da qualidade do terceiro western de Sergio Leone.

“Dai nemici mi guardo io!” (também conhecido como “Three Silver Dollars”) foi até ver o único filme realizado por Mario Amendola que assisti. Todavia mesmo que não lhe possa exigir créditos na cadeira de realizador confesso que esperava muito mais de uma pessoa envolvida nos argumentos de alguns westerns-spaghetti que bastante aprecio – “Il grande silenzio” ou “Winchester, uno entre mil” – mas que afinal aqui se limitou a recontar mais uma caça ao tesouro no oeste selvagem. Espalhando-se ao comprido na abordagem sobre a ganância humana.


No campo das interpretações a coisa não corre muito melhor, especialmente ao nível dos chamados «extras», que diga-se são mesmo muito pouco convincentes. Para nosso contentamento, ao menos a estrela do cartaz – Charles Southwood – garante os requisitos mínimos do pistoleiro sedento por ouro. Esta foi apenas a sua segunda aparição no cinema, na primeira fora curiosamente dirigido pelo amado/odiado Demofilo Fidani. Na verdade Southwood não faria grande carreira no cinema, mas apesar do curto portfolio haveria de ganhar alguma fama graças ás bizarras personagens que interpretou nos westerns de Giuliano Carnimeo (“C'è Sartana... vendi la pistola e comprati la bara” e “Testa t'ammazzo, croce... sei morto... Mi chiamano Alleluja”).

Actualmente “Dai nemici mi guardo io!” apenas está editado no mercado germânico, o DVD segundo consta é de fraca qualidade pelo que esperemos que uma cópia decente surja num futuro breve. Enquanto isso não acontece resta-nos aproveitar as maravilhas do mundo digital, que vai disponibilizando algumas versões ripadas das velhinhas cassetes de VHS.



Eis mais algumas imagens do filme, porque vale a pena contemplar Alida Chelli, filha do maestro Carlo Rustichelli:



04/11/2009

Django (1966 / Realizador: Sergio Corbucci)

Quando se aborda o tema westerns-spaghetti, o primeiro nome que vem à memória da esmagadora maioria é “Sergio Leone”. É com inteira justiça que isso acontece, já que foi o grande mestre do género e realizou obras marcantes. Contudo, Sergio Corbucci segue de muito perto o seu compatriota, se tivermos em conta as suas duas obras-primas: “O grande silêncio” e Django. Concentremo-nos neste último. O ano é 1966 e várias dezenas de westerns-spaghetti surgiram no grande ecrã até à data. Alguns desses filmes são maus, uns são medianos, outros são agradáveis, outros muito interessantes mas quase todos ainda bebem inspiração da abundante fonte clássica americana. Eis então que surge “Django”, uma obra genial que consegue em alguns aspectos ir ainda mais longe que “Por um punhado de dólares”.


O que há dentro do caixão?

“Django” define perfeitamente o que é o western-spaghetti: violência, crueldade, sadismo, vingança, ambição, abundância de símbolos religiosos (caixão, cruzes, cemitérios) e, naturalmente, muitos tiroteios e respectivos cadáveres. As paisagens lúgubres, a cidade de aspecto desolador, enlameado e fantasmagórico, as cores escuras falam mais alto e são o ponto de partida para um marco da história do cinema. O sucesso foi de tal forma gigantesco que deu origem a dezenas de outros filmes com o nome do protagonista mas nenhum deles chegou sequer aos seus calcanhares (o nome tem a ver com um músico de jazz europeu chamado Django Reinhardt).


Este ouro é meu!

O enredo é simples: Django chega a uma localidade praticamente deserta a arrastar um caixão e envolve-se no meio de um conflito entre mexicanos revolucionários liderados pelo General Hugo e os fanáticos sulistas da Ku Klux Klan do Major Jackson. O objectivo é enriquecer às custas dos mexicanos e vingar-se de Jackson, o culpado pela morte da sua mulher. Após muita violência e um elevado número de mortos, Django defronta o seu inimigo mortal no cemitério.


Django ficou com o focinho todo amassado!

Dito desta forma até parece um filme perfeitamente banal mas a maneira como este projecto foi concebido (cenários, armas e figurinos são da responsabilidade de Carlo Simi) foi magnífica. A fotografia de Enzo Barboni e a arrepiante música do argentino Luís Enriquez Bacalov são excelentes. O leque de actores, liderados por Franco Nero, que passou de desconhecido a super vedeta, é composto por Loredana Nusciak, José Bodalo, Eduardo Fajardo e Angel Alvarez.


Hoje temos orelha de porco para o jantar!

O sucesso desta obra-prima foi proporcional à polémica. A censura inglesa, por exemplo, baniu o filme até início dos anos 90 devido à excessiva violência (cortar uma orelha, esmagar mãos, chicotear mulheres) mas contra todos esses atritos “Django” resistiu e é hoje um filme de culto e obrigatório a todos os fãs do género. Hoje em dia é muito fácil comprar edições DVD deste filme em qualquer loja on-line excepto em Portugal, que é uma pobreza franciscana. Eu optei pela edição espanhola que tem boa qualidade de som e imagem (1.85:1). Não existem filmes perfeitos mas, na minha opinião, “Django” roça a perfeição.