De certa forma, este filme salvou a indústria cinematográfica italiana do desastre total. Quem diria que um projecto com um orçamento tão curto e destinado ao fracasso seria o pontapé de saída para a loucura dos westerns europeus? É verdade que antes disso os alemães já tinham produzido westerns para televisão, nomeadamente as adaptações dos livros de Karl May, mas com pouca qualidade. Os anos 50 na Itália foram marcados pelos filmes épicos (peplum) e as super produções americanas recorriam aos estúdios europeus porque era menos dispendioso e obtinham melhores resultados. Clássicos com
Quo Vadis e
Ben-Hur foram êxitos estrondosos.
Cleópatra, o filme mais caro da história do cinema, foi um desastre total nas bilheteiras. A indústria cinematográfica de Itália caiu a pique, muitos estúdios faliram e centenas de pessoas viram-se desempregadas da noite para o dia.
Joe bebe uma verga de água.
Cineastas como
Sergio Corbucci,
Duccio Tessari e
Sergio Leone também participaram activamente nos “peplum”, tendo Leone realizado o interessante
O colosso de Rodes (1960). Em finais de 1963, a conselho de
Enzo Barboni, Leone dirige-se ao cinema Arlecchino em Roma para ver
Yojimbo, um filme de samurais de
Akira Kurosawa. O filme é baseado num romance negro de Dashiell Hammett chamado “Red Harvest”. Leone ficou maravilhado e teve uma ideia: transformar aquilo que viu num western.
Joe e o seu amigo taberneiro.
Procurou alguém que financiasse o projecto e a muito custo conseguiu convencer Arrigo Colombo e Giorgio Papi, da Jolly Films. O filme intitulado “Il magnífico straniero” tinha de ser protagonizado por um actor americano.
Henry Fonda e
Charles Bronson eram inalcançáveis,
James Coburn também,
Steve Reeves e
Richard Harrison declinaram o convite. Eis então que surge um jovem actor conhecido da televisão americana que aceitou o trabalho por 15 000 dólares. A partir daí, os nomes de Sergio Leone e
Clint Eastwood tornaram-se inseparáveis.
Partiram o focinho ao homem
A fórmula, como Christopher Frayling expõe num dos seus livros, denomina-se “servant of two masters plot”. Um forasteiro solitário (homem sem nome / Joe) chega a uma pequena vila mexicana e ao aperceber-se que há duas facções rivais (a família Rojo e a família Baxter) tenta jogar de ambos os lados e lucrar financeiramente com a rivalidade, mas as coisas nem sempre correm como previsto… O duelo final entre Clint Eastwood e
Gian Maria Volonté fica para a História: “Quando um homem com uma pistola defronta um com uma espingarda, o da pistola é um homem morto!”
Uma Winchester infalível!
Este filme marca um novo estilo, recorrendo ao uso de grandes planos das caras dos actores, olhos e armas. A música de
Ennio Morricone é a todos os níveis original e brilhante! Este foi também o primeiro western-spaghetti a ser rodado em Almeria, embora muitas cenas aconteceram na zona norte de Madrid. Após meses atribulados, o filme finalmente estreou e em poucas semanas tornou-se num estrondoso êxito de bilheteira na Europa, no Japão e, mais tarde, nos Estados Unidos. A indústria de cinema na Itália começava um novo ciclo que duraria cerca de 15 anos graças a este balão de oxigénio chamado
Por um punhado de dólares.
O ajuste de contas vai começar!
Há muitas edições DVD à venda e desta vez Portugal não é excepção (até admira!). Comprei a edição portuguesa da
Costa do Castelo Filmes, versão integral com áudio em italiano, legendas em português e formato letterbox 2.35:1. Além disso, contém o documentário “Era uma vez Sergio Leone”, a biografia e filmografia do realizador. Para mim, este filme é fundamental na minha DVDteca. Quem se considera um fã de westerns-spaghetti e nunca viu esta obra-prima, diria que é, no mínimo, um escândalo!